quarta-feira, 30 de abril de 2008

Nem tudo está perdido*

Wilame Prado

Eu poderia escrever sobre minhas indagações e opiniões sobre o caso Isabella. Poderia também citar neste texto a verdadeira chuva de limões de gelo, ocorrida em Maringá no feriado de Tiradentes. Poderia, quem sabe, até escrever sobre os poucos mais de cinco segundos de tremores em alguns Estados brasileiros, assunto este que salvou as pautas dos telejornais na terça-feira passada. Escrever sobre o padre voador, que foi transportado para o céu por diversos balões coloridos, talvez desse uma boa homenagem. Mas acho melhor não.

E para quem quer ler estes assuntos citados acima, que procure outras páginas de jornal ou assista aos infinitos plantões de telejornais na tevê. Afinal, que mal tem em escrever sobre o perfume de uma rosa? Ou ainda sobre a sensação de receber um abraço da pessoa amada? Dizem por aí que as pessoas gostam de ler, ouvir e ver sangue, crimes e barbaridades nas notícias diárias. E os meios de comunicação, que não querem sair perdendo, proporcionam tudo isso, e com cobertura vinte e quatro horas.

Mas, nesta terça-feira, neste exato momento em que você está lendo mais um texto da coluna Crônico, existem pessoas sorrindo em Maringá, cidade habitada por pessoas felizes, segundo pesquisas. Eu sei que, a qualquer momento, estará você em uma avenida da cidade e verá mais um motoqueiro estirado no chão. E que também achará o cúmulo mais uma árvore de cem anos, sem mais nem menos, sendo cortada para privilegiar a visão de um outdoor ou de uma loja.

Sei também que, sendo humano, é natural que você queira saber logo quem foi o assassino da menininha de cinco anos. Mas, talvez, enquanto você esteja colado nas notícias da tevê, querendo ver pela vigésima vez a reconstituição da cena do crime feita pela perícia, sua própria filha queira mostrar um novo desenho que fez na escola ou queira brincar um pouquinho antes que você tenha de ir trabalhar.

Por acaso, já regou a plantinha solitária lá da sacada de seu apartamento? Por que você não liga para aquele seu irmão que, há tantos anos, mora bem longe daqui e que vive tão solitário? Esqueça esta história de mandar os parabéns via Orkut para as pessoas que mal conhece. Se não puder falar com elas pessoalmente, ou ligar, mande pelo menos um e-mail pessoal e descreva o que sente por elas. Mas vê se não vai enviar aquelas mensagens prontas. As pessoas querem ser únicas, e são! A gente é que não percebe.

Faz quanto tempo que você não acorda meia hora mais cedo para preparar o café da manhã, evitando assim que sua mulher se desgaste logo pela manhã? Faz quanto tempo que você não diz o quanto ama sua mãe? Por acaso, sem contar os tempos de criança, já beijou alguma vez o rosto de seu velho pai? Eu, que já perdi o meu, arrependo-me de não ter feito isso antes dele morrer.

Comovemos-nos com tudo que a mídia vomita para nós. Mas nos esquecemos de que, ao nosso lado, seja no trabalho, em casa, na faculdade, na rua, existem pessoas que também precisam de atenção, carinho ou de um simples: “como vai, tudo bem?”

Portanto, a partir de agora, desligue essa tevê! Sinta o cheiro de uma rosa, agradeça seu alimento diário e sinta o gosto da comida na boca. Perceba o quanto sua blusa quente te proporciona conforto, e ame-a. Assista a um filme de animação junto dos filhos e perceba o quanto é sincero aquele sorriso enorme estampado em seus rostos. Beije sua mulher como se fosse a última – como cantou o mestre Chico Buarque. E, claro, leia Crônico como se fosse a última crônica que fosse ler, mesmo sabendo que terça-feira que vem tem mais. Afinal, nem tudo está perdido.

Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna Crônico do dia 29 de abril de 2008 (na íntegra)

Crédito da imagem:

http://staticblog.hi-pi.com/gisblogMnt-pt-bloguepessoal/paulofaria/images/gd/1179594684.jpg

7 comentários:

Finito Carneiro disse...

Puxa vida... Enfim alguém sensato no planeta Terra.

Curti sua crônica.

Suas palavras são como mensagens óbvias, mas que, se não forem lidas todos os dias, não faremos.

O beijo no pai, o dizer 'eu te amo' à mãe, o levantar para fazer o café.

Muito bom!

wilson rezende disse...

Belo post. wilsonrezende.zip.net

Fabio Chiorino disse...

no fundo, a esperança (nossa melhor e pior herança) é o que nos resta. O texto comove, pois atualmente é difícil olhar para os lados e enxergar beleza na simplicidade

FERNANDA & POEMAS disse...

OLá querido Amigo, belíssimo texto, bem real a chamada de atenção, sobre pequenas coisas que no fundo são muito importantes...
Parabéns!!!
Um bom fim de semana... Beijinhos de carinho,
Fernandinha

célia musilli disse...

Oi, concordo com vc...Tb não gosto de recados "fast food" pela net e nem de mensagens de aniversário em série..o mundo anda cheio de impessoalidades... beijoss, bom domingo.

Anônimo disse...

belo texto!
realmente nem tudo está perdido.
ainda existem pessoas sensíveis.

tiagosp7 disse...

a mais simples idéia pode ser o disfarce do pensamento mais complexo... algumas simples atitudes são tão importantes quanto o inverso de sua simplicidade. Abraço Wil!