terça-feira, 25 de março de 2008

A vingança do gordinho mafioso*

Wilame Prado

"Lembrava-se com nostalgia de Os Bons Companheiros, na cena dos amigos mafiosos presos preparando macarronadas"

Na cela da prisão, o companheiro de quarto não agüentava mais ter de emprestar seu colchão para que Salvatore Ferranti - o mafioso gordo de 210 kg - pudesse cochilar em dois colchões emparelhados no chão. E isso a troco de carteiras baratas de cigarros que ele conseguia trazer para dentro da prisão facilmente. Quando passaram em concurso, os agentes penitenciários nunca imaginaram que teriam de ajudar o velho gordo bandido a entrar no banheiro e ainda vê-lo fazer sua necessidades fisiológicas. Realmente, sua presença ali era um fardo para todos que estavam ao redor.

Quando foi preso pela primeira vez, Ferranti, mais conhecido como "Mafioso", já possuía seus 150 kg pesados. O fato de não ter que fugir mais das organizações federais, o fazia engordar diariamente. Mas ele não se queixava de sua mórbida obesidade, adquirida a cada prato suculento das seis refeições sagradas que fazia encarcerado. Lembrava-se com nostalgia de um de seus filmes prediletos, "Os Bons Companheiros", do Martin Scorsese, na cena dos amigos mafiosos presos preparando macarronadas regadas a molho forte de tomate e cebolas graúdas.

Na busca infeliz por um lugar que oferecesse estrutura adequada para um preso de 210 kg, conheceu quatro prisões diferentes. Nesse intermédio, sentiu-se injustiçado e resolveu escrever um manifesto dos gordos carcerários e lutou com todas suas forças para dar um pouco mais de dignidade aos pobres obesos que viviam em condições desumanas nas prisões da Itália.

Em menos de um mês, escreveu um livro sobre o assunto. Por ter computador, internet e muito tempo na prisão, conseguiu mais rápido do que qualquer literato publicar sua obra em uma das editoras mais renomadas da província siciliana. Vez ou outra saía escoltado da prisão para tirar fotografias ou comparecer a noites de autógrafos em livrarias dos shoppings.

O país inteiro se mobilizou e o livro virou best-seller. Entrou para a lista dos mais vendidos e competiu nas vendas de igual com os adorados auto-ajudas. Em pesquisa encomendada, a população achava injusto manter um obeso daqueles na prisão; 20% votariam nele, caso fosse concorrer a cargo político. Sentindo-se acuada, a Justiça Italiana decretou que o mais novo escritor, Salvatore Ferranti, fosse libertado. Mas o mafioso, acostumado com vitórias recheadas de vingança, não deixou barato. Conquistou a mídia, fez seu melodrama e, carregado pelo povo, lutou para que todas as prisões fossem reformadas, dando condições dignas aos presos gordinhos de toda a Itália.

Ferranti voltou a se envolver com a máfia do grande padrinho Salvatore Lo Piccolo. Só que, agora, tem de administrar seu tempo entre matanças fulminantes, estratégias de manipulação e noites de autógrafos para seu mais novo sucesso de vendas: "Os gordinhos também amam".

*Crônica publicada na coluna Crônico no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 25 de março de 2008

Crédito da imagem:

http://furrywater.files.wordpress.com/2007/04/gordo-traco.jpg

terça-feira, 18 de março de 2008

Nascendo*

Wilame Prado

A conversa com o editor chefe do jornal fora marcada. Restava ao garoto cumprir suas funções trabalhistas daquele dia para, finalmente, ir à redação e tentar vender seu peixe, ou seja, convencer o editor chefe de que realmente seria interessante também para o jornal publicar semanalmente suas crônicas.

Uma mescla de excitação e nervosismo era o que sentia. Esperando a hora da conversa, já na redação, pôde vivenciar o que realmente é uma rotina de jornalistas dando retoques finais às matérias para a próxima edição do diário impresso.

Meio perdido, o garoto ainda conseguiu trocar idéias com o diagramador, que argumentava o quanto as sextas-feiras do jornal eram corridas, já que, praticamente, duas edições tinham de ser fechadas. A tão esperada hora chegou. Foi apresentado ao editor chefe. O garoto já o havia visto nas sessões de sábado do Projeto Um Outro Olhar - cinema bom e com entrada franca. Sentou-se em uma das cadeiras estofadas vermelhas, na sala de reunião com paredes vermelhas, e soltou uma frase que fez com que as maçãs do rosto do garoto ficassem também vermelhas: "Então é você que é o homem das letras."

Boquiaberto, timidamente sorriu seu sorriso mais amarelo de todos os tempos. Logo de cara, objetivamente e sem deixar o garoto respirar, o editor mandou uma pergunta arrebatadora, em que a resposta poderia decidir seu futuro como cronista, ou não: "Por que você quer escrever no jornal?" O garoto, na verdade, gostava mesmo é de escrever e não de falar. As perguntas não foram bem respondidas. Talvez, se o editor as tivesse enviado por e-mail para que respondesse, até mesmo em forma de crônica, seria mais fácil para ele.

A idéia de não ser cronista do jornal já enchia sua mente de pessimismo. A tacada final do editor chefe, talvez como válvula de escape para voltar aos seus afazeres jornalísticos, talvez por querer dar mais uma chance ao garoto que há quatro meses mandava crônicas e mais crônicas para o editor do caderno de Cultura, foi sugerir que ele mandasse a penca de textos para seu e-mail.

Um dia se passou. E, pouco antes do pôr-do-sol de uma quinta-feira, o garoto, que sempre teve o sonho de publicar crônicas em um jornal, recebeu uma boa notícia: todas as terças-feiras, no Caderno D+ de O Diário , suas crônicas serão publicadas em uma coluna intitulada "Crônico". Com o sorriso que já não era tão amarelo assim, tomou mais um gole de café e continuou escrevendo seus textos para o resto da vida.

* Crônica publicada na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná no dia 18 de março de 2008

Crédito da imagem: http://dreamsofthemoon.weblogger.terra.com.br/img/escrevendo.jpg

sábado, 15 de março de 2008

Parceria entre A Poltrona e Haja Saco

Em minhas indicações de Boas Leituras, tem lá: Haja Saco - jornalistas cheios de prosa e atualização diária. Pois é. Os caras mandam bem. Cinco jornalistas escrevem um texto por dia, de segunda à sexta, e abrem os fins de semana para que parceiros e colaboradores do blog Haja Saco escrevam no espaço, que tem um ótimo número de visitações diárias. Nesse fim de semana, o Fábio Chiorino, um dos integrantes do Haja Saco, disponibilizou uma de minhas crônicas no blog. Confiram: http://hajasaco.zip.net/ Valeu pessoal do Haja Saco!

