quarta-feira, 30 de abril de 2008

Nem tudo está perdido*

Wilame Prado

Eu poderia escrever sobre minhas indagações e opiniões sobre o caso Isabella. Poderia também citar neste texto a verdadeira chuva de limões de gelo, ocorrida em Maringá no feriado de Tiradentes. Poderia, quem sabe, até escrever sobre os poucos mais de cinco segundos de tremores em alguns Estados brasileiros, assunto este que salvou as pautas dos telejornais na terça-feira passada. Escrever sobre o padre voador, que foi transportado para o céu por diversos balões coloridos, talvez desse uma boa homenagem. Mas acho melhor não.

E para quem quer ler estes assuntos citados acima, que procure outras páginas de jornal ou assista aos infinitos plantões de telejornais na tevê. Afinal, que mal tem em escrever sobre o perfume de uma rosa? Ou ainda sobre a sensação de receber um abraço da pessoa amada? Dizem por aí que as pessoas gostam de ler, ouvir e ver sangue, crimes e barbaridades nas notícias diárias. E os meios de comunicação, que não querem sair perdendo, proporcionam tudo isso, e com cobertura vinte e quatro horas.

Mas, nesta terça-feira, neste exato momento em que você está lendo mais um texto da coluna Crônico, existem pessoas sorrindo em Maringá, cidade habitada por pessoas felizes, segundo pesquisas. Eu sei que, a qualquer momento, estará você em uma avenida da cidade e verá mais um motoqueiro estirado no chão. E que também achará o cúmulo mais uma árvore de cem anos, sem mais nem menos, sendo cortada para privilegiar a visão de um outdoor ou de uma loja.

Sei também que, sendo humano, é natural que você queira saber logo quem foi o assassino da menininha de cinco anos. Mas, talvez, enquanto você esteja colado nas notícias da tevê, querendo ver pela vigésima vez a reconstituição da cena do crime feita pela perícia, sua própria filha queira mostrar um novo desenho que fez na escola ou queira brincar um pouquinho antes que você tenha de ir trabalhar.

Por acaso, já regou a plantinha solitária lá da sacada de seu apartamento? Por que você não liga para aquele seu irmão que, há tantos anos, mora bem longe daqui e que vive tão solitário? Esqueça esta história de mandar os parabéns via Orkut para as pessoas que mal conhece. Se não puder falar com elas pessoalmente, ou ligar, mande pelo menos um e-mail pessoal e descreva o que sente por elas. Mas vê se não vai enviar aquelas mensagens prontas. As pessoas querem ser únicas, e são! A gente é que não percebe.

Faz quanto tempo que você não acorda meia hora mais cedo para preparar o café da manhã, evitando assim que sua mulher se desgaste logo pela manhã? Faz quanto tempo que você não diz o quanto ama sua mãe? Por acaso, sem contar os tempos de criança, já beijou alguma vez o rosto de seu velho pai? Eu, que já perdi o meu, arrependo-me de não ter feito isso antes dele morrer.

Comovemos-nos com tudo que a mídia vomita para nós. Mas nos esquecemos de que, ao nosso lado, seja no trabalho, em casa, na faculdade, na rua, existem pessoas que também precisam de atenção, carinho ou de um simples: “como vai, tudo bem?”

Portanto, a partir de agora, desligue essa tevê! Sinta o cheiro de uma rosa, agradeça seu alimento diário e sinta o gosto da comida na boca. Perceba o quanto sua blusa quente te proporciona conforto, e ame-a. Assista a um filme de animação junto dos filhos e perceba o quanto é sincero aquele sorriso enorme estampado em seus rostos. Beije sua mulher como se fosse a última – como cantou o mestre Chico Buarque. E, claro, leia Crônico como se fosse a última crônica que fosse ler, mesmo sabendo que terça-feira que vem tem mais. Afinal, nem tudo está perdido.

Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna Crônico do dia 29 de abril de 2008 (na íntegra)

Crédito da imagem:

http://staticblog.hi-pi.com/gisblogMnt-pt-bloguepessoal/paulofaria/images/gd/1179594684.jpg

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mentiras sobre perseguição recheada de merda

Alguém aí se lembra da mulher que foi encontrada dentro de um bueiro em Curitiba? No dia 22 de fevereiro, postei uma crônica inspirada naquela situação ( leia a crônica Arrependimentos no esgoto aqui), em que a moça dizia ter parado no bueiro porque estava fugindo de traficantes de drogas.

Pois bem. Hoje saiu na Gazeta do Povo uma matéria (leia aqui) divulgando o inquérito da polícia informando que a garota Luci Machado Santana, na verdade, estava sob efeito de drogas e que inventou a maioria daquela história extraordinária, recheada de adrenalina, ratos e merda.

De qualquer forma, foi legal fazer uma crônica sobre o desespero de alguém que literalmente entrou pelos canos.

Crédito da imagem: Ivonaldo Alexandre - Gazeta do Povo

Crônica no Haja Saco

Neste final de semana, o blog Haja Saco publicou uma crônica minha. Trata-se de “Arrumando guarda-roupa de camisola”, já publicada anteriormente no A Poltrona. Para quem ainda não leu, deixo a dica para que acessem a um dos blogs mais legais dos últimos tempos: Haja Saco.

Não que isso seja uma coisa boa, mas, para provar a popularidade do Haja Saco, dia desses, Ivete Sangalo deu as caras por lá dizendo que gostava bastante de ler o blog.

