segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O futuro escorre pela mangueira de água

Dia desses, estive eu em Borrazópolis-PR, cidade interiorana de menos de oito mil habitantes, que tem calçadão, cachorro-quente e um milhão de ônibus escolares amarelos para levar e trazer a molecada do sítio. O município tem esse nome estranho porque, segundo um borrazopolense, o fundador e desbravador da floresta fechada da época tinha o sobrenome Borraz.

Não fui à Borrazópolis para desvendar seu passado, muito menos para escrever no blog um diário de bordo. Fui para fazer entrevista com um conselheiro fiscal da Cocari. Com a entrevista, faria uma reportagem que iria compor o Encarte Especial da Cocari, suplemento do Informativo Cocari que, por sinal, é um dos jornais que a empresa de assessoria de imprensa Cláudia Comunicações & Eventos faz que, por motivos mil, é a empresa pela qual presto serviços jornalísticos há quase dois anos.

Pois bem.

Depois de realizar meu trabalho, estava indo embora de Borrazópolis quando, bem em frente ao calçadão, meus olhos viram uma cena de quebrar taças, de deixar ovo cair no chão, de fazer com que se soque paredes brancas e duras: o desperdício cruel de água.

Para melhor limpar sua calçada cheia de folhinhas de árvores que, em minha opinião, não são sujeiras, a senhora deixava esguichar, a rolé, a tão preciosa água de uma mangueira. Não bastasse o desperdício de água, muito comum na maioria dos lares, a senhora gastadeira teve o despautério de repassar como herança a falta de conscientização a uma menina, talvez sua filha, talvez sua neta, talvez uma ajudante, que com outra mangueira distribuía gotas e mais gotas, infinitas gotas, sob a calçada, como que se aquele momento fosse o de desafogar o estresse vendo a água, tão clara-transparente, tão cheirosa-cheiro-de-nada, tão saborosa-sabor-matar-a-sede, ir embora por entre os esgotos, misturando-se com a gentalha de bichos asquerosos, com a podridão de coliformes fecais, mijos, merdas e gozos.

A água, limpinha, não merecia esse descaso. E nós, coitado de nós, ficamos com medo de fazer filhos, pois a possibilidade de eles sofrerem com falta de água é muito grande. Confesso eu, tenho medo até de ficar velho e não poder ter aquele copo com água onde iria conservar minha dentadura enquanto o sono, fabricado com calmantes, encher-me-ia de sonhos de uma vida mais aquosa, mais líquida, sem sede.

Créditos das imagens:

http://img.quebarato.com.br/photos/big/4/3/53B43_1.jpg

http://www.apcd.org.br/images/conteudo/453.jpg