"Crônico" nascendo

Bom dia, caros leitores do A Poltrona. Como puderam conferir no post abaixo, na matéria do grande mestre Massalli, a partir desta terça-feira serei colaborador de o Diário do Norte do Paraná, publicando crônicas semanalmente na coluna "Crônico". Gostaria de explicar como isso se sucedeu: Na verdade, faz tempo que eu tento publicar minhas crônicas no jornal, desde a época em que o editor do Caderno D+ era o jornalista Marcelo Bulgarelli - aquele que, entre outros trabalhos, faz o excelente quadro na CBN Ruas da História. Bem na época, ele foi desligado do jornal. Mais um tempo se passou e, em dezembro do ano passado, arrisquei mandar algumas crônicas para o editor chefe Wilson Marini, que me pediu para enviá-las ao atual editor chefe do Caderno D+, Jary Mércio. Mandei. Incrivelmente, o Jary gostou dos textos e pediu que eu fosse no Diário um dia para conversar. Isso aconteceu nas primeiras semanas de janeiro. A partir desse dia, passei a enviar crônicas semanalmente ao editor para que ele analisasse meu trabalho ao longo do tempo. Até que, na segunda-feira, 10 de março, retornei ao Diário e conversei com Jary e com Wilson. Ficou definido, então, que eu mandasse as já 16 crônicas ao editor chefe para que ele finalmente as lesse e desse a batida de martelo. Quinta-feira, 13 de março, recebo e-mail do Jary com a notícia de que eu escreveria às terças-feiras no jornal. Então, o jornalista Fábio Massalli realizou entrevista comigo e o fotógrafo Ricardo Lopes veio até meu apartamento para realizar as fotos. Por fim, a matéria saiu neste sábado e, na terça, publicarei a primeira crônica na coluna "Crônico". Jary Mércio - Gostaria de agradecer imensamente ao editor Jary Mércio, pois abriu-me portas e ainda acreditou em minha literatura. Ele é um baita jornalista e tem revolucionado o Caderno D+ do Diário que, a cada dia tem ficado melhor. Primeira leitora - Agradeço também minha noiva, Denise Morais, que sempre é a primeira a ler minhas crônicas, inclusive contribuindo os corrigindo. Além disso, ela é a pessoa que mais me incentiva, dando-me injeções de ânimo para prosseguir no que realmente eu gosto de fazer: escrever. Sonho - Nesse momento, algumas pessoas podem estar dizendo que eu estou exagerando ao ficar tão feliz por escrever crônicas em um jornal de Maringá, mas quero que saibam que "sim" é um sonho realizado, talvez um dos primeiros sonhos concretizados em minha vida. Agradecimento metafísico - Tantas vezes eu decepcionei as pessoas que estão próximas a mim. Dessa vez, talvez esteja dando orgulho, principalmente aos meus parentes. Como queria que meu pai, Wilame Elias Neto, estivesse aqui para ver isso. Dia 1 de maio, faz um ano de seu falecimento. Como queria que meus finados avôs, João Azarias do Prado, morto em 7 de novembro de 2005, e José Elias da Silva, falecido há menos de um mês, estivessem aqui também para olharem um jornal impresso com minha foto, pois para eles as imagens ainda valiam muito mais do que um texto. Como queria que, tia Vani, tia Silvia e tio Mário também estivessem conosco, pois eram pessoas que sempre acreditaram em meu potencial. Parceiros - Bom. Pelos menos hoje, tenho vários amigos do Jornalismo, amigos da História, amigos de Santa Fé, cidade onde minha mãe e todos os outros parentes moram, minha família (noiva), minha outra família em Mandaguari (o pessoal da empresa que eu trabalho: Cláudia Comunicações & Eventos). Tenho, também, desde 8 de janeiro de 2008, os blog-amigos, os blog-leitores do A Poltrona, os quais sinto muita gratidão. Era uma vez, um sábio chinês...: É aí isso pessoal. Corram atrás de seus sonhos, nem que for o de se transformar em borboleta, ou em um sábio chinês. Abraço!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Novo cronista estréia no D+

Fábio Massalli* massalli@odiariomaringa.com.br

O cronista, blogueiro e estudante universitário Wilame do Prado, 22 anos, vai inaugurar na próxima terça-feira uma coluna de crônicas no Caderno D+, na versão impressa, e no canal de Colunas & Blogs, de O Diário Online.

Antes, o gênero era representado aos domingos pelo jornalista Antônio Roberto de Paula e às quartas-feiras pelo maringaense radicado em Curitiba Farenheit.

A nova coluna, intitutalada “Crônico”, trará crônicas jornalísticas (com situações inspiradas ou baseadas em fatos reais) e literárias (histórias fictícias), mas sempre retratando algum aspecto do cotidiano.

“São passagens da vida que acabam virando Literatura. Para mim, o objetivo da crônica não é formar opinião, mas mostrar Literatura. Cada texto pode levar a uma reflexão e ajudar a alcançar um mundo melhor”, argumenta o jovem autor.

Wilame do Prado Elias nasceu em São Paulo, mas mora em Maringá desde outubro de 2004. Aos 22 anos, tem uma crônica publicada no livro “Literatura Crônica” e um conto que saiu na coletânea “Contos Perversos”. Ele também publica crônicas no blog dele, intitulado A Poltrona, e no site Recanto das Letras, onde publicou a primeira história dele em 2004.

Prado começou a escrever incentivado por um amigo, Flávio Lanza, falecido em 2006 em um acidente de trânsito. Ele trabalhava em uma biblioteca de Maringá, cursava História, gostava muito de ler, mas nunca tinha experimentado a Literatura.

“O Flávio me abriu as portas para isso e também para o meu escritor preferido, Gabriel Garcia Marques”, revela.

“Quando eu li a biografia do Garcia Marques, vi que ele sempre escreveu e que trabalhou em jornal. Como eu consegui uma bolsa do Prouni, tranquei o curso de História e comecei a estudar Jornalismo, mas meu sonho maior é ser escritor”.

