sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Arrependimentos no esgoto

Wilame Prado

Nunca havia sentido tanta saudade da mãe como naquele momento. Fraquejava, mas uma força maior fazia com que não desistisse de viver tão facilmente. Cheiro fétido e podre invadia suas narinas. Sentia nojo por ser um ser humano fabricante de toda àquela merda, mijo e sujeira. Vez ou outra, acabava engolindo toda essa merda. Arrependera-se de reclamar do suposto gosto ruim de um almoço corriqueiro preparado pela mãe – quanta saudade sentia, dela e da comida.

Pelo menos conseguia contornar a fome, castigando-se em pensamentos gulosos. O pior era a sede, incontrolável, maligna, apressada, que a fez não pensar duas vezes para beber água que nem passarinho bebe – água de esgoto. Vomitou.

Não sentiu tanto medo ao ver baratas, ratos, aranhas e gafanhotos bem alimentados por gorduras e restos orgânicos ao seu lado. Fosse em casa, no aconchego do lar, gritaria, faria escândalo e ainda xingaria o pai por não ter desinfetado o local outrora. Os bichos escrotos, agora, eram sua única companhia. Desistiu da idéia de comer inseto com medo de vomitar novamente.

Desespero e muita vontade de chorar, sentia. Mas, pensava: “o que adianta chorar, fazer mimo, se ninguém vai escutar?” Em seus 26 anos de vida, não se lembrava de ter sofrido tanto. Aventuras amorosas desastradas exalavam nostalgia, e das boas, naquele momento.

Pensou em deus – em minúsculo porque não acreditava em sua existência – mas, em meio ao desespero de águas, sujeiras, cãibras, pulmão queimado e pedindo ar, Deus existiu. “Tende misericórdia” e “pai nosso que estais no céu” foram frases repetidas com exaustão. Arrependeu-se, naquele momento, de não ter seguido os conselhos de sua avó, que sempre proclamava: “Só Ele é a salvação”.

Por um segundo de delírio, imaginou estar morta, pois, assim como as pessoas que dizem ter morrido e voltado, ela imaginou estar em um túnel do tempo, em que lembranças do passado invadem os pensamentos, fazendo com que a sensação de ter roubado um mísero guarda-chuvinha de chocolate na doceria, aos 5 anos de idade, fosse algo tocável, real. Era o fim, e talvez nem fosse tão ruim assim, pensou.

De sobressalto, pegou-se afogando, com água entrando por todos os orifícios. Por instinto, nadou para cima, mesmo não agüentando mais de dores no corpo. Percebeu que o túnel do tempo era, na verdade, um bueiro, e que finalmente havia luz em seu fim. Por uma pequena fresta, conseguia enxergar a claridade do dia, fato que quase a cegou, já acostumada a trevas.

Meio-dia em Curitiba. Centro da cidade, e as pessoas correm atrás de suas marmitas. Não tinha força para gritar, em compensação, ninguém queria ouvi-la. Mas, graças à solidão do homem, que andava cabisbaixo e olhando para o chão da capital paranaense por simplesmente não ter emoção no viver, conseguiu ser vista no bueiro.

O homem triste finalmente ficou feliz por ter ajudado a salvar uma vida. E a menina, que incrivelmente sobreviveu no submundo enlameado e fétido por mais de cinco horas, olhava com gratidão para sua mãe, ao seu lado no hospital. Já sob efeito de remédios, amargurou-se ao lembrar do motivo pelo qual os traficantes a jogaram no Rio Belém para que nadasse no leito de sua morte.

Crônica inspirada nesta notícia: “Curitiba - Luci Machado Santana, 26 anos, protagonizou ontem um episódio, no mínimo, insólito, que mobilizou a atenção de centenas de pessoas que passavam pela Região Central de Curitiba. Por volta do meio-dia, ela foi resgatada por uma equipe do Corpo de Bombeiros, de um bueiro de apenas 40 centímetros de diâmetro, localizado na Avenida Visconde de Guarapuava, próximo à Rua João Negrão, um dos locais mais movimentados do Centro da capital.” Folha de Londrina (22/02/2008)

Crédito da imagem: http://ludmilaprado.blogspot.com/2007_12_01_archive.html