quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Cegueira da consciência*

...às vezes uma grande tragédia pode servir como alerta, como a única maneira de se conseguir abrir os olhos" Wilame Prado As pessoas são más. Sempre querem o melhor para elas, mesmo que para isso tenham de passar por cima do cadáveres de outras. Por trás de uma sociedade teoricamente e utopicamente organizada, a hipocrisia é como se fosse um vírus, que vai se espalhando facilmente. Neste cenário caótico, às vezes uma grande tragédia pode servir como alerta, como a única maneira de se conseguir abrir os olhos desses seres humanos contaminados. Não. Eu não eu estou brigado com o mundo. Também não culpo o seqüestrador Lindemberg (que todo mundo anda dizendo que matou a menina de 15 anos), pela minha descrença com a raça humana. Não vou mentir que, sábado de noite, depois de chegar de um chá de bebê bem divertido, ao ligar a tevê e receber a notícia de que Eloá estava morta, senti um verdadeiro ódio, um desconforto sem tamanho por mais um final triste da novela da vida real. Mas quando me refiro a uma grande tragédia, na esperança de que a raça humana possa abrir os olhos de vez, é em alusão a uma obra de ficção, o romance "Ensaio sobre a cegueira", do português José Saramago. Mas, como nem todos gostam ou ainda não puderam ler, finalmente em Maringá se faz possível conferir o filme, inspirado no livro de Saramago, "Cegueira", do diretor brasileiro, Fernando Meirelles. A sensação que tive no domingo à noite, após assistir ao longa-metragem, foi muito parecida da que tive quando terminei de ler o livro: uma malquerença pelo ser humano. Lendo ou vendo, "Ensaio sobre a cegueira" tem um poder de curar (pelo menos por instantes) a cegueira alegórica das pessoas e permite enxergar os limites da raça humana, que, ao sentir necessidades vitais, destrói todas as máscaras impostas pela sociedade, costumes e cultura para ser, o que sempre foi, um animal racional (ou irracional?). Virando páginas e páginas do livro, ou não piscando na sala escura de cinema, a sensação é desgostosa. Isso porque, irremediavelmente, consumir estes produtos culturais é receber uma crítica ferrenha, pois, afinal, também sou humano. A verdade dói, ainda mais quando esta verdade é tão cruel a ponto de fazer enxergar o quanto os humanos se fazem de cegos para não ver os problemas alheios. Existem diversas maneiras para não deixar que a cegueira da consciência contamine as pessoas. Acredito que a literatura e o cinema são armas poderosas para combatê-la. Mas tem gente que não se deixa tocar por filmes ou livros. A meu ver, a ficção cultural quase sempre é mais verdadeira do que muitas "realidades" impostas em meios de comunicações ou em discursos religiosos ou políticos. Antes de chegar a Maringá, o filme "Cegueira" já estava em cartaz em São Paulo. Mesmo assim, duvido muito que Lindemberg o tenha assistido. Agora, com os olhos da consciência cegados, é tarde para ele. *Crônica publicada dia 21 de outubro, na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito das imagens: http://www.tribodeideias.com.br/blog/wp-content/uploads/2008/07/blindness_13.jpg http://www.estadao.com.br/fotos/lindembergpreso292.jpg

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