Apesar da importância que Lanza teve em toda a história de Prado, o novo cronista de O Diário ainda não homenageou o amigo com uma crônica. “Eu ainda não tive coragem para escrever essa história”, confessa.

Notícia do Diário Online: http://www.odiariomaringa.com.br/noticia/171843

* Fábio Massalli é jornalista do Caderno D+ de O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: Ricardo Lopes, fotógrafo de O Diário do Norte do Paraná

quinta-feira, 13 de março de 2008

Corrida contra relógio para fazer jornalismo*

Wilame Prado

Despertador tocando parece britadeira trabalhando. Mesmo assim, perco a hora - ela sempre me foge às mãos. Por conta do atraso, cuspe no canto dos olhos, remela tirada com o dedo, balinha de hortelã e um gole de café antes de sair para entrevistar a doutora, que não tem doutorado, apenas residência.

Uma dúvida cruel vem à cabeça: ir de moto ou voando? Fosse São Paulo, poderia pegar engarrafamento de helicópteros; aqui em Maringá, o máximo que pode acontecer é um pequeno choque com pássaros ou macacos voadores do Parque do Ingá. Além do mais, mamãe sempre alerta que andar de moto é perigoso e, ultimamente, motoqueiros têm viajado com certa freqüência ao cemitério.

O exercício tradicional de "esquentar banco de consultório" aconteceu mais uma vez. Soubesse da demora, tinha pelo menos escovado dentes e penteado o cabelo. Ainda bem que jornalista já tem fama de desleixado, o que não deixa de ser verdade, tirando o pessoal da televisão, que se derrete em maquiagem nas entrevistas ao ar livre, em pleno sol do meio-dia.

Recebo uma chuva de conhecimentos vitais ao ser humano, lendo revistonas como Caras e Contigo; entedio-me ainda mais e apelo ao vício: um cigarro, dois cigarros, sete cigarros - adoro ficar contando cigarros que ainda restam na cartela.

Depois de conseguir msn, orkut, telefone e posição sexual preferida da secretária, além de tomar dois copinhos de água mesmo sem ter sede, finalmente fui atendido pela médica. Foi quando percebi que tinha esquecido o gravador. O jeito era apelar para o jornalismo clássico com caderneta e caneta na mão e memória ativada. Ela falou tanto e tão rápido que tive de utilizar uma técnica apelativa, a de desfocar o assunto da entrevista para que, enquanto ela falasse sobre este assunto que não me era importante, anotasse o que havia dito outrora e que poderia ser utilizado na reportagem. Sorte ter lido Caras, pois a médica adora falar do Castelo de Caras.

Na corrida contra relógios chego em último lugar, toda vez. Por isso, de uns tempos para cá, sempre que tenho oportunidade, quebro os relógios que encontro. Esses dias, no Bar do Zé, quase apanhei por tacar uma garrafa de cerveja no charmoso relógio com marca de cigarro e carros de fórmula um. Expliquei que gostaria de ficar mais tempo no bar, mas que se chegasse àquela hora em casa, minha garota ia dar nos nervos.

Tenho de escrever ainda a reportagem. É hora do almoço e preciso comer para agüentar de pé até à noite, período que freqüento a faculdade. Em ritmo de escala de produção, dou três garfadas e escrevo uns 220 caracteres (com espaço), em média meio parágrafo; mais três garfadas e mais 220 caracteres. E assim, termino de almoçar, mas não de escrever. Ainda tenho a madrugada depois da aula, horário em que o silêncio grita e a folha em branco cria vida, obrigando-me a escrever vertiginosamente.

Não entendo certos fenômenos que ocorrem de madrugada. Por que o galo canta, sendo que o sol nem nasceu? Por que os "filhinhos-de-papai" derrapam pneus dos carrões e ainda ficam gritando pela janela do automóvel? Por que a descarga do vizinho de cima é tão barulhenta neste horário? Por que tenho medo de ir lá fora, sendo que, aparentemente, nenhuma pessoa está na rua?

E o relógio continua trabalhando; não pára um minuto; seu ritmo é acelerado e o tic-tac vira harmonia dos desesperados. Dia desses, um jornalista havia me dito que o título da reportagem é a parte mais dolorosa de se criar. É verdade, tanto é que já se passaram horas e meu título, ou não atinge os 36 caracteres obrigatórios ou ultrapassa os 40. O jeito é tentar fazê-lo com duas linhas. Deu certo. Porém, ainda falta algo para concluir meu texto e o tempo que tinha para repor energias e descansar para mais um dia de cão já era.

Sorte que tive uma idéia brilhante. Para quê ser inimigo do tempo, assassinando os pobres relógios que vejo? Viro amigo do funcionário proletariado do tempo e, depois de soltar minha lábia, o bom e velho relógio de casa aceita que eu atrase seus ponteiros. Estranho é que, mais uma vez, cheguei atrasado ao serviço.

Finalmente entrego minha reportagem que vai compor o jornal. O assunto diz respeito à vida corrida de estudantes universitários, que abrem mão de sono e alimentação para conciliar estágios, aulas, trabalhos, provas, festas, garotas. Acho que, no fundo, pela correria, a reportagem não saiu das melhores. Mas, valeu a experiência. Pensando bem, acho que talvez sirva até mesmo para mim.

*Publiquei, no dia 10 de janeiro, parte desta crônica neste blog. Hoje, na íntegra.

Crédito da imagem: http://www.gilfilho.blogger.com.br/tempo_.jpg

segunda-feira, 10 de março de 2008

Medo de criança*

Wilame Prado

Quando criança, apavora-me quando mamãe dizia que a água ia acabar um dia. Só para eu não ficar com a torneira aberta quando escovava os dentes ou quando eu decidia demorar-me no banho quente por mais de meia hora. Então, quando ia à praia e via todo aquele oceano azul de águas disponíveis para quem quisesse nadar, pescar, brincar ou mergulhar, indagava-me a ponto de ficar confuso. Por que faltará água se existe tanto dela no mar? Logo me respondiam alertando que água salgada não é potável.

Mas fui um menino teimoso e garantia a todos que um dia inventariam uma forma de transformar toda essa água salgada em água para o nosso consumo. Alguns anos se passaram e a idéia veio à tona mais depressa do que eu esperava. Isso já é uma realidade no nordeste brasileiro.

