sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Felicidade tardia

Wilame Prado

As lágrimas derramadas molhavam seu travesseiro. Às vezes, são inexplicáveis, porém, naquela noite, sabia muito bem o porquê estava chorando. Aos vinte e poucos anos já se acostumara com a montanha íngreme e cheia de obstáculos no percurso que é a vida, onde, em momentos felizes se está no topo, outrora, no chão e sem ânimo para escalar.

Há dois meses, teve plena consciência de que estava no ápice de uma boa fase, mas o medo já o acercava pelo fato de saber que não tardaria e viria a tempestade em seu barco da vida. Ele não sabe nadar e o colete salva-vidas é reservado às crianças e mulheres primeiro. Por isso, nem conseguiu aproveitar muito bem esse momento melhor e se concentrava em ficar sempre com o pé no chão e nunca flutuar ao ponto de sonhar.

Como o previsto, a tão temida crise existencial o acercava, e era impossível não chorar, tamanho o medo de seu quarto escuro, onde a força de seu pensamento era tão forte que os monstros e as bestas se faziam presentes frente ao espetáculo maior de sua vida: a solidão.

De repente não há mais porque ver beleza na vida. Parece que o campo de visão, que outrora era verde, agora é cinza com tons de marrom. Não há graça nenhuma em nada e o exercício mais doloroso e complexo de se realizar é com o maxilar, pois fingir que está sorrindo é o choro mais frenético, na realidade. As flores morreram, inclusive aquelas que somente ele via nascer por entre os asfaltos cinzentos. Nem jogo na TV o animava mais, isso demonstrava que o caso era sério.

O que se podia fazer nessas horas ou nessas fases – concluiu - era tentar viver mesmo não conseguindo deixar de se abstrair e ser taxado como anti-social, muitas vezes chato. Mesmo assim, ele não queria se entregar; estava cansado dessa vertigem de karma e ansiava por estabilidade na viagem sem volta apenas para as lembranças, que é a vida. Na sua memória, constava inúmeras subidas e descidas, mas dessa vez parecia impossível ver a tão sonhada luz no fim do túnel.

Muitas vezes ele pensara na morte, mas a desejava naturalmente, ou seja, um ataque no coração, um atropelamento, um câncer voraz ou até uma cirrose. O suicídio não fazia parte de seus planos. Embora fosse um perdedor de carteirinha, não admitia tirar a vida de ninguém, pois achava que era de uma covardia para não só com ele, mas para com todos que estão ao redor. Para ele, quem morria dormindo eram pessoas de sorte.

Enquanto ela, a morte, não vinha vestida de cetim, o menino percorria as ruas da cidade. Eram muitas as percepções. Sujeira, animais mortos, fedores horrendos, flores mortas e, principalmente, poluição visual, sonora e do ar. Enquanto ele saia do seu serviço indesejável e ia embora para sua habitação, também indesejável, via alguns e outros nos bares, nos carros, no supermercado e percebia que qualquer pessoa seria mais feliz do que ele, e que o dinheiro reinava num mundo onde ele é o bobo da corte que fora demitido por não conseguir mais achar graça em ser a graça. Achava engraçado como as pessoas conseguiam ver graça nas desgraças alheias.

Para o menino, não existia atitude mais deprimente do que tomar cerveja sozinho em um bar da esquina. Talvez, o fato de andar pelado em seu apartamento faria com que conseguisse arejar o ar rarefeito e triste de sua cabeça, mas não, apenas um ato impensável de quem não sabe mais o que fazer quando os sinais se perdem no ar e a solidão dos marinheiros já não é mais abatida com uísque.

Ele continuava a andar por entres as ruas da cidade. Cada dia uma rua diferente, porém as pessoas eram as mesmas, hipócritas e desocupadas.

Um ou outro fingia ter ocupação, mas ficar a vida inteira atrás de assinaturas e papéis, pensava, não era ocupação e sim profissão inventada para as pessoas dizerem que estão ocupadas. Enquanto isso, o filho cresce e essa pessoa nem vai notando. Esse filho de outrora, agora fuma, bebe, não suporta o ambiente familiar e já tem alguns fios de barba na cara, fazendo com que fique cada vez mais parecido com o pai, que continua atrás de assinaturas.

A vida não tem sentido quando não conseguimos sentir que ela vale a pena por isso ou aquilo, refletia o menino. Será que existe o azar? Indagava. O menino triste agora é cético também e, mesmo pisando na bosta e recebendo uma cagada de pomba no cabelo, não acreditava em azar. Nesse dia de bostas, entrou em seu apartamento e se esqueceu que estava com os tênis sujos, andou pela cozinha e pelo carpete da sala. Mais tarde, começou a sentir cheiro fétido que o fez pensar o quão sua vida é uma merda e, assim, viajou achando que a vida de merda tinha cheiro. Depois da pequena pira, perdeu alguns minutos limpando o chão.

Ele sabia que crise existencial sempre passa, nem que for por pequenos momentos. Porém, começou a se preocupar em demasiado porque já estava nessa situação há pelo menos dois meses e ainda não tinha conseguido sorrir. Sua fisionomia estava mudada, seus cabelos despontados, suas penugens salientes, a fisionomia magra agora já aparentava ser doença, juntamente com as olheiras e cor predominante amarela. Fazia muito tempo que não via seus familiares, que moravam a poucos minutos de sua cidade, e já não saía com os amigos nem com os falsos amigos. Estava surpreso porque nunca percebeu tamanho fracasso em ninguém com sua idade. Sentia em suas costas uns quarenta anos de vida, mas tinha só vinte e poucos.

Foi nessa onda de baixo astral que conseguiu se formar na faculdade. Tinha facilidade com as futilidades acadêmicas. Mesmo assim, não trabalhou na área, optou por serviços mais fáceis em que pudesse ficar livre durante mais tempo do dia. Foi nesse desânimo que ele, inclusive, casou-se com uma perdida igual a ele, mas que fazia uma boa sopa de legumes.

Ele viveu muito tempo admitindo que conseguiu encontrar a verdadeira felicidade em apenas dois momentos - um quando seu time foi tri-campeão mundial interclubes e outro quando sua filhinha nasceu, de sete meses. Ele acostumou-se com a depressão e encarou como pano de fundo de sua vida.

Alguns são felizes e ingênuos, outros são tristes e a par da realidade, filosofava o menino.

Mas, em uma noite fria de inverno acordou descoberto porque sua mulher era friorenta e seqüestrava a coberta inteira. Nisso, olhou para o travesseiro e lembrou-se do dia em que o molhara com verdadeiras lágrimas incontidas. Percebeu que havia perdido um enorme tempo de sua vida tentando não ter crises quando, na verdade, ele é que as tinha inventado. Percebeu que não era difícil viver e sim sobreviver, e esse não era o seu caso. Lembrou de todas as pessoas que saíram feridas quando tocaram em seus espinhos e que, por isso, nenhuma sentiu o cheiro de sua rosa.

Levantou, beijou sua mulher como se fosse a única, foi ao berço e, sem querer, fez um barulho. Lavínia, sua filha, acordou e, por incrível que pareça, não chorou. Pelo contrário, abriu um lindo sorriso sem dentes. A emoção sentida por ele, as palavras não conseguiam traduzir, mas nunca, em toda sua vida, havia percebido o quanto era um rapaz de sorte.

Ele viveu mais dois dias de plena felicidade. Brincou com a filha até se cansar, fez amor com sua mulher até engravidá-la novamente e se olhava no espelho de barba feita e cabelo cortado achando-se muito bonito. Em uma de suas constantes andanças pelas ruas, foi atropelado por um carro que apostava racha. Provavelmente, morreu feliz, mas muito arrependido por perder tanto tempo até encontrar uma razão de viver.

Crédito da imagem: http://oblogdorapaz.blogs.sapo.pt/arquivo/the%20fall,%20de%20Negateven.jpg

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O medo do amanhã deve ser amenizado com esforços de todos - pessoas físicas e jurídicas, governantes e cientistas

Wilame Prado

Os anos vão se passando e, inegavelmente, o mundo vai ficando velho, gasto pelo homem. Já houveram grandes preocupações no passado com o câncer de pele ou com a destinação do lixo virtual, causados por centenas de milhares de e-mails encaminhados e outras besteiras mais. Mas, o medo maior, o que está em pauta no momento, diz respeito ao aquecimento global, que, de acordo com especialistas, vai tornar o Planeta Terra um lugar insuportável em poucas décadas.

