quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A Caros Amigos deste mês traz uma interessante entrevista com o escritor Luis Fernando Veríssimo. Ele preferiu responder as perguntas dos repórteres via e-mail. Acompanhe alguns trechos:

GLAUCO MATTOSO Caramigo Lufe: minha mãe, que é de Taubaté e morreu faz pouco, não acreditava em padre nem em político nenhum. E você? Acho que esse é um sentimento comum, esse enfaro com políticos, depois de tantos escândalos e tanta hipocrisia. E é perigoso porque acaba sendo um desencanto com a política e no fim com a própria democracia. Se fosse possível haver política sem políticos... Mas não dá, e o jeito é confi ar nos políticos sérios e capazes que ainda existem, em algum lugar, e esperar que a nossa democracia melhore com a prática. O importante é não desesperar e sair atrás de alternativas mais eficientes, ou puras, que acabam em desilusões ainda maiores. Quanto aos padres, deixei de acreditar há muito tempo. Fui criado como católico, fiz primeira comunhão e tudo, mas o lado do meu pai, que era agnóstico, foi mais forte.

VINÍCIUS SOUTO O senhor trata várias questões da vida com humor inteligente. A produção atual de outros cronistas e escritores está conseguindo manter essa linha ou tudo caminha para a mediocridade, para baixos apelos? O Brasil teve grandes escritores que nunca fi zeram outra coisa além de crônicas. O Rubem Braga, por exemplo. O Paulo Mendes Campos, que também era poeta, mas fazia principalmente crônica. O Antônio Maria. Hoje não há mais isso, mas temos outra peculiaridade. Não há, que eu saiba, outro país no mundo em que os romancistas tenham um contato contínuo com o público, pela imprensa, como aqui. Temos o Cony, o João Ubaldo, o Ignácio de Loyola, o Moacyr Scliar, o Bernardo Carvalho, o Torero etc., todos escrevendo regularmente nos jornais. O que significa que podemos não ter mais excelentes só-cronistas, mas temos excelentes escritores escrevendo crônicas. Não acho que caminhamos para a mediocridade, não.

MARCOS ZIBORDI Você compartilha da opinião quase unânime de que o presidente Lula é analfabeto e precisa ler? Olha, com algumas exceções, como o Costa e Silva, que confundia latrocínio com laticínio, fomos sempre governados por homens letrados, muitos deles intelectuais de nome, que conseguiram construir o país mais desigual e injusto do mundo sem cometer um erro de concordância.

RENATO POMPEU Você é muitas vezes apontado como esquerdista. O que acha de Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador? Como você qualificaria o estado atual da esquerda no Brasil em geral e o governo Lula em particular? No Brasil temos o mau hábito de exigir opiniões absolutas sobre tudo. Talvez porque as opiniões relativas pareçam vir de cima do muro. Mas você pode achar certas coisas em Cuba admiráveis, como a independência que conseguem manter ali embaixo do focinho dos Estados Unidos e o que, apesar de tudo, conquistaram em matéria de saúde pública e educação, e achar outras lamentáveis, como a falta de pluralidade política e a presidência vitalícia do Fidel. Entende-se que a direita brasileira seja obcecada por Cuba e, agora, pelo Chávez, mas não é preciso imitar sua radicalidade, a favor ou contra. A mesma coisa vale para os Estados Unidos, que são admiráveis e execráveis, dependendo do que você está falando. O governo Lula, a mesma coisa, só que nesse caso a gente tende a ser mais a favor do que contra para não engrossar o coro dos reacionários, que já é suficientemente grosso. Esse tal de novo populismo na América do Sul é importante menos pelo que é do que pela sua origem, o fracasso de políticas neoliberais recentes em cima de todos os anos de descaso social das elites do continente, que agora têm que enfrentar os Chaves e os Morales e outros monstros que criou. O novo populismo, ou como quer que se chame isso, também tem seu lado animador e seu lado discutível, além do seu lado precário. Já a esquerda brasileira continua como sempre foi, dividida.

Retirado do site: www.carosamigos.com.br

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