No blog, cinco jornalistas escrevem diariamente, cada um em um dia da semana, e, nos fins-de-semana, os caras abrem espaço para os parceiros publicarem textos também.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Cheirando jornalismo

Wilame Prado

Ele não agüentava mais viver a loucura diária do telejornalismo. Depois de ganhar os principais prêmios como jornalista investigativo e ainda cobrir meia dúzia de guerras pelo mundo afora, queria um pouco de paz. Ao mesmo tempo, queria também dar conta do recado, já que acabara de conseguir um novo emprego, em uma outra emissora de televisão. Resolveu, então, cheirar umas fileirinhas de pó para se manter ligado.

Conseguir a droga foi fácil, pois sua agenda de contatos perniciosos era extensa. Os marginais achavam chique dar entrevista a ele, que parecia não ter medo de bandido. O jornalista só não esperava, um dia, cair em uma cilada, em um flagrante premeditado. Logo ele – um jornalista de credibilidade.

O fato é que juntamente com o vício estimulante de cheirar cocaína, surgiu na vida do jornalista um caso de amor com a senhora que intermediava seu mundo burguês com o mundo sujo do tráfico. Ambos se divertiam fazendo fileirinhas sobre a mesa transparente de vidro; achavam legal improvisar um tubinho com um dólar lembrando alguns filmes norte-americanos.

Mas a fase boa do casal passou. Embora precisasse da droga para continuar mantendo seu pique de guerra na busca por fontes inimagináveis e entrevistas bombásticas, o jornalista tinha consciência de que seu verdadeiro mundo ainda era o dos burgueses. Conseqüentemente, teria de manter as aparências e, sendo assim, arranjou uma namorada quinze anos mais nova, com um belo sobrenome pomposo.

Isso bastou para que o amor da companheira de pó do jornalista virasse ódio mortal. Prometeu para ela mesma que mancharia a irretocável imagem de "jornalistazinho modelo". Ligou para ele e o seduziu com dez papelotes, da "boa". Armou o flagrante e esperou ver o circo pegar fogo para começar a dar entrevistas reveladoras na grande imprensa. Deixou combinado que esclareceria os fatos no excelente programa televisivo de Luciana Gimenez.

Embora tivesse caído na tentação e ter acreditado que conseguiria gramas de pó facilmente, o jornalista sabia muito bem como se livrar dessa enrascada. Caiu na risada quando recebeu de presente um livro de auto-ajuda de uma senhora que dizia ser sua fã. Embora não tenha conseguido entrar na prisão, ela fez questão de declarar que acreditava na inocência de seu jornalista preferido.

Ele foi solto. Em depoimento, disse ter sido obrigado a cheirar pó para conseguir êxito na busca por fontes. Seu programa, mais do que nunca, é sucesso de audiência. No desespero, a ex-amante do jornalista se queimou na mídia ao armar um barraco no Superpop. Agora, entre uma reportagem e outra, o jornalista arranca as folhas do livro "Minutos de Sabedoria", único presente recebido na prisão, para fazer tubinho e cheirar carreiras estimulantes de cocaína sobre a mesa transparente de vidro.

Crédito da imagem:

http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/Images%5Ccocaina_snifar.jpg

terça-feira, 22 de abril de 2008

Os mortos, agora, na minha sala de jantar

Esta semana tive uma bela surpresa. Trata-se de um presente, ou melhor, dois. Chegaram pelos Correios, direto de Santos-SP, um exemplar do livro Os Mortos na Sala de Jantar e um exemplar da revista de poesia, tradução e crítica Babel. Ademir Demarchi, colunista do jornal O Diário do Norte do Paraná, que escreve todas as quintas-feiras a coluna Babel, é autor do livro e editava a revista de poesia.

Gostaria de agradecê-lo em público e aproveitar para recomendar a leitura de seus textos, cheios de prosa, poesia, ironia e sensibilidade. Como é bom receber livros de presente!

Demarchi é maringaense radicado em Santos. Ele me disse, por e-mail, que já fez muito barulho por aqui, contribuindo para a construção do Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade. Além disso, Demarchi, na época estudante de Letras, militava ativamente no Centro Acadêmico e inclusive já invadiu Reitoria e Restaurante Universitário em busca de melhorias para os alunos da UEM.

Para quem quiser ler a coluna Babel, e não quer dar R$ 1 para comprar o jornal O Diário de quinta, o link se encontra na seção Boas Leituras do blog. Para adquirir exemplar do livro de Demarchi, basta entrar em contato com o autor pelo e-mail: ademirdemarchi@uol.com.br

É isso aí Demarchi, seguimos na luta! No momento, estou degustando suas poesias. Assim que terminar de ler, faço algum comentário aqui no A Poltrona. Bibliografia de Demarchi: “Os mortos na sala de jantar” (2007)

“Volúpias”(1990)

“Janelas para lugar nenhum”

“Espelhos incessantes”

“Passagens - Antologia de poetas contemporâneos do Paraná” (organização)

Uma matéria feita pelo Diário com Demarchi: http://www.odiariomaringa.com.br/noticia/169304

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Dia Nacional do Livro

Wilame Prado

Quando aprendeu a ler, passava todo seu tempo dentro do carro, no caminho entre a escola e a casa, olhando por todos os outdoors e tentando decifrar aqueles símbolos lingüísticos. Quando, em sua empreitada, surgia coisas do tipo Y, ou ch, ou à, ou palavras em inglês, logo recorria à mãe, que então o auxiliava na leitura com maior prazer.

