segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Vovó faz questão de sempre me buscar

Wilame Prado

Não se dizia mais nada; todos calados e absolutamente concentrados no tom roxo da luz emitida pelos tubos de néon que irradiava do centro do salão com decoração e arquitetura originários da Ilha de Madagascar. Uns, com olhos arregalados, pareciam absorver a intermitente iluminação; outros, com olhos fechados e com lágrimas grossas nas bochechas, não vacilavam um minuto sequer no orgasmo fabricado; os que desmaiavam não eram acudidos e se contorciam no chão como lagartixa quando perde o rabo.

E eu ali, ao lado dela, sem saber como fingir consternação diante daquele nirvana que, para mim, estava mais para Kurt Cobain - pirado. Bendita hora em que fui dar uma de pseudo-cult, uma de alternativo, só para conquistar uma garota de cabelos negros, que curte Interpol e usa tênis all star daqueles tipo converse, com uma estrelinha maneira de lado. Antes da luz néon até que o ambiente ainda era aceitável, com canções fabricantes de depressão do Radiohead; a birita também não deixava a desejar, afinal, mesmo sabendo que era do Paraguai, uísque com água de coco sempre cai bem – pagando R$ 50 a inscrição para admirar uma luz, pelo menos uma embriaguez social eu tinha de ter.

O tédio já corroia meu ser inteiramente, principalmente pelo fato de que no local não tinha um banquinho sequer. As pernas doíam porque, além de estar bebendo a um certo tempo, tinha ido direto do trampo (auxiliar de operador de máquinas de xerox) para lá.

A única saída era deitar-me por ali e tomar cuidado para que algum emo enlouquecido não viesse chorar em meu colo. Minha garota, a essa altura do campeonato já estava se embrenhando freneticamente com uma outra garota de cabelos pretos e até bonitinha – me chamaram para fazer parte do momento sagrado delas; preferi ficar com uísque, só que dessa vez puro e sem gelo.

Comecei a passar mal e a sentir nojo de tudo aquilo, ainda mais depois que vi passando ao meu lado dois gambás de mãos dadas e uma girafa trepando com um elefante. E o pior é que não apenas vi, mas senti o cheiro ácido das duas cenas transcendentais. Acho que colocaram alguma coisa naquela água de coco...

"Genalva, vem me buscar que eu estou odiando", gritei no celular. Tenho epilepsia e não posso dirigir. Por isso, vovó faz questão de sempre me buscar quando vou a essas baladinhas.

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