terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Tristeza de Papai Noel*

Wilame Prado Não recebia décimo terceiro e nem tirava férias. Fazia bicos em construções mexendo cimento, quebrando pedra e martelando parede. No final de ano, ficava difícil para ele ver tanta gente gastando e consumindo enquanto que sua mulher e filhos arregalavam olhos e sentiam desejos de ir às compras. Resolveu, então, fazer mais um bico. Aproveitou a silhueta circular de sua barriga e foi pedir emprego em um shopping da cidade. Conseguiu vaga e não largou tão cedo. Já ia para seu quarto Natal como velhinho de barbas brancas. Só tinha um porém. Aquele ano fora turbulento para ele, principalmente depois que descobriu sua chaga - a diabetes. Nervoso ficou quando viu feridas nas pernas. O álcool fora sua válvula de escape. Perder a família não estava em seus planos, mas admitia estar insuportável. Não se despediu dos filhos no dia em que saíram de casa juntos com a mãe para a casa de sua ex-sogra; preferiu o bar. Emagreceu abruptamente e quase não conseguiu o cargo de Papai Noel daquele ano. A almofada na barriga o salvou. Papai Noel costuma ser um cara legal. Ele também foi. Mas, especificamente neste fim de ano, simplesmente não conseguia sorrir falsamente para crianças egoístas e consumistas que o visitavam.Lembrava dos filhos e se corroia só de pensar que passaria um Natal sem a família. Na véspera, pôs tudo a perder de vez. Em um momento de fúria, depois que uma menina chorou em seu colo dizendo que ele estava fedendo, agrediu o pai dela, que questionou seus vícios e hábitos higiênicos. Estava realmente bêbado. Foi mandado embora. Na noite de Natal, não conseguiu esquecer os pedidos que crianças e jovens haviam feito a ele: videogame, notebook, celular, mp4, mp5. Lembrou-se do dia em que rejeitou um carrinho de fricção como presente de Natal para o filho. Com um sorriso amarelo, quase que de desespero, também se lembrou que o mesmo filho ficara satisfeito e feliz ao ver que o pai tinha improvisado um singelo carrinho com tampinhas de garrafas, caixa de massa de tomate e uns pregos. Sobreviveu ao Natal tristonho. Ano novo, vida nova, ocupação nova. Voltou a fazer bicos, dessa vez catando papelão e latinhas pelas lixeiras de prédios e casas. Pensou, sabiamente, que, com todo esse consumismo do Natal, com certeza lixos e sobras é que não iriam faltar. Mesmo com todas as decepções que sofreu no fim do ano passado, não perdeu o espírito natalino e manteve como parte de seu vestuário a toquinha vermelha com a bolota branca de algodão na ponta. Hoje, em suas andanças sem rumo pelas ruas, às vezes, de sobressalto, pega-se confabulando que, em vez de estar em uma carrocinha cheia de papelão e chicoteando uma mula velha, está guiando renas em seu trenó, lotado de presentes para os filhos. *Crônica publicada no dia 22 de dezembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Previsões futebolísticas*

Wilame Prado Você está começando a ler uma crônica que foi escrita no dia 7 de dezembro, 10h15. Sobre o motivo de eu estar escrevendo antecipadamente, daqui a pouco explicarei. Estou acordado nesta manhã de domingo, pois é regada de especiarias sensitivas, do tipo sol quente e feliz, que me faz lembrar dos moleques soltando pipas em parques de São Paulo, brisa refrescante, que me faz lembrar dos banquinhos e da ciclovia de Santos, e cheiro de frango assado da vizinha, que me faz lembrar dos almoços dominicais com a família reunida. Deixando a nostalgia de lado, sei que logo mais, às 17h, grande parte dos brasileiros, principalmente homens, estará vidrada na tevê, acompanhando a última rodada do Campeonato Brasileiro de futebol. E, como o caro leitor pôde descobrir, neste mesmo espaço semana passada, este cronista que vos escreve é um declarado torcedor do São Paulo Futebol Clube – torço sempre para que perca. Agora sim, vou explicar o prometido. Escrevo esta crônica na manhã de domingo para anunciar um dom raro que tenho: sou vidente. E, em minhas visões anuviadas do futuro próximo, pude conhecer antecipadamente o campeão nacional deste ano. Por enquanto (embora todos já devam estar sabendo quem ganhou o campeonato porque estão lendo este texto, no mínimo, dois dias depois de domingo), só posso adiantar, por meio de minhas visões, que a camisa do time é composta por três cores diferentes, ou seja, é um verdadeiro tricolor. Paro de escrever por aqui, pois enxergar o futuro me deixa fatigado e com fome. Já são 12h. Vou almoçar macarrão instantâneo sentindo o cheiro de churrasco de outro vizinho. Quando terminar os jogos da última rodada do Brasileirão, volto a escrever. Olá, voltei. São 19h10 e constatei, com o apito final do juiz que foi escalado de última hora para apitar o jogo entre Goiás e São Paulo, que minhas previsões e bruxarias foram infelizes. Antes de sofrer um baque com a derrota do chocho time esmeraldino, fiquei a me imaginar, mesmo sendo santista, comemorando o título do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense no Estádio Olímpico, assim como o pai de um amigo meu (morador de Palmas-PR), que viajou de ônibus a madrugada inteira para acompanhar a partida na capital gaúcha, pensou que ia fazer logo depois da vitória do seu time contra o Atlético Mineiro. Outra visão para o futuro: nesta semana, muitos chegarão em seus locais de trabalho tendo de agüentar o sarro de são-paulinos, pois torcer para este time está na moda e em todo lugar se encontra um deles. Certo é que, este ano, o circo foi embora, ou melhor, o futebol acabou. Em 2009, com minhas previsões, embora errôneas, tenho pelo menos uma certeza: será um ano ainda mais sofrido para aquele que, assim como eu, torcem para que os times rivais percam. O Sport Club Corinthians Paulista vem aí. *Crônica publicada dia 9 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://ojornaldahiena.files.wordpress.com/2007/11/bola_de_cristal1.jpg

