terça-feira, 27 de maio de 2008

Flores de plástico*

Wilame Prado
Ao acordar, olhou pela janela um vizinho com cara de alegre. Mandou-o tomar naquele lugar. Saindo do prédio, ao receber um bom-dia do porteiro, disse: "Só se for para você, que fica o dia inteiro sentado e ganhando salário graças ao condomínio que eu pago". Chamou um táxi. Antes de entrar no carro, perguntou qual time o motorista torcia. Ao ouvir a resposta "Corinthians", desistiu da corrida, alegando que não andava com marginal. Chegando à empresa, depois de finalmente achar um taxista são-paulino, demitiu um estagiário que se recusara a engraxar seu sapato. Naquela manhã, ainda, demitiu mais três funcionários e contratou outros três, que aceitaram ganhar R$ 300 a menos para fazer as mesmas funções. Na rua, deu um assobio e gritou "gostosa". Quando a mulher olhou para trás, ele disse, tirando sarro: "Não é você não, bicho feio". Fez questão de xingar um flanelinha que cuidava de carros próximo à empresa. Disse a ele que, um dia, pagaria uma goma de mascar e uma moeda de dez cruzeiros pelo "digno" serviço prestado naquele quarteirão. O flanelinha, bufando, não pensou muito e desferiu socos certeiros na boca do estômago e no rosto do empresário, que, em vão, tentava aplicar os aprendizados da aula de boxe. Por fim, tonteou e beijou o chão. Deitado na maca, antes de entrar na ambulância, olhou bem para o agressor e disse: "Vou lhe processar, vagabundo." No hospital, recusou os cuidados de um enfermeiro, pois o achava afeminado demais, e também não aceitou ser atendido por uma senhora de idade. Quando finalmente chamaram uma enfermeira nova, loura e com um decote que deixava à mostra bonitos peitos de silicone, o empresário esperou o momento certo e acarinhou sua bunda com uma das mãos. Seus hematomas, antes avermelhados, agora estavam arroxeados e mais inchados depois dos tapas que levou da enfermeira loura. Voltou para a empresa jurando que iria processar também a "mocinha de branco" e demitiu mais dois funcionários só porque perguntaram o que eram aqueles roxos em sua cara. Já em seu apartamento caro, como de costume, sua única companhia eram móveis quietos e objetos inanimados. Naquele instante, achou que seria bom trocar idéia com o vizinho; sentiu remorso ao atrapalhar tantas vidas profissionais, como a dos funcionários que demitiu; desejou estar ao lado da bonita garota que olhou para trás quando ele a chamou de gostosa. O empresário sabia que seu dinheiro não podia comprar aquilo que estava querendo no momento. Depois de tomar meia garrafa de uísque, chorou. E, como todas as noites, aos prantos, ligou para a mãe, alegando saudade. Perguntou a ela porque a vida era tão cruel a ponto de deixá-lo, diariamente, sozinho na penumbra, conversando com paredes e regando, em vão, as plantas de plástico da sala. * Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 27 de maio, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.uma.pt/blogs/box-m/wp-content/uploads/2007/06/triste-vida.jpg

MEME PÁGINA 161 DO LIVRO*

Frase: "Fora a descoberta feita no próprio corpo que a deixara como louca, sem saber o que fazer." Livro: Tempo de amar (Autran Dourado) Passo o desafio para os seguintes blogs: Filosofia Muriliana Alexandre Gaioto Acorda Maringá Vontade crônica de escrever Blog do De Paula
*O meme funciona assim: 1- Pegue o livro mais próximo, com mais de 161 páginas. 2- Abra o livro na página 161. 3- Na referida página procure a 5.ª frase completa. 4- Transcreva na íntegra para o seu blog a frase encontrada. 5- Passe o desafio a cinco blogs

sexta-feira, 23 de maio de 2008

"Charme Chulo representa o rock caipira, o choque de culturas, de classes sociais extremamente opostas e diversas"

Wilame Prado

Conforme anunciado neste humilde blog, a banda Charme Chulo se apresentou na noite amena da sexta-feira (16) no Tribo´s Bar. Para ser breve, eu, testemunha ocular do show, confesso que foi uma experiência gratificante ouvir essa banda que mistura guitarra e viola, emoção e humor, sarcástico, diga-se de passagem, e muita qualidade musical.

