quarta-feira, 5 de março de 2008

Relato de uma apaixonado pela trilogia "O Poderoso Chefão"

Wilame Prado

- Advertência: Quem ainda não assistiu a trilogia, não leia este texto, pois ele contém partes dos filmes que, se forem lidas antes de assistidas, definitivamente, perdem a graça.

Lembro que, na época, ainda trabalhava na Biblioteca Municipal, final de 2005, quando me intrigaram sobre a trilogia “O Poderoso Chefão”. De impacto, logo fiquei fascinado pelos boatos de que a trilogia era uma das melhores já produzidas em toda a história do cinema. Mas, o ponto de partida desse caso de amor entre eu e esses filmes, deu-se com a leitura do romance de Mario Puzo, o qual serviu de roteiro para a trilogia.

Dos primeiros instantes do livro, que de maneira humorada, Puzo descreve Sony Corleone sendo um cara bem dotado (jumento), até os últimos, com Mike Corleone mandando bala em todo mundo, as letrinhas minúsculas daquele livro sujo e usado (da Biblioteca Municipal não se pode esperar muito) serviram de companhia para todas as madrugadas, umas geladas, outrora abafadas, para todas as viagens de ônibus até a faculdade, e até na própria sala em que, muitas vezes, o livro me gritava por mim, não deixando eu prestar atenção em nada.

Mas, o momento mais marcante dessa história contada em mais de 300 páginas, pelo menos para mim, foi quando o grande Vito Andolini Corleone, o Poderoso Chefão, a essa altura do campeonato aposentado, morre brincando com seu neto Antohny Corleone, filho de Mike, nos pés de tomates. Acredite se quiser: tive crise existencial e chorei como criança. O livro perdeu o brilho para mim, pois achava que ninguém poderia substituir o velho Vito, o mesmo que veio de navio para Nova York e ficou de quarentena por estar doente; o mesmo que perdeu o pai assassinado, e o irmão também assassinado por buscar justiça, e por fim a mãe que foi implorar para o Grande Chefão da cidade Corleone, que não matasse o magrelo Vito, com 9 anos na época – o tiro em sua mãe foi à queima-roupa e assistido pelo pequeno e frágil filho.

Confesso que fiquei mais de mês para ler o romance, mas quando acabou, precisava de mais, deu-me um vazio enorme por dentro, e a saudade daquelas cenas inusitadas que eu imaginava no livro, como exemplo uma mesa de reunião com todos os chefões de gangues, cujo dois deles tiveram a capacidade de se perdoarem pelas mortes de seus filhos envolvidos nos negócios sujos das famílias, me levavam a querer, cada vez mais, assistir à trilogia de Coppola e Puzo.

O destino parece que, muitas vezes, favorece de propósito para que tudo dê errado. Explicando melhor, fiquei seis meses tentando assistir aos filmes, mas vários imprevistos no meio do caminho, impediam-me. Absolutamente todas as locadoras que freqüentava, não disponibilizavam a trilogia. O Box, que estava à venda, era caríssimo, e por esses tempos a situação monetária se encontrava em crise. Estava quase desistindo de assistir aos filmes quando uma luz bateu em minha janela: um grande amigo, de maneira clandestina, copiou os dvd´s para mim.

Madrugadas afora passei assistindo aos filmes, e muitas vezes teimava em voltar cenas que realmente me marcavam. Incrível foi saber que Al Pacino (Mike Corleone) fez os três filmes, envelhecendo ao longo da vida, e nos filmes também. É incrível saber que o pai de Al Pacino nasceu justamente em Corleone, na Itália. Ou que toda vez que aparecia a fruta laranja nos filmes, a próxima cena seria de tiroteios e mortes.

Finalmente o desejo havia sido realizado, mas surgiu um empecilho (ou não?) em minha vida: eu não desgrudaria tão cedo dessa relação com a família Corleone. A psicologia do pensamento deles me influenciou, e hoje tenho alguns desvios comportamentais graças aos filmes.

Psicologia influenciadora – Ao ler o livro, já me encantara com a simples idéia, porém genial, de Vito Corleone em manter, constantemente, um ciclo de amizade baseada em favores prestados. Prova digna de que sempre você será útil para um amigo, é quando Sonny Corleone é baleado e desconfigurado, e Vito pede ao funerário – que no início do filme pede um favor ao Poderoso Chefão, o qual é concedido com a condição de que se mantivesse o laço de amizade e o reconhecimento de que Vito é o padrinho – que recomponha o corpo para que Mama Corleone, sua mulher e mãe do morto, não o veja dessa maneira. As amizades minhas, a partir de então, não que eu detinha algum interesse, eram vistas de maneira sagrada e extremamente importante – com obrigatoriedade de honradez.

