terça-feira, 17 de junho de 2008

Dia de sorte*

Wilame Prado
No meio da madrugada, o telefone gritou. Quando disse alô, ouviu xingamentos - era apenas um trote. Seu descanso noturno havia azedado, mas procurou se acalmar porque em poucas horas teria de se levantar. Quando essas poucas horas passaram, que para ele mais pareceram minutos, acordou com novos gritos, dessa vez, do despertador. Assustado, levantou-se com o pé esquerdo e pisou no óculos recentemente comprado. Naquela manhã, mais nebulosa do que o normal em razão da miopia acentuada, foi visitar um amigo que acabara de se mudar para um novo apartamento, na Zona 7. Seu dedo fez calo de tanto apertar o botão do interfone. Ainda tentou entrar em contato pelo celular. Deixou tocar até ouvir pelo menos dezessete vezes a irritante mensagem de voz: "Sua mensagem está sendo encaminhada à caixa-postal e está sujeita a cobrança após o sinal." No caminho de volta, um rapaz jovem, bonito e bem vestido perguntou a ele onde fica a Universidade Estadual de Maringá. No meio de sua explicação, percebeu que havia um cano gelado encostado em sua barriga. Perdeu celular, relógio e os R$ 300 que utilizaria para comprar os sagrados medicamentos de uma vizinha que não pode andar. No Centro de Maringá, viu seu pé, o maldito pé esquerdo, sendo atropelado pelo pneu de uma motocicleta 125 cilindradas, ao tentar atravessar a avenida Brasil pela faixa de pedestres. No Parque do Ingá, em meio a diversas senhoras de meia-idade que vão de carro fazer caminhada, relembrou os acontecimentos daquele dia insólito. Procurava explicações racionais para tudo o que acontecera de ruim até então, começando pelo trote recebido de madrugada. Concluiu que sua vida, definitivamente, é uma merda. Ainda no parque, cabisbaixo e mancando, visualizou um carro vermelho cheio de garotas universitárias passando pela rua. Uma delas, a que estava no banco do passageiro, olhou para ele, estampou um enorme sorriso e abriu uma simples folha de caderno com duas letras garrafais: "OI". Mesmo míope, enxergou o que estava escrito e retribuiu gritando outro "oi", o que provocou altas gargalhadas dentro do carro. O simples gesto da garota que segurava um "OI" pelas mãos bastou para que sua mente se desanuviasse de toda e qualquer fatalidade ocorrida até então. Seu ego fora massageado e sua vaidade insistia em fazê-lo pensar que era um homem, no mínimo, bem arrumado. Nem passou por sua cabeça que as meninas do carro vermelho foram o caminho todo, da faculdade até seus lares, cumprimentando as pessoas com a folha branca de caderno. Afinal, nada poderia estragar seu dia de sorte.
*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 17 de junho, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.senado.gov.br/sf/senado/portaldoservidor/jornal/jornal65/Imagens/sorte.jpg

3 comentários:

Luiz Modesto disse...

Ótimo. Gostei.
Abraço

tiagosp7 disse...

bota sorte nisso, esse aí está destinado a ganhar na loteria, depois de falecido.. abraço Wil!

Mouse disse...

Nem tudo está perdido! Lembre-se sempre que tudo ainda pode piorar por mais que você esteja na merda, porém deixe as coisas fluir naturalmente!
Já perdi diversos oculos e já passei diversos dias igual a esse!