O homem, acostumado sempre a olhar somente seu umbigo, nem se importava com pesquisas de “cientistas malucos”, que profetizavam um desastre ecológico daqui a um milhão de anos. O fato de não estar vivo para ver, tranqüilizava o homo sapiens. Em contrapartida, no último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) da ONU, divulgado no início do ano passado, os agravantes do aquecimento global não serão vividos por nossos tataranetos, e sim por nós mesmos, daqui há dez, vinte, trinta anos. Em função disso, o homem passou a se preocupar mais, a mídia publica mais a respeito e está na moda, principalmente no meio empresarial, ser ecologicamente correto.

Toda serpentina e burburinho jogados no assunto é bom para que o processo de conscientização seja efetuado. O único problema é que, mesmo com os problemas já sentidos na pele – chuvas torrenciais fora de época, seca de três meses, furacões inéditos – o homem ainda fica muito no discurso e se esquece da praxes, mostrando na essência a cultura impregnada de burrice e preguiça que contamina os seres humanos.

No papel de pessoa jurídica, bom seria se as megas corporações adotassem posturas de consciência ambiental não apenas para vangloriar seu nome com jogadas de marketing, mas realmente para ajudar. Bom seria ver uma empresa abdicando de pelo menos 2% de seus lucros exorbitantes para diminuir ao máximo seus poluentes ou investir esse dinheiro em projetos concisos que claramente beneficiarão o meio ambiente.

Já como pessoa física, de início a conscientização parece ser utópica quando se pensa universalmente. Mas, aquela velha e correta história de que se cada um fizer sua parte o todo será beneficiado, é correta. Em tudo quanto é lugar ouvimos as dicas de conscientização: tome banhos mais rápidos, desligue o chuveiro quando for se ensaboar, desligue a torneira quando estiver escovando os dentes, não lave as calçadas nem os carros com mangueiras, não jogue lixo no chão, separe o lixo reciclável, prefira produtos orgânicos aos industrializados, não utilize sacolinhas de supermercados e tenha sua própria sacola permeável, dê preferência a empresas que praticam o desenvolvimento sustentável, enfim. Porém, pouco fazemos ainda. A cultura da preguiça ainda fala mais alto.

Para combater essa impregnação de pensamentos pequenos, é impossível somente por meio do livre-arbítrio. A consciência do homem ainda privilegia a si e não a comunidade. Por isso, uma das alternativas para tentar frear um trem-bala chamado aquecimento global, é necessário que haja pulso firme dos governos, metas e propostas de políticos que tenham envolvimento com o meio ambiente e criação de novas leis, até mesmo autoritárias se for preciso, para que o ser humano e suas organizações parem de fazer do globo terrestre uma simples pelota de futebol.

Na semana passada, mais precisamente nos dias 20 e 21 de fevereiro, mais de 100 parlamentares, de diversos países, reuniram-se em Brasília para debaterem sobre políticas de combate ao desenvolvimento global e as negociações do acordo que substituirá o Protocolo de Kyoto a partir de 2012. De acordo com a Gazeta Mercantil (edição on-line do dia 20 de fevereiro), os legisladores também tinham por objetivo formular documento com sugestões a serem apresentadas aos mandatários dos países que integram o G-8 - grupo das sete economias mais industrializadas e Rússia. Em julho, quando a próxima reunião do G-8 for realizada, no Japão, o documento será entregue.

Talvez um dos motivos pelo qual a reunião com mais de 100 “raposas políticas” de todo o mundo ter sido feita no Brasil, é pela nossa facilidade, devido ao clima, de produzir fontes alternativas de energia, como os biocombustíveis. A desconfiança é inegável, e o que tem por título ser uma reunião para o bem do mundo, pareceu ser reunião para o bem dos países ricos, viciados em combustível diferentes, já que o petróleo está se esgotando.

Na reunião anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço das Ciências), que aconteceu em Boston (EUA), no dia 17 de fevereiro, uma das conclusões dos cientistas, segundo o jornal Folha Online (18 de fevereiro), é de que poder público e população devem unir forças para conter o aquecimento global, com a criação de políticas públicas. Uma das percepções menos óbvias, citadas pelo jornal, é de que os padrões climáticos estão tendo mudanças vistas a olhos nus, como a aceleração do degelo, principalmente na Groenlândia e na Antártida. De acordo com a Folha Online, esse degelo ameaça elevar os níveis do mar, com conseqüências ecológicas e territoriais desastrosas para muitos países com um litoral extenso e baixo.

O que se percebe é que a situação realmente é crítica e dessa vez as notícias não são circenses com intuito exclusivo de vender polêmicas e encher páginas de jornal. No ar, vê-se certo apavoramento entre população mal informada, que nem sabe ao certo o que é “desenvolvimento sustentável”, “efeito estufa”, “protocolo de Kioto”, entre outros termos, políticos ignorantes, sem saber o que fazer com o poder nas mãos, e, o que é pior, cientistas e estudiosos sem a solução para o problema, clamando apoio do poder público.

O futuro do Planeta Terra ainda é uma incógnita. Não sabemos se, nos tempos de hoje, pôr um filho no mundo é algo bom ou ruim, pois previsões menos macabras nos apontam para uma velhice tortuosa, em vivência limitada por escassez de recursos, como exemplo a água. Acabar com o aquecimento global é impossível, pois paga-se hoje pelo erro de milhares de anos. Mas, conter esse inimigo número um do mundo, talvez seja possível. Não adianta cada pessoa jogar para outra pessoa a responsabilidade. O problema é de todos: pessoa física, que pode muito bem economizar água, pessoa jurídica, que pode perfeitamente ganhar menos milhões e investir na proteção ambiental, governantes, que devem por obrigação estudar mais, dialogar com intelectuais e projetar novos caminhos priorizando o meio ambiente, e cientistas que, embora, principalmente no Brasil, tenham pouquíssimos recursos para pesquisar, devem, pelo menos, priorizar seus estudos para o bem público e não tentar ficar encontrando novas fórmulas para cosméticos milagrosos que acabam com rugas, desenvolvendo sementes transgênicas, clones ou sapos voadores.

Crédito da imagem: http://www.colegiosantosanjos.com.br/blog/foto_0012.jpg

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

André Fernandes e sua passagem por Maringá II – (errata)

Na quinta-feira, 21 de fevereiro, publiquei um post-homenagem ao grande amigo André Fernandes, que se encontrava em Maringá novamente, depois de ficar certo tempo sem dar as caras por aqui.

Passou-se dia e ele anunciou-me por orkut que gostaria de fazer ressalvas no texto. De início, pensei que fosse algo simples, talvez uma palavra mal colocada ou um erro qualquer. Mas não. Ontem, na Biblioteca do Cesumar, às 20h50, iniciamos um bate-papo que, em seus ligeiros 50 minutos, fizeram-me crer que realmente não dei a devida atenção ao texto que fiz homenageando o ativista social André Fernandes.

Pois bem.

Motivo da vinda para Maringá - Logo no início do texto, afirmo equivocadamente: “Deu uma passeada em Maringá e nessa brincadeira conseguiu bolsa no Cesumar”.

O correto, segundo o próprio André Fernandes, seria dizer que, por meio de convite do fundador da Jocum (Jovens Com Uma Missão) de Maringá, Welington Oliveira, que também foi o fundador da base da Jocum no Rio de Janeiro, veio morar em Maringá, juntamente com mulher e filha, para dar prosseguimento aos trabalhos do grupo.

A bolsa de estudos para cursar Jornalismo no Cesumar, ressalta o ativista social, foi oferecida pelo próprio reitor e dono da universidade Wilson de Matos.

Ele conta que, certo dia, o filósofo e teólogo Ariovaldo Ramos, um dos grandes especialistas em missões urbanas, estava ministrando palestra em Maringá e citou seu nome “André Fernandes” como um verdadeiro PHD em missões urbanas. Wilson de Matos, que estava assistindo, quis saber quem era “André Fernandes”. Depois disso, foram ao aeroporto levar Ariovaldo Ramos o próprio Wilson de Matos e também André Fernandes. Na volta, rapidamente, diz ter contado um pouco de sua trajetória de vida, suas batalhas como ativista social, sempre na luta para ajudar as favelas do Rio de Janeiro com projetos, um deles a Agência de Notícias da Favela (ANF).

Quando Wilson de Matos deixou-o em casa, antes de se despedir, ofertou a bolsa de estudos, dizendo que seria sua contribuição para alguém que já havia ajudado tanta gente.