Muito tempo se passou. E os ciclos de sua vida foram mais ou menos assim:

- Gibis da Turma da Mônica;

- Coleção Vaga-lume;

- livros indicados para o vestibular;

- Luis Fernando Veríssimo;

- Obra completa de Gabriel García Márquez;

- Escritores russos;

- John Fante e José Saramago;

- Qualquer coisa que surgir pela frente, desde bula de remédio até Ulisses, de James Joyce, quem sabe?

O mundo mágico da leitura proporciona prazeres imensuráveis, pelo menos para mim. O estimulo à imaginação faz com que qualquer situação de vida se transforme em fatos ou idéias para histórias escritas.

Neste 18 de abril, Dia Nacional do Livro, e dia da luta contra o analfabetismo, desejo que todas crianças desse Brasil possam ter a oportunidade de descobrirem o Mundo Mágico da Leitura. Podem ter certeza de que ler um livro é melhor do que assisti a desenhos, filmes, ou ouvir música. Talvez, uma das invenções mais louváveis desse singelo Planeta.

Passem mais tempo em bibliotecas. Vocês vão ver que ela não é composta somente por ácaros, poeira e livros amarelados ou velhos. Afinal, como já diz o jargão popular, “ler também é um exercício”.

Crédito da imagem:

http://www.bomcaminho.com/img/tcBookworm.gif

terça-feira, 15 de abril de 2008

Moços velhos*

Wilame Prado

Pelas frestas do portão metálico cor-de-cinza, o velho olha a rua e seus personagens. Cachorro comendo barata e gato fugindo de rato; pessoas indo e vindo não se sabe para onde numa hora dessas; carros toda hora, intercalados com motos barulhentas e caminhões idem; árvores tão velhas quanto ele, com a diferença de que ainda têm força para permanecerem em pé.

Ele é velho, mas nem tanto em anos de vida. Não fosse o mal de Alzheimer, aquele seu sorriso de moleque e olhos de coruja ainda podiam dar algum trabalho para sua senhora. Rugas há, profundas, parecendo sulcos cheios de poeira. Histórias para contar, há também, de monte. O problema é que poucos querem ouvir. As pessoas preferem a televisão ou a internet. É mais cômodo.

Mas tem um moço que é cheio de prosa e louco para ouvir histórias de vidas - não basta apenas assistir aos filmes de drama ou esperar os monstros que ficam debaixo da cama – quer conversar e precisa entender o porquê de tantos olhares para o nada, para o além frestas de portão. O velho estampa sorriso, mesmo falso e sem força, quando o moço quer prosear. Ele diz para o moço que seu mal é maligno mesmo. E que a abstração de determinadas atividades o faz ficar ali, olhando por entre as frestas cor-de-cinza do portão.

Às vezes, percebe-se que, devido ao abafamento do pequeno espaço onde o velho fica a testemunhar o olho da rua, seu cheiro exala brabo, forte e predomina o ar – o clássico cheiro de velho. O moço nem liga. Ele quer prosear e fica feliz, ao mesmo tempo lamentoso, quando ouve pela enésima vez a história que o velho sempre conta sobre seu pai - inválido depois de quebrar a espinha em um acidente com uma árvore serrada.

Quando é dia de brincadeiras e risos de felicidade passageira, o velho parece nem lembrar, sem ironia, que tem Alzheimer. Brinca, envolve-se na dança de caçoar os outros meninos e, dessa maneira, torna-se um menino. Aí não se sabe mais quem é moço ou quem é velho. Talvez os dois sejam moços velhos.

Mas quando lembranças de um passado longínquo e triste entram na cabeça do velho, sorriso amarelo e sem dentes é o máximo que pode dar. E é aí então que tristes dramas escorrem de sua linguagem de língua enrolada – ele muitas vezes não consegue se pronunciar. Para o moço ouvir acertadamente, tem de apurar os ouvidos e fazer cone com a mão envolvendo as orelhas. O moço nem liga. Quer mesmo é prosear.

A tão lendária pescaria que o velho praticava com seu mais velho ainda jaz avô, é outra história que ele insiste em contar. Diz que "vô é vô e dele nunca me esqueço". Mas já se esquece de muita coisa, como o caminho de volta para casa e até o nome de parentes. Lembranças de um passado bem antigo preenchem as tardes do velho quando fica olhando por entre as frestas do portão cor-de-cinza.

As prosas entre moço e velho duram pouco mais de cinco minutos. Mas o moço nem liga, quer mesmo é prosear. O velho também não liga, embora muitas vezes prefira se abstrair olhando para o infinito de suas lembranças, com olhar fixo nas frestas do portão, pois sabe que o tempo, malvado que só, leva sua memória dia após dia, em conta-gotas de esquecimentos.

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna semanal Crônico, no dia 15 de abril de 2008

Crédito da imagem: http://farm2.static.flickr.com/1234/1148143610_4aa3dcf7d2_o.jpg

segunda-feira, 14 de abril de 2008

"É trista viver de humor" traz piadas inteligentes

As indicações de Boas Leituras do A Poltrona têm um novo blog. Trata-se do É triste viver de humor, blog do jornalista paulista e “pseudocartunista” Marcelo de Andrade que, entre humor corrosivo e desenhos bacanas, mostra que bom-humor inteligente é com ele mesmo.

