terça-feira, 24 de junho de 2008

Réquiem para uma festa junina*

Wilame Prado
Fui a uma festa junina e descobri que os festejos do mês de junho estão sofrendo reformulações e acompanhando as novas tendências de consumo de uma sociedade perdida em meio a tradições apagadas de um passado bonito e inovações de um mundo globalizado e um tanto quanto cretino. Já ouviu falar em batata recheada, sucesso absoluto em praças de alimentação de shoppings por aí afora? Pois foi o prato principal da festa, a "módicos" R$ 5. O pessoal adorou. Eu ainda preferia um bolo de fubá, uma canjica ou um saquinho de pipoca. É difícil concorrer com as bebidas da Ambev ou da The Coca-Cola Company. Tornou--se religião tomar cerveja ou refrigerante. Mas, como opção, pelos menos para os mais nostálgicos, bem que poderiam servir um quentão na festa. É mais fácil ter água de coco em caixinha ou opções de bebidas lights. Tubo bem que tocar "Cai, cai, balão" ou "Capelinha de melão" seria um convite para as pessoas irem embora. Vez em quando, até que saía uma moda de viola, meio desafinada. Mas, a especialidade da dupla que estava tocando na festa junina é o famoso "sertanejo universitário", do qual ainda não consegui entender a razão das letras: quando não estão chorando pela mulher que foi embora, estão festejando e afirmando que a melhor coisa é ser solteiro. Vendo por um possível lado bom, pelo menos a "Dança do Créu" não fez parte do repertório. Há tempos que não ouvia Raul Seixas. De maneira inédita, pelo menos para mim, crianças da escola ensaiaram uma dança ao som de "rock baião" para se apresentarem na festa junina. Ainda teve outra dança inspirada nas tradições portuguesas, com o famoso "Vira". Foi tudo muito bonito; as crianças se dedicaram para alcançar a sincronia. Mas, estarei mentindo se disser que não senti saudades da dança de quadrilha, do casamento caipira e dos célebres avisos, como "olha a cobra!", seguido do não menos famoso: "É mentira!". Nesta mesma festa junina, descobri que meu primo Arthur, de 5 anos, rejeitou categoricamente participar de uma dança caipira na escola. Alegou que não usaria bigode ridículo, tampouco chapéu de palha. Por fim, aceitou ser o delegado, com a condição de usar, no máximo, uma camisa xadrez. O pensamento do garotinho comprova que, de uma maneira ou de outra, as tradições estão se esgotando, quase falindo. Só não digo que nossas raízes estão se queimando porque, hoje em dia, dificilmente há fogueiras em festas juninas. Perdão. Acabei me esquecendo de um detalhe: por ser ano de eleições, existem sim fogueiras em festas juninas, só que inflamadas de vaidades. * Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 24 de junho, na coluna Crônico. Créditos das imagens: http://www.psg.com/~walter/junina.jpg http://cinecritica.files.wordpress.com/2007/11/requiem3.jpg

domingo, 22 de junho de 2008

Sou apenas um menino*

Wilame Prado
A morte está premeditada, infelizmente. A biópsia nem foi feita, mas o médico já dá o seu laudo: é maligno. O velhinho, agora, dez quilos mais magro, tem um sorriso sereno e uma fé inacreditável. Há dois anos, meu avô materno não resistiu a um infarto e morreu em uma tarde quente de novembro. Há alguns meses, um derrame voraz levou também meu pai, no dia internacional do trabalho, nada mais justo para um homem que nunca deixou de trabalhar. E agora seu pai, meu avô paterno, talvez não agüentando a dor de ver um filho tão novo em um caixão, desenvolveu um câncer no rim. Meus heróis estão morrendo; os líderes estão deixando os peões à deriva; não sei se tenho peito para encarar os dragões da solidão. Todos morrem, eu sei, mas como poderei viver sem meus pais, sem os homens que sempre me direcionaram? Qual é o melhor caminho a seguir, quem vai me ensinar a direção, quem vai dar as pistas? Eu quero encher de orgulho esses homens que tanto me auxiliaram para que eu fosse também um homem, mas eles estão morrendo e eu estou perdendo a inspirarão para ser motivo de orgulho. Todos me deixam e se esquecem que eu, na verdade, sou apenas um menino.