Com todas as novas tecnologias e constantes estudos sobre um problema que afronta a todos - falta de água -, os dessanilizadores (faz com que água salgada vire um líquido potável), que já são comuns nos Estados Unidos e em Israel, começam a dar resultados em Atalho, comunidade rural de Pernambuco, que fica a 97 quilômetros de Petrolina.

Em Atalho, foi feito um projeto de técnica considerado simples, porém eficaz. Isso porque, além de resultar em água potável para a comunidade, o sistema permite ainda produção de tilápias-rosas e irrigação da erva-sal que serve de alimento para ovinos e caprinos. A cada litro extraído de água potável, fica como resíduo 1/2 litro de água salgada. Ela vai para o tanque de criatórios de tilápias-rosas, que também é fonte de irrigação para o cultivo de erva-sal. O ciclo não pára. O esterco dos animais alimentados pela erva-sal serve de adubo para as plantações de maracujá da caatinga.

Não é fantástico? A vida em seu ciclo proporcionando uma melhora significante para o homem, lhe dando alimento e água. Ele pode comer peixe tomando suco de maracujá, feitos por água limpa. Ou ele pode comer carne de carneiro, beber água e, de sobremesa, um doce de maracujá. São tantas alternativas.

O mundo não é cruel e sim o homem. Os problemas e as dificuldades são vencidos, mas pela falta de conscientização e por pura ignorância moral, eles desperdiçam as oportunidades que temos para fazer um mundo melhor. O meu medo de criança continua, pois sei que, mesmo se conseguíssemos filtrar os cinco oceanos e transformá-los em água potável, o “bicho-homem” dará um jeito de estagná-la rapidamente. Afinal, o monstro chamado dinheiro irá devorá-lo e fazer com que seu bem próprio fale mais alto do que o bem comum. As mudanças globais acontecem quando as partes individuais iniciam as modificações. Por isso, não adianta cobrar nada de ninguém, antes de cobrarmos de nós mesmos. O mundo é composto por nós e ele só vai melhorar se o homem mudar.

* Crônica publicada no livro Literatura Crônica, da editora Andross

Crédito da imagem: http://aquazensia.files.wordpress.com/2007/06/agua.jpg

domingo, 9 de março de 2008

A mídia como arma de guerra

por Izaías Almada*

Se alguma dúvida existia, para muitos de nós, do papel da mídia no jogo internacional do poder, na estratégia adotada pelo capitalismo neoliberal em manter suas conquistas a qualquer preço e subjugar aqueles que não lêem na sua cartilha, essa dúvida deixa de existir quando se analisa friamente os últimos acontecimentos desta semana na fronteira entre o Equador e a Colômbia.

Um país conturbado há sessenta anos por uma luta político-militar interna, onde mais de 20 mil insurgentes em armas, FARC e ELN, disputam o poder com os sucessivos governos eleitos pela oligarquia. A Colômbia viu, em poucas horas, cair por terra a máscara de país democrático e legalista. E como sua política é determinada fora de suas fronteiras ou, provavelmente, em algumas embaixadas de Bogotá, deixou a nu a estratégia adotada por todos aqueles que não querem a paz interna no país. Ou, pior ainda, que precisam conflagrar a região, ampliar o conflito, com propósitos diversionistas, desviando a atenção para encobrir aquilo que interessa ao Departamento de Estado norte-americano.

Senão vejamos trecho de um relatório feito ao presidente Bush em 30 de julho de 2001 pelo National Energy Police Report e publicado pelo jornal The Nation: “os EUA necessitam garantir para os próximos anos o fornecimento seguro, estável e barato do petróleo”. O relatório avalia que três regiões no mundo têm que ser consideradas nessa perspectiva: o Golfo Pérsico, a Ásia Central e o Arco Amazônico andino, leia-se Venezuela, Colômbia e Equador.

Há, contudo, um significativo parágrafo na recomendação a Bush: “Caso não se consiga o petróleo por meios diplomáticos, devemos introduzir na matéria o nosso aparato militar”.

Golfo Pérsico, Irã e Iraque; Ásia Central, Afeganistão. Aqui, como se sabe, falharam os “meios diplomáticos”. O Arco Amazônico andino, contudo, está localizado no “quintal”, o que não deveria causar maiores embaraços, mas surgiram aqui dois empecilhos: o primeiro, Hugo Chávez, e mais recentemente Rafael Correa. O tradicional golpe de estado foi tentado contra Chávez em 2002, mas também não deu certo.

Idéias de soberania, independência, mercados comuns e construção de alternativas energéticas vão ganhando força entre países como Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba. Cria-se a Telesur, a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) em oposição à falecida ALCA, o Banco do Sul, a Petrocaribe, onde países pobres caribenhos podem comprar petróleo da Venezuela a preço mais barato. Um pouco de solidariedade invade os números frios do comércio feito de trocas que só beneficia um dos lados, o mais rico.

Preocupado com os conflitos militares no Iraque e no Afeganistão, com as ameaças ao Irã, com a manutenção de Israel como Estado polícia no Oriente Médio, os Estados Unidos da América perceberam que, a rigor, contam apenas com um governo totalmente submisso na América do Sul: a Colômbia. E talvez já não contem, aqui no seu antigo quintal, só com os “meios diplomáticos” para conseguir o seu petróleo seguro e barato.

Como explicar para o mundo que a invasão do território do Equador pelas Forças Armadas da Colômbia, a que se pretendeu dar um caráter de surpresa, era uma ação preventiva de defesa do território colombiano? E apresentar rapidamente como prova alguns documentos “recuperados” do laptop de um líder guerrilheiro, onde se inferia que 300 milhões de dólares foram dados por Hugo Chávez às FARC, que os guerrilheiros iriam comprar 50 quilos de urânio, que Rafael Correa e Chávez tinham acordos secretos com as FARC, um vídeo onde um soldado, em plano muito fechado, conta dólares supostamente encontrados no acampamento guerrilheiro. Afinal, tudo isso justificaria a ação em território equatoriano. E era preciso que o mundo repercutisse toda a montagem da farsa rapidamente. Rádio, televisão, jornais, internet deveriam espalhar o mais rapidamente possível para as principais capitais européias e para os países da América Latina, em particular, que a Colômbia agiu contra terroristas que até urânio já queriam comprar... (Alguém aí se lembra das armas de destruição em massa de Sadam Hussein?). A mídia foi acionada como arma de guerra, como tem sido usual nos últimos tempos. E com tal violência e precisão que confunde a cabeça de muitos de nós... e chegamos a duvidar das nossas próprias convicções.

