terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Um filho que gosta de seu pai: “Graças a Deus”

Wilame Prado

Parecia que tudo estava dando errado na viagem de volta para casa, depois de mais um dia normal de trabalho. O percurso de Mandaguari à Maringá, que faço por meio das famosas amarelinhas, normalmente era completado em uma hora. Nesse dia, a impressão era que tinha passado uma dúzia a mais de horas.

Logo na entrada da circular, o dinheiro miúdo que é sempre tão atuante em minha carteira, dessa vez faltou, dando espaço para notas graúdas que o cobrador não poderia trocar para mim. Tinha acabado de receber o 13º salário.

Indo ao fundo do fantástico transporte coletivo, o qual mais parece um corredor proletariado, uma grande surpresa ocorreu às narinas, que não agüentaram um cheiro fétido e escroto como aquele. “Cagaram aqui no fundo, vou para frente”, dizia um tio falador. Nem no dia em que uma grávida vomitara próximo aos meus pés, eu tinha sentido tanto nojo, mas eu não ficaria em pé, pois as pernas latejavam – fruto de um dia inteiro fazendo reportagens e fotografias. Sacrifiquei o meu nariz batatão.

No banco ao lado, um rapaz de seus 30 e poucos anos de idade, com uma filha adorável. Ele tinha uma escrupulosa cicatriz na cabeça, que contrastada com a cabeça grotescamente raspada, dava a aparência de recém acidentado. Ele tinha voz de bobo e era difícil não imaginar que não tinha problemas mentais. Levava uma bomba de veneno, daquelas estilo mochila, novinha.

Quando a circular chegou na metade do caminho, exatamente em Marialva, metros antes da rodoviária se ouvia uns temíveis gritos, que mais pareciam latidos de uma cadela tentando se livrar do órgão genital grudado após o ato de fornicação.

Realmente havia um cão no colo da esposa do rapaz da cicatriz na cabeça. Mas, curiosamente, os barulhos horripilantes que todos da circular ouviam, eram de seu filho, de uns 3 anos, que pulava e se desesperava para que o pai descesse logo da amarelinha.

O pai não tinha chocolates na mão, nem brinquedos. O moleque, creio eu, não deve querer utilizar uma bomba de passar veneno. Então, como explicar uma alegria sem limites pelo simples fato da chegada de um pai, que, muito provavelmente, estava vindo de mais um dia de serviço?

Ainda saindo da circular, meio sem jeito, o pai avisou que o filho não tinha problemas mentais, e que era o jeito dele. Os sorrisos eram unânimes nos semblantes do transporte público inteiro. Todos se emocionaram e se surpreenderam. Um homem que carregava uma bíblia debaixo do braço olhou para mim e todo pomposo disse: “Graças a Deus”.

Crédito da imagem: http://www.saisdeprata.com/wp-content/uploads/2006/04/pai-filho_preparada.jpg

10 comentários:

Junior disse...

Eu sei muito bem o que é isso. Sou pai de um filho maravilhoso de quase 3 anos e toda vez que chego em casa ele vem com aquela alegria e um sorriso que apaga tudo de ruim que aconteceu naquele dia. Ser pai é a melhor coisa que já aconteceu nos meus 33 anos de vida.

A Abiose Maringaense disse...

Sem comentários...
Lindo! Lindo! Lindo!

Thiago Ramari disse...

E quem foi que disse que a inventividade exarcebadamente criativa é a única a render boas histórias?

Basta caçá-las, na vida real mesmo. Estão por toda a parte.

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Will, que linda crônica. Carregada de sentimentos puros, de situações tão simples, mas que poucos iguais a você têm olhos pra captar; a voz do coração. Sou seu fã! abs

Murilo Battisti disse...

Maravilha eim amigão... Mandando bem pra variar!
parabéns, também sou um fã!

abração!!

Nanda Lima disse...

Achei por acaso o teu blog e adorei o relato. Emocionante. Vou linkar o teu blog no meu.

Bjs

Anônimo disse...

Relatos do nosso cotidiano olhado com outros olhos tendem a sempre ver a pureza, honestidade, compaixão que ainda resta em corações de uma mínima parte da comunidade. Atos delicados e puros de outras pessoas que nos trazem satisfação me dá mais esperança que nessa vida tudo e todos podem ser emocionalmente iguais. Parabéns por relatar momentos grandiosos a qual a maioria guarda para si.

Mouse disse...

Desculpe por não me identificar no comentario anterior, mas Wilame pode me chamar de Mouse.

Wilame Prado disse...

Agradeço ao Junior, grande Junior, ao sempre presente Abiose, aos grandes amigos Murilo Batisti, Balestra e Thiago Ramari, agradeço à Nanda Lima, que é de João Pessoa, e ao anônimo que, logo depois, virou o (a) Mouse.

Todos vocês me motivam a continuar escrevendo no humilde blog.

Abraço! Apareçam sempre que puderem!

Leticia disse...

Simplesmente maravilhosa sua crônica !
São ações como essa que nos dão forças para continuarmos a viver nesse mundo...
Vc está de parabéns !!!