quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Plantas que crescem a olho nu*

"Mesmo assim, ficava feliz por se lembrar daquela noite em que passara com o pai, esperando o dia amanhecer para contar a ele que vira plantas crescer" Wilame Prado

Lembrou do dia em que, talvez sob efeito de insônia, olhara pela janela de madeira o humilde jardim que embelezava a frente da casa alugada. Os pernilongos, aliados ao ronco incessante de um pai que dormia feliz por receber a visita do filho, não o deixavam dormir. Nesse jardim, que de flor não tinha nada e sim apenas matos e ervas daninhas, o menino vira plantas crescerem e se movimentando a olho nu. Desse dia em diante, acreditara piamente que as plantas só cresciam quando ninguém por perto estivesse observando, e que sua presença ali, em plena madrugada, acabara passando despercebida pelos vegetais que, tranquilamente, cresciam e cresciam. Muitos anos se passaram. O menino virou quase homem e nunca mais conseguiu ver plantas crescer, a não ser em vídeos de biologia, com câmeras potentes, que captam rosas desabrochando graciosamente. A madrugada tornou-se amiga inseparável, e a janela agora era a do quinto andar, de um prédio verde. Por sorte, de seu campo de visão daquela janela, avistava-se um terreno baldio, habitado por cachorros perdidos, cavaleiros andantes, famílias de anus e uns pés de milhos com deficiência no crescimento. Vez ou outra, quedava-se olhando sem cessar para o mato, na esperança de ver alguma planta crescer. Sem sucesso. Mesmo assim, ficava feliz por se lembrar daquela noite em que passara com o pai, esperando o dia amanhecer para contar a ele que vira plantas crescer, e também para ir à feira do domingo comer pastel do japonês, comprar mexerica e ver os peixes sobre gelos, que pareciam estar vivos, de tão bem conservados e brilhosos. Suas visões noturnas pela janela do quinto andar, embora incompletas por não conseguir observar plantas crescendo, fotografavam em sua mente outras atrações belas. Quando não se escondia por detrás dos concretos de outro prédio verde, o ex-menino podia ver a lua brilhante e o sempre fiel São Jorge, com sua lança e seu cavalo. Via, também, nuvens se movimentando rapidamente num céu negro, dando a sensação de que o mundo não pára, nem mesmo na madrugada. Mas quando mirava seus olhares para as janelas vizinhas dos demais prédios, sentia-se entristecido pelo fato de não haver uma luz sequer acesa naquela hora. Imaginava as pessoas já deitadas em suas camas confortáveis, dormindo e acumulando energias para o próximo dia de trabalho. Num estalo, parou para pensar sobre sua condição de mirador noturno, lembrando-se das inúmeras vezes em que ficou ancorado naquela janela fria. Concluiu, então, que, do dia em que viu plantas crescer no jardim da casa alugada do pai até hoje, quando vive observando apartamentos com luzes apagadas nos prédios vizinhos, pouca coisa havia mudado em sua vida: continuava tendo insônias e se sentia muito sozinho.
*Crônica publicada dia 14 de outubro no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.maraluquet.globolog.com.br/janela%20do%20meu%20ap.jpg

Um comentário:

Alisson disse...

Como é difícil acreditar que existem pessoas tão sós no mundo.
Mas é real.
Ás vezes não conseguimos enxergar, mas ela pode estar do nosso lado.

Por isso que devemos dar atenção à todos que conhecemos. Mas isso, é uma tarefa árdua, que muitos² não fazem e nem sequer lembram.

Ótima crônica Prado!
Abraços.