Mas em dúvida, sempre podemos nos perguntar:

De onde partiram os aviões e helicópteros que participaram da invasão do território equatoriano e que, pela posição dos disparos, vieram do próprio território do Equador? Seriam da base norte-americana de Manta, cujo contrato não será renovado por Rafael Correa no final de 2008?

Quem dispõe de sofisticada tecnologia de satélites para identificar eventuais telefonemas dados pelo líder guerrilheiro Raul Reyes?

O que foi fazer em Bogotá, dois dias antes do bombardeio ao acampamento guerrilheiro, o contra-almirante Joseph Nimmich, comandante da Força Tarefa do Sul dos EUA?

Onde estaria localizado o laboratório das FARC para enriquecimento de urânio nas selvas colombianas?

Os 300 milhões de dólares que Chávez entregou às FARC teriam sido em cheque ou escondidos em caixas de uísque?

Por quê a imprensa não deu o devido destaque à declaração de um dos últimos reféns soltos pelas FARC, em fevereiro, de que Ingrid Bettencourt, uma vez libertada, se candidataria à presidência da Colômbia?

Teriam Uribe e o Departamento de Estado norte-americano interesse na libertação de Ingrid Bettencourt?

É preciso ter paciência diante de tanta mentira e farsa. Recomenda-se a leitura do livro O Senhor das Sombras, de Joseph Contreras, sobre Álvaro Uribe.

Izaias Almada é autor, entre outros, do livro "Venezuela Povo e Forças Armadas", Editora Caros Amigos.

Artigo recebido por e-mail do Correio Caros Amigos

Crédito da imagem: http://www.whitehouse.gov/news/releases/2007/05/images/20070502_p050207jb-0100-515h.jpg

sexta-feira, 7 de março de 2008

Somos todos iguais - mas uns mais iguais do que outros

Wilame Prado

Seja rico ou pobre, negro ou branco, amarelo ou rosa, todos nós somos iguais. Temos vontades e desejos, desmotivações e depressões. A única coisa que muda é o modo como isso vai ocorrer. Porém, alguns, diferentemente, são imortais.

Sexo – Uns transam com as suas secretárias ou funcionárias de menores escalões da empresa; outros transam com suas patroas que estão deprimidas por descobrir que os maridos a traem com a secretária.

Alcoolismo – Uns, ao final de mais um dia cheio de trabalho na empresa, vai com os amigos tomar chope e pagar 10% a mais para o garçom servir; outros, aglomeram-se no bar do bairro, quanto mais sujo melhor é o bar, e pedem da cerveja mais barata, não sem antes tomar um rabo-de-galo ou uma branquinha.

Ambição – Uns acreditam que ainda terão sua empresa própria; outros sonham que ainda vão ter sua casa própria; uns apostam absurdos em corridas de cavalo; outros freqüentemente apostam no jogo do bicho. Mas no fundo, todos fizeram sua fezinha quando a mega-sena acumulou.

Casamento – Uns casam dizendo ‘eu te amo’ muitas vezes à parceira; outros também. Ambos não entendem como diziam tantas besteiras quando eram jovens.

Filhos – Uns cuidam freneticamente e dão do bom e do melhor para a criança; outros, a partir do momento em que o piá sai da barriga, assinam a carta de alforria e o libera para desfrutar de todas as coisas boas e más do mundo.

Depressão – Uns ficam deprimidos porque seu amigo da empresa foi promovido a supervisor ao invés dele; outros ficam deprimidos porque o pai bêbado matou a mãe e a irmã, e logo depois se suicidou.

Prisão – Uns são presos porque roubaram milhões em cofres públicos, embora fiquem em regime semi-aberto; outros são presos porque roubaram um pedaço de bolo na padaria e amargam uns tempos na cadeia.

Leituras – Uns lêem com muito tesão livros de auto-ajuda e se declaram livres dos problemas cotidianos; outros lêem Cervantes, García Márquez e Saramago e descobrem o quanto são ignorantes e o quanto ainda precisam ler; outros, ainda, não lêem, dão uma folheada na Veja e pensam que têm opinião formada.

Filmes – Uns assistem todos os lançamentos da locadora mais próxima de casa, se acham entendidos de cinema e ainda se orgulham em dizer que viram a trilogia Matrix e Senhor dos Anéis inteiras, embora não tenham entendido nada dos filmes; outros procuram em todas as locadoras da cidade a meia dúzia de filmes intitulados como alternativos, tão alternativos que, muitos nunca viram, fazem estudos densos em comunidades de internet, bem como sites do filme, para depois discutir com outros lunáticos adoradores do mesmo filme. Ambos, no fundo, assistem filmes para contar aos outros que assistiram.

Música – Uns ouvem os cd´s da trilha sonora das novelas das oito; outros ouvem o funk da égua pocotó ou aquela música que diz sobre uma festa no ap e são felizes; outros são alternativos, ouvem músicas com muitíssima qualidade, mas diferentes do que a sociedade comum está acostumada a ouvir. O único porém é que tem tanta gente aderindo ao grupo ‘alternativo’ que, na verdade, a música alternativa virou popular.

Morte – Quase todos morrem. Uns vão a sete palmos debaixo da terra; outros viram cinzas; outros, ainda, auxiliam na aula de anatomia da faculdade com o seu corpo cheio de formol; têm uns que vão para o Espaço para nunca mais voltar; mas, poucos são imortais. Os imortais são lembrados gerações após gerações, ou por serem gênios, por serem salvadores, ou por serem dizimadores de humanos. Portanto, se você quer ser imortal e se diferenciar dos reles aqui da Terra, escreva alguma obra clássica, talvez do tipo Guerra e Paz, ou opte pelo caminho mais curto da eternidade: extermine milhares de pessoas como fez Hitler ou Bush.

Crédito da imagem: http://ihatehate.files.wordpress.com/2007/07/bush-as-hitler.jpg

quinta-feira, 6 de março de 2008

Suplicy não ouve ‘Blowin' in the wind’ e perde encontro com Dylan

Senador pediu hino sessentista em coro com pessoas da platéia.

Quando foi ao camarim, cantor norte-americano tinha ido embora.

