terça-feira, 29 de julho de 2008

Ideologia destruidora*

Wilame Prado Durante muito tempo, Maria Helena foi uma sonhadora. Acreditava que, por meio do pensamento socialista, a justiça social um dia, quiçá, viraria realidade. Participando de uma passeata em prol da paz entre os povos, conheceu o Zé, militante ferrenho e líder de manifestações calorosas contra tudo e contra todos. Namoraram por muitos anos, até que o relacionamento deu-se por encerrado por culpa única e exclusivamente do radicalismo ideológico dele. Ela simplesmente era proibida de consumir. Nem bem chegava com um sapato novo, o Zé olhava as sacolas do shopping e desabava em discursos inflamados, questionando Maria Helena se sabia da origem do produto, se a indústria do produto não era poluente por demais ou se não era por meio de exploração do trabalho infantil que conseguira comprar o sapato por um preço tão barato. O estopim que decretou o término do namoro foi quando Zé quase se jogou da janela ao ouvir a palavra "filhos" da boca de Maria Helena. Na opinião dele, quem coloca filho no mundo tem de ser preso por cometer tamanha crueldade - com a criança e com o mundo, que teria mais um consumidorzinho, querendo comprar os melhores e mais caros brinquedos. Relacionamento novo, vida nova. Agora, Maria Helena sentia náuseas ao ouvir um discurso do Lula ou dos "companheiros". Ao lado de Elimar (neoliberal ferrenho, leitor número um de David Ricardo e de Milton Friedman, com carteirinha do falecido Partido Liberal e simpatizante do PSDB e do DEM), ela podia consumir a vontade, pois seu parceiro alegava que, ao adquirir produtos, estaria contribuindo para a criação de empregos, para o aquecimento da economia e, conseqüentemente, para a riqueza do País. Ao contrário de Zé, Elimar não se assustava com a idéia de ter filhos. O neoliberal, para apoiar o sistema de privatizações, dizia que iria colocar seu herdeiro em colégios e faculdades particulares, só usaria convênios médicos também particulares e, desde cedo, deixaria na cabeceira da cama do filho uma versão para crianças da bíblia, chamada "A Riqueza das Nações", de Adam Smith. Estava indo tudo muito bem para ser verdade, desconfiava Maria Helena. Até que um dia, ao descobrir que Elimar mantinha relacionamentos homossexuais e que também praticava semanalmente swing entre casais, acabou com o namoro alegando que esse tipo de liberalização já era demais para ela. Depois de alguns dias, Maria Helena viu o Zé, barbudo, andando de bicicleta, e o Elimar, bem afeitado, com seu carro importado. Preferiu ignorá-los. Caminhando pelo parque, cabisbaixa, resmungava baixinho: "essa droga de ideologia destrói qualquer relacionamento, viu." *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 29 de julho, na coluna Crônico. Crédito da imagem: http://thor.info.uaic.ro/~busaco/paint/one-way/ForbiddenDuality.jpg

3 comentários:

Luiz Modesto disse...

Como sempre, muito bom, meu caro.
Tua crônica remete meu pensamento a uma quase meia dúzia de amigos...
Abraço

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Will, vocÊ pode ficar cansado, mas tenho de repetir: você é genial. Consegue extrair cada uma que a gente sequer imagina. Posso repetir? Lá vai: Parabéns. abração

P.S.: ei, olha a senha que me veio, a propósito de seu texto: GAXYG Lembrou alguma coisa? ahahahahaha

Jorge Mariano disse...

grande Wilame! vou voltar a atualizar meu blog! bota um link ae!