“Sensibilidade” - Em outra parte do texto, disse: “Desde o início do curso, nos identificamos nem sei bem porque”.

O amigo André Fernandes afirmou saber sim porque se identificou comigo. E, refletindo, claro que sei também porque me identifiquei com ele. Simplesmente pelo fato de sermos simpatizantes da ideologia esquerdista e, claro, por estarmos realmente preocupados com a sociedade em geral e não apenas com nossos umbigos. Lembro-me até hoje que, certo dia, depois de dar minha opinião em determinado assunto em sala de aula, André Fernandes falou em alto e bom som: “Você tem sensibilidade.”

Fontes desmerecidas pelo professor – Com relação entre o qüiproquó entre André Fernandes e o professor Geder Luiz Parzianello, cito: “Parzianello tinha razão sim em dizer que pesquisar como fonte apenas a revista Caros Amigos era um equívoco.”

André Fernandes diz ter até hoje os rascunhos do trabalho sobre Teoria dos Espelhos. Ele afirma que não apenas pesquisou o assunto na mensal Caros Amigos, como também consultou obras de Débora Franco Leher e o documentário “A revolução não será televisionada”, filmado e dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain.

Não sou a última bolacha do pacote – Em trecho do texto, afirmei, referindo-me ao professor Parzianello: “Sempre acreditou no meu potencial e inclusive tentou me por no jornal O Diário do Norte do Paraná logo nos primeiros meses meu de curso.”

A indicação do coordenador do curso para o jornal impresso de maior circulação do município, segundo André Fernandes, não foi feita única e exclusivamente para mim. O ativista social diz ter sido indicado também, mas que não se sujeitou, e que Parzianello tinha selecionado quatro alunos que se destacavam para ir fazer entrevista no jornal impresso.

André Fernandes não está rindo à toa – Cito no final do texto: “André Fernandes está vindo à Maringá dar uma espairecida, conversar com antigos amigos, rir à toa”.

Essa parte do texto talvez foi a que mais preocupou o ativista social e organizador da ANF, André Fernandes. Isso porque, depois de cumprir uma missão, que era a de levar a filha caçula, em Cascavel-PR, ao colégio nos primeiros dias de aula, isso depois de ficar angustiadamente cerca de nove meses sem vê-la, ele visitou Maringá para trabalhar firme na divulgação do projeto da ANF, feito por ele e por diversos outros intelectuais do Rio de Janeiro: CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE COMUNICAÇÃO.

Fernandes ressalta que o projeto foi entregue à Petrobras, para o setor de Desenvolvimento & Cidadania Petrobras. E, espera-se que até julho o projeto seja aprovado para finalmente André Fernandes realizar seu grande sonho, que é o de por em prática a ANF, dessa vez capacitando diversos jovens, os quais estão inseridos nas mais de 30 favelas do Rio de Janeiro, para que a agência de notícias seja municiada por fatos escritos, gravados ou filmados por quem realmente tem consciência do que está se passando nas favelas.

Até julho, Fernandes busca uma outra fonte de renda e diz ter colocado seu currículo no mercado de trabalho para fazer assessoria de imprensa política, seja em Maringá ou no Rio de Janeiro. Motivo este, também, da vinda para a Cidade Canção.

Lado bom da história –

1- Estou com uma cópia do projeto da ANF em mãos. Quem se interessar pela idéia, que só tende a crescer, pode me procurar para que dialoguemos sobre o assunto. Uma das metas do projeto, segundo André Fernandes, é colocar em prática a ANF não apenas nas favelas do Rio de Janeiro, mas também nas favelas do Paraná e de outros estados brasileiros.

2- Dei mais valor ao blog que, outrora, escrevia com muito amor, mas com poucos cuidados. André Fernandes está correto em dizer que, embora reconheça ter sido uma homenagem de amigo, seu nome está marcado nas páginas da web, e com a onda Googlemania, qualquer um pode ter acesso aos escritos da blogosfera.

3- Eu e André Fernandes continuamos companheiros, sempre em busca de ideais, “no caminho”, como ele sempre diz.

4 - O blog A Poltrona e o blog Diário André Fernandes continuam parceiros também. Pelo menos por enquanto, o ativista social e grande amigo André Fernandes não vai me processar por difamação ou desvio de informações.

Crédito da imagem: http://www.argentour.com/images/che_guevara_fidel_castro.jpg

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Chamadas não atendidas do telefone da casa de meu avô

Wilame Prado

No meio de uma entrevista, vibração ritmada na mesa e luz piscando em compasso: é o celular dando sinal de vida e querendo chamar atenção. Disfarço, dizendo ao entrevistado para olhar o avião que está passando pela janela, desligo o aparelho vaidoso e, quando ele pergunta "cadê o avião?", digo: "voou".

Nem sei como consegui terminar o árduo trabalho de questionar o entrevistado com perguntas que eu já sabia a resposta depois de ver na telinha externa do celular as três chamadas não atendidas do telefone da casa de meu avô. Com câncer no rim incurável, já que seus 80 anos de idade e seus problemas cardíacos o impossibilitavam de fazer cirurgia, só restava a família esperar o dia fatal, o dia em que o velhinho cearense careca, cheio de prosa e piada, viesse a nos deixar e ir para um lugar além.

Minha razão dizia para retornar a chamada e ver de uma vez por todas o motivo da ligação. Mas, perguntava-me como iria conseguir escrever matéria e fazer as entrevistas agendadas se, por acaso, a notícia que ouvisse no celular fosse trágica, funérea?

Escrever? Que nada. Retornar a ligação? Muito menos. Andei de um lado para o outro, tentando fazer mil e uma teorias de que o mais provável - uma morte anunciada – não fosse a única opção para terem me ligado, às 15h40 de uma quinta-feira chuvosa. Como se fosse calmante, construía possibilidades imaginárias para tentar me convencer de que o motivo da ligação não fosse mais do que um simples convite para um almoço de domingo.

Olhando a chuva que não queria parar, vendo pessoas absortas em seus afazeres proletários, a pressão do pensamento lógico não me deixava ter esperanças. Cinco minutos de um cigarro, seriam como chuva em terra seca do Nordeste. O pior é que não fumava em expediente e o café não ficava pronto nunca.

Por mais um segundo de abstração, lembrei de meu finado pai, primogênito desse meu avô que estava em estado terminal. As pessoas da família dizem que o câncer fora desenvolvido por causa da morte prematura do filho, que sofreu derrame com apenas 49 anos de idade. E eu, louco para desligar meu cérebro, não queria acreditar que, em menos de um ano, perderia pai e avô.

Já com um terço da garrafa de café no estômago, e depois de a supervisora notar meu desastroso atraso com as matérias, resolvi retornar a ligação para não ser demitido e acabar de vez com o peso de uma tonelada depositado em minha cabeça.

Quando ouço ao telefone a voz de minha tia que mora quase um dia de viagem da casa de meu avô, as borboletas douradas da esperança morreram com a vertigem da emoção – o pior só podia ter acontecido para ela estar na casa do velhinho atendendo ao telefone, pensei. Meu cérebro logo transformou a sensação de ouvir aquela voz em pernas bambas, batimentos cardíacos apressados e gelo no estômago.

Ao ouvir o motivo da ligação, pela primeira vez na vida senti alívio em receber uma notícia calamitosa. Pois, ao pensar insistentemente na morte de meu avô, ouvir ao telefone que ele havia sofrido um derrame e que estava em coma no hospital universitário foi como achar nota de R$ 50 no bolso da blusa, esquecida há anos no guarda-roupa.

Com esperanças renovadas, e borboletas ressuscitadas, finalmente consegui terminar as entrevistas, matérias e outros afazeres do trabalho. Cheguei em casa e ainda consegui sorrir para a noiva, que esquentava o jantar para mim. Dois dias se passaram e finalmente seria minha vez de visitar o velhinho cearense no hospital.

O horário da visita estava marcado para às 15h45. Mas, infelizmente, a vontade de se encontrar com o filho em algum lugar mais tranqüilo foi maior do que rever o neto e permanecer em um sombrio e gelado hospital branco, cheio de tubos de oxigênio espalhados pelo corpo. Aproximadamente às 11h da manhã daquele dia, ele morreu.