Famoso por ter interpretado “Blowin' in the Wind” em uma das sessões do Congresso, o senador Eduardo Suplicy foi uma das pessoas que se frustraram pela ausência do hino dos anos 60 no show de Bob Dylan em São Paulo, na noite desta quarta-feira (5). Autor da idéia de um show gratuito do cantor na capital paulista que acabou não se realizando, Suplicy também foi ao camarim para encontrá-lo, mas Dylan deixou imediatamente o Via Funchal após o encerramento da apresentação.

No entanto, o senador, que pagou do próprio bolso um lugar na platéia 2 (R$ 500), se empolgou com a performance. “Foi um show de extraordinário nível, da primeira à última música. Foi bom ver tantos jovens na platéia e perceber a reação deles”, afirmou.

Ao lado da companheira, a jornalista Mônica Dallari, Suplicy dividiu uma mesa com outras pessoas, que não eram conhecidas do senador.

Coro

Quando se aproximava o final da apresentação, tentou puxar ao lado de um rapaz um coro de “Blowin' in the Wind”, “Blowin' in the Wind”, música que acabou sendo trocada no set list por “All along the watchtower”.

Depois, aproximou-se sozinho do palco e foi cumprimentado por diversas pessoas, que perguntaram se ainda havia possibilidade de haver um espetáculo de graça no próximo domingo (9).

A prefeitura de São Paulo havia encampado sua idéia e conversado com patrocinadores para tentar bancar um cachê entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões, mas os produtores de Dylan rejeitaram o projeto, ao final, alegando espaço de tempo muito curto.

Mais tarde, foi ao lado dos filhos Supla e João Suplicy ao camarim para o encontro com Bob Dylan, mas o cantor já havia deixado o local. O senador também lamentou o fato de não poder ir ao segundo show em São Paulo, nesta quinta-feira (6), pois tem viagem marcada para os Estados Unidos.

Créditos das imagens:

http://g1.globo.com/Noticias/Musica/foto/0,,11309828-EX,00.jpg

http://ego.globo.com/Entretenimento/Ego/foto/0,,11839269-EX,00.jpg

Fonte: G1

quarta-feira, 5 de março de 2008

Relato de uma apaixonado pela trilogia "O Poderoso Chefão"

Wilame Prado

- Advertência: Quem ainda não assistiu a trilogia, não leia este texto, pois ele contém partes dos filmes que, se forem lidas antes de assistidas, definitivamente, perdem a graça.

Lembro que, na época, ainda trabalhava na Biblioteca Municipal, final de 2005, quando me intrigaram sobre a trilogia “O Poderoso Chefão”. De impacto, logo fiquei fascinado pelos boatos de que a trilogia era uma das melhores já produzidas em toda a história do cinema. Mas, o ponto de partida desse caso de amor entre eu e esses filmes, deu-se com a leitura do romance de Mario Puzo, o qual serviu de roteiro para a trilogia.

Dos primeiros instantes do livro, que de maneira humorada, Puzo descreve Sony Corleone sendo um cara bem dotado (jumento), até os últimos, com Mike Corleone mandando bala em todo mundo, as letrinhas minúsculas daquele livro sujo e usado (da Biblioteca Municipal não se pode esperar muito) serviram de companhia para todas as madrugadas, umas geladas, outrora abafadas, para todas as viagens de ônibus até a faculdade, e até na própria sala em que, muitas vezes, o livro me gritava por mim, não deixando eu prestar atenção em nada.

Mas, o momento mais marcante dessa história contada em mais de 300 páginas, pelo menos para mim, foi quando o grande Vito Andolini Corleone, o Poderoso Chefão, a essa altura do campeonato aposentado, morre brincando com seu neto Antohny Corleone, filho de Mike, nos pés de tomates. Acredite se quiser: tive crise existencial e chorei como criança. O livro perdeu o brilho para mim, pois achava que ninguém poderia substituir o velho Vito, o mesmo que veio de navio para Nova York e ficou de quarentena por estar doente; o mesmo que perdeu o pai assassinado, e o irmão também assassinado por buscar justiça, e por fim a mãe que foi implorar para o Grande Chefão da cidade Corleone, que não matasse o magrelo Vito, com 9 anos na época – o tiro em sua mãe foi à queima-roupa e assistido pelo pequeno e frágil filho.

Confesso que fiquei mais de mês para ler o romance, mas quando acabou, precisava de mais, deu-me um vazio enorme por dentro, e a saudade daquelas cenas inusitadas que eu imaginava no livro, como exemplo uma mesa de reunião com todos os chefões de gangues, cujo dois deles tiveram a capacidade de se perdoarem pelas mortes de seus filhos envolvidos nos negócios sujos das famílias, me levavam a querer, cada vez mais, assistir à trilogia de Coppola e Puzo.

O destino parece que, muitas vezes, favorece de propósito para que tudo dê errado. Explicando melhor, fiquei seis meses tentando assistir aos filmes, mas vários imprevistos no meio do caminho, impediam-me. Absolutamente todas as locadoras que freqüentava, não disponibilizavam a trilogia. O Box, que estava à venda, era caríssimo, e por esses tempos a situação monetária se encontrava em crise. Estava quase desistindo de assistir aos filmes quando uma luz bateu em minha janela: um grande amigo, de maneira clandestina, copiou os dvd´s para mim.

Madrugadas afora passei assistindo aos filmes, e muitas vezes teimava em voltar cenas que realmente me marcavam. Incrível foi saber que Al Pacino (Mike Corleone) fez os três filmes, envelhecendo ao longo da vida, e nos filmes também. É incrível saber que o pai de Al Pacino nasceu justamente em Corleone, na Itália. Ou que toda vez que aparecia a fruta laranja nos filmes, a próxima cena seria de tiroteios e mortes.

Finalmente o desejo havia sido realizado, mas surgiu um empecilho (ou não?) em minha vida: eu não desgrudaria tão cedo dessa relação com a família Corleone. A psicologia do pensamento deles me influenciou, e hoje tenho alguns desvios comportamentais graças aos filmes.

