terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Um por todos e todos por um

"A vida até que é boa", pensa corriqueiramente Alberto, mais conhecido como Betinho Filho do Vento. Difícil um final de semana sem cerveja e churrasco; joga futebol toda quarta e sábado; é capitão do time; organiza amistosos e vai atrás das inscrições para os torneios, que quase sempre resultam em títulos ao Sociedade Esportiva União e Amizade.

No último jogo, a alegria foi tanta de ver o time entrosado, fazendo até tabelinhas, que Betinho, já com pelo menos três garrafas de cerveja no estômago, declarou amor eterno à equipe e a todos que a integram. Antes de não se conter em lágrimas, gritou o clichê mais conhecido no mundo das competições: "Um por todos e todos por um".

Pensando, sempre, na Sociedade Esportiva União e Amizade, Betinho, por ser praticamente dono do time, sente-se no dever de lavar as camisas da dúzia de rapazes que a suam para conquistar vitórias. Sobra, então, para Edna, sua mulher, o serviço de lavadeira. E é sentindo o cheiro de suor de cada um do time que a moça começa a ver despertada sua insaciável vontade de amá-los e sentir-se desejada por um time inteiro de futebol.

Com o passar do tempo, e das cheiradas incontidas, Edna sabe que o camisa 8 é o mais perfumado e, sendo assim, sempre o imagina como o mais bonito. Na camisa número 2, o cheiro acre e dominante a faz imaginar um homem bruto e viril, que “com certeza tem pegada forte”. A camisa 5 exala um cheiro exótico e tentador, o preferido dela. Já o cheiro da camisa 10, a do Betinho Filho do Vento, faz com que Edna se encha de ódio e lembre-se das incontáveis noites que passou, mesmo com um homem ao lado, sozinha, desgostosa. Na briga mais feroz do casal, ela não suportou e sugeriu a ele que fizesse sexo com os integrantes do time Sociedade Esportiva União e Amizade. Nem imaginava que, depois de algum tempo, seria ela mesma a feitora desse ato.

No início, para conhecer os donos das camisas numeradas, convenceu o marido de que é trabalho demais a ele, além de levar todas as camisas do time para lavar, ainda depois devolvê-las a cada jogador. Com isso, então, vez ou outra aparece na casa de Edna os donos das camisas, fazendo com que, agora, os cheiros que sente as lavando tenham corpo, rosto, vida.

O ato de sentir o cheiro das camisas e depois conhecer pessoalmente o dono se estende até hoje na casa de Edna. O Sociedade Esportiva União e Amizade acabou ficando famoso nos vestiários de futebol como o time que tem a mais bondosa lavadeira. Os melhores jogadores da região fazem questão de jogar nesse time. Betinho Filho do Vento, como sempre, está feliz da vida. E, toda vez, antes de começar as partidas, dá o famoso berro "Um por todos" e espera, ansioso, a resposta dos jogadores, que não titubeiam e, com trocas de olhares sarcásticos, gritam: "Todos por um".

Um comentário:

J. ROBERTO BALESTRA disse...

Bela crônica, Wilame. Consegui me sentir intrusado naquele universo bolístico (do qual não entendo nada além de GOOOOL...; sou músico), mas não avancei o sinal de Edna, certamente por respeito ao quase-homÔnimo Beto... abs.