terça-feira, 22 de julho de 2008

A natureza de Dercy*

Wilame Prado Embora estivesse ligada, suplicando audiência, ninguém na sala estava prestando atenção na televisão até o anúncio da morte da despojada e engraçada Dercy Gonçalves, que viveu 100 anos, ou mais, sem solidão. Desde muito pequeno, recordo-me dos palavrões que ninguém, a não ser ela, tinha coragem de dizer no ar. Também foi graças a Dercy que vi, pela primeira vez, uma senhora de idade com os peitos de fora, sem vergonha de mostrar o processo natural de envelhecimento e a força que tem a lei da gravidade nesses casos. Seriam essas as recordações que iriam ficar gravadas em minha memória da lendária Dercy Gonçalves. Mas, lendo um jornal e outro, descobri que esta atriz carioca foi mais do que meia dúzia de palavrões. Além de ter conhecido quase o mundo inteiro, sempre em busca da felicidade, em uma de suas citações, ela disse que sua religião era a natureza. Pude comprovar que Dercy estava certa: a natureza é a verdade. Digo isso porque, semana passada, juntamente com toda a equipe de trabalho, fiquei hospedado por dois dias em um aprazível sítio, localizado entre os municípios de Quinta do Sol e Fênix. Por lá, presenciei o poder da natureza e do quanto ela traz ao ser humano uma energia positiva incontestável. Pode parecer meio clichê, mas, sim, ouvir o barulho do riacho me trouxe calma; sim, ficar uns bocados de horas com o celular fora de área fez bem para minh'alma. Andando calmamente por entre folhas e grama, reparei que neste sítio existem diversas árvores frutíferas e que as casas são intituladas pelo nome do pé de fruta mais próximo. Deparei-me com um pé de laranja, carregado de frutas maduras e graúdas, sem proteção, disponível para quem quisesse comer. No almoço, uma das sobremesas foi doce de laranja, além do doce de goiaba, de carambola e tantos outros. A lógica da natureza é interessante: tudo se transforma. Em propriedades rurais, ainda é possível viver em harmonia com a natureza, mas sem hipocrisia, sem querer exclusivamente o lucro da terra, apenas contemplando, respirando ar puro, comendo seus frutos, mas plantando outros também. Sem intermediações tecnológicas, e ouvindo o canto dos pássaros, o autoconhecimento é uma prática interessante de se fazer no sítio. É verdade que as ondas da tevê já alcançaram a propriedade rural (cada casinha de madeira conta com tevê e antena parabólica), mas o capitalismo embrutecido das cidades ainda não contaminou o campo, ufa. Dercy Gonçalves, que dizia ter fé na natureza, uma hora dessas deve estar em prados verdejantes, dependurada em um pé de jabuticaba e mostrando o dedo do meio para todos os covardes desse mundo que ainda têm coragem de assassinar nossas flores, nossas árvores, nossos bosques, enfim, nossas vidas. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 22 de julho, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.estacio.br/rededeletras/numero18/postudo_extudo/img/1.jpg

Um comentário:

Alisson disse...

Para mim, até o prezado momento, é a melhor crônica.
Parabéns!
Você conseguir ir fundo nessa!
Gostei muito!
Suas crônicas alegram o dia de qualquer um!

Abraços