*Carta para o Além, escrita no dia 17 de setembro de 2007. Foi quando descobri que o meu avô José Elias estava com câncer. Menos mal, o velhinho se foi no dia 16 de fevereiro deste ano e não chegou a sofrer por demais as chagas de um câncer maligno. Nesta quarta-feira, meu pai, Wilame Elias Neto, se estivesse vivo, completaria 51 anos. Nem sei ao certo porque publiquei este texto. Talvez seja uma forma de amenizar, mesmo que isso seja impossível, a saudade que sinto de todos que viajaram, sem passagem de volta, para muito distante.

Crédito da imagem: http://amadeo.blog.com/repository/224190/708295.jpg

terça-feira, 17 de junho de 2008

Dia de sorte*

Wilame Prado
No meio da madrugada, o telefone gritou. Quando disse alô, ouviu xingamentos - era apenas um trote. Seu descanso noturno havia azedado, mas procurou se acalmar porque em poucas horas teria de se levantar. Quando essas poucas horas passaram, que para ele mais pareceram minutos, acordou com novos gritos, dessa vez, do despertador. Assustado, levantou-se com o pé esquerdo e pisou no óculos recentemente comprado. Naquela manhã, mais nebulosa do que o normal em razão da miopia acentuada, foi visitar um amigo que acabara de se mudar para um novo apartamento, na Zona 7. Seu dedo fez calo de tanto apertar o botão do interfone. Ainda tentou entrar em contato pelo celular. Deixou tocar até ouvir pelo menos dezessete vezes a irritante mensagem de voz: "Sua mensagem está sendo encaminhada à caixa-postal e está sujeita a cobrança após o sinal." No caminho de volta, um rapaz jovem, bonito e bem vestido perguntou a ele onde fica a Universidade Estadual de Maringá. No meio de sua explicação, percebeu que havia um cano gelado encostado em sua barriga. Perdeu celular, relógio e os R$ 300 que utilizaria para comprar os sagrados medicamentos de uma vizinha que não pode andar. No Centro de Maringá, viu seu pé, o maldito pé esquerdo, sendo atropelado pelo pneu de uma motocicleta 125 cilindradas, ao tentar atravessar a avenida Brasil pela faixa de pedestres. No Parque do Ingá, em meio a diversas senhoras de meia-idade que vão de carro fazer caminhada, relembrou os acontecimentos daquele dia insólito. Procurava explicações racionais para tudo o que acontecera de ruim até então, começando pelo trote recebido de madrugada. Concluiu que sua vida, definitivamente, é uma merda. Ainda no parque, cabisbaixo e mancando, visualizou um carro vermelho cheio de garotas universitárias passando pela rua. Uma delas, a que estava no banco do passageiro, olhou para ele, estampou um enorme sorriso e abriu uma simples folha de caderno com duas letras garrafais: "OI". Mesmo míope, enxergou o que estava escrito e retribuiu gritando outro "oi", o que provocou altas gargalhadas dentro do carro. O simples gesto da garota que segurava um "OI" pelas mãos bastou para que sua mente se desanuviasse de toda e qualquer fatalidade ocorrida até então. Seu ego fora massageado e sua vaidade insistia em fazê-lo pensar que era um homem, no mínimo, bem arrumado. Nem passou por sua cabeça que as meninas do carro vermelho foram o caminho todo, da faculdade até seus lares, cumprimentando as pessoas com a folha branca de caderno. Afinal, nada poderia estragar seu dia de sorte.
*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 17 de junho, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.senado.gov.br/sf/senado/portaldoservidor/jornal/jornal65/Imagens/sorte.jpg