Crédito da imagem: http://alandroal.weblog.com.pt/arquivo/o%20telefone%20do%20chico.jpg

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Murilismo - Filosofia Muriliana

Meu amigo de sala Murilo Batistti fez um desabafo em seu blog relatando o verdadeiro "furo nos zóios" acontecido na Syma Informática. Pagou, nada mais nada menos, R$ 600 em um conserto no PC. Como disse a ele em um comentário, fosse eu, pediria para desfazer o serviço. Mas, tanto eu como ele chegamos a uma conclusão que, pelo menos nos conforta um pouco: Dinheiro não vale nada nesse mundo! Confira os pormenores dessa história infeliz aqui.

Projeto Um Outro Olhar me faz feliz

Ontem (23/02), participei pela primeira vez do Projeto Um Outro Olhar. Aproximadamente trinta pessoas, incluindo eu, minha noiva e um amigo que há tempos não o via, assistiram ao filme Esse Obscuro Objeto de Desejo, do diretor espanhol Luis Buñuel.

Datado de 1977, o filme agradou bastante, principalmente pelos detalhes insólitos e misteriosos que Buñuel distribui entre as cenas. Depois do filme, o coordenador do Projeto Um Outro Olhar, Paulo Campgnolo, que também escreve sobre os filmes exibidos no Caderno D+ de O Diário do Norte do Paraná, fez uma explanação sobre o longa, trazendo aos presentes curiosidades e informações ricas sobre Buñuel e sua obra cinematográfica.

Como toda arte é questionável e digna de debates, houve um arranca-rabo entre um cinéfilo e Campagnolo. Isso porque, o senhor dizia que havia simbolismos em determinadas cenas do filme, enquanto que o coordenador do projeto negava absolutamente essa hipótese, afirmando que Buñuel era totalmente desprendido de simbologia e extremamente objetivo ao tratar o irracional.

Fiquei muito feliz ao participar do projeto, pois, além de ter revisto um amigo das antigas – da época de Biblioteca Municipal de Maringá, além de assistir pela primeira vez um filme do grande diretor Buñuel (em memória, hoje teria 107 ou 108 anos), ainda puder sugar um monte de informações sobre cinema, surrealismo, arte etc. E o melhor disso tudo é que não precisa pagar absolutamente um tostão para assistir aos filmes do projeto – a única condição para participar é chegar no horário marcado, não fazer barulho na hora da sessão e, por obséquio, comprar mantimentos alimentícios na loja do Cinesystem – por ser marinheiro de primeira viagem, acabei participando com uma Rufles e uma coca de 600 comercializados na Lojas Americanas.

Serviço – O Projeto Um Outro Olhar acontece todos os sábados, agora às 18h, no Cinesystem Cidade, no cinema do BIG. Para os próximos sábados, Paulo Campgnolo já definiu os filmes que serão exibidos – todos clássicos, como sempre. Entrada franca.

Crédito da imagem: http://www.adorocinema.com/filmes/esse-obscuro-objeto-do-desejo/esse-obscuro-objeto-do-desejo-poster01.jpg

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Vamos debater o papel da imprensa?*

Zé Dirceu

A discussão sobre a mídia, o papel que ela cumpre ou deve cumprir, e seu poder, para o bem e para o mal na sociedade, continuam em evidência, agora que o ministro Carlos Ayres de Brito, do STF, acolheu liminarmente pedido do PDT e suspendeu 20 dos 77 artigos da Lei de Imprensa. Com a decisão estão suspensas, até o julgamento do mérito, a tramitação e decisões relativas a processos no Judiciário com base nestes dispositivos. Apoiei o pedido do PDT de revogação integral da Lei, por ela ser um instrumento ultrapassado, arcaico, e hoje flagrantemente inconstitucional já que a maioria de seus dispositivos contrariam princípios e leis geradas pela Constituição de 1988, portanto, já há 20 anos vigente no país. Não dá para entender como continue a vigorar por tanto tempo - há 41 anos - esta lei baixada pela ditadura militar em 1967, contraria à Carta Magna do país e, na maioria dos seus dispositivos, cerceadora da liberdade de imprensa, informação e expressão. Aliás, foi feita com este propósito. Advogo, porém, que se aproveite este momento de discussão do tema para debater em profundidade a imprensa brasileira. Proponho-me a participar do debate, não tenho, ainda, mas vou estudar e apresentar sugestões. Não tenho claro, no momento, o caminho que seguiremos, se alguma nova lei ou simplesmente nos atemos à legislação comum já existente, para enquadrar e coibir desvios da imprensa, como ocorre em boa parte dos países. Chamo este debate porque entendo ser necessário o direito de cobrar e de fazer a imprensa responder por seus erros, por crimes contra a honra. É fundamental que garanta o direito de resposta - hoje solenemente ignorado por ela - e respeite a própria legislação vigente no país. Hoje isso não ocorre e ela não tem respeito nem por um princípio elementar e consagrado universalmente no direito, que é o da presunção da inocência. No Brasil, basta alguém ser acusado, mesmo que nada esteja provado e ainda esteja sendo investigado, para a imprensa converter-se em tribunal, massacrar, triturar, julgar e condenar. Absolver, nunca. Não é mesmo o seu papel, mas também não é o de condenar. Isso não pode continuar, porque tenho claro que nem a imprensa quer ser um poder, uma instituição, acima das leis.

*Retirado do blog do Zé Dirceu (http://www.zedirceu.com.br)

Crédito da imagem: http://www.marioblog.blogger.com.br/IMPRENSA%20LIVRE.jpg

Fidel não surpreendeu os cubanos*

por Jorge Garrido, de Havana

Tradução de Renato Pompeu, de Londres

Fidel Castro não surpreendeu esta madrugada os cubanos. Todos esperavam a notícia de alguma maneira. Todos sabiam, se bem que ninguém antecipou a notícia. Quem disse a eles? Ninguém. O olfato, o instinto ou acaso o fato de que conhecem muito bem seu líder. Acontece que, cinqüenta anos depois, Castro, um homem que parece imortal, decidiu não continuar sendo o governante de Cuba. Fidel não renunciou, nunca faria isso, pensam os cubanos. Fidel disse que não se candidatará a presidente, nem aceitará que proponham sua candidatura. O que acontece enquanto isso em Cuba? Total normalidade. A frase mais corrente ou usada é: “ah, sim, já aconteceu, não te disse, era o que tinha de acontecer”. O certo é que os cubanos estão há dezoito meses se preparando para esse dia, inclusive esperando sua morte. Isso estava nas possibilidades. Fidel é um mortal, embora não pareça. Não há barulho nem comoção em Havana. Ninguém grita, tampouco ninguém chora nem soam as buzinas dos carros. Não há ambiente de pesar. Fidel continuará entre os cubanos, algo difícil de acreditar para um homem que liderou o país durante cinco décadas. Que fazer sem Fidel? Nada em especial. Cuba continua indo em frente. Por outro lado, Raúl Castro criou grandes expectativas. Que os cubanos vão ver mudanças necessárias. Medidas radicais, se não na política, certamente na economia, na produção, na administração. A eliminação de travas e proibições desnecessárias. O que está em jogo em Cuba é a Revolução, isso todos sabem. O que está em jogo é a credibilidade na eficiência do sistema. No domingo, dia 24, se reúne o novo parlamento. Não há expectativas. Cada cubano sabe o que vai acontecer. Quem vão eleger, quem vai ser o segundo do segundo. O que os cubanos querem saber é quais serão as medidas importantes que o parlamento vai aprovar, as quais foram antecipadas por Raúl, as quais foram mencionadas por Fidel em sua carta. Cuba, hoje, é calmaria, sossego e esperança. Ninguém grita, nem tem medo, nem chora, receia o se queixa de algo a mais, a não ser as mesmas coisas que têm sido reclamadas ultimamente. O povo já disse tudo que queria dizer nas reuniões abertas que ocorreram no fim do ano passado. Fez todas as críticas possíveis para o momento atual. Tudo agora está sobre a mesa de discussões. Os cubanos expressam, sobretudo, uma grande responsabilidade. Bush ameaça, Miami ferve em delírio, acreditar que a Revolução vai acabar logo. A Europa encara com altivez. Os próximos acontecimentos darão a última palavra. Fidel disse: preparem-se para o pior. O caminho não será fácil. A Ilha encara seu futuro e sabe que a primeira coisa que tem de fazer é defender-se. Defender-se de todos os demônios que apareçam em seu caminho.

Jorge Garrido é jornalista cubano.

