sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Loucos somos nós

Wilame Prado Dia chuvoso. Daqueles que chegam depois de pelo menos uma semana de ar seco, calor e pessoas andando nas ruas com bolas de suor nas camisetas. Meu itinerário costumeiro, o de andar dois quilômetros que separam o lar do ponto de ônibus (local onde passa o ônibus que me leva até o trabalho), teve de ser modificado. Isso porque, com tênis furado e com ventos que estupram guarda-chuvas, gastar alguns reais a mais para pegar outro ônibus, é melhor do que se molhar.

Se a ação “se molhar” fosse apenas em função da chuva, até aí tudo bem. O problema é que esse “se molhar” corresponde também à lama que atinge os transeuntes devido à pressa que os motoristas têm em dias chuvosos – se esquecem que, na verdade, o pedestre é que deveria ter pressa por não ter um teto de metal que o protege da chuva.

Mas não vai ser hoje que escreverei um manifesto em prol das causas dos pedestres. Lembrei da chuva porque, foi em razão dela que utilizei uma linha de ônibus que não costumo usar e que, dentro desse ônibus, um apanhado de fatos, chamou minha atenção. Pois bem. Na metade do caminho, o ônibus parou em um ponto que fica em frente a um colégio de ensino fundamental e médio. Fui saber, mais tarde, que neste estabelecimento de ensino, alunos com índices de retardo mental também estudavam, em uma sala especial.

Uma professora e meia dúzia de alunos dessa sala especial se adentraram no ônibus que, mesmo com teto e janelas fechadas, estava incrivelmente ensopado, inclusive os assentos. Cena engraçada e rara: um ônibus com vários assentos vazios, com várias pessoas de pé. A professora era loira e tinha suas quatro décadas de vida tranqüilamente. E, como um ser mortal que passou a manhã inteira exercendo uma das profissões mais dignas desse mundo - repassar conhecimento a outras pessoas – foi ocupar um assento sem ver que estava molhado. De repente, um grito de quebrar taças gelou minha espinha e houve correria no corredor do ônibus. Eram os alunos da professora desesperados alertando-a de que o assento estava molhado. Outras pessoas que dividam o transporte público, assim como eu, entreolharam-se com aquela cara de espanto por ver tamanho zelo dos alunos para com a professora loira.

Chegando ao ponto final, professora, alunos, eu e mais algumas pessoas descemos do ônibus e seguimos nossos caminhos. Já no terminal, pude presenciar mais uma demonstração de total afeto de um aluno para com a mulher de quarenta anos, de cabelos loiros e que dá aulas: ele a acompanhou até o outro lado da rua, desviando seu percurso, levando o material que estava em suas mãos.

Talvez essas cordialidades dos alunos sejam uma forma de agradecimento pelo trabalho que a professora desenvolve diariamente. Ou talvez sejam sinceros com todos que estão ao redor. O retardo mental faz com que essas pessoas sejam consideradas excepcionais ou especiais. E é verdade mesmo. São especiais de maneira positiva, pois se diferenciam das pessoas “normais”, que dificilmente demonstram qualquer tipo de afeto por professores, serventes, cobradores de ônibus, colegas de trabalho, mulher, filho. Para os “normais”, é vergonhoso demonstrar amor ao próximo, é coisa de bicha dizer que ama o amigo, é brega declarar amor eterno à pessoa que divide cama e cobertor todos os dias. Se naquele ônibus, a professora de quarenta anos e de cabelos loiros estivesse acompanhada por alunos “normais”, pode ter certeza que, neste momento, estaria com a bunda molhada e muito encabulada por ter tido de agüentar chacotas, sarro e novos apelidos que os brilhantes alunos teriam inventado de bate pronto.

Crédito da imagem: http://www.dann-online.com/nyc_rain.jpg

2 comentários:

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Will, pra voc~e que, igual a mim, ama os livros, tem novidade brava lá no blog... abs

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Will, voltei agora com mais tempo. Olha, esse seu faro-fino é que o fará sua diferença na futura vida profissional. Você, desde já, deixa fluir que é observador, tem ótima redação, e sobretudo é humnao. E aqui está a qualidade que acho maior em qualquer área profissional. A partir do momento em quem ficamos frios com os fatos, as dores alheias, então é melhor mudarmos de área. Você está na sua, CERTÍSSIMO! PArabéns. abs