Prosseguindo na tentativa de entender o Poderoso Chefão, Vito Corleone, mesmo sendo um gangster cruel e mafioso dos mais perigosos, o italiano não tinha maldade em seu coração. O que ocorria, na verdade, era uma indignação por todas as falcatruas que as pessoas tinham de aceitar dos governantes. Ele, como um cara esperto, não quis ficar aceitando tudo isso e provou que era mais inteligente do que muito engravatado, conquistando Nova York inteira com sua psicologia de manipulação.

Algumas cenas que demonstram que Vito Corleone foi um homem de bem:

- quando brinca com o seu neto na plantação de tomate;

- o seu profundo afeto pelo afilhado, Jonh Fontane;

- sua capacidade de perdoar o assassino de seu filho (embora fora uma estratégia fria e calculista e que a vingança viria tempos depois com Mike Corleone);

- no segundo filme, quando Vito ajuda a sua vizinha que estava sendo despejada por não pagar aluguel.

Para ser o verdadeiro Poderoso Chefão é preciso, acima de tudo, frieza e determinação no cumprimento dos objetivos. E, claro, matar os traidores e os inimigos.

O papel de mafioso coube muito bem a Mike Corleone que, até que tentou ser um jovem desligado da máfia, mas quando levou um cruzado de direita do Capitão McCluskey, o sangue siciliano ferveu em suas veias, iniciando assim sua longa e dolorosa sina de mafioso e assassino implacável.

As qualidades de Mike, filho homem mais novo de Vito, não são muitas, porém nunca se viu tanto amor pelos filhos e pela família que, segundo ele, deveria estar sempre unida.

Mike Corleone foi tão frio que, sem titubear, matou seu próprio irmão Fredo Corleone que, pela sua ingenuidade, traiu os negócios da família. Tomou um balaço enquanto rezava uma Ave Maria para pescar um peixe ao filho de Mike, Anthony Corleone.

Esse fantasma, chamado Fredo, perseguiu Mike até os seus últimos dias de vida. Embora tenha feito muitas doações à Igreja Católica, embora tenha ajudado inúmeras criancinhas da Sicília, Mike não se esqueceu, por um dia sequer, o fato de ter assassinado seu próprio irmão.

Essas e outras peripécias da Máfia dos Corleone você encontra nos filmes de Frans Ford Coppola, Poderoso Chefão I, II e III, ou no livro de Mario Puzo, The Godfather, obras que já estão marcadas nas páginas douradas da literatura clássica e do cinema idem. Aliás, marcadas também em minha perna, em forma de tatuagem.

Crédito das imagens:

Imagem 1:http://www.neville1.com/stuff/wallpapers/Godfather.jpg

Imagem 2:http://images.art.com/images/-/Al-Pacino---The-Godfather-Photograph-C10101651.jpeg

Imagem 3: André Tatuador

8 comentários:

Mouse disse...

Wilame

Belas recomendações, infelizmente não tive a oportunidade de assistir e nem ler o livro, mesmo porque não leio muito! Apenas sei que tudo se passa de certa forma com ato de manipular tudo e todos! Espero que isso não seja um lema de sua vida! Mais uma vez um belo relato meus parabens!

Fabio Chiorino disse...

Wilame, o livro do Puzo é fantástico. Por isso mesmo, só aumenta o valor da trilogia (fácil a melhor da história do cinema). Afinal, como é difícil reproduzir um ótimo livro para as telas de cinema. Cara, por último, não poderia deixar de parabenizá-lo pela tatuagem. Queria ter sua coragem e menos pêlos na perna para copiá-lo rss
abraços

Nanda Lima disse...

Massa mesmo é aquela cena do cavalo, não é?

Incrível.

:-)

Anônimo disse...

Caro amigo, gostaria de saber se vc sabe o que quer dizer o desenho da sua tatuagem?
Eu realmente não sei, mas a imagem mostra bem uma mão segurando um aparato de marionete, o caso dele ter um formato de cruz, será que tem algo haver com a igreja, já qu e vimos em algumas passagens a manipulação da mesma pela máfia.

cabanalo@hotmail.com

ADILSON disse...

na imagem mostra bem uma mão segurando um aparato de marionete, o que quer diser??????????

Marcus Duarte disse...

Muito bom.,
A minha história com o filme, é bem parecida.,
depois de ouvir tanto falar, surgiu a oportunidade de ler o livro.. imediatamente depois, assiti os três filmes, no mesmo fim-de-semana.,
É com certeza, o melhor filme que já vi., ou emlhor.. os 3 melhores!

bob disse...

Wilame...estava procurando imagens do poderofo chefão e achei sua tatuagem...acabei lendo todo o seu relato e como vc tbm sou um fã da trilogia.

Não tive a oportunidade de ler os livros ainda mas chorei e fiquei batendo palma sozinho no final da trilogia !

ah, sua tatuagem será plageada provavelmente, grande idéia !

abraços

Marivone disse...

Linkei seu texto aqui: http://umafabulasobreavaidade.wordpress.com/


Muito bom. Devo a leitura do livro. Só ví os filmes (ou o filme) umas dúzias de vezes....

;)

Adoro!