quarta-feira, 9 de abril de 2008

Carteiro alienado*

Wilame Prado Carlão resolveu prestar concurso para trabalhar nos Correios. Foi aprovado, mas quatorze posições abaixo do candidato que conquistou a última vaga. Algum tempo se passou e ele já tinha até se esquecido disso quando chegou em sua casa uma pequena correspondência. Era a convocação para o cargo de carteiro. Depois de ser aprovado no teste físico, pediu as contas no escritório, onde era office-boy, e ainda teve uma semana de folga antes de entrar nos Correios. Passou as tardes desses dias contando nuvens no céu, só imaginando aventuras mil que teria como carteiro: brisa na cara ao pedalar pelas ruas; mulheres solitárias que, ao receberem cartas, o paqueraria e o convidaria para tomar café; jovens felizes por receberem suas revistas mensais; ou nerds eufóricos com a entrega de futilidades compradas pela internet. Mas o ingênuo recém funcionário público se esqueceu de pequenos detalhes que acabam dificultando a vida de um pobre carteiro. Enfrentar cachorros raivosos, chuvas torrenciais nas costas ou sol rachando no rosto só não era pior do que seu mirrado salário. Arrependeu-se de não ter lido o edital do concurso. Por todos esses descontentamentos, ele quase chorou de emoção quando ficou sabendo da greve da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Poder ficar pelo menos um dia em casa, sem pedalar, sem se queimar, sem se molhar, mereceu almoço especial e suco de caixinha à vontade. Na verdade, Carlão nem sabia ao certo quais eram as reivindicações que os carteiros e os sindicalistas tanto almejavam. Foi lendo o jornal impresso que descobriu que o reajuste deveria ser pago em razão dos diversos riscos que os carteiros sofrem diariamente, como atropelamentos, tombos e as intermitentes mordidas de cães. Ele, então, começou a refletir ao olhar as cicatrizes que ganhou nas pernas graças às mordidas incontidas de um poodle raivoso e de um pinscher enlouquecido. Lembrou-se de quando ficou mais de um mês com o nariz escorrendo por ter entregado cartas em meio às águas de março e lamentou não ter providenciado um atestado médico sequer. Enraiveceu-se. Tacou o copo com suco na parede quando finalmente acordou da alienação e passou a enxergar o verdadeiro valor de seu nobre trabalho - o de entregar correspondências. Vestiu seu uniforme amarelo e azul e se comparou aos craques da Seleção Brasileira na hora em que estão sussurrando o Hino Nacional antes dos jogos; calçou as botas pretas e se imaginou um soldado do Exército; ajeitou o boné, tomou mais um gole de suco e foi à luta. Propôs aos amigos carteiros de Maringá que também lavassem a entrada dos Correios da avenida XV de Novembro, imitando o protesto ocorrido na sede da empresa, em Curitiba. Mas Carlão acabou sendo motivo de piadas, pois só ele ainda não sabia que a greve já havia se encerrado. Seu salário, que já era pequeno, ficou ainda menor com o desconto de um dia que faltou por ter ficado em casa tomando suco de caixinha. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna semanal Crônico, no dia 8 de abril de 2008 Crédito da imagem: Fotografia de Jonas Oliveira, do portal Bem Paraná

3 comentários:

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Will, ando meio atarefado, mas isso não é motivo pr'eu deixar de visitá-lo. Essa aí do carteiro Carlão é maravilhosa. Coisa bem vista por seus finos olhos (... e faro). Continuo seu fã de carteirinha. abs.

Fabio Chiorino disse...

parabéns, mais uma vez. O link do factual jornalístico com a ficção é um caminho admirável, do qual também sou adepto.

Mouse disse...

Continue sempre nesse caminho que vc vai longe meu garoto! Nunca desvie e nem pare de pensar em sues sonhos! Um dia vc ainda chega lá