O livro Plantados no Chão pode ser baixado de graça no site www.conradeditora.com.br

*Artigo recebido por e-mail de Correio Caros Amigos

Crédito da imagem: http://www.marksimpson.com/blog/wp-content/uploads/cuba-flag.png

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Arrependimentos no esgoto

Wilame Prado

Nunca havia sentido tanta saudade da mãe como naquele momento. Fraquejava, mas uma força maior fazia com que não desistisse de viver tão facilmente. Cheiro fétido e podre invadia suas narinas. Sentia nojo por ser um ser humano fabricante de toda àquela merda, mijo e sujeira. Vez ou outra, acabava engolindo toda essa merda. Arrependera-se de reclamar do suposto gosto ruim de um almoço corriqueiro preparado pela mãe – quanta saudade sentia, dela e da comida.

Pelo menos conseguia contornar a fome, castigando-se em pensamentos gulosos. O pior era a sede, incontrolável, maligna, apressada, que a fez não pensar duas vezes para beber água que nem passarinho bebe – água de esgoto. Vomitou.

Não sentiu tanto medo ao ver baratas, ratos, aranhas e gafanhotos bem alimentados por gorduras e restos orgânicos ao seu lado. Fosse em casa, no aconchego do lar, gritaria, faria escândalo e ainda xingaria o pai por não ter desinfetado o local outrora. Os bichos escrotos, agora, eram sua única companhia. Desistiu da idéia de comer inseto com medo de vomitar novamente.

Desespero e muita vontade de chorar, sentia. Mas, pensava: “o que adianta chorar, fazer mimo, se ninguém vai escutar?” Em seus 26 anos de vida, não se lembrava de ter sofrido tanto. Aventuras amorosas desastradas exalavam nostalgia, e das boas, naquele momento.

Pensou em deus – em minúsculo porque não acreditava em sua existência – mas, em meio ao desespero de águas, sujeiras, cãibras, pulmão queimado e pedindo ar, Deus existiu. “Tende misericórdia” e “pai nosso que estais no céu” foram frases repetidas com exaustão. Arrependeu-se, naquele momento, de não ter seguido os conselhos de sua avó, que sempre proclamava: “Só Ele é a salvação”.

Por um segundo de delírio, imaginou estar morta, pois, assim como as pessoas que dizem ter morrido e voltado, ela imaginou estar em um túnel do tempo, em que lembranças do passado invadem os pensamentos, fazendo com que a sensação de ter roubado um mísero guarda-chuvinha de chocolate na doceria, aos 5 anos de idade, fosse algo tocável, real. Era o fim, e talvez nem fosse tão ruim assim, pensou.

De sobressalto, pegou-se afogando, com água entrando por todos os orifícios. Por instinto, nadou para cima, mesmo não agüentando mais de dores no corpo. Percebeu que o túnel do tempo era, na verdade, um bueiro, e que finalmente havia luz em seu fim. Por uma pequena fresta, conseguia enxergar a claridade do dia, fato que quase a cegou, já acostumada a trevas.

Meio-dia em Curitiba. Centro da cidade, e as pessoas correm atrás de suas marmitas. Não tinha força para gritar, em compensação, ninguém queria ouvi-la. Mas, graças à solidão do homem, que andava cabisbaixo e olhando para o chão da capital paranaense por simplesmente não ter emoção no viver, conseguiu ser vista no bueiro.

O homem triste finalmente ficou feliz por ter ajudado a salvar uma vida. E a menina, que incrivelmente sobreviveu no submundo enlameado e fétido por mais de cinco horas, olhava com gratidão para sua mãe, ao seu lado no hospital. Já sob efeito de remédios, amargurou-se ao lembrar do motivo pelo qual os traficantes a jogaram no Rio Belém para que nadasse no leito de sua morte.

Crônica inspirada nesta notícia: “Curitiba - Luci Machado Santana, 26 anos, protagonizou ontem um episódio, no mínimo, insólito, que mobilizou a atenção de centenas de pessoas que passavam pela Região Central de Curitiba. Por volta do meio-dia, ela foi resgatada por uma equipe do Corpo de Bombeiros, de um bueiro de apenas 40 centímetros de diâmetro, localizado na Avenida Visconde de Guarapuava, próximo à Rua João Negrão, um dos locais mais movimentados do Centro da capital.” Folha de Londrina (22/02/2008)

Crédito da imagem: http://ludmilaprado.blogspot.com/2007_12_01_archive.html

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

André Fernandes e sua passagem por Maringá

André Fernandes é ativista social. Deu uma passeada em Maringá e nessa brincadeira conseguiu bolsa no Cesumar, fez o primeiro ano de jornalismo, sentiu-se desconfortável com a força da suposta hierarquia burguesa-burra e voltou para o Rio de Janeiro, livre para dar prosseguimento ao seu caminho, como ele mesmo diz.

Desde o início do curso, nos identificamos nem sei bem porque. Sempre excêntrico, André Fernandes criava polêmica e defendia com unhas e dentes o que achava correto. Lembro-me o dia em que, em uma apresentação em sala de aula sobre jornalimo-espelho, salvo engano, o professor Geder Parzianello, que também era coordenador de Jornalismo e Publicidade no Cesumar, discutiu feio com o então aluno carioca. Parzianello tinha razão sim em dizer que pesquisar como fonte apenas a revista Caros Amigos era um equívoco, mas, ao meu ver, extrapolou os limites da relação entre professor x aluno ao dar ao discurso um tom ideológico, tentando minar os ideais esquerdistas com frases bonitas de caráter direitista.

Depois disso, passei a valorizar mais a garra de André Fernandes, que hoje direciona a Agência de Notícias das Favelas (ANF).

Nem por isso deixei de gostar do ótimo professor doutor Geder Luiz Parzianello, que hoje é professor (ou coordenador?) da Universidade Federal do Maranhão. Sempre acreditou no meu potencial e inclusive tentou me por no jornal O Diário do Norte do Paraná logo nos primeiros meses meu de curso.

Hoje, André Fernandes está vindo à Maringá dar uma espairecida, conversar com antigos amigos, rir à toa. Ao saber de meu blog, o amigo sugeriu que publicasse simultaneamente um de meus textos, Charutos, em seu blog www.diarioandrefernandes.blogspot.com. Confiram o blog, que sempre traz, entre outras atrações, notícias que não saíram na grande mídia.

Crédito da imagem: http://www.santanaoxente.net/santana/data/upimages/che.jpg

Sobre literatura e música de Chico Buarque

Faz um certo tempo que aprecio os discos de Chico Buarque, ou melhor, os mp3´s. Em minha pasta de música, tenho 15 álbuns dele. Dia desses, peguei seu último romance para ler - Budapeste, pois fiquei sabendo que, até 2009, vai virar filme. E, nada melhor do que ler a obra primeiro antes de assistir ao filme. No início do romance, tive impressão de que Buarque seria um ótimo músico como escritor. Mas, enganei-me. Conforme ia virando as páginas do livro, percebia o poder de narração que ele tem. Sem falar na loucura que é a história que, para resumir, só digo que é um livro dentro do outro, e vice-versa. Às vezes fico me perguntando: como pode uma pessoa ser o puta músico que é, e ainda, pelo visto, um puta escritor? Acho interessante o sistema de criação de Chico Burque. Parece que, quando está compondo e produzindo disco, fecha-se nisso e dedica longos anos entre produzir e fazer turnê. E quando está produzindo literatura, é a mesma coisa. Fecha-se no mundo fantasioso e fantástico da ficção e perdura nos anos até produzir seu próximo livro, sem fazer shows, discos ou composições. Interessante, não? Com quase 64 anos, Chico Buarque é um brasileiro pelo qual sinto orgulho. Espero que possa viver pelo menos mais uns passageiros trinta anos, e que continue produzindo para alegria do povo! Créditos da imagem: http://www.clicklojas.com.br/lojas/produtos/seboportaldolivro/p_3384_Livro-Budapeste.jpg http://oglobo.globo.com/fotos/2007/11/12/12_MHG_cult_Chicobuarque.jpg

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Charutos*

Wilame Prado Acho que a grande maioria dos garotos que atingem certa idade começam a desejar algumas coisas que, em certo ponto, é por influência de filmes norte-americanos. Foi unanimidade quando tocaram no assunto de charutos. Estava combinado de que seria naquela noite linda de sexta-feira, onde a negritude que esmagava nossas cabeças se entrosava com a brisa amena e deliciosa que esvoaçava os cabelos compridos de nós. Eu, Flávio e Caetano. Em frente ao estádio, num bar, ou melhor, num boteco de esquina, foi que experimentei pela primeira vez um charuto. Eu achava que todos que estavam naquele ambiente boêmio iria olhar para mim de um jeito diferente; senti-me mais importante, mais mal, mais Fidel, mais jogador de pôquer, mais Juan Carlos Onetti, mesmo sem saber se ele fuma charuto. Caetano também estava no auge de um orgasmo “charutual”, porém não tomava tanta cerveja como eu. E Flávio, coitado, não se dava ao deleite de experimentar essa sensação de grandeza, sendo que para mim era o que mais merecia, pois era um cara humilde, que tinha todo direito de pelo menos uma vez se sentir mais do que os outros.