Confiram o blog. Vale a pena, pois, ultimamente, difícil é achar algo que seja engraçado e inteligente ao mesmo tempo. Andrade vem conseguindo.

sábado, 12 de abril de 2008

Observador*

Wilame Prado O celular tocou. Era um colega me convidando para ir a algum bar. Ele queria me expor suas idéias sobre uma palestra que realizaria daqui alguns dias. Mas, na verdade, no bar, nem tocamos neste assunto. Antes de ir ao bar, no apartamento, não resisti e tomei um cálice de vinho e duas cervejas long-necks. O clima era agradável, típico de um outono ameno.

Saí. Quase dez horas. Confesso que o frio já não era problema, pois o álcool circulava perfeitamente nas veias. De quinta-feira, tinha apenas duas aulas na faculdade, mas fui diretamente ao bar onde o colega me esperava. Havia mais dois na mesa do bar: um estudante de farmácia e um biólogo desempregado.

A partir de então, comecei a observar. Tenho esse costume de olhar tudo ao redor e tentar entender a vida de outra forma. O contexto do local era de alguns jovens desregrados fora da faculdade, simples apreciadores de mesa de bar, “filhinhos de papai” e “patricinhas” se preparando para irem ao desejado “tuchi-tuchi” e os integrantes da periferia, que são a roda da engrenagem de toda noite rodeada por drogas, álcool e prostituição, disfarçada de azaração.

Eu não sou hipócrita, apenas observador. A noite continuava tão bela! Devia ser a grande lua estampada no céu. Ou quem sabe aquele copão de cerveja ingerido em poucos minutos? Apesar de todas as sensações sentidas naquela noite, não deixei de observar, afinal, esse era o objetivo do momento e de todas as vezes em que me deparo com o mundo. Eu preciso observar para poder registrar.

Observei, também, a função que o meu colega fazia naquele momento. Interação de pessoas, junção de mundos diferentes e criação de vínculo enorme de cidadãos com ideais distintos, mas que, de alguma forma, se combinam e se auxiliam para o bem de todos. Ele é um articulador e também se beneficia com isso.

Todos daquela noite precisavam jogar sinuca; precisavam beber cerveja e vodka; precisavam vender e comprar; precisavam fumar, e não só nicotina; precisavam se mostrar másculos para as fêmeas e vice-versa; precisavam se fazer de amigos para terem amigos; precisavam rir alto e ainda gritar; precisavam falar sério de assuntos sérios mesmo estando embriagados e chapados; precisavam gastar petróleo, pneu e poluir o ar; precisavam agredir os decibéis permitidos para mostrarem que são fora da lei e são ouvintes do seu equipamento moderno de som; precisavam divulgar a balada de amanhã para amanhã continuarem precisando e assim eternamente vão as noites dos integrantes da corriqueira e exótica vida noturna. E eu não sou hipócrita, mas estava só observando.

O Flamengo ganhou e ia para a final da Copa do Brasil. Alguns fanáticos realmente tiveram coragem de comemorar e gritar, no meio do bar, mesmo eles sendo solitários na sua paixão esportiva, afinal estavam no Norte do Paraná e os times do Rio não tem agradado faz tempo.

A noite está quase ao seu fim, pelo menos para mim. As fêmeas já foram para não sei onde. Elas sempre somem e isso é difícil observar, elas são ligeiras. O articulador me possibilitou alguns contatos diferenciados: integrantes do hip-hop, tatuador barateiro, promoter de festa funk, circuladores de baseados, intelectuais inconformados, entre outros. Para mim, a observação vai se concluindo junto com os gostos, as luzes e as sensações. O frio agora já incomoda um pouco, mas eu moro perto. O articulador vai embora de carona e eu pego uma carona com os meus pensamentos, que já tentam tirar uma conclusão de toda observação feita naquela noite. Acho melhor fazê-la amanhã, depois de um café preto. A única coisa que não consigo parar de pensar no momento é se alguém me observou, mesmo eu não sendo hipócrita.

*Crônica feita em um mês de maio gelado e solitário de Maringá, 2006

Crédito da imagem: http://sp6.fotologs.net/photo/38/56/72/morta/1194538725_f.jpg

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Oração do jornalista*

"Deus não deixe eu chegar atrasado à redação.

Que eu possa Senhor cumprir minha pauta, conseguindo informações corretas e úteis, sem aparecer mais que o entrevistado.

Que eu consiga uma boa fotografia.

Que a câmera filmadora não falhe e o motorista esteja disponível.

Senhor, tomara que a internet não saia do ar e que o meu editor não esteja de mau-humor.

Peço-lhe Senhor, muita paz e tranqüilidade durante a entrevista e discernimento para fazer a matéria justa e bem elaborada.

Que o tempo seja suficiente para cumprir a outra pauta que me aguarda, logo em seguida,

do outro lado da cidade.

E que o meu trabalho contribua para diminuir a desigualdade social, e ajude a melhorar a qualidade de vida do planeta.

Que eu entregue tudo a tempo e não sofra nenhuma agressão.

Ou pior, seja alvo de uma bala perdida, virando notícia.

Que a matéria seja simples sem ser simplista.

Que não seja prolixa e sim criativa.

Que eu não cometa nenhum erro de português, Senhor, para não ser massacrado pelos colegas.

Principalmente Senhor, que eu não caia no pescoção...

que possa pagar minhas contas com esse salário e que nenhum jabá

me seduza.

E, finalmente, meu Deus, me ajude para que eu possa entregar tudo revisado e no prazo do dead line. Assim seja!"