Vale destacar que Igor Filus, vocalista da banda, exala criatividade com sua performance no palco. Ora com um pandeiro meia-lua na mão, ora apenas com sua criatividade, o cantor dava vida às letras que seguiam na baladinha harmoniosa produzida pelo guitarrista-violeiro Leandro Delmonico, pelo baixista Peterson Rosário e pelo batera Marginal Rony Jimenez. Todos, é claro, vestido a caráter, no modo simples de ser dos roceiros.

E como prometido, Igor respondeu às minhas perguntas. Por isso, abaixo, confira entrevista exclusiva com o vocalista do Charme Chulo e saiba mais sobre essa banda independente que vem ganhando, gota a gota de suor, seu merecido espaço no cenário musical brasileiro, veja quais são os objetivos da banda e descubram da onde vem a dança de Igor e outras particularidades:

A Poltrona: Por que o nome Charme Chulo?

Igor: Ao contrário do que muitas bandas fazem, nós um dia não abrimos simplesmente o dicionário (pela primeira vez na vida) e encontramos um nome aleatório "legal". Charme Chulo é exatamente o universo que a banda se propõe a explorar em seu trabalho. Em mais palavras, Charme Chulo representa o rock caipira, o choque de culturas, de classes sociais extremamente opostas e diversas, é a capital do Paraná com seu charme “europeu” que mal consegue disfarçar sua chulice e fragilidade cultural. É o amor pra todo mundo nos tempos de Internet, é o esgotamento da arte, da New Rave exprimindo um total non sense, um tempo do extremo da inversão de valores.

A Poltrona - Da onde veio inspiração para dançar daquele jeito, Igor? Rodrigo Amarante?

Igor: A inspiração vem deste mesmo universo Charme Chulo. Primeiro, sinto o beat, a melodia, e danço. Às vezes tento dançar como se fosse um tio curtindo uma pista de dança com show de rock. Nós temos influências de punk rock 77 e de bandas pós-punk, da maneira como eles sentiam o mundo e passavam aquilo nos shows. Se me assemelho com Rodrigo Amarante dançando deve ser porque ele é meio “tiozão”!

A Poltrona - É verdade que vocês têm raízes aqui em Maringá?

Igor - Eu, vocalista, e o Leandro, violeiro, somos naturais de Maringá. Não moramos há muitos anos na cidade, mas sempre voltamos pra visitar familiares. Então, nossa ligação com a cidade é um tanto quanto forte, inclusive culturalmente falando.

A Poltrona - Qual foi a sensação de aparecer em rede nacional, na MTV?

Igor - É especialmente boa em se tratando de estar mostrando o trabalho do Charme Chulo para muitas e muitas pessoas. É algo básico para o trabalho que fazemos e que queremos continuar a fazer.

A Poltrona - O que, no momento, os integrantes estão ouvindo em seus mp3s?

Igor - A banda é muito eclética, é difícil dizer o que se ouvi especificamente, ainda mais hoje em dia onde temos tanto acesso à informação pelo computador. Bom, mas ouvimos músicas juntos em nossas viagens de shows: a maioria são as mesmas influências musicais da banda. Eu não ouço música em Mp3 player, já estou virando um “tiozão” mesmo, hehe, não acompanhando mais a evolução da tecnologia, compro alguns cds ou baixo músicas e gravo cds pra ouvir no rádio de casa ou do carro.

A Poltrona - "...os casais só se preocupam com eles mesmos...". Você é casado, né Igor? O que acha desse trecho da música?

Igor - Sou casado sim e procuro não me preocupar só comigo mesmo. Fiz essa letra antes de me casar, no meu tempo de solitário e celibatário ainda, mas mesmo casado continuo concordando com ela totalmente. Também não acho que letras de músicas são feitas pra serem entendidas e seguidas ao pé da letra, são poesias e são sempre simbólicas. E o que eu disse na letra foi: “Não quero me casar” não disse que não ia me casar... e falo sobre o que tristemente em geral acontece quando você casa, tem filho, forma família, etc... seu existencialismo todo fica pra trás ou como gosto de dizer, você transfere seu existencialismo todo para seu filho, que será agora sua preocupação maior.

A Poltrona - Quais são os sonhos do Charme Chulo?

Igor - Ser uma banda realmente representativa na história do Rock Nacional oriunda do estado do Paraná e de sua capital, Curitiba; desenvolver e afirmar nosso universo com uma enxuta e bela discografia (podendo viver só da banda, ainda não conseguimos essa proesa); e por fim, quem sabe, transformar a música caipira de raiz em um estilo tão cult e respeitado devidamente como o samba o é no país todo, por exemplo.

