terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O vermelho de sangue, o vermelho do amor

Wilame Prado “Eles brigam demais e o passado dela não os deixam viver em paz”, comentava um amigo próximo do casal. Ninguém, na verdade, sabia o que os dois loucos amantes já passaram para ficar juntos, e nem o quanto o amor já havia batido na porta do coração dos dois. Mas, para todos, esse namoro era nuvem passageira que aliviara um inferno de uma separação dolorosa recheada de adultérios. A situação do casal parecia estar cada vez melhor, já que agora, finalmente, ela morava no mesmo prédio do rapaz, podendo assim namorar e desfrutar da companhia dele, diariamente. Raras exceções quando não se viam, às vezes ela não agüentava e se entregava ao sono, mas ele não ligava, pois sabia que se algum monstro aparecesse debaixo de sua cama era só bater na porta do D53. Hereditariamente, o nervosismo e o pavio curto compunham o rapaz que, freqüentemente, a decepcionava com suas verdades doloridas. Pensando nisso, a cada dia que passava, a cada beijo que ele recebia, a cada palavra de amor e gestos de carinhos, a cada abraço sincero, a cada risada libertadora de sua amada, ele se sentia mal por não ser do bem. Parecia que quando ela ia embora dormir, ele precisava falar mais um último “eu te amo”, que nunca era o último, mas que confortava um pouco mais. Ambos pareciam duas crianças brincando de qualquer coisa, quando estavam juntos, e de bem. Ambos gostavam de rir da besteira ou da piadinha do outro. Ambos se amavam como loucos, mas, ultimamente, o rapaz achava que não estava correspondendo ao amor que sua amada lhe oferecia diariamente. Estava confuso e a última que ele aprontara, depois das festinhas particulares no apartamento sem a presença dela, foi uma volta, repentina e solitária ao baile que, momentos antes, os dois bailavam felizes da vida - mar de embriaguez, uísque com água de coco. Ninguém acreditou no início, mas a verdade é que o rapaz agora estava dando a cara à tapa, mostrando quem ele realmente era – um fraco. Quase foi por água abaixo o namoro conturbado que, mesmo com infinitos amores, parecia que não tinha mais encaixe e estava a ponto de chegar ao fim. Mas, surpreendentemente, a moça o perdoou de tudo e estava disposta a conviver com um fraco, embora tentando acreditar que essa fraqueza fosse mentira, ou, talvez, uma fase. Admirado, o rapaz não se podia conter de alegria, porém o peso em sua consciência parecia impedi-lo de ir adiante com essa história de amor; achava que a moça não merecia um fraco como ele. Reconheceu, enfim, que é um dos piores namorados que alguém pode ter. Mesmo assim, voltou aos braços de sua amada. Sentiu-se, mais uma vez, o pior dos piores, pois sabia que o melhor era se afastar dela – moça bela e delicada, merecedora de diamantes raros. O tempo, e não muito tempo, passou. Edificou-se a união e os preparativos para um enlace matrimonial pareciam que iam se iniciar. Mas, certa noite, após a moça retornar à sua morada, depois de ficar até de madrugada no quarto dele, ouviu umas batidas em sua janela de vidro. Era o cabo de vassoura que ele insistia em bater do 4º andar para que ela abrisse a janela. O que a pobre moça ouviu foi uma das piores e mais dramáticas declarações de amor, com pano de fundo vermelho. Era o rapaz caindo e gritando: “eu amo você, fica comigo para sem...”. Ela não fechou os olhos e entendeu que a cor do amor era vermelho, vermelho de sangue. O rapaz, naquela noite, achou que faltava dizer pelo menos mais um “eu te amo”, como em várias ocasiões passadas. Ele também queria dizer que os monstros que ficavam debaixo da cama tinham ido embora e que agora não tinha mais medo de dormir. Crédito da imagem: http://i3.photobucket.com/albums/y66/Marota/mulher_vermelho.jpg