Psicologia influenciadora – Ao ler o livro, já me encantara com a simples idéia, porém genial, de Vito Corleone em manter, constantemente, um ciclo de amizade baseada em favores prestados. Prova digna de que sempre você será útil para um amigo, é quando Sonny Corleone é baleado e desconfigurado, e Vito pede ao funerário – que no início do filme pede um favor ao Poderoso Chefão, o qual é concedido com a condição de que se mantivesse o laço de amizade e o reconhecimento de que Vito é o padrinho – que recomponha o corpo para que Mama Corleone, sua mulher e mãe do morto, não o veja dessa maneira. As amizades minhas, a partir de então, não que eu detinha algum interesse, eram vistas de maneira sagrada e extremamente importante – com obrigatoriedade de honradez.

Prosseguindo na tentativa de entender o Poderoso Chefão, Vito Corleone, mesmo sendo um gangster cruel e mafioso dos mais perigosos, o italiano não tinha maldade em seu coração. O que ocorria, na verdade, era uma indignação por todas as falcatruas que as pessoas tinham de aceitar dos governantes. Ele, como um cara esperto, não quis ficar aceitando tudo isso e provou que era mais inteligente do que muito engravatado, conquistando Nova York inteira com sua psicologia de manipulação.

Algumas cenas que demonstram que Vito Corleone foi um homem de bem:

- quando brinca com o seu neto na plantação de tomate;

- o seu profundo afeto pelo afilhado, Jonh Fontane;

- sua capacidade de perdoar o assassino de seu filho (embora fora uma estratégia fria e calculista e que a vingança viria tempos depois com Mike Corleone);

- no segundo filme, quando Vito ajuda a sua vizinha que estava sendo despejada por não pagar aluguel.

Para ser o verdadeiro Poderoso Chefão é preciso, acima de tudo, frieza e determinação no cumprimento dos objetivos. E, claro, matar os traidores e os inimigos.

O papel de mafioso coube muito bem a Mike Corleone que, até que tentou ser um jovem desligado da máfia, mas quando levou um cruzado de direita do Capitão McCluskey, o sangue siciliano ferveu em suas veias, iniciando assim sua longa e dolorosa sina de mafioso e assassino implacável.

As qualidades de Mike, filho homem mais novo de Vito, não são muitas, porém nunca se viu tanto amor pelos filhos e pela família que, segundo ele, deveria estar sempre unida.

Mike Corleone foi tão frio que, sem titubear, matou seu próprio irmão Fredo Corleone que, pela sua ingenuidade, traiu os negócios da família. Tomou um balaço enquanto rezava uma Ave Maria para pescar um peixe ao filho de Mike, Anthony Corleone.

Esse fantasma, chamado Fredo, perseguiu Mike até os seus últimos dias de vida. Embora tenha feito muitas doações à Igreja Católica, embora tenha ajudado inúmeras criancinhas da Sicília, Mike não se esqueceu, por um dia sequer, o fato de ter assassinado seu próprio irmão.

Essas e outras peripécias da Máfia dos Corleone você encontra nos filmes de Frans Ford Coppola, Poderoso Chefão I, II e III, ou no livro de Mario Puzo, The Godfather, obras que já estão marcadas nas páginas douradas da literatura clássica e do cinema idem. Aliás, marcadas também em minha perna, em forma de tatuagem.

Crédito das imagens:

Imagem 1:http://www.neville1.com/stuff/wallpapers/Godfather.jpg

Imagem 2:http://images.art.com/images/-/Al-Pacino---The-Godfather-Photograph-C10101651.jpeg

Imagem 3: André Tatuador

terça-feira, 4 de março de 2008

Prefeitura de SP negocia show de Bob Dylan com entrada gratuita

Apresentação aberta depende de conseguir patrocinadores

A Prefeitura de São Paulo negocia um show de graça do cantor Bob Dylan no domingo (9) para uma grande multidão. A realização do espetáculo depende de patrocinadores já que a data está aberta na agenda do artista e seus assessores concordaram com a idéia.

O cachê para essa apresentação aberta giraria entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões. Os dois lugares cogitados para receber o show são o Parque Ibirapuera e o Museu do Ipiranga. A idéia foi levantada pelo senador Eduardo Suplicy, grande admirador de Bob Dylan e que interpretou "Blowin' in the wind" em uma sessão no Congresso.

Bob Dylan começa sua quarta passagem pelo Brasil com dois shows nesta quarta (5) e quinta-feira em São Paulo e uma performance no sábado para os cariocas.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL336335-7085,00.html?id=newsletter

Crédito da imagem: http://kakaos.files.wordpress.com/2007/12/bob_dylan.jpg

FHC dá a dica: terceiro mandato para Lula

Luiz Antônio Magalhães*

Tudo que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) acha ruim para o país acaba se revelando, com o tempo, positivo para os brasileiros. Senão vejamos: quando o presidente Lula começou a governar, Cardoso criticou com muita contundência o crédito consignado, alegando que os pensionistas seriam levados à bancarrota com os juros cobrados pelas instituições financeiras autorizadas a operar esta modalidade de crédito. Bem, a história mostra que o consignado não apenas foi a grande alavanca do consumo das classes mais pobres como também não levou velhinho algum à falência. Ao contrário, muita gente que estava devendo para agiotas ou pagando taxas de juro muito mais elevadas no cheque especial ou cartão de crédito conseguiu sair do vermelho e, trocando as dívidas, ganhou fôlego para ter uma vida financeira mais saudável. O atual boom da economia brasileira é atribuído em grande parte justamente ao crédito mais farto e barato que surgiu a partir do consignado.

Cardoso também criticou a política monetária de Lula, alegando que o Banco Central não deveria ficar comprando dólares e valorizando em demasia o real. A partir da atuação firme e serena do BC no mercado de câmbio, porém, é que o Brasil conseguiu os recursos para pagar a dívida externa do país, tornando-se credor externo pela primeira vez na história. E é justamente esta condição que está sustentando a bonança interna em meio a uma crise de graves proporções nos Estados Unidos.

Se tudo que FHC acha ruim para o Brasil na verdade é bom, então bom mesmo é prestar atenção no que diz o ex-presidente e fazer exatamento o oposto do que ele prega. Nos últimos dias, o tucano tem "alertado" seus correligionários para o "perigo" de um terceiro mandato para Lula. Bem, pode até ser que o presidente não queira ou as condições não permitam, mas se FHC acha que é ruim, então provavelmente nada seria melhor para o Brasil do que um terceiro governo do presidente Lula...