* Autor desconhecido

Crédito da imagem: http://fernandasouza.files.wordpress.com/2007/05/010a.jpg

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Jornal Matéria Prima volta com fôlego renovado em 2008

Ano passado, tive o privilégio de ser um dos colaboradores do Jornal Matéria Prima, atividade experimental do curso de Jornalismo do Cesumar. Quem inventou o jornal, e que vem firme e forte ensinando pupilos a escreverem matérias opinativas e noticiosas, é a professora Rosane Barros, que também é pauteira e editora do simpático Jornal de Londrina. Este ano, os acadêmicos do 2º ano iniciaram seus afazeres jornalísticos e produziram a 1ª edição do Jornal Matéria Prima de 2008, recheado de crônicas, notícias e artigos. Acompanhem, leiam e opinem aqui.

Carteiro alienado*

Wilame Prado Carlão resolveu prestar concurso para trabalhar nos Correios. Foi aprovado, mas quatorze posições abaixo do candidato que conquistou a última vaga. Algum tempo se passou e ele já tinha até se esquecido disso quando chegou em sua casa uma pequena correspondência. Era a convocação para o cargo de carteiro. Depois de ser aprovado no teste físico, pediu as contas no escritório, onde era office-boy, e ainda teve uma semana de folga antes de entrar nos Correios. Passou as tardes desses dias contando nuvens no céu, só imaginando aventuras mil que teria como carteiro: brisa na cara ao pedalar pelas ruas; mulheres solitárias que, ao receberem cartas, o paqueraria e o convidaria para tomar café; jovens felizes por receberem suas revistas mensais; ou nerds eufóricos com a entrega de futilidades compradas pela internet. Mas o ingênuo recém funcionário público se esqueceu de pequenos detalhes que acabam dificultando a vida de um pobre carteiro. Enfrentar cachorros raivosos, chuvas torrenciais nas costas ou sol rachando no rosto só não era pior do que seu mirrado salário. Arrependeu-se de não ter lido o edital do concurso. Por todos esses descontentamentos, ele quase chorou de emoção quando ficou sabendo da greve da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Poder ficar pelo menos um dia em casa, sem pedalar, sem se queimar, sem se molhar, mereceu almoço especial e suco de caixinha à vontade. Na verdade, Carlão nem sabia ao certo quais eram as reivindicações que os carteiros e os sindicalistas tanto almejavam. Foi lendo o jornal impresso que descobriu que o reajuste deveria ser pago em razão dos diversos riscos que os carteiros sofrem diariamente, como atropelamentos, tombos e as intermitentes mordidas de cães. Ele, então, começou a refletir ao olhar as cicatrizes que ganhou nas pernas graças às mordidas incontidas de um poodle raivoso e de um pinscher enlouquecido. Lembrou-se de quando ficou mais de um mês com o nariz escorrendo por ter entregado cartas em meio às águas de março e lamentou não ter providenciado um atestado médico sequer. Enraiveceu-se. Tacou o copo com suco na parede quando finalmente acordou da alienação e passou a enxergar o verdadeiro valor de seu nobre trabalho - o de entregar correspondências. Vestiu seu uniforme amarelo e azul e se comparou aos craques da Seleção Brasileira na hora em que estão sussurrando o Hino Nacional antes dos jogos; calçou as botas pretas e se imaginou um soldado do Exército; ajeitou o boné, tomou mais um gole de suco e foi à luta. Propôs aos amigos carteiros de Maringá que também lavassem a entrada dos Correios da avenida XV de Novembro, imitando o protesto ocorrido na sede da empresa, em Curitiba. Mas Carlão acabou sendo motivo de piadas, pois só ele ainda não sabia que a greve já havia se encerrado. Seu salário, que já era pequeno, ficou ainda menor com o desconto de um dia que faltou por ter ficado em casa tomando suco de caixinha. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna semanal Crônico, no dia 8 de abril de 2008 Crédito da imagem: Fotografia de Jonas Oliveira, do portal Bem Paraná

terça-feira, 8 de abril de 2008

Fotografia de Jorge Mariano

Agradeço ao fotógrafo Jorge Mariano, atualmente trabalhando no Hoje Maringá e amigo de sala. Ele é o autor da nova fotografia que coloquei em meu perfil. O cara manda bem na foto e, a cada dia, procura se especializar ainda mais. Algumas fotos dele, estão aqui: www.jorgemariano.blogspot.com

domingo, 6 de abril de 2008

Anivérsario de 80 anos da vó Luzia

Hoje minha avô Luzia Garcia do Prado comemora seus 80 anos de vida. Minha família, que não é pequena, fez um churrasco na casa dela, em Santa Fé. Passei minha tarde por lá. E eu, como sou um pé rapado, só pude dar a ela um singelo presente sem valor comercial: uma carta. Quando minha tia Glauciane leu em voz alta a bendita carta, não teve jeito e quase todos que estavam presentes derramaram lágrimas. Isso porque, a história de vida da minha avó Luzia é muito triste. A começar com a perda de sua mãe aos 9 anos de idade. E, mais recentemente, a perda de seu marido João Azarias do Prado, no dia 7 de novembro de 2005, e a perda de seu filho Mário Azarias, no dia 7 de novembro de 2007. No final da carta, desejei a ela que vivesse, pelo menos, até os 100 anos, sempre com suas histórias e conselhos valorosos. Depois das lágrimas, procuramos varrer um pouco todas as emoções e partimos para as felicidade. Bolo, roda de viola e muita conversa fiada. Como é bom rever a família. Mas, devido a correria, agora só daqui um mês voltarei para a pequena e perdida província de Santa Fé (distante 45 km de Maringá). Crédito da imagem: http://www.weno.com.br/rascunhos/vovo_ninja.jpg

