terça-feira, 1 de abril de 2008

Um por todos, todos por um*

Wilame Prado "A vida até que é boa", pensava corriqueiramente Alberto, mais conhecido como Betinho Filho do Vento. Dificilmente passava um final de semana sem cerveja e churrasco; jogava futebol toda quarta e sábado; era capitão do time; organizava amistosos e ia atrás das inscrições para os torneios, que quase sempre resultavam em títulos para o time Sociedade Esportiva União e Amizade. No último jogo, a alegria foi tanta de ver o time entrosado, fazendo até tabelinhas, que Betinho, já com pelo menos três garrafas de cerveja na cuca, declarou amor eterno à equipe e a todos que a integram. Antes das lágrimas emocionadas, gritou o clichê mais conhecido no mundo das competições: "Um por todos e todos por um". Pensando, sempre, na Sociedade Esportiva União e Amizade, Betinho, por ser praticamente dono do time, sentia-se no dever de lavar as camisas da dúzia de rapazes que a suavam para conquistar vitórias. Sobrava, então, para Edna, sua mulher, o serviço de lavadeira. E era sentindo o cheiro de suor de cada um do time que a moça começou a ver despertada sua insaciável vontade de amá-los e sentir-se desejada por um time inteiro de futebol. Com o passar do tempo, e das cheiradas incontidas, Edna sabia que o camisa 8 era o mais perfumado e, sendo assim, sempre o imaginava como o mais bonito. Na camisa número 2, o cheiro acre e dominante a fazia imaginar um homem bruto e viril. A camisa 5 exalava um cheiro exótico e tentador, o preferido dela. Já o cheiro da camisa 10, a do Betinho Filho do Vento, fazia com que Edna se enchesse de ódio e se lembrasse das incontáveis noites que passou, mesmo com um homem ao lado, sozinha, desgostosa. Na briga mais feroz do casal, ela não suportou e sugeriu a ele que fizesse sexo com os integrantes do time Sociedade Esportiva União e Amizade. Nem imaginava que, depois de algum tempo, seria ela mesma a feitora desse ato. No início, para conhecer os donos das camisas numeradas, convenceu o marido de que seria trabalho demais a ele, além de levar todas as camisas do time para lavar, ainda depois devolvê-las a cada jogador. Com isso, então, vez ou outra aparecia na casa de Edna os donos das camisas, fazendo com que, agora, os cheiros que sentia tivessem corpo, rosto, vida. O ato de sentir o cheiro das camisas e depois conhecer pessoalmente o dono se estende até hoje na casa de Edna. O Sociedade Esportiva União e Amizade acabou ficando famoso nos vestiários de futebol como o time que tem a mais bondosa lavadeira e os uniformes mais limpos. Os melhores jogadores da região fazem questão de jogar nesse time. Betinho Filho do Vento, como sempre, está feliz da vida. E, toda vez, antes de começar as partidas, dá o famoso berro "um por todos" e espera, ansiosamente, a resposta dos jogadores, que não titubeiam e, com trocas de olhares sarcásticos, gritam: "todos por um". *Crônica publicada na coluna Crônico no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 1 de abril de 2008, e republicada no blog Crédito da imagem: http://botecodabola.files.wordpress.com/2007/11/uniao.jpg

2 comentários:

mouse disse...

Uma das melhores cronicas sua! Meus parabens

Wilame Prado disse...

Já estava com saudades de seus comentários, Mouse.