A Poltrona - Por que fazer música?

Igor - Pra ser humano.

A Poltrona - Esse estilo que mistura moda de viola e rock é inédito ou vocês se inspiraram em alguma banda?

Igor - Pra gente ele é inédito e foi concebido a partir deste ineditismo, ou seja, com a mistura em si não sabíamos em que resultado chegaríamos, ao menos, no início da banda. Nossas inspirações são tão distintas como os estilos que misturamos.

A Poltrona - O público da banda pode sem amplo, tanto dos "tios" que curtem a moda como dos "jovens" que curtem o rock. Isso é bacana, não?

Igor - Hoje acreditamos realmente que sim e achamos isso um barato, nos honramos muito de conseguir um público assim, cruzando perfis distintos de idade e pensamento, mas que apresentam algo em comum.

A Poltrona - Vocês gostam do público de Maringá?

Igor - Adoramos o público maringaense, não só por termos conterrâneos da cidade na banda (dois integrante), mas por ser uma cidade de cultura regional caipira fortíssima, paranaense, assim como a música do Charme Chulo. Posso dizer que gostamos tanto de Maringá que poderíamos tranqüilamente ser uma banda daqui. Quem sabe um dia façamos discos morando na cidade pra usar essa inspiração toda.

A Poltrona - Vocês se vestem de caipiras o tempo todo ou só quando fazem shows?

Igor – Sinceramente, no show damos uma pesadinha no visual pra comunicar melhor o som da banda, temos o nosso lado teatral sim. Mas, minha mulher, que é curitibana, se assusta às vezes comigo em dias normais.

A Poltrona - Esse estilo permanecerá ou vocês pretendem direcionar o som de vocês para o rock ou para moda sertaneja?

Igor - Não sabemos dizer ainda, a longo prazo, o que pode acontecer com a gente. Mas sabemos que no segundo disco, e estamos aprontando ele para lançar ano que vem, a proposta musical principal é afirmar a influência de música caipira no som do Charme Chulo. Então, podem aguardar com certeza uma Moda de Viola para este disco, além de outras surpresas do gênero.

A Poltrona - Aproveitem esta questão para dizer o que quiserem. Se for da vontade, pode até xingar o entrevistador! Sugiro que aproveitem ela para vender o jabá, com telefone para contato, e-mail, blablablasss.

Igor - Agradeço em especial ao público maringaense, não só pelo entrevistador ser de lá também, mas pela empatia sincera e especial mesmo que temos por essa inspiradora cidade!!!

Site: www.charmechulo.com.br

Myspace: www.myspce.com/charmechulo

Fotolog: www.flickr.com/photos/charmechulo

Youtube: www.youtube.com.br/charmechulo

Trevo Digital (Loja de mp3): www.trevodigital.com.br/charmechulo

Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1212749

Crédito das imagens: Peguei no flickr da banda

terça-feira, 20 de maio de 2008

Estamos na roça*

Wilame Prado

Houve um tempo em que morar no sítio significava ter paz e sossego. As crianças ajudavam o pai nos afazeres rurais enquanto que a mãe era a verdadeira dona de casa, coando café às 5h quando o galo cantava, matando frango para vender e para fazer com batata aos domingos e lavando as roupas do marido e da prole no riacho mais próximo. Isso tudo, sempre, com uma linda canção na ponta da língua, afinal de contas, não existia ainda o radinho de pilha.

Esse tempo se foi, segundo relato de dona Luzia, 80 anos, minha avó. Ela já viveu tudo isso, mas hoje mora na cidade em uma casa cheia de quartos vazios, fantasmas e lajotas para lavar. O frango é comprado no açougue da esquina, a máquina de lavar faz tudo sem reclamar e, agora sim, existe o radinho de pilha, embora ela ainda prefira sussurrar os cantos da igreja que dificilmente tocam no rádio.

O finado avô João Azarias, ilustre agricultor da pequena Santa Fé, até seus últimos dias de vida, não abdicou do uso da carrocinha como transporte. Quando estava de banho tomado, gostava de pedalar com sua bicicleta Monark até a pastelaria do Baji Bali para comer, escondido, pastéis e espetinhos de carne.