*Texto de Luiz Antônio Magalhães, retirado de seu excelente blog: Entrelinhas

Crédito da imagem: http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2002/governolula/images/lula-fhc.jpg

segunda-feira, 3 de março de 2008

Tailândia, Pará, Brasil, entre muitas aspas, ou “A Amazônia não é um Santuário”

por Waldenir Bernini Lchtenthaler*, do Pará

As notícias informam pouco. Dizem as manchetes que Tailândia “virou campo de guerra”. Virou não, sempre foi!

Tailândia é um município do Estado do Pará, localizado à 260 Km de Belém. Tem 44 820 habitantes (2003) e 4476 km2. Originou-se a partir da construção da Rodovia PA-150, na segunda metade da década de 1970. Violentos conflitos agrários acompanharam a ocupação desordenada da região, demandando a intervenção do regime militar, através do Instituto de Terras do Pará, o ITERPA, que inciou uma operação de “pacificação” em 1978. Dentre os técnicos daquele Instituto estava o oficial da Polícia Militar, Tenente Pinheiro, líder do processo de “pacificação” da localidade, elevada à categoria de município pela Lei Estadual nº 5. 452, de 10 de maio de 1988. Instalado oficialmente em 1 de janeiro de 1989, o nome do novo município foi sugerido pelo tenente Pinheiro ainda durante sua campanha militar, nos anos 70. O militar comparou a luta pela terra com a situação de guerra da Tailândia, longínquo país asiático, conflagrada ao longo do ano de 1977. A aprovação foi unânime.

Conheci Tailândia. É um lugar espetacularmente deprimente. Embora fique em meio à Amazônia, ou melhor, justamente por isso, o ar de Tailândia é irrespirável. Incontáveis carvoarias queimam a “biomassa” amazônica produzindo com mão-de-obra precarizada - eufemismo para escrava - o carvão vegetal ilegal que fornecem para a cadeia produtiva do minério de ferro, piloteada pela grandiosa Vale, aliás, a nossa antiga CVRD. Mais precisamente, este carvão vai para as “guseiras” de Marabá/PA e Açailândia/MA. As guseiras não têm licença ambiental. Nem a Vale, em Carajás, nem a Usina de Tucuruí têm. Elas não precisam. Na época em que se instalaram a lei não exigia. Pelo mesmo princípio uma fazenda que utiliza trabalho escravo desde 1880 pode continuar usando, porque na época em que a atividade se iniciou a lei permitia. Mas é assim...

Paralelo, mas não justaposto, já que perfeitamente integrado ao “setor” carvoeiro está o “setor” madeireiro – “a base da economia” de Tailândia.

Mas, em que se sustenta, por sua vez, a atividade em que se baseia a economia local? Em dois pilares: 1) Na “extração ilegal” - eufemismo para roubo – de madeira de terras públicas ou das reservas legais de áreas privadas. 2) No aliciamento dos miseráveis e desvalidos sem-terra; sem-futuro; sem-esperança; sem-orientação; sem-cidadania. Estes são assediados pelos madeireiros que lhes oferecem algum dinheiro pelas madeiras existentes, quer nos assentamentos em que os joga o INCRA, quer em terras que são instados a invadir, em troca da promessa de que herdarão a área depois de “aberta”. Muitas vezes esses posseiros ou assentados acabam assassinados pelos “parceiros”, uma vez tendo cumprido sua “missão” dentro desso processo “civilizatório” liderado pelos “empresários” do “setor” madeireiro. A “sorte” dos trabalhadores envolvidos nas etapas seguintes à extração, ou seja, o corte e processamento da madeira ou sua queima, não é muito melhor. Perderão sua fonte “honesta” e “digna” de subsistência, mais cedo ou mais tarde, já que a atividade madeireira é predatória de si própria, destruindo rapidamente a fonte de recursos de que depende: a floresta.

Bom, agora você deve estar se perguntando: mas e o Ibama? E a Polícia Federal? E o Ministério Público? Esqueça: aqui ninguém é preso por roubar madeira, ninguém é preso por vender madeira roubada; ou por desmatar.

Quem paga as multas que o Ibama aplica? Ninguém. O que acontece com a madeira apreendida? Fica no pátio do madeireiro - “fiel depositário” - até que ele consiga esquentá-la e vendê-la. Neste exato momento em que você lê estas linhas milhares de metros cúbicos de madeira roubada de terras públicas continuam descendo os afluentes do Tapajós, do Amazonas e de outros rios em balsas lotadas. A PM escolta as balsas porque às vezes acontece de os moradores de Reservas Extrativistas, tentarem, coitados, deter as balsas e apreender a madeira. Mas o custo do transporte é muito alto e os órgãos públicos, as “autoridades” não têm recursos materiais e humanos para agir, caso desejem ou venham a desejar agir. A Polícia Federal de Marabá não tem sequer um helicóptero, idem para Ibama e o mesmo para os outros municípios. Faltam efetivos para que essas tentativas de impor a lei possam ser efetivas.

Já sei, você deve estar se perguntando: o que faz o “empresário” quando a madeira acaba na região? “Vamos subindo!”, respondeu-me um deles. A noção de que a Amazônia é uma fronteira leva a esse raciocínio: para continuar a expansão econômica, basta avançar a fronteira! É por isso que temos um “Programa de Aceleração do Crescimento” e não de aceleração do “ desenvolvimento”. Para desenvolver não precisa expandir a fronteira, mas para crescer sim. Tailândia é uma imagem do presente, mas revela muito do passado e outro tanto do futuro do Pará e da Amazônia e, quem sabe, do Brasil?

As manifestações de Tailândia são respostas espetaculosas contra uma ação espetaculosa dos órgãos do Estado, para que fosse restabelecida a autoridade que realmente impera no interior Pará – a lei dos fora-da-lei. Não nos iludamos, o poder político do agrobanditismo é mais forte do que o dos amigos da floresta. Logo virão senadores da República, deputados, ministros e secretários e outros “representantes do povo” para defender os interesses desses “empresários” e os milhares de “empregos” ameaçados. Tenho medo que o presidente da República em pessoa, cercado pelos seus novos amigos, volte a discursar: “a Amazônia não é um Santuário” Na boca dele, o que isso quer dizer? Tailândia que o diga: anda mais para inferno!

“Quem nos salvará dos nossos salvadores?”

Waldenir (Nino) Bernini Lichtenthaler* é antropólogo.

Recebido por e-mail do Correio Caros Amigos

Crédito da imagem: http://www.institutoaqualung.com.br/imagens/53_madeiras_empilha.jpg