sábado, 14 de junho de 2008

O gato comunitário*

Wilame Prado
Ela queria um bicho de estimação para fazer companhia em minha ausência. E eu só queria que ela não ficasse se sentindo tão sozinha enquanto eu não estivesse no apartamento. Optamos, então, por um bicho de estimação. Não foi fácil achar, mas finalmente um gato chegou em nossas vidas. Um amigo nosso, que mora no andar de baixo, sabia o quanto queríamos um gato. Curiosamente, na sexta-feira à noite, na escola de inglês onde esse nosso vizinho, o Edson, trabalha, uma criatura felina, branca igual coelho e com um olho verde e outro azul foi abandonada. Horas depois, este gato viria a se chamar Chico Buarque. Não foi fácil capturar o animal, disse Edson que, enquanto corria freneticamente atrás dele, tentava se comunicar pelo celular para confirmar se realmente estaríamos interessados pelo bicho. Enquanto isso, assistíamos à palestra do escritor Laurentino Gomes, autor de "1808", no teatro Luzamor. Sabemos o quanto é chato ficar entrando e saindo, sentando e levantando, no meio de uma platéia, enquanto tem alguém conhecido com um microfone na mão discorrendo sobre assuntos mil. Mas, não teve jeito. Naquele momento, negociar um bicho de estimação era muito mais importante para nós. A primeira mensagem nos informou sobre o abandono do animal na escola. A segunda mensagem dizia que o gato era lindo. Já comemorando vitória, nos decepcionamos com a terceira mensagem, que anunciou a fuga do bicho. No final, depois de molhar a camisa de suor e de rolar no chão da rua para resgatar o felino, Edson triunfou e finalmente conseguiu pegar o gato. Ainda no final da noite daquela sexta-feira, já no apartamento, provamos que Chico Buarque realmente é bonito e descobrimos que somos alérgicos a gatos. No sábado de manhã, espirrando e com coceiras, estávamos decididos a abandonar o pobre felino em algum lugar seguro, onde pessoas que não têm alergia iriam alimentá-lo e acariciá-lo. Olhando para aqueles olhos multicoloridos, parecidos com os olhos do gato pidão do filme "Shrek", não tivemos coragem de deixá-lo. Edson, com o consentimento da Sheila, sua mulher, teve a brilhante idéia de repartir a guarda do gato para que, assim, devagar, nos acostumemos com pêlos, espirros e a presença de um felino no apartamento. Portanto, nosso gato é comunitário. Fica um pouco em cada apartamento, enche de alegria dois lares e pode desfrutar do carinho de quatro pessoas. Se, um dia, o nosso Chico resolver imitar a gata da canção adaptada pelo verdadeiro Chico Buarque e sair pelas ruas cantando "Nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres. Senhor, senhora, senhorio, felino não reconhecerás...", vai ser tristeza em dobro. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 10 de junho, na coluna Crônico Crédito da imagem: Edson Beiser

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Locadora de livros de Maringá agora tem site

A adorável Beth, idealizadora do projeto Leia Mais (locadora de livro) traz mais uma novidade para quem quer utilizar seus serviços: o site www.leiamaislivros.com.br/. No site você encontra todo o acervo, os autores, as novidades e o contato, caso se interesse por algum livro. Para os livros que são lançamentos e que estão na lista dos mais vendidos, a locação custa R$ 5 para ficar uma semana e R$ 6 para ficar dez dias. Depois desse período, é acrescentado o valor de R$ 0,50 por dia para ficar com o livro. Para os demais livros, o valor da locação é de R$ 5 para dez dias. Os interessados podem ou acessar o site, ou mandar e-mail no contato@leiamaislivros.com.br ou ainda ligar para a Beth: 3028-6525.
Crédito da imagem: http://atuleirus.weblog.com.pt/arquivo/livros.jpg

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Rigon na circular?

Hoje, indo para Mandaguari de circular amarelinha, vi um cara idêntico ao Angelo Rigon. Ele desceu em Sarandi, perto da Noma. Será que era ele?