Apesar de não sabermos se o charuto era de boa qualidade, fizemos um ritual e tanto, pois de fato merecia. Caetano mordeu a ponta, pois qualquer bom fumante de charuto sabe que, se cortar com a tesoura afeta o sabor (eu não sabia). Depois, tratamos logo de arrumar uma caixa de fósforos. Recusamos o isqueiro da velha do bar e perguntei para a senhora se ela estava de brincadeira comigo, pois uma dona de um bar deveria saber que acender charutos com isqueiro corrompe o sabor original do nobre fazedor de fumaça (eu também não sabia, quem me falou foi o Caetano). Percebia que estava mais esnobe, mais norte-americano, mais desgraçado. É por isso que existem tantas pessoas más e ridículas neste mundo. Não por causa de uma simples merda de um charuto, mas de pequenas coisas materiais que sobem nas cabeças das pessoas, corrompendo a dignidade, até então, original de cada ser. Vou explicar melhor: as pessoas são outras depois de conseguirem algo que tanto almejam e que provavelmente tem um status maior do que de outro grupo de pessoas. Você seria a mesma pessoa depois de virar um presidente de um país, de um movimento estudantil ou de qualquer presidência? É óbvio que agora você fala que seria a mesma pessoa, mas é aí que está a questão. Não é por querer. É um mal de todo ser humano. É inevitável.

Mas, voltando a descrição daquela linda noite, onde nada poderia evitar a bebedeira, nem a tristeza ou alegria contida em nossos corações, pois, afinal de contas, além de ser sexta-feira, ainda era a primeira vez que eu e meu amigo Flávio bebíamos juntos. A primeira de várias bebedeiras. Logo em seguida, depois de tomar um pouco no boteco ao lado do estádio, fomos em direção a nossos humildes lares, onde talvez um banho quente estaria nos esperando ou até uma pilha de louças para lavar, visto que são atividades normais do cotidiano de moradores de repúblicas. Refleti bem e lembrei que havia oitenta por cento de chances de ter uma louça me esperando e ainda um banheiro para lavar. Juntando isso com certo grau de excitação que a cerveja e o magnífico instrumento de elevação moral - o charuto – haviam provocado, insisti aos amigos para que não deixássemos a tão linda noite boêmia se encerrar tão cedo.

Então fomos para outro boteco, ou melhor, fomos para uma lanchonete fazedora de lanches, ao lado do bosque que continha blocos humildes e paupérrimos, a Universidade Estadual de Maringá. Lá, tomamos cerveja para valer. No meio da jornada de morticínio de neurônios chegou um amigo meu da província e um amigo de curso do Flávio, que também era meu amigo de trabalho. Eles perceberam meu ponto de excitação alcoólica, deixando-me irado. Esse motim durou dois minutos até que, como uma fórmula mágica, vejo Dasy, amiga nossa de trampo, passando dentro de uma circular.

Devido a vários fatores que já mencionei, dei meu primeiro fiasco da noite: quase parei a circular só para dar um oi à nossa companheira. Porém, devido a seu alto grau de reflexo, vendo rapidamente que existia um copo de cerveja em minha mão, ela me esnobou. Isso me deixou muito triste, pois, até então, pensava que ninguém tinha coragem de rejeitar Fidel Castro, o fumante de charutos.

Bebemos bastante ainda, mas já não era a mesma coisa. Ainda aconteceram coisas incríveis, como exemplo outra circular passando na rua com outra amiga nossa. Tentei me animar, mas pensava seriamente em desistir de ser o chefe de Estado de um país socialista.

Ora. A vida, nesse dia, deu-me um golpe. Logo percebi - com o passar das bebedeiras, com o passar dos anos, com o passar dos acontecimentos - que a vida é essa. Um golpe. A felicidade são todas ilusões muito bem detalhadas, umas duram mais do que as outras. Uns se enganam a vida inteira achando que são felizes, mas todos, sem exceção de ninguém, percebem que a felicidade plena não existe. Assim como Santo Agostinho a denominava como o conhecimento de Deus, assim como um milhão de românticos acham que felicidade é quando se encontra alma gêmea, assim como Flávio acha que felicidade é poder saber tudo de Gabriel García Márquez e ser seu discípulo, eu, naquela sexta-feira linda, achava que tinha encontrado a felicidade naquela merda de charuto.

Volto para casa. Já é tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista. Lembrei-me de que teria de trabalhar no outro dia, ou melhor, daqui algumas horas. Isso me fez perceber que a ressaca estava começando. O gosto de charuto na boca me deixou de mal-humor. Percebo definitivamente que não gosto de charutos, nem de me sentir melhor do que ninguém. Percebo que o bom e velho humilde que sou, volta ao meu corpo. Cheguei atrasado ao serviço. Levei bronca, e isso é deprimente. Será que minha chefe fuma charutos?

*Meu primeiro conto, escrito no início do ano de 2004. Vendo as notícias sobre a renúncia de Fidel Castro, deu-me vontade de publicá-lo.

Crédito da imagem: http://problemassociaisdobrasil.weblogger.terra.com.br/img/foto02_castro_charuto_rt.jpg

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O futuro escorre pela mangueira de água

Dia desses, estive eu em Borrazópolis-PR, cidade interiorana de menos de oito mil habitantes, que tem calçadão, cachorro-quente e um milhão de ônibus escolares amarelos para levar e trazer a molecada do sítio. O município tem esse nome estranho porque, segundo um borrazopolense, o fundador e desbravador da floresta fechada da época tinha o sobrenome Borraz.

Não fui à Borrazópolis para desvendar seu passado, muito menos para escrever no blog um diário de bordo. Fui para fazer entrevista com um conselheiro fiscal da Cocari. Com a entrevista, faria uma reportagem que iria compor o Encarte Especial da Cocari, suplemento do Informativo Cocari que, por sinal, é um dos jornais que a empresa de assessoria de imprensa Cláudia Comunicações & Eventos faz que, por motivos mil, é a empresa pela qual presto serviços jornalísticos há quase dois anos.

Pois bem.

Depois de realizar meu trabalho, estava indo embora de Borrazópolis quando, bem em frente ao calçadão, meus olhos viram uma cena de quebrar taças, de deixar ovo cair no chão, de fazer com que se soque paredes brancas e duras: o desperdício cruel de água.

Para melhor limpar sua calçada cheia de folhinhas de árvores que, em minha opinião, não são sujeiras, a senhora deixava esguichar, a rolé, a tão preciosa água de uma mangueira. Não bastasse o desperdício de água, muito comum na maioria dos lares, a senhora gastadeira teve o despautério de repassar como herança a falta de conscientização a uma menina, talvez sua filha, talvez sua neta, talvez uma ajudante, que com outra mangueira distribuía gotas e mais gotas, infinitas gotas, sob a calçada, como que se aquele momento fosse o de desafogar o estresse vendo a água, tão clara-transparente, tão cheirosa-cheiro-de-nada, tão saborosa-sabor-matar-a-sede, ir embora por entre os esgotos, misturando-se com a gentalha de bichos asquerosos, com a podridão de coliformes fecais, mijos, merdas e gozos.

A água, limpinha, não merecia esse descaso. E nós, coitado de nós, ficamos com medo de fazer filhos, pois a possibilidade de eles sofrerem com falta de água é muito grande. Confesso eu, tenho medo até de ficar velho e não poder ter aquele copo com água onde iria conservar minha dentadura enquanto o sono, fabricado com calmantes, encher-me-ia de sonhos de uma vida mais aquosa, mais líquida, sem sede.

Créditos das imagens:

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Deixando a vida e o ônibus passar

Wilame Prado Já eram 7h15 da manhã. Aquele horário de sempre que João esperava passar, pontualmente, o seu meio de locomoção para o trabalho – transporte público, mais conhecido como circular, ou busão.