Meus tios também, um dia, já foram da roça. Toda vez que sinto cheiro de esterco de vaca, um cheiro até bom, lembro-me do tio Marquinho em época de silagem. Tio Carlo era o famoso caubói. Trabalhava de chapelão invocado e passeava de chapelão também invocado, só que limpinho. A vida sertaneja foi ingrata com eles. Hoje, ambos vendem álbuns de fotografias e ganham mais dinheiro com isso.

Meu padrinho, conhecido por Zé Preto, ainda hoje persiste nas atividades agrícolas. Para isso, conta com a ajuda de seu filho, o Carlinhos, um garoto inteligente e que também ainda enxerga bucolismo nos prados verdejantes onde oleaginosas são plantadas. Tio Mário era sócio do Zé Preto. Mas, por ter um coração maior do que ele mesmo, foi levado por Deus para a grande roça do céu.

Semanas atrás, porém, os persistentes agricultores da família tiveram um susto. Pensando, ingenuamente, que a roça ainda era lugar de paz e sossego, assim como na época em que dona Luzia matava frangos para o almoço de domingo, receberam a notícia de que uma gangue havia roubado um trator no sítio. O detalhe é que Zé Preto ainda está pagando as prestações do financiamento sem fim da máquina agrícola.

Na edição de sábado de O Diário, li a notícia de que uma família rural de Ivatuba ficou aproximadamente oito horas como refém de bandidos, que também saíram pilotando trator alheio. Parece brincadeira, não? O perigo não está somente nas cidades. Além de todas as dificuldades que o roceiro tem com clima e mercado, agora sofre também com a falta de paz e sossego no sítio. Concluo que, definitivamente, o agricultor "tá na roça".

* Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 20 de maio, na coluna Crônico

Crédito da imagem: http://www.mtfazendas.com.br/FotosNoticias/pecuaria1.jpg

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Charme Chulo joga seu charme, meio chulo, hoje no Tribo´s

Wilame Prado

Hoje tem Charme Chulo no Tribo´s bar, na Cerro Azul. Os caras mandam bem, misturando moda de viola com rock de qualidade.

Para semana que vem, Igor, o vocalista do Charme Chulo, prometeu responder as perguntas que fiz para publicar reportagem aqui no A Poltrona.

De qualquer forma, vale a pena conferir o som desses caras de Curitiba. Eles, além de saberem fazer música com qualidade, têm presença de palco e, o mais importante de tudo, muita humildade, mesmo sabendo que o crescimento da banda é vertiginoso.

Os dois Cd´s da banda estarão à venda no Tribo´s também. Quem não for ao show mas quiser ouvir o som de Charme Chulo, acesse o site www.charmechulo.com.br. No e-mail charmechulo@gmail.com, é possível comprar os Cd´s dos caras por R$ 15, incluindo postagem.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Sobre filosofia e André

Wilame Prado

Meu grande amigo André Dias praticamente nasceu dentro de um bar. Durante seus vinte e poucos anos, ele foi curtindo no ambiente impudico e escachado de bares pelo Paraná, entre Palmas, Curitiba, Maringá e região.

André é filósofo desde sempre. A expressão filósofo de mesa de bar vem dele. Mas André não é um simples filósofo de mesa de bar. Ele leu os clássicos da filosofia e praticamente reescreveu em pensamentos e prosas tudo o que o Nietzsche quis dizer em “Assim falava Zarastruta”.

Por cargas d´água, André resolveu se prostituir um pouco com o jornalismo. Já são quatro anos de vida desregrada na graduação lasciva, o que em pouco tempo lhe presenteará com um bonito diploma mágico, obrigando a todos seus patrões pagarem, no mínimo, R$ 1 barão e R$ 800.

Mas André é um cara que não liga muito para o dinheiro, a não ser quando falta para beber. Não é raro ele abdicar de seu jantar a base de steak de frango e arroz de microondas para tomar o último e importante gole da noite.

Este ano, André, para descontrair o ambiente, resolveu prestar vestibular em uma universidade pública para realmente comprovar que as particulares são uma bosta. Por divindade e, segundo ele, por burrice dos demais, passou em primeiro lugar sem estudar uma linha sequer. Então, hoje também brinca de filosofar com os professores da UEM, que no fundo sabem que ele não precisava ficar todas as tardes dentro daquela sala quente de aula para apreender que, segundo os gregos e troianos, 2+2 = 5.

André, acima e abaixo de tudo, é um cara legal. Ele é humilde, como não poderia ser diferente, e sabe apreciar uma boa arte fílmica, literária ou boêmia. É um grande parceiro que prefere as sombras de um guarda-sol aos holofotes brilhantes que anunciam a bombástica balada.

