sábado, 12 de abril de 2008

Observador*

Wilame Prado O celular tocou. Era um colega me convidando para ir a algum bar. Ele queria me expor suas idéias sobre uma palestra que realizaria daqui alguns dias. Mas, na verdade, no bar, nem tocamos neste assunto. Antes de ir ao bar, no apartamento, não resisti e tomei um cálice de vinho e duas cervejas long-necks. O clima era agradável, típico de um outono ameno.

Saí. Quase dez horas. Confesso que o frio já não era problema, pois o álcool circulava perfeitamente nas veias. De quinta-feira, tinha apenas duas aulas na faculdade, mas fui diretamente ao bar onde o colega me esperava. Havia mais dois na mesa do bar: um estudante de farmácia e um biólogo desempregado.

A partir de então, comecei a observar. Tenho esse costume de olhar tudo ao redor e tentar entender a vida de outra forma. O contexto do local era de alguns jovens desregrados fora da faculdade, simples apreciadores de mesa de bar, “filhinhos de papai” e “patricinhas” se preparando para irem ao desejado “tuchi-tuchi” e os integrantes da periferia, que são a roda da engrenagem de toda noite rodeada por drogas, álcool e prostituição, disfarçada de azaração.

Eu não sou hipócrita, apenas observador. A noite continuava tão bela! Devia ser a grande lua estampada no céu. Ou quem sabe aquele copão de cerveja ingerido em poucos minutos? Apesar de todas as sensações sentidas naquela noite, não deixei de observar, afinal, esse era o objetivo do momento e de todas as vezes em que me deparo com o mundo. Eu preciso observar para poder registrar.

Observei, também, a função que o meu colega fazia naquele momento. Interação de pessoas, junção de mundos diferentes e criação de vínculo enorme de cidadãos com ideais distintos, mas que, de alguma forma, se combinam e se auxiliam para o bem de todos. Ele é um articulador e também se beneficia com isso.

Todos daquela noite precisavam jogar sinuca; precisavam beber cerveja e vodka; precisavam vender e comprar; precisavam fumar, e não só nicotina; precisavam se mostrar másculos para as fêmeas e vice-versa; precisavam se fazer de amigos para terem amigos; precisavam rir alto e ainda gritar; precisavam falar sério de assuntos sérios mesmo estando embriagados e chapados; precisavam gastar petróleo, pneu e poluir o ar; precisavam agredir os decibéis permitidos para mostrarem que são fora da lei e são ouvintes do seu equipamento moderno de som; precisavam divulgar a balada de amanhã para amanhã continuarem precisando e assim eternamente vão as noites dos integrantes da corriqueira e exótica vida noturna. E eu não sou hipócrita, mas estava só observando.

O Flamengo ganhou e ia para a final da Copa do Brasil. Alguns fanáticos realmente tiveram coragem de comemorar e gritar, no meio do bar, mesmo eles sendo solitários na sua paixão esportiva, afinal estavam no Norte do Paraná e os times do Rio não tem agradado faz tempo.

A noite está quase ao seu fim, pelo menos para mim. As fêmeas já foram para não sei onde. Elas sempre somem e isso é difícil observar, elas são ligeiras. O articulador me possibilitou alguns contatos diferenciados: integrantes do hip-hop, tatuador barateiro, promoter de festa funk, circuladores de baseados, intelectuais inconformados, entre outros. Para mim, a observação vai se concluindo junto com os gostos, as luzes e as sensações. O frio agora já incomoda um pouco, mas eu moro perto. O articulador vai embora de carona e eu pego uma carona com os meus pensamentos, que já tentam tirar uma conclusão de toda observação feita naquela noite. Acho melhor fazê-la amanhã, depois de um café preto. A única coisa que não consigo parar de pensar no momento é se alguém me observou, mesmo eu não sendo hipócrita.

*Crônica feita em um mês de maio gelado e solitário de Maringá, 2006

Crédito da imagem: http://sp6.fotologs.net/photo/38/56/72/morta/1194538725_f.jpg

3 comentários:

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá, belíssimo texto de um observador da noite... Parabéns!
Beijinhos,
Fernandinha

Marcelo de Andrade disse...

Oi, Wilame. Parabéns pelo blog. Eu sempre digo que blog é melhor do que psicanálise. Economizo um dinheirão em terapia com minhas postagens.

Nanda Lima disse...

Essa observação da noite eu faço de dia. Incrível como nos alieamos para não sofrer. É imensamente mais fácil sair p/ trabalhar ou se divertir e não observar nada para não perceber a tristeza por trás da falsa impressão de alegria.

Bjs