Essa rotina já perdurava nos seus 14 anos de assistente de controle e desenvolvimento da harmonia e limpeza do ambiente de trabalho – zelador. Incapacitado de fazer qualquer raciocínio mais complexo do que contas de somar e subtrair, o João nunca conseguiu ser promovido para ter a profissão que tanto sonha – supervisor de serviços gerais.

Mas, essa encostada de vida que ele deu, o único culpado era ele próprio, pois nunca fez questão de se esforçar em nada, achava que era melhor não ter dinheiro para quase nada, mas aproveitar esse nada, do que ter dinheiro para quase tudo, e não aproveitar nada do tudo. Talvez, seu único raciocínio lógico nos seus pouco mais de 32 anos.

Para não dizer que João tinha qualidades, poucos como ele conseguiam proezas de observar detalhes tão pequenos. Fosse empirista, estaria rico. Como de costume, em todos os lugares que freqüentava, adorava reparar os outros seres humanos que dividiam o espaço no qual estava inserido.

Um dia, chegou ao cúmulo de concluir, após um longo período de estudos positivistas, que a senhora que descia todos os dias um ponto antes do seu, desde que começou a freqüentar aquela circular, usava apenas três cores de calcinhas: vermelha, preta e bege. Essa observação foi feita nos quatro anos em que ela utilizou o mesmo transporte público de João. Corre um boato na circular que a senhora das três calcinhas morreu de Aids.

Infelizmente, João nunca conseguiu nada de lucrativo com essa sua percepção doentia pelas pessoas. Pelo contrário, os apuros com os namorados das namoradas que percebiam os olhares obcecados de João foram muitos. As cantadas e apertadas em seu traseiro também foram inúmeras dos homossexuais que se enganaram ao pensar que tinham finalmente conseguido um bofe.

Até que em uma segunda-feira brava, cujo sol já se fazia presente no cenário proletário de esperas por ônibus lotados, João observou um rapaz atento, ansioso e veloz ao levantar a mão e acenar para o busão parar. Por incrível que pareça, o jovem trabalhava na mesma empresa que ele, o que fez João, o assistente de controle e desenvolvimento da harmonia e limpeza do ambiente de trabalho, puxar conversa.

Em vão.

Introvertido e anti-social, o apavorado para não perder o ônibus fazia de tudo para sentar nos lugares individuais daquele transporte coletivo e, quando não tinha jeito, se encolhia num banco duplo e abria um livro do tipo ‘Pai rico, pai pobre’.

Eis que os meses se passaram e, todos os dias, os dois funcionários da mesma empresa nunca tinha conversado mais do que duas palavras: oi, tchau. E João, em seu comodismo acentuado, decidiu não mais dar a mão para a circular que passava todos os dias no mesmo horário. Isso porque, o seu amigo de duas palavras fazia questão de realizar essa tarefa, já que era tão exacerbado e, pelo visto, sentia prazeres em fazer parar tamanho automóvel com apenas o acenar de um dos dedos.

O fato é que João gostou da idéia, e aproveitava para observar melhor as outras pessoas no ponto de ônibus - nem precisava ficar atento para ver chegá-lo.

Foram, aproximadamente, oito dias nessa folga.

Numa manhã chuvosa de segunda-feira brava, em que pássaros pareciam não terem acordado, e nem a cidade, João estava lá, atento aos movimentos de um mendigo, que dividia um mísero sanduíche de mortadela com seu aprazível cão. De repente, por um piscar de olhos, viu com angústia a sua circular passar. Perdeu-a, mas não deixou de dar uma dura no pomposo e apavorado colega de trabalho:

- Ei, porque você não acenou para o ônibus parar?

- Agora eu não pego mais esse ônibus. Mudei de emprego e ele fica do outro lado da cidade. O senhor me dá licença, pois não posso perder minha circular no primeiro dia de serviço.

Muito tempo se passou depois desse dia. Mesmo assim, João não conseguiu subir de cargo. Parou de observar as pessoas no ponto e passou a ficar atento no corredor cinza-asfalto, esperando eternamente sua circular chegar.

Perdesse ele a circular novamente, na certa perderia seu ofício, o de assistente de controle e desenvolvimento da harmonia e limpeza do ambiente de trabalho – zelador.

Crédito da imagem: http://www.unesp.br/gti/unespcd/Sinalizacao/Imagens/PIC038.jpg

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Um filho que gosta de seu pai: “Graças a Deus”

Wilame Prado

Parecia que tudo estava dando errado na viagem de volta para casa, depois de mais um dia normal de trabalho. O percurso de Mandaguari à Maringá, que faço por meio das famosas amarelinhas, normalmente era completado em uma hora. Nesse dia, a impressão era que tinha passado uma dúzia a mais de horas.

Logo na entrada da circular, o dinheiro miúdo que é sempre tão atuante em minha carteira, dessa vez faltou, dando espaço para notas graúdas que o cobrador não poderia trocar para mim. Tinha acabado de receber o 13º salário.

Indo ao fundo do fantástico transporte coletivo, o qual mais parece um corredor proletariado, uma grande surpresa ocorreu às narinas, que não agüentaram um cheiro fétido e escroto como aquele. “Cagaram aqui no fundo, vou para frente”, dizia um tio falador. Nem no dia em que uma grávida vomitara próximo aos meus pés, eu tinha sentido tanto nojo, mas eu não ficaria em pé, pois as pernas latejavam – fruto de um dia inteiro fazendo reportagens e fotografias. Sacrifiquei o meu nariz batatão.

No banco ao lado, um rapaz de seus 30 e poucos anos de idade, com uma filha adorável. Ele tinha uma escrupulosa cicatriz na cabeça, que contrastada com a cabeça grotescamente raspada, dava a aparência de recém acidentado. Ele tinha voz de bobo e era difícil não imaginar que não tinha problemas mentais. Levava uma bomba de veneno, daquelas estilo mochila, novinha.

Quando a circular chegou na metade do caminho, exatamente em Marialva, metros antes da rodoviária se ouvia uns temíveis gritos, que mais pareciam latidos de uma cadela tentando se livrar do órgão genital grudado após o ato de fornicação.

Realmente havia um cão no colo da esposa do rapaz da cicatriz na cabeça. Mas, curiosamente, os barulhos horripilantes que todos da circular ouviam, eram de seu filho, de uns 3 anos, que pulava e se desesperava para que o pai descesse logo da amarelinha.

O pai não tinha chocolates na mão, nem brinquedos. O moleque, creio eu, não deve querer utilizar uma bomba de passar veneno. Então, como explicar uma alegria sem limites pelo simples fato da chegada de um pai, que, muito provavelmente, estava vindo de mais um dia de serviço?

Ainda saindo da circular, meio sem jeito, o pai avisou que o filho não tinha problemas mentais, e que era o jeito dele. Os sorrisos eram unânimes nos semblantes do transporte público inteiro. Todos se emocionaram e se surpreenderam. Um homem que carregava uma bíblia debaixo do braço olhou para mim e todo pomposo disse: “Graças a Deus”.

Crédito da imagem: http://www.saisdeprata.com/wp-content/uploads/2006/04/pai-filho_preparada.jpg