Mais um texto no Haja Saco

Só hoje que fui ver. Saiu um texto meu no Haja Saco este fim de semana. Por estar sem internet em casa, não tive acesso no sábado nem no domingo. Quem ainda não leu Flores de Plástico, sugiro que acessem o Haja Saco. Mais uma vez, agradeço ao Fábio Chiorino pela gentileza de ter publicado um texto meu no blog. Aproveitando, indico os textos do Chiorino, que escreve toda terça-feira no Haja Saco. Ele manda muito bem na escrita e, misteriosamente, ainda não publicou nenhum livro. Estamos aguardando.

Abraço.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Apagão iluminado*

Wilame Prado Assim como deixar de assistir aos pênaltis de uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina, muitos maringaenses quase morreram de desgosto, no sábado, ao se depararem com uma queda de energia justamente no momento em que a protagonista fazia o desfecho do último capítulo da novela das oito. Em contrapartida, o apagão fez com que verdadeiras relações humanas voltassem a reinar em salas de estar de Maringá. Vou explicar melhor, citando o meu caso. Estava eu em um churrasco com uma dúzia de amigos, em uma nobre sala grande, onde uma tevê, também grande, exibia em alto e bom som o último capítulo da novela. Quando a energia elétrica resolveu tirar folga, principalmente as meninas chiaram bastante e não acreditaram em tamanho azar. Enquanto isso, o pessoal fazia ligações para mães, tias e avós, perguntando se Maria Paula realmente tinha se vingado do Ferraço. O desespero foi ainda maior quando descobriram que também faltou energia nas casas dos parentes consultados via celular. O jeito foi conversar, comer e beber à luz de faroletes. Parecia um processo cirúrgico: para cortar a carne, era preciso que alguém focasse a luz do farolete na ação. A reunião ficou engraçada e as pessoas reaprenderam a conversar sossegadas, sem medo de tomarem um "cala a boca que eu quero ouvir a novela". Com a sessão de piadas, todos se descontraíram a ponto de nem notarem mais a ausência de luz. Por sorte, ou azar, a energia elétrica voltou. E junto dela uma atração televisiva que também compete deslealmente com as relações humanas: uma partida de futebol. Neste caso, o quadro se inverte e são as mulheres que reclamam dos homens, vidrados na tevê. No fim das contas, seja novela ou futebol, quem sempre sai perdendo somos nós - seres humanos que têm por necessidade praticar o ato da comunicação, falar sobre medos e felicidades, ouvir os relatos de momentos ruins ou bons de outras pessoas. Dizem por aí que relações entre membros de uma mesma família estão se esgotando. Os filhos trocam os conselhos dos pais por conversas virtuais no bate-papo da internet; pais preferem acompanhar, todos os dias, as novelas, os jogos e os jornais do que esclarecer aos filhos que, embora políticos e tantas outras pessoas sejam corruptos, não é correto colar na prova ou mentir para a professora que o dever de casa foi comido pelo cachorro. Os momentos que eu e meus amigos passamos no breu, ouvindo o que cada um tinha para dizer, vão ficar guardados na memória de todos como uma lembrança boa. É uma pena que na segunda-feira tudo voltou ao normal. Dessa vez, assistir a "A Favorita" é o que milhares de pessoas pelo Brasil afora estarão fazendo todas as noites em seus respectivos lares. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 3 de junho, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.portaldaadministracao.org/wp-content/uploads/2007/08/apagao.jpg

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Jornalismo gonzo e seu poder terapêutico

Hoje, na circular, li parte do diário de Ralph Steadman, um louco que contribui com seus desenhos para com o jornalismo gonzo. Tinha muitos problemas que afligiam minha humilde mente, mas depois de ler a matéria e ver o quanto ele e o jornalista Thompson eram pirados, deu-me paz de espírito, tranquilidade e vontades anárquicas. Na imagem, um desenho gonzo do cara. abraço.