quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Arrumando guarda-roupa de camisola

Ela está em cima de uma cadeira, vestindo surrada camisola cor de pele - outrora devia ser branca. Faz horas que está arrumando o guarda-roupa; tira trecos, põe trecos, enfia roupa, passa pano, tira trecos novamente, passa pano de novo. A visão da janela do meu quarto, quinto andar, é privilegiada, pois a janela dela é do terceiro andar do bloco ao lado. Continua arrumando, horas passam, eu continuou olhando hipnoticamente, e ela arrumando. Faço de tudo para justificar minha presença na janela. Fumo um cigarro devagarzinho, boa sensação, várias canecas de tereré, olhar hipnótico, arrumação constante. Às vezes, dá-se a impressão que ela me vê, mas analisando fisicamente e geograficamente, não é possível em seu campo de visão enxergar-me, não sem se abaixar. Mesmo assim, tenho certeza que ela me provoca; levanta de leve a camisola, mas não chego a ver nada indecente. Admito, ela não é tão bonita assim, mas como é provocante ver uma moça arrumando seu guarda-roupa com uma camisola curta! Só pode ser provocação. Olho para outras janelas: uma velha abre sua janela com desdém; uma gorda vai ai banheiro e volta para o reino – sua cama, onde se sente feliz assistindo novela das oito. O tempo passa; tenho obrigações, mas o que posso fazer se estou hipnotizado? A moça continua arrumando seu guarda-roupa, de pouco em pouco tempo, desce da cadeira e vai molhar um paninho para obter êxito na limpeza do móvel cerejeira. Chico Buarque, The Velvet Underground, Paulinho da Viola, Radiohead, Chico Buarque de novo – o shuffling do Winamp parece fazer trilha sonora para minha situação, a de telespectador de fêmea de camisola limpando seu guarda-roupa. Hora dessas, já deve ter marmanjos de plantão em outras janelas; estou com ciúmes porque eu a vi primeiro, portanto, ela é minha, a visão é toda minha! Tenho medo de que ela olhe em meus olhos e perceba que estou bisbilhotando sua arrumação de guarda-roupa, mas, ao mesmo tempo, queria que olhasse em meus olhos, quem sabe ela gosta de se exibir e dê brechas para que minha visão seja atentado ao pudor. Ou não. Vai que fecha a janela. Ficarei sem graça. E se um dia a vir pelos arredores do condomínio, ficarei encabulado. Agora, arruma suas roupas e vem bem perto da janela, o coração dispara, mas, oxalá, ela não olha para cima. Ela tem marcas de biquínis, está queimada e, agora, se abaixou, o que me dá permissão de ver seus peitos miúdos, coisa pouca essa visão, quase nublada. Seu cabelo está preso e percebo que sua orelha é grande. Acho que, no dia-a-dia, deva usar o cabelo solto. Vai ao banheiro, vejo a luz acessa da janelinha ao lado; já penso besteira, ela tirando a calcinha. Bezerra da Silva, agora não, você estragou minha trilha sonora, acabou descontraindo o ambiente que era promíscuo. Não tenho mais desculpas para ficar ancorado na janela, mas quanta curiosidade tenho. Vai que, bem na hora que não estou olhando, ela dê uma brecha. Agora está ajoelhada na cadeira; realmente a posição em que se encontra é bonita de se ver. Agora está de quatro no chão, deve estar catando algum lixo que caiu de seu infinito guarda-roupa. Me enganei. Ela está ajoelhada no chão colocando roupas na gaveta de baixo. Horas passam, tereré se esgota, fome nem dá. Dobrou uma bermuda jeans e vai guardar. Olho para outra janela, disfarçando para mim mesmo. Crianças brincam de esconde-esconde dentro de um cubículo de apartamento. Jovens também tomam tereré lá embaixo e batem bola murcha. Pessoas entram e saem do condomínio. Aliás, pessoas costumam ter compromissos, assim como eu, mas a hipnose é medonha, assustadora, manipuladora. Cai um avião no terreno ao lado, barulho, fumaça e fogo. Bombeiros chegam e eu fui testemunha ocular da história, mas não me esquivo. Parece que agora eu vi um pedaço de sua calcinha. Dou uma passeada na internet para me acalmar. Luxemburgo saiu do Santos, meu time de coração, e foi para uma equipe rival. Solitários cheios de amigos virtuais prosseguem em suas rotinas diárias de em messenger´s e orkut´s. Caixa de entrada sem e-mail novo. Spam chove. Promoção da Lojas Americanas e do Extra também. Volto à minha jornada - a de olhar a garota arrumar seu guarda-roupa. Mas, agora, as portas do guarda-roupa estão cerradas. Em uma sacolinha de supermercado, ela coloca trecos que estavam no chão. Sai do quarto. Deve ter ido levar a sacolinha junto às outras sacolas de lixo que, geralmente, ficam na sacada esperando um acúmulo para serem encaminhadas ao lixo da rua. Morcegos entram e saem do meu quarto, mas não fecho a janela. Panela de pressão estoura na cozinha - carne com batata agora faz parte da decoração da cozinha. Telefone berra até perder voz. Poeira se acumula na armação dos óculos e as lentes estão contagiadas pela oleosidade do rosto cheio de cravos. Acho que perdi emprego, perdi namorada, perdi ônibus e banda que passou cantando coisas de amor. Estou completamente desesperado porque já faz quatro minutos e pouco mais de trinta segundos que ela não aparece na janela de seu quarto, e as portas do guarda-roupa continuam fechadas - parece um caixão de pé. Meu desespero acaba de virar depressão e crise existencial. Ela finalmente apareceu no quarto, soltou os cabelos e escondeu as orelhas de abano, fechou as cortinas e apagou a luz. Acho que foi dormir.

3 comentários:

Inconformado disse...

Gostei do texto. Muito bom.

Wilame Prado disse...

Valeu Inconformado! Volte sempre!

Paula disse...

Muito boa a crônica... Amei... Já pensou em escrever um livro de crônicas?!
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