terça-feira, 5 de agosto de 2008

Doações de pescador*

Wilame Prado Foi a primeira vez que me arrisquei a pescar de verdade. Claro que já tinha, no passado, freqüentado pesqueiros e simulado essa atividade que me faz lembrar índios atrás da mistura para o almoço. Mas, neste sábado cinza, perto de Maringá, eu e meus cunhados, juntamente com amigos, nos embrenhamos sítio adentro e fomos parar em uma represa pequena. A chuva começou a cair quando os marmanjos, metidos a pescadores, entraram na represa e a atravessaram, ponta a ponta, com a tarrafa nas mãos, já que com varas e molinetes ninguém conseguira pescar nada. Na rede da tarrafa, apenas a esperança e a vontade de comer um bom assado. A única alternativa foi ir à cidade buscar uns quilos de lingüiça e ponta de peito para fazer churrasco e tentar esquecer o gosto suculento da carne branca e macia do peixe. Todos satisfeitos, e com o término das bebidas, o jeito foi nos despedirmos do sítio e ir ao encontro de nossas mulheres, já enlouquecidas nos celulares, exigindo a presença de seus homens imediatamente em seus respectivos lares. A mesma chuva que molhou os pescadores (que não pescaram nada) foi o motivo principal para que o sábado à noite se resumisse em sofá, coberta, televisão e frustração. Eis que esta atividade, a de ficar acompanhando programações televisivas em plena noite de sábado, não é das mais divertidas. Fosse um sábado comum, inevitavelmente mudaríamos freneticamente de canais e, conseqüentemente, teríamos de assistir àqueles programas de humor totalmente sem graça, maldosos e de um mau gosto incrível. O pior de tudo é que este sábado não foi comum, pelo menos para uma emissora de tevê. Neste dia, desastrosamente, o "Criança Esperança" (um dos programas de que mais tenho ojeriza) foi transmitido. Embora tenham afirmado que as doações não servem para deduzir impostos da emissora, e que toda essa grana é encaminhada diretamente na conta da Unesco, fico cabreiro com esta forma virtual, não palpável, de fazer doações. Certo é que a emissora, com isso, ganha milhões em audiência, fazendo um programa estúpido, cheio de hipocrisia por parte dos apresentadores e com a participação do lixo musical brasileiro, que, inclusive, ainda faz dublagens horripilantes. A empresa telefônica também, sem dúvida, obtém uma boa verba com as ligações que os milhares de brasileiros fazem para o programa apresentado, na maioria das vezes, por Didi, sempre com seu agasalho prateado. Você, que no almoço de domingo, comentou, para quem quisesse ouvir e não ouvir, sobre sua doação de R$ 100 para o "Criança Esperança", teria coragem de convidar outras crianças - aquelas que todos os dias buscam alimentos no lixo de seu condomínio - para almoçar em sua casa? Só não me venha com as velhas mentiras de pescador para responder a esta pergunta. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 5 de agosto, na coluna Crônico Crédito das imagens: http://www.tucunarepescatour.com.br/pescador%20silhueta.jpg http://img358.imageshack.us/img358/8854/crianssa8ak.jpg

2 comentários:

Fabio Chiorino disse...

Pescar é daquelas terapias sem contra-indicação. Já pesquei em algumas cidades e confesso que nunca fisguei nada de valioso. E admito: jamais devolveria um peixe grande, contrariando os ideais do Criança Esperança, pelo qual tb não nutro a mínima simpatia. Abraços, garoto

Fábio Castaldelli disse...

mais uma bela (e pertinente) crônica cara! É a pura hipocrisia em horário nobre, patrocinada por artistas de má qualidade, à serviço de um assistencialismo no mínimo duvidoso. História de pescador é pouco!

aH! Eu estudo com o Marcos Garcia, ele disse que é parente seu... hehe

abração
té mais