sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bilhete premiado*

Wilame Prado Elinaldo era um típico trabalhador brasileiro. Na siderúrgica, passava oito horas diárias para ganhar um salário que o permitia comer e fazer mais algumas coisas. A sua mulher, Márcia, também disponibilizava sua força de trabalho na siderúrgica como cozinheira. Iam embora juntos para o lar. Os dois apreciavam a paisagem cinzenta e poluída sonoramente, sempre discutindo o que fariam no jantar. Iam de pé na circular.

A religião era respeitada e temida, porém, aos domingos, o casal não tinha ânimo para ir à missa. Mas, todo dia, Elinaldo agradecia a Deus por ninguém passar a mão na bunda de sua mulher na circular, pois o medo de brigar e ser o centro das atenções invadia o ser do proletário. Márcia, entretanto, rezava apenas para que conseguisse engravidar, de uma vez, porque não agüentava mais a rotina de ir e vir do trabalho diariamente - queria uma licença maternidade. E conseguiu.

Ronaldo é o nome. Ronaldinho, apelido. Homenagem do pai para com o seu maior ídolo, de sua maior paixão, o futebol. No domingo a tarde era sagrado o “futebolzinho” na tv. A mãe bem que tentou por o nome de Gabriel, mas Elinaldo conseguiu persuadi-la com um discurso inflamado cujas palavras-chaves eram: fenômeno, artilheiro e sorte.

Realizados os pedidos: nunca passaram a mão em Márcia e a licença maternidade foi adquirida mais uma vez. Gabriela, escolheu a mãe.

Família típica classe média baixa. Chegar a esse patamar sempre foi um sonho para Elinaldo, o ex-pobre. Fazer economia sempre foi regra em toda a trajetória do casal, sabe para quê? Para ter um automóvel, uma casa, dois filhos que não passam fome e uma viagem por ano até a cidade pequena dos pais de Márcia e Elinaldo. Vidão!

Os dias passavam como folhas jogadas ao vento de um outono quando, incrivelmente, Elinaldo se tornou amigo de uns dos donos da empresa que trabalhava. Isso porque, em um jogo no estádio de futebol, depararam-se, lado-a-lado, torcendo pelo mesmo péssimo time e tomados pela famosa sensação de que já se conheciam de algum lugar.

O seu mais novo e único rico amigo, Marcelo, herdara a siderúrgica de seu pai, que faleceu no momento errado, onde a empresa mais precisava dele. A bomba dos negócios explodiu nas mãos do ex-vagabundo disfarçado de engravatado em um setor inventado da empresa, Marcelo. Embora já levando os negócios por três anos, os prejuízos adquiridos só tinha um fim: a falência.

Enquanto esse divino momento de fechar as portas e fugir para o exterior não chegava, Marcelo vivia em uma incrível pilha de nervos, achando absurdo sua esposa ter mais de mil pares de sapatos e não se comovendo com a historia furada dos filhos que, para comprar mais alguma coisa cara, simulavam complexos de inferioridade para com os amiguinhos ricos da escola particular que estudavam.

Após a morte do pai de Marcelo, sua mãe enlouquecera completamente, fazendo tudo quanto é plástica, arranjando namorados trinta anos mais novos e viajando pelo mundo inteiro. E ele não se queixava, afinal, a velha já tinha derramado muito suor pela empresa.

Sem falar nos inúmeros parentes que se multiplicavam a cada hora, em que o esporte preferido era pedir dinheiro ao primo rico. Todos os churrascos de família tinham de ser patrocinados por ele; todo jovem vagabundo, filho de alguma prima de 3º grau, tinha de estagiar na empresa; sem falar nos tios quarentões que encheram a cara de cachaça a vida inteira e agora precisavam de um emprego para sustentar a família.

Por não agüentar mais a futilidade que o cercava, principalmente da embaixatriz, sua mulher, Marcelo optou por fazer o que todos fazem. Beber e arranjar amantes. A vida dentro de sua residência era insuportável. Dentro da empresa também. Mesmo sabendo que 80% dos amigos que o acompanhava aos bares da vida boêmia eram interesseiros, era justamente lá que podia esquecer de tudo e tomar o seu velho e bom uísque com água de coco. Em conseqüência da embriaguez e do tédio, conseguia o fenômeno de ter uma amante para cada dia da semana.

A felicidade se esquivou de Marcelo desde quando descobriu, aos nove anos de idade, no colégio, que era rico. Isso porque, sabia que o culpado da confusão armada no recreio era ele, mas, após convocação dos pais das crianças envolvidas, o único que saia ileso também era ele, o filho do dono da siderúrgica. E jogar um saquinho de mijo na cabeça do padre-diretor do colégio não era pouca coisa.

A amizade de Elinaldo e Marcelo tornou-se verdadeira e intensa porque ambos sabiam que não havia interesses materiais por trás dela. Quando ouvia os problemas que Marcelo enfrentava, Elinaldo agradecia por ter paz e uma família que o considerava herói do lar. Era crítica a situação de seu amigo. Quantas e quantas vezes Elinaldo não ouvia, na própria metalúrgica, chofer revelando que transava com a mulher do dono da empresa, funcionário fofocando que também conseguira tal feito e até funcionária que jurava que a madame gostava mesmo é de um bom lesbianismo.

Mesmo vendo a vida sofrida do amigo rico, Elinaldo sonhava em ter dinheiro para, pelo menos conhecer o mar, que só vira na televisão. Por esse motivo, e por puro vício, jogava toda semana na Mega-Sena - costume adquirido desde os primeiros salários.