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

O vermelho de sangue, o vermelho do amor

Wilame Prado “Eles brigam demais e o passado dela não os deixam viver em paz”, comentava um amigo próximo do casal. Ninguém, na verdade, sabia o que os dois loucos amantes já passaram para ficar juntos, e nem o quanto o amor já havia batido na porta do coração dos dois. Mas, para todos, esse namoro era nuvem passageira que aliviara um inferno de uma separação dolorosa recheada de adultérios. A situação do casal parecia estar cada vez melhor, já que agora, finalmente, ela morava no mesmo prédio do rapaz, podendo assim namorar e desfrutar da companhia dele, diariamente. Raras exceções quando não se viam, às vezes ela não agüentava e se entregava ao sono, mas ele não ligava, pois sabia que se algum monstro aparecesse debaixo de sua cama era só bater na porta do D53. Hereditariamente, o nervosismo e o pavio curto compunham o rapaz que, freqüentemente, a decepcionava com suas verdades doloridas. Pensando nisso, a cada dia que passava, a cada beijo que ele recebia, a cada palavra de amor e gestos de carinhos, a cada abraço sincero, a cada risada libertadora de sua amada, ele se sentia mal por não ser do bem. Parecia que quando ela ia embora dormir, ele precisava falar mais um último “eu te amo”, que nunca era o último, mas que confortava um pouco mais. Ambos pareciam duas crianças brincando de qualquer coisa, quando estavam juntos, e de bem. Ambos gostavam de rir da besteira ou da piadinha do outro. Ambos se amavam como loucos, mas, ultimamente, o rapaz achava que não estava correspondendo ao amor que sua amada lhe oferecia diariamente. Estava confuso e a última que ele aprontara, depois das festinhas particulares no apartamento sem a presença dela, foi uma volta, repentina e solitária ao baile que, momentos antes, os dois bailavam felizes da vida - mar de embriaguez, uísque com água de coco. Ninguém acreditou no início, mas a verdade é que o rapaz agora estava dando a cara à tapa, mostrando quem ele realmente era – um fraco. Quase foi por água abaixo o namoro conturbado que, mesmo com infinitos amores, parecia que não tinha mais encaixe e estava a ponto de chegar ao fim. Mas, surpreendentemente, a moça o perdoou de tudo e estava disposta a conviver com um fraco, embora tentando acreditar que essa fraqueza fosse mentira, ou, talvez, uma fase. Admirado, o rapaz não se podia conter de alegria, porém o peso em sua consciência parecia impedi-lo de ir adiante com essa história de amor; achava que a moça não merecia um fraco como ele. Reconheceu, enfim, que é um dos piores namorados que alguém pode ter. Mesmo assim, voltou aos braços de sua amada. Sentiu-se, mais uma vez, o pior dos piores, pois sabia que o melhor era se afastar dela – moça bela e delicada, merecedora de diamantes raros. O tempo, e não muito tempo, passou. Edificou-se a união e os preparativos para um enlace matrimonial pareciam que iam se iniciar. Mas, certa noite, após a moça retornar à sua morada, depois de ficar até de madrugada no quarto dele, ouviu umas batidas em sua janela de vidro. Era o cabo de vassoura que ele insistia em bater do 4º andar para que ela abrisse a janela. O que a pobre moça ouviu foi uma das piores e mais dramáticas declarações de amor, com pano de fundo vermelho. Era o rapaz caindo e gritando: “eu amo você, fica comigo para sem...”. Ela não fechou os olhos e entendeu que a cor do amor era vermelho, vermelho de sangue. O rapaz, naquela noite, achou que faltava dizer pelo menos mais um “eu te amo”, como em várias ocasiões passadas. Ele também queria dizer que os monstros que ficavam debaixo da cama tinham ido embora e que agora não tinha mais medo de dormir. Crédito da imagem: http://i3.photobucket.com/albums/y66/Marota/mulher_vermelho.jpg

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Vovó faz questão de sempre me buscar

Wilame Prado

Não se dizia mais nada; todos calados e absolutamente concentrados no tom roxo da luz emitida pelos tubos de néon que irradiava do centro do salão com decoração e arquitetura originários da Ilha de Madagascar. Uns, com olhos arregalados, pareciam absorver a intermitente iluminação; outros, com olhos fechados e com lágrimas grossas nas bochechas, não vacilavam um minuto sequer no orgasmo fabricado; os que desmaiavam não eram acudidos e se contorciam no chão como lagartixa quando perde o rabo.

E eu ali, ao lado dela, sem saber como fingir consternação diante daquele nirvana que, para mim, estava mais para Kurt Cobain - pirado. Bendita hora em que fui dar uma de pseudo-cult, uma de alternativo, só para conquistar uma garota de cabelos negros, que curte Interpol e usa tênis all star daqueles tipo converse, com uma estrelinha maneira de lado. Antes da luz néon até que o ambiente ainda era aceitável, com canções fabricantes de depressão do Radiohead; a birita também não deixava a desejar, afinal, mesmo sabendo que era do Paraguai, uísque com água de coco sempre cai bem – pagando R$ 50 a inscrição para admirar uma luz, pelo menos uma embriaguez social eu tinha de ter.

O tédio já corroia meu ser inteiramente, principalmente pelo fato de que no local não tinha um banquinho sequer. As pernas doíam porque, além de estar bebendo a um certo tempo, tinha ido direto do trampo (auxiliar de operador de máquinas de xerox) para lá.

A única saída era deitar-me por ali e tomar cuidado para que algum emo enlouquecido não viesse chorar em meu colo. Minha garota, a essa altura do campeonato já estava se embrenhando freneticamente com uma outra garota de cabelos pretos e até bonitinha – me chamaram para fazer parte do momento sagrado delas; preferi ficar com uísque, só que dessa vez puro e sem gelo.

Comecei a passar mal e a sentir nojo de tudo aquilo, ainda mais depois que vi passando ao meu lado dois gambás de mãos dadas e uma girafa trepando com um elefante. E o pior é que não apenas vi, mas senti o cheiro ácido das duas cenas transcendentais. Acho que colocaram alguma coisa naquela água de coco...

"Genalva, vem me buscar que eu estou odiando", gritei no celular. Tenho epilepsia e não posso dirigir. Por isso, vovó faz questão de sempre me buscar quando vou a essas baladinhas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Loucos somos nós

Wilame Prado Dia chuvoso. Daqueles que chegam depois de pelo menos uma semana de ar seco, calor e pessoas andando nas ruas com bolas de suor nas camisetas. Meu itinerário costumeiro, o de andar dois quilômetros que separam o lar do ponto de ônibus (local onde passa o ônibus que me leva até o trabalho), teve de ser modificado. Isso porque, com tênis furado e com ventos que estupram guarda-chuvas, gastar alguns reais a mais para pegar outro ônibus, é melhor do que se molhar.

Se a ação “se molhar” fosse apenas em função da chuva, até aí tudo bem. O problema é que esse “se molhar” corresponde também à lama que atinge os transeuntes devido à pressa que os motoristas têm em dias chuvosos – se esquecem que, na verdade, o pedestre é que deveria ter pressa por não ter um teto de metal que o protege da chuva.

Mas não vai ser hoje que escreverei um manifesto em prol das causas dos pedestres. Lembrei da chuva porque, foi em razão dela que utilizei uma linha de ônibus que não costumo usar e que, dentro desse ônibus, um apanhado de fatos, chamou minha atenção. Pois bem. Na metade do caminho, o ônibus parou em um ponto que fica em frente a um colégio de ensino fundamental e médio. Fui saber, mais tarde, que neste estabelecimento de ensino, alunos com índices de retardo mental também estudavam, em uma sala especial.

Uma professora e meia dúzia de alunos dessa sala especial se adentraram no ônibus que, mesmo com teto e janelas fechadas, estava incrivelmente ensopado, inclusive os assentos. Cena engraçada e rara: um ônibus com vários assentos vazios, com várias pessoas de pé. A professora era loira e tinha suas quatro décadas de vida tranqüilamente. E, como um ser mortal que passou a manhã inteira exercendo uma das profissões mais dignas desse mundo - repassar conhecimento a outras pessoas – foi ocupar um assento sem ver que estava molhado. De repente, um grito de quebrar taças gelou minha espinha e houve correria no corredor do ônibus. Eram os alunos da professora desesperados alertando-a de que o assento estava molhado. Outras pessoas que dividam o transporte público, assim como eu, entreolharam-se com aquela cara de espanto por ver tamanho zelo dos alunos para com a professora loira.

Chegando ao ponto final, professora, alunos, eu e mais algumas pessoas descemos do ônibus e seguimos nossos caminhos. Já no terminal, pude presenciar mais uma demonstração de total afeto de um aluno para com a mulher de quarenta anos, de cabelos loiros e que dá aulas: ele a acompanhou até o outro lado da rua, desviando seu percurso, levando o material que estava em suas mãos.

Talvez essas cordialidades dos alunos sejam uma forma de agradecimento pelo trabalho que a professora desenvolve diariamente. Ou talvez sejam sinceros com todos que estão ao redor. O retardo mental faz com que essas pessoas sejam consideradas excepcionais ou especiais. E é verdade mesmo. São especiais de maneira positiva, pois se diferenciam das pessoas “normais”, que dificilmente demonstram qualquer tipo de afeto por professores, serventes, cobradores de ônibus, colegas de trabalho, mulher, filho. Para os “normais”, é vergonhoso demonstrar amor ao próximo, é coisa de bicha dizer que ama o amigo, é brega declarar amor eterno à pessoa que divide cama e cobertor todos os dias. Se naquele ônibus, a professora de quarenta anos e de cabelos loiros estivesse acompanhada por alunos “normais”, pode ter certeza que, neste momento, estaria com a bunda molhada e muito encabulada por ter tido de agüentar chacotas, sarro e novos apelidos que os brilhantes alunos teriam inventado de bate pronto.

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