O filósofo e grande amigo André não gosta de tomates. Segundo ele, esse não gostar de tomates é a explicação científica pela preferência da negativa quando o assunto é tabagismo. Mas, diferentemente dos normais, André não se importa se outros fumam ao seu lado, só torce para que o pulmões deles não se apodreçam tão rapidamente.

Em poucas sentadas em cadeiras amarelas e geladas dos bares, pude aprender muitas coisas com o amigo André. Aprendi que a vida não é tão radiante assim; percebi que não é feio perder e finalmente achei uma pessoa que consegue enxergar o podre de tudo quanto é coisa que está brilhando demais, encaixado ao extremo.

Crédito da imagem: http://tiurine.weblogger.terra.com.br/img/pensar.gif

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Particularidades do transporte público

Wilame Prado

Até mesmo crianças aparentam estar tristes e enrugadas. Pessoas feias, solitárias, cansadas e fedidas. Outras, desesperadas, sem educação e deprimidas. Algumas são dignas e estão inseridas no protótipo de normal, ou seja, assistem novela das oito, compram cd pirata da novela das oito e comem, de vez em nunca, no Mc´ Donald´s.

A briga por assentos é acentuada por muita rivalidade e dores nas varizes. Não obtendo êxito na dança das cadeiras, as chances são grandes de passar uma hora em pé, segurando em algum apoio, que te provoca asco, por lembrar que inúmeras pessoas já colocaram as mãos ali, não se importando se nelas continham coliformes fecais, restos orgânicos, ou respingos de uma masturbação mau sucedida no banheiro público.

Tem gente que faz questão de deixar o celular na maior capacidade sonora e ainda com aquela linda canção que retrata uma festa em um ap. Sem falar nos que passam o trajeto inteiro conversando pelo mesmo aparelho, muitas vezes futilidades, como a compra de pães para o jantar, ou coisas mais fúteis ainda, como o fechamento de negócios ligados à sua medíocre empresa.

Não me lembro bem do nome de quem inventou o IPod, mesmo assim o agradeço pela invenção. Embora quase ninguém use o IPod propriamente dito, e sim o pen drive que toca música, importado da China, ele tem contribuído pela paz nos transportes públicos, pois o sujeito que está ouvindo mp3 fica quieto em um canto e não atrapalha ninguém, exceto quando perde o limite de decibéis produzidos pelo aparelho e acaba compartilhando com vários ao seu redor a sua música, que nem sempre é de qualidade.

Há também várias pessoas que, assim como eu, preferem ler revista, livro ou jornal, sempre se debatendo, metade do caminho, para virar as páginas, a ponto de desistir da idéia de ler. O espaço é curto e, em pé, o ato de ler é crucificante. O engraçado é que muita gente não dá um real para comprar jornal, mas quando senta ao lado de alguém que comprou um exemplar, não tira os olhos das notícias. Elas passam pelas bancas e ficam minutos lendo manchetes das capas. Mesmo assim, não adquirem o mísero pedaço de papel sujo.

Não se contentando com fétido cheiro de suas axilas, cujo desodorante foi passado, pela última vez, ontem, depois do banho, para assistir, limpinho, a novela, o cidadão ainda tem a coragem de trazer consigo um pacotão de chips, sabor isopor e aroma chulé. O adesivo do transporte público diz não fume, mas era melhor alguém fumando ali dentro do que comendo um chips desse ao seu lado.

Nada contra a terceira idade, mas chego a conclusão de que a maioria não tem nada para fazer a não ser ficar andando de ônibus para lá e para cá. A senhora sai de seu município, de circular intermunicipal, para comprar duas latas de massa de tomate, que estão na promoção na cidade ao lado. Eles podiam, pelo menos, deixar para zoar em horários que não sejam de picos, pois, embora a classe trabalhadora, como um todo, seja jovem e cheia de energia, ficar um dia inteiro costurando em uma fábrica ou atendendo clientes na loja de roupas do shopping, cansa em demasiado.

Quando você entra no ônibus, sobram uns lugares pingados para sentar, mas assim que você se senta, chega uma senhora de 70 anos, com um monte de sacolas e com aquela cara de: “o que tá esperando para deixar eu sentar moleque?”. Geralmente, nem um ‘obrigado’ você recebe.