Foi em uma sexta-feira iluminada, onde os pássaros assobiavam, as pombas introduziam suas necessidades em quem tivesse passando, toda poluição sonora, do ar e da mente passava desapercebida, as filas dos bancos continuavam zombando da cara de seus clientes, a mesma zombaria dos compradores de loterias da sorte nas casas lotéricas, enfim, uma sexta normal. Os números apostados por Elinaldo permaneciam os mesmos estigmatizados: 01-02-15-30-46-59- O 01, pelo dia de seu nascimento. O 02, pelo mês. O 15, o da hora jogada. O 30, dos minutos. O 46, da idade, e o 59, do ano de nascimento.

Prova maior de que Elinaldo jogava pelo simples ato de jogar é que, dificilmente conferia o resultado. E dessa vez em que a sorte bateu em sua porta, ele também não conferiu. Sua mente estava atarefada demais pensando em como seria o final da novela e quantos pontos eram necessários para que seu time saísse da zona de rebaixamento do Campeonato Nacional.

Sim, ele ganhou e poderia ser milionário. Mas, não foi o golpe do destino que tirou todas os reais de sua mão. Ao ver no jornal diário a notícia de que fazia dois meses que o ganhador da loteria não aparecia para buscar o prêmio, e que o sortudo morava no mesmo estado que o dele, Elimar fez uma busca enlouquecida nos papéis que guardava na sua carteira. Mas, não contou nada à sua família, pois tinha um medo obscuro que contaminava o seu ser proletário: ficar rico.

Ao fim de uma busca incessante pelo papel, parecida com a de cachorro atrás de cadela no cio, olhou para o pedaço de papel com os números que poderiam mudar outros números, o da sua conta. Pensou em seus filhos totalmente tranqüilos tendo os tão sonhados bens materiais que os iludiam tanto; pensou em sua mulher, admitindo que seria bom dar uma boa recauchutada em sua aparência; pensou naquele carro importado que tanto as pessoas comentam.

Elinaldo ficou sem dormir durante três dias só pensando no que poderia comprar com todo aquele dinheiro. Com isso, seu desempenho na siderúrgica caiu por ladeira íngreme abaixo. Sua mente já não era capaz de nem mesmo prestar atenção no que ele própria pronunciava a outras pessoas. E, para fechar o pacote de clarividências de que algo estava errado, as olheiras carregadas em seu rosto de meia idade fizeram com que Marcelo, patrão e amigo, o convidasse para tirar alguns dias de folga.

O convite foi aceito, com uma condição: a de que Marcelo o levasse para conhecer o mar. Além de realizar seu maior sonho, Elinaldo tinha certeza de que na brisa litorânea poderia encontrar a resposta que tanto precisava: aceitar ficar rico ou não.

Por incrível que pareça, a idéia agradou por demais o rico e triste Marcelo. Ele precisava de um bom amigo, juntamente com um bom lugar para conversar. E, por final, cumprir o que seu tormento tanto lhe pedia depois que o seu amado pai falecera. O mar seria o lugar perfeito para o encontro entre filho pródigo e pai ausente.

Pela primeira vez, Elinaldo foi obrigado a mentir para a esposa. Falou a ela que faria uma viagem de negócios com o chefe Marcelo. Embora achasse estranho um siderúrgico fazer negócios ou viagens, Márcia concordou iludindo-se de que, talvez o marido conseguisse um salário mais digno na empresa. Marcelo, por sua vez, não devia satisfação a ninguém, afinal sua ausência em casa já era praxes e, de maneira cruel, ninguém sentia sua falta.

Chegaram a tão desejada e, ponto-de-partida para mudanças catastróficas, praia. Elinaldo concluiu que esperava mais do comentado e cobiçado mar, porém confessou que nunca havia sentindo tamanha sensação de paz quando a brisa bateu em sua cara no momento em que o sol se pôs por debaixo das águas azuis e estonteantes do Oceano Atlântico. Nesse meio tempo, o amigo rico já havia consumido quase um litro de uísque, juntamente com maços de cigarro. A idéia de encontrar seu pai no fundo do oceano, às vezes perdia consistência por alguns motivos banais, como uma siliconada passando ao seu lado e, percebendo a grife de sua camisa, jogando um charme, isso massageava o seu ego; a recordação de que seu pai não sabia nadar e por isso nunca estaria no mar, também o desmotivava; e até a sincera amizade de Elinaldo, que, em nenhum momento, pediu aumento, dinheiro emprestado e nem se quer uma simples cerveja.

Essas lúcidas e ingênuas idéias de um cara que não está lúcido e que quer se matar durou pouco. Quando Elinaldo sugeriu que fossem embora para o hotel, Marcelo esnobou a idéia e disse que iria tomar um banho de mar. O siderúrgico concordou e encaminhou-se ao hotel, decidido após toda poesia exalada entre biquínis, maresia e tranqüilidade, que a melhor coisa do mundo era ser rico - aceitaria o destino imposto pelos deuses capitalistas, que limpam os orifícios do corpo com dinheiro, e toparia ganhar na Mega-Sena.

Com o cansaço adquirido devido às novidades vividas em um dia só, chegou no hotel e dormiu, ou melhor, desmaiou. Acordou com a triste e, ao mesmo tempo, determinante notícia de que o amigo rico morreu afogado na noite passada.

Voltou para casa, contou à sua mulher a tragédia, beijou seus filhos como nunca havia beijado, brincou com o cachorro, telefonou para a mãe, fez a barba, tomou aquele banho e rasgou em um milhão de pedaços o bilhete premiado.

* Conto feito em 2006; resolvi publicá-lo porque hoje ganhei R$ 4 na Lotofácil

Crédito da imagem: http://bp3.blogger.com

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