Em busca de uma boa reportagem de cinema

Eu e minha querida amiga de sala Renata Mastromauro estamos realizando uma séria de entrevistas para a revista que o 3º ano de jornalismo está fazendo. Não vou revelar o assunto de nossa reportagem, mas posso dizer que tem a ver com cinema. Na foto, Paulo Campagnolo ao lado de um cartaz cujo filme foi apresentado no projeto Um Outro Olhar Já realizamos duas entrevistas com o coordenador do projeto Um Outro Olhar, Paulo Campagnolo, o qual tem nos direcionado ricas informações. Estamos atrás do Paulo Petrini, que tem um dos melhores acervos fílmicos de Maringá, e também do coordenador do Festival de Cinema de Maringá, Pery de Canti. Se alguém souber o e-mail dele, por gentileza, repasse para mim. Campagnolo também vai nos repassar alguns contatos de diretores brasileiros que estão fazendo uns filmes legais por aí afora. Assim que a revista sair do forno, darei um jeito de disponibilizar no A Poltrona, pelo menos, essas reportagens. Crédito da imagem: http://www.odarainternet.com.br/supers/cinema/imagens/paulo-campagnolo.JPG

1 mês de contador no blog divulga média de quase 60 visitas diárias

Faz um mês que coloquei o contador no A Poltrona. Totalizando um número de 1760 visitantes, a média é de 58-59 acessos diários. Nem sei como tanta gente continua acessando esse modesto blog, pois publico em média apenas 2 textos por semana. De qualquer forma, agradeço imensamente aos visitantes, principalmente os ativos que fazem questão de deixar seus comentários. Continuamos na luta, sempre! Abraço a todos!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bilhete premiado*

Wilame Prado Elinaldo era um típico trabalhador brasileiro. Na siderúrgica, passava oito horas diárias para ganhar um salário que o permitia comer e fazer mais algumas coisas. A sua mulher, Márcia, também disponibilizava sua força de trabalho na siderúrgica como cozinheira. Iam embora juntos para o lar. Os dois apreciavam a paisagem cinzenta e poluída sonoramente, sempre discutindo o que fariam no jantar. Iam de pé na circular.

A religião era respeitada e temida, porém, aos domingos, o casal não tinha ânimo para ir à missa. Mas, todo dia, Elinaldo agradecia a Deus por ninguém passar a mão na bunda de sua mulher na circular, pois o medo de brigar e ser o centro das atenções invadia o ser do proletário. Márcia, entretanto, rezava apenas para que conseguisse engravidar, de uma vez, porque não agüentava mais a rotina de ir e vir do trabalho diariamente - queria uma licença maternidade. E conseguiu.

Ronaldo é o nome. Ronaldinho, apelido. Homenagem do pai para com o seu maior ídolo, de sua maior paixão, o futebol. No domingo a tarde era sagrado o “futebolzinho” na tv. A mãe bem que tentou por o nome de Gabriel, mas Elinaldo conseguiu persuadi-la com um discurso inflamado cujas palavras-chaves eram: fenômeno, artilheiro e sorte.

Realizados os pedidos: nunca passaram a mão em Márcia e a licença maternidade foi adquirida mais uma vez. Gabriela, escolheu a mãe.

Família típica classe média baixa. Chegar a esse patamar sempre foi um sonho para Elinaldo, o ex-pobre. Fazer economia sempre foi regra em toda a trajetória do casal, sabe para quê? Para ter um automóvel, uma casa, dois filhos que não passam fome e uma viagem por ano até a cidade pequena dos pais de Márcia e Elinaldo. Vidão!

Os dias passavam como folhas jogadas ao vento de um outono quando, incrivelmente, Elinaldo se tornou amigo de uns dos donos da empresa que trabalhava. Isso porque, em um jogo no estádio de futebol, depararam-se, lado-a-lado, torcendo pelo mesmo péssimo time e tomados pela famosa sensação de que já se conheciam de algum lugar.

O seu mais novo e único rico amigo, Marcelo, herdara a siderúrgica de seu pai, que faleceu no momento errado, onde a empresa mais precisava dele. A bomba dos negócios explodiu nas mãos do ex-vagabundo disfarçado de engravatado em um setor inventado da empresa, Marcelo. Embora já levando os negócios por três anos, os prejuízos adquiridos só tinha um fim: a falência.

Enquanto esse divino momento de fechar as portas e fugir para o exterior não chegava, Marcelo vivia em uma incrível pilha de nervos, achando absurdo sua esposa ter mais de mil pares de sapatos e não se comovendo com a historia furada dos filhos que, para comprar mais alguma coisa cara, simulavam complexos de inferioridade para com os amiguinhos ricos da escola particular que estudavam.

Após a morte do pai de Marcelo, sua mãe enlouquecera completamente, fazendo tudo quanto é plástica, arranjando namorados trinta anos mais novos e viajando pelo mundo inteiro. E ele não se queixava, afinal, a velha já tinha derramado muito suor pela empresa.

Sem falar nos inúmeros parentes que se multiplicavam a cada hora, em que o esporte preferido era pedir dinheiro ao primo rico. Todos os churrascos de família tinham de ser patrocinados por ele; todo jovem vagabundo, filho de alguma prima de 3º grau, tinha de estagiar na empresa; sem falar nos tios quarentões que encheram a cara de cachaça a vida inteira e agora precisavam de um emprego para sustentar a família.

