sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Deixando a vida e o ônibus passar

Wilame Prado Já eram 7h15 da manhã. Aquele horário de sempre que João esperava passar, pontualmente, o seu meio de locomoção para o trabalho – transporte público, mais conhecido como circular, ou busão.

Essa rotina já perdurava nos seus 14 anos de assistente de controle e desenvolvimento da harmonia e limpeza do ambiente de trabalho – zelador. Incapacitado de fazer qualquer raciocínio mais complexo do que contas de somar e subtrair, o João nunca conseguiu ser promovido para ter a profissão que tanto sonha – supervisor de serviços gerais.

Mas, essa encostada de vida que ele deu, o único culpado era ele próprio, pois nunca fez questão de se esforçar em nada, achava que era melhor não ter dinheiro para quase nada, mas aproveitar esse nada, do que ter dinheiro para quase tudo, e não aproveitar nada do tudo. Talvez, seu único raciocínio lógico nos seus pouco mais de 32 anos.

Para não dizer que João tinha qualidades, poucos como ele conseguiam proezas de observar detalhes tão pequenos. Fosse empirista, estaria rico. Como de costume, em todos os lugares que freqüentava, adorava reparar os outros seres humanos que dividiam o espaço no qual estava inserido.

Um dia, chegou ao cúmulo de concluir, após um longo período de estudos positivistas, que a senhora que descia todos os dias um ponto antes do seu, desde que começou a freqüentar aquela circular, usava apenas três cores de calcinhas: vermelha, preta e bege. Essa observação foi feita nos quatro anos em que ela utilizou o mesmo transporte público de João. Corre um boato na circular que a senhora das três calcinhas morreu de Aids.

Infelizmente, João nunca conseguiu nada de lucrativo com essa sua percepção doentia pelas pessoas. Pelo contrário, os apuros com os namorados das namoradas que percebiam os olhares obcecados de João foram muitos. As cantadas e apertadas em seu traseiro também foram inúmeras dos homossexuais que se enganaram ao pensar que tinham finalmente conseguido um bofe.

Até que em uma segunda-feira brava, cujo sol já se fazia presente no cenário proletário de esperas por ônibus lotados, João observou um rapaz atento, ansioso e veloz ao levantar a mão e acenar para o busão parar. Por incrível que pareça, o jovem trabalhava na mesma empresa que ele, o que fez João, o assistente de controle e desenvolvimento da harmonia e limpeza do ambiente de trabalho, puxar conversa.

Em vão.

Introvertido e anti-social, o apavorado para não perder o ônibus fazia de tudo para sentar nos lugares individuais daquele transporte coletivo e, quando não tinha jeito, se encolhia num banco duplo e abria um livro do tipo ‘Pai rico, pai pobre’.

Eis que os meses se passaram e, todos os dias, os dois funcionários da mesma empresa nunca tinha conversado mais do que duas palavras: oi, tchau. E João, em seu comodismo acentuado, decidiu não mais dar a mão para a circular que passava todos os dias no mesmo horário. Isso porque, o seu amigo de duas palavras fazia questão de realizar essa tarefa, já que era tão exacerbado e, pelo visto, sentia prazeres em fazer parar tamanho automóvel com apenas o acenar de um dos dedos.

O fato é que João gostou da idéia, e aproveitava para observar melhor as outras pessoas no ponto de ônibus - nem precisava ficar atento para ver chegá-lo.

Foram, aproximadamente, oito dias nessa folga.

Numa manhã chuvosa de segunda-feira brava, em que pássaros pareciam não terem acordado, e nem a cidade, João estava lá, atento aos movimentos de um mendigo, que dividia um mísero sanduíche de mortadela com seu aprazível cão. De repente, por um piscar de olhos, viu com angústia a sua circular passar. Perdeu-a, mas não deixou de dar uma dura no pomposo e apavorado colega de trabalho:

- Ei, porque você não acenou para o ônibus parar?

- Agora eu não pego mais esse ônibus. Mudei de emprego e ele fica do outro lado da cidade. O senhor me dá licença, pois não posso perder minha circular no primeiro dia de serviço.

Muito tempo se passou depois desse dia. Mesmo assim, João não conseguiu subir de cargo. Parou de observar as pessoas no ponto e passou a ficar atento no corredor cinza-asfalto, esperando eternamente sua circular chegar.

Perdesse ele a circular novamente, na certa perderia seu ofício, o de assistente de controle e desenvolvimento da harmonia e limpeza do ambiente de trabalho – zelador.

Crédito da imagem: http://www.unesp.br/gti/unespcd/Sinalizacao/Imagens/PIC038.jpg