Esse é o cenário de, pelo menos, três horas do meu dia. Quando desço da circular, um frio de fim de tarde arrepia os pelos de meu braço. A noite está enluarada e um cheiro de bife acebolado exala de muitos lares. Amanhã é outro dia, mas a rotina prossegue e os infortúnios do transporte público me esperam. Nem que for financiado, mas dia desses farei posse de um carro.

Crédito da imagem:

http://marxismo.files.wordpress.com/2007/06/imagem-cartilha-transporte.jpg

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Uma triste noite de Natal*

Wilame Prado

Véspera de Natal e eu todo animado. Afinal de contas, deu para pagar as contas e ainda sobraram alguns trocados para fazer churrasco nos últimos dias do ano. Estou muito feliz, de verdade. Férias, noivado recente, sol incandescente, sombra e cerveja fresca no refrigerador. E o melhor de tudo, sem contas a pagar.

Prometi a mim mesmo que iria à prolongada missa de Natal com noiva e família. Mas não sou um homem de palavras. Com esse horário de verão, pôr camisa com sol lascado não dá. Sair da sombra e da cerveja fresca, também não dá.

Católica que só ela, noiva fica braba quando as promessas minhas não são cumpridas. Vai bufando e suando para a igreja da pequena província onde nossos pais e parentes moram. Mais tarde, confessa para mim que pecou a missa inteira, de tanta raiva que passou do seu pretendido – no caso, eu.

Como não sou um homem de palavras, descumpro com mais um trato e, quando a noiva cheia de raiva chega da igreja, bufando e suando, encontra-me em estado de descanso absoluto no chão do banheiro em vez de ter ido para casa tomar banho – a cerveja, misturada com o calor e com a canseira de final de ano obrigaram-me a dar uma dormidinha nos azulejos gelados próximos ao box.

Muita raiva para uma pessoa só, ainda mais em véspera de Natal. Bufando é pouco, agora minha noiva estava quase babando. E eu, dessa vez, cumpro um prometido. Vou em casa, tomo um banho, passo gel no cabelo, ponho camisa nova, a mesma que usei no casamento do João, passo perfume e retorno à casa da noiva, prontinho da silva para festejar o vinte e cinco de dezembro com ela. Chego todo amoroso, beijando cangote, bochecha e boca.

Recebo mil e um xingamentos. Percebo que raiva é um estado de espírito que domina e pode acabar com senso de humor; a danada ainda jogou a culpa em mim e disse que eu havia estragado seu Natal e que minhas atitudes se assemelhavam com a de pessoas deploráveis.

Engraçado que a tal da raiva não só domina as pessoas, como também é transmitida para outras pessoas que estão próximas. Vou embora murcho e com as maçãs do rosto vermelhas de tanto ódio. O brabo agora sou eu. Ligo a televisão e percebo que vou passar a pior noite de Natal da minha vida. Assisto sem empolgação ao show do Fábio Jr. Ele toca a canção “Pai”, que me faz lembrar que aquele Natal é o primeiro que passo sem o meu pai, que Deus o tenha.

Resolvo ir para cama, junto ao mp3. Por acaso, está tocando Chico Buarque – Sinal Fechado, de 1974. Ouço “O filho que eu quero ter”, uma das mais lindas canções já feitas por alguém. Lembro novamente de meu pai, principalmente no trecho da música: “teu pai está muito sozinho, de tanto amor que ele tem”.

A raiva, há muito, já havia se transformado em tristeza. Lágrimas, agora, molham meu travesseiro e sinto remorso por ter passado tantos natais sem ao menos telefonar para meu velho e solitário pai. No Natal deste ano, sozinho, desejar um Feliz Natal a ele, seria um pedido que faria ao Papai Noel.

*Post em homenagem ao meu querido pai. Neste 1º de maio, Dia do Trabalho, fez um ano de sua morte. Ano este, vivido sim, mas com um toque a menos de felicidade e o entendimento pleno da palavra saudade.

Crédito da imagem: http://farm2.static.flickr.com/1044/945273447_8156753e59.jpg

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Um palmeirense feliz*

Em um tempo muito distante, Brunão, ainda criança, vibrava com os títulos que o Palmeiras, time de seu coração, conquistava regularmente. Mas, talvez pela má administração da diretoria, aliada a uma possível macumba jogada pela nação corintiana, o alviverde paulista perdurou por anos na amargura, no breu da vitrine futebolística, sem ganhar campeonatos, e inclusive caindo para a segunda divisão.