Por não agüentar mais a futilidade que o cercava, principalmente da embaixatriz, sua mulher, Marcelo optou por fazer o que todos fazem. Beber e arranjar amantes. A vida dentro de sua residência era insuportável. Dentro da empresa também. Mesmo sabendo que 80% dos amigos que o acompanhava aos bares da vida boêmia eram interesseiros, era justamente lá que podia esquecer de tudo e tomar o seu velho e bom uísque com água de coco. Em conseqüência da embriaguez e do tédio, conseguia o fenômeno de ter uma amante para cada dia da semana.

A felicidade se esquivou de Marcelo desde quando descobriu, aos nove anos de idade, no colégio, que era rico. Isso porque, sabia que o culpado da confusão armada no recreio era ele, mas, após convocação dos pais das crianças envolvidas, o único que saia ileso também era ele, o filho do dono da siderúrgica. E jogar um saquinho de mijo na cabeça do padre-diretor do colégio não era pouca coisa.

A amizade de Elinaldo e Marcelo tornou-se verdadeira e intensa porque ambos sabiam que não havia interesses materiais por trás dela. Quando ouvia os problemas que Marcelo enfrentava, Elinaldo agradecia por ter paz e uma família que o considerava herói do lar. Era crítica a situação de seu amigo. Quantas e quantas vezes Elinaldo não ouvia, na própria metalúrgica, chofer revelando que transava com a mulher do dono da empresa, funcionário fofocando que também conseguira tal feito e até funcionária que jurava que a madame gostava mesmo é de um bom lesbianismo.

Mesmo vendo a vida sofrida do amigo rico, Elinaldo sonhava em ter dinheiro para, pelo menos conhecer o mar, que só vira na televisão. Por esse motivo, e por puro vício, jogava toda semana na Mega-Sena - costume adquirido desde os primeiros salários.

Foi em uma sexta-feira iluminada, onde os pássaros assobiavam, as pombas introduziam suas necessidades em quem tivesse passando, toda poluição sonora, do ar e da mente passava desapercebida, as filas dos bancos continuavam zombando da cara de seus clientes, a mesma zombaria dos compradores de loterias da sorte nas casas lotéricas, enfim, uma sexta normal. Os números apostados por Elinaldo permaneciam os mesmos estigmatizados: 01-02-15-30-46-59- O 01, pelo dia de seu nascimento. O 02, pelo mês. O 15, o da hora jogada. O 30, dos minutos. O 46, da idade, e o 59, do ano de nascimento.

Prova maior de que Elinaldo jogava pelo simples ato de jogar é que, dificilmente conferia o resultado. E dessa vez em que a sorte bateu em sua porta, ele também não conferiu. Sua mente estava atarefada demais pensando em como seria o final da novela e quantos pontos eram necessários para que seu time saísse da zona de rebaixamento do Campeonato Nacional.

Sim, ele ganhou e poderia ser milionário. Mas, não foi o golpe do destino que tirou todas os reais de sua mão. Ao ver no jornal diário a notícia de que fazia dois meses que o ganhador da loteria não aparecia para buscar o prêmio, e que o sortudo morava no mesmo estado que o dele, Elimar fez uma busca enlouquecida nos papéis que guardava na sua carteira. Mas, não contou nada à sua família, pois tinha um medo obscuro que contaminava o seu ser proletário: ficar rico.

Ao fim de uma busca incessante pelo papel, parecida com a de cachorro atrás de cadela no cio, olhou para o pedaço de papel com os números que poderiam mudar outros números, o da sua conta. Pensou em seus filhos totalmente tranqüilos tendo os tão sonhados bens materiais que os iludiam tanto; pensou em sua mulher, admitindo que seria bom dar uma boa recauchutada em sua aparência; pensou naquele carro importado que tanto as pessoas comentam.

Elinaldo ficou sem dormir durante três dias só pensando no que poderia comprar com todo aquele dinheiro. Com isso, seu desempenho na siderúrgica caiu por ladeira íngreme abaixo. Sua mente já não era capaz de nem mesmo prestar atenção no que ele própria pronunciava a outras pessoas. E, para fechar o pacote de clarividências de que algo estava errado, as olheiras carregadas em seu rosto de meia idade fizeram com que Marcelo, patrão e amigo, o convidasse para tirar alguns dias de folga.

O convite foi aceito, com uma condição: a de que Marcelo o levasse para conhecer o mar. Além de realizar seu maior sonho, Elinaldo tinha certeza de que na brisa litorânea poderia encontrar a resposta que tanto precisava: aceitar ficar rico ou não.

Por incrível que pareça, a idéia agradou por demais o rico e triste Marcelo. Ele precisava de um bom amigo, juntamente com um bom lugar para conversar. E, por final, cumprir o que seu tormento tanto lhe pedia depois que o seu amado pai falecera. O mar seria o lugar perfeito para o encontro entre filho pródigo e pai ausente.

Pela primeira vez, Elinaldo foi obrigado a mentir para a esposa. Falou a ela que faria uma viagem de negócios com o chefe Marcelo. Embora achasse estranho um siderúrgico fazer negócios ou viagens, Márcia concordou iludindo-se de que, talvez o marido conseguisse um salário mais digno na empresa. Marcelo, por sua vez, não devia satisfação a ninguém, afinal sua ausência em casa já era praxes e, de maneira cruel, ninguém sentia sua falta.