Mas, com a conquista do Campeonato Paulista deste ano pelo Palmeiras, ocorrida graças, principalmente, à contratação do técnico, professor, empresário, pivô de escândalos sexuais e Mestre dos Magos (um deles sendo o Valdívia) Vanderlei Luxemburgo, Brunão (já não mais criança e com espessas costeletas e saliência abdominal) hoje sorri.

Com a cara, coragem e vestindo uma camisa verde-limão apertadinha beirando ao ridículo, ele não titubeou e entrou em um ônibus fretado até São Paulo para assistir ao jogo da final entre Palmeiras e Ponte Preta. Mesmo sem o ingresso nas mãos, seu amor ao clube deu-lhe força suficiente para não ter medo de ficar um domingo inteiro do lado de fora do Palestra Itália, apenas ouvindo os gritos da torcida.

O risco valeu à pena. Conseguiu o ingresso (dez vezes mais caro, diga-se de passagem) e assistiu à goleada por cinco a zero do Palmeiras, com direito a golaço de Valdívia e a três gols do artilheiro do campeonato, Alex Mineiro. O que, infelizmente, Brunão não pôde ver das arquibancadas, foi a emocionante entrevista concedida pelo goleiro Marcos ao canal televisivo, chorando e declarando mais uma vez amor eterno ao alviverde paulista. Hoje, poucos torcedores vêem em seus times pessoas como o Marcos, que veste a camisa por amor ao clube.

O fanático Brunão, que teve insônia ao passar madrugadas contando as horas para assistir à final no Palestra Itália, também acabou perdendo a festa palmeirense em Maringá, com direito a orquestra de buzinas, fogos e gritos de "poorco" em casas, prédios e bares. Ele, que sempre reclamou do alto índice de torcedores são-paulinos que exibem suas camisas tricolores pela cidade, ficaria feliz de ver que o Palmeiras também tem força e expressivo número de torcedores por aqui.

Embora seja eu um torcedor do Santos Futebol Clube (um dos grandes rivais do Palmeiras e melhor time do mundo), fiquei feliz pela conquista do título alviverde. Na verdade, até agradeci por este feito, pois, caso isso não tivesse acontecido, nem sei o que seria de Brunão - um torcedor doente que, dia desses, resumiu o que deseja para sua vida em apenas uma frase: "Continuar ouvindo meu rock´n roll, contar sempre com a companhia de um videogame e ter grana suficiente para tomar minha cerveja e assistir aos jogos do Verdão"

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná do dia 5 de maio de 2008, na coluna Crônico

Crédito da imagem: Orkut do Brunão

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O valor de uma amizade

Nesse feriadão, viajei para Foz do Iguaçu, comprei muamba no Paraguai e me molhei com os respingos das Cataratas do Iguaçu, na Garganta do Diabo. Isso tudo não teve tanta importância. O mais legal desse três dias que passei aproveitando a folga do trampo e da faculdade foi saber que mesmo se o céu desabar ou se a chuva não mais cair, ainda assim terei um grande amigo ao meu lado.

Ele se chama Vinicius Lino da Silva e mora em São Paulo-SP. Ele, sua adorável garota Thaís Rodrigues e seu simpático cunhado Tiago Sem o H hospedaram-se em meu lar, que é o lar também de minha amada noiva, a Denise Cássia.

Devo dizer que Vinicius, na verdade, é mais do que um amigo, e sim um irmão. Talvez vocês devam estar me achando um tanto quanto clichê em chamar um amigo de irmão, pois todo mundo faz isso. Mas, acontece que esse meu amigo aí, é realmente meu irmão, um irmão de leite. Quando ainda não tínhamos espinhas nos rostos e muito menos dente na boca, o filho da p.. teve de mamar na minha mãe, tomando do meu leite!

Mágoas passadas. Perdoei seus erros e, desde então, há aproximadamente 22 anos, somos amigos pacas. Como, atualmente, moramos longe, ele em Sampa e eu em Maringá, nosso contato se resume a e-mails, telefonemas apressados e raríssimas visitas dele em meu ap e visitas minhas em sua casa.

Amizade é algo que ainda me faz chorar igual criança. Neste post, deixo meu muito obrigado a vocês, que nos visitaram aqui em Maringá, e aproveito para dizer que eu literalmente amo todos meus amigos, poucos é verdade, mas muito valiosos.