Chegaram a tão desejada e, ponto-de-partida para mudanças catastróficas, praia. Elinaldo concluiu que esperava mais do comentado e cobiçado mar, porém confessou que nunca havia sentindo tamanha sensação de paz quando a brisa bateu em sua cara no momento em que o sol se pôs por debaixo das águas azuis e estonteantes do Oceano Atlântico. Nesse meio tempo, o amigo rico já havia consumido quase um litro de uísque, juntamente com maços de cigarro. A idéia de encontrar seu pai no fundo do oceano, às vezes perdia consistência por alguns motivos banais, como uma siliconada passando ao seu lado e, percebendo a grife de sua camisa, jogando um charme, isso massageava o seu ego; a recordação de que seu pai não sabia nadar e por isso nunca estaria no mar, também o desmotivava; e até a sincera amizade de Elinaldo, que, em nenhum momento, pediu aumento, dinheiro emprestado e nem se quer uma simples cerveja.

Essas lúcidas e ingênuas idéias de um cara que não está lúcido e que quer se matar durou pouco. Quando Elinaldo sugeriu que fossem embora para o hotel, Marcelo esnobou a idéia e disse que iria tomar um banho de mar. O siderúrgico concordou e encaminhou-se ao hotel, decidido após toda poesia exalada entre biquínis, maresia e tranqüilidade, que a melhor coisa do mundo era ser rico - aceitaria o destino imposto pelos deuses capitalistas, que limpam os orifícios do corpo com dinheiro, e toparia ganhar na Mega-Sena.

Com o cansaço adquirido devido às novidades vividas em um dia só, chegou no hotel e dormiu, ou melhor, desmaiou. Acordou com a triste e, ao mesmo tempo, determinante notícia de que o amigo rico morreu afogado na noite passada.

Voltou para casa, contou à sua mulher a tragédia, beijou seus filhos como nunca havia beijado, brincou com o cachorro, telefonou para a mãe, fez a barba, tomou aquele banho e rasgou em um milhão de pedaços o bilhete premiado.

* Conto feito em 2006; resolvi publicá-lo porque hoje ganhei R$ 4 na Lotofácil

Crédito da imagem: http://bp3.blogger.com

terça-feira, 1 de abril de 2008

Um por todos, todos por um*

Wilame Prado "A vida até que é boa", pensava corriqueiramente Alberto, mais conhecido como Betinho Filho do Vento. Dificilmente passava um final de semana sem cerveja e churrasco; jogava futebol toda quarta e sábado; era capitão do time; organizava amistosos e ia atrás das inscrições para os torneios, que quase sempre resultavam em títulos para o time Sociedade Esportiva União e Amizade. No último jogo, a alegria foi tanta de ver o time entrosado, fazendo até tabelinhas, que Betinho, já com pelo menos três garrafas de cerveja na cuca, declarou amor eterno à equipe e a todos que a integram. Antes das lágrimas emocionadas, gritou o clichê mais conhecido no mundo das competições: "Um por todos e todos por um". Pensando, sempre, na Sociedade Esportiva União e Amizade, Betinho, por ser praticamente dono do time, sentia-se no dever de lavar as camisas da dúzia de rapazes que a suavam para conquistar vitórias. Sobrava, então, para Edna, sua mulher, o serviço de lavadeira. E era sentindo o cheiro de suor de cada um do time que a moça começou a ver despertada sua insaciável vontade de amá-los e sentir-se desejada por um time inteiro de futebol. Com o passar do tempo, e das cheiradas incontidas, Edna sabia que o camisa 8 era o mais perfumado e, sendo assim, sempre o imaginava como o mais bonito. Na camisa número 2, o cheiro acre e dominante a fazia imaginar um homem bruto e viril. A camisa 5 exalava um cheiro exótico e tentador, o preferido dela. Já o cheiro da camisa 10, a do Betinho Filho do Vento, fazia com que Edna se enchesse de ódio e se lembrasse das incontáveis noites que passou, mesmo com um homem ao lado, sozinha, desgostosa. Na briga mais feroz do casal, ela não suportou e sugeriu a ele que fizesse sexo com os integrantes do time Sociedade Esportiva União e Amizade. Nem imaginava que, depois de algum tempo, seria ela mesma a feitora desse ato. No início, para conhecer os donos das camisas numeradas, convenceu o marido de que seria trabalho demais a ele, além de levar todas as camisas do time para lavar, ainda depois devolvê-las a cada jogador. Com isso, então, vez ou outra aparecia na casa de Edna os donos das camisas, fazendo com que, agora, os cheiros que sentia tivessem corpo, rosto, vida. O ato de sentir o cheiro das camisas e depois conhecer pessoalmente o dono se estende até hoje na casa de Edna. O Sociedade Esportiva União e Amizade acabou ficando famoso nos vestiários de futebol como o time que tem a mais bondosa lavadeira e os uniformes mais limpos. Os melhores jogadores da região fazem questão de jogar nesse time. Betinho Filho do Vento, como sempre, está feliz da vida. E, toda vez, antes de começar as partidas, dá o famoso berro "um por todos" e espera, ansiosamente, a resposta dos jogadores, que não titubeiam e, com trocas de olhares sarcásticos, gritam: "todos por um". *Crônica publicada na coluna Crônico no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 1 de abril de 2008, e republicada no blog Crédito da imagem: http://botecodabola.files.wordpress.com/2007/11/uniao.jpg