Eu já sabia*

Wilame Prado Você está começando a ler uma crônica que foi escrita no dia 7 de dezembro, 10h15. Sobre o motivo de eu estar escrevendo antecipadamente, daqui a pouco explicarei. Estou acordado nesta manhã de domingo, um dos melhores momentos para se exercer a função de escriba, porque, para mim, a manhã do primeiro dia da semana, que é separado por uma linha tênue entre o prazer do lazer e do descanso com a depressão pré-segunda-feira, afetada principalmente pela audição das chamadas do Faustão e do Fantástico, é regada de especiarias sensitivas, do tipo sol quente e feliz, que me faz lembrar dos moleques soltando pipas em parques de São Paulo, brisa refrescante, que me faz lembrar dos banquinhos e da ciclovia de Santos, e cheiro de frango assado da vizinha, que me faz lembrar dos almoços dominicais com a família reunida. Pois bem. Sei que logo mais, às 17h, grande parte dos brasileiros, principalmente homens, estará vidrada na tevê, acompanhando a última rodada do Campeonato Brasileiro de futebol. E, como o caro leitor pôde descobrir, neste mesmo espaço semana passada, este cronista que vos escreve é um declarado torcedor do São Paulo Futebol Clube – torço sempre para que perca. Portanto, escrevo adiantadamente neste domingo, agora já são 11h05, para dizer que tenho um dom raro: sou vidente. E, em minhas visões anuviadas do futuro próximo, pude conhecer antecipadamente o campeão nacional deste ano. Por enquanto (embora todos já devam estar sabendo quem ganhou o campeonato porque estão lendo este texto, no mínimo, dois dias depois de domingo), só posso adiantar, por meio de minhas visões, que a camisa do louvado time é composta por três cores diferentes, ou seja, é um verdadeiro tricolor. Paro de escrever por aqui, pois enxergar o futuro me deixou fatigado e com fome. Já são 12h. Vou almoçar macarrão instantâneo sentindo o cheiro de churrasco de outro vizinho. Quando terminar os jogos da última rodada do Brasileirão, volto a escrever. Olá, voltei, tudo bem? São 19h10 e muitas pessoas estão comemorando o título do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Neste momento, mesmo sendo santista, queria estar no Estádio Olímpico, assim como o pai de um amigo meu, morador de Palmas-PR, que viajou de ônibus a madrugada inteira para acompanhar a partida na capital gaúcha. Se isso fosse possível, ficaria junto da torcida Geral do Grêmio (Alma Castelhana), levantaria um cartaz com os dizeres "Eu Já Sabia – Maringá", pediria para que me avisassem por telefone quando a emissora de tevê estivesse me filmando e mandaria um abraço ao meu sogro, são-paulino doente. *Crônica que fiz convicto de que o Grêmio seria o Campeão Nacional deste ano
Crédito da imagem: http://elt0n.files.wordpress.com/2007/05/20051126-gremio.jpg

sábado, 6 de dezembro de 2008

Santa Catarina, protegei seus filhos*

Wilame Prado Naquele domingo pouco abençoado, em que explodiu nos meios de comunicação as notícias sobre as enchentes por vários municípios de Santa Catarina, eu vi duas mães chorarem de desespero. Mas era um choro diferente daqueles de crianças mimadas ou de quando a pessoa sente alguma dor física. Era um choro interno, o choro surreal causado pela dor do coração. Mães com os braços atados, querendo ir voando imediatamente para o Estado vizinho do Paraná e trazer a prole debaixo das asas, querendo oferecer um bom jantar, banho quente e muito carinho para os filhos - ilhados num mar de lama, presos em casa, em alguma rua qualquer da cidade de Brusque, sem energia elétrica e sem muito a fazer senão sentir medo, tédio e saudade das mães. Naquele domingo mesmo, esses filhos foram resgatados pela Defesa Civil, de barco, e tiveram de abandonar a casa, financiada com muito suor. Mas, pelo menos, a querida Luna, uma cadela carinhosa, pôde também sair da vida aquática juntamente com seus donos. Depois de uma breve estadia em apartamento de amigos (nessas horas, quem mora em prédios agradecem até pelos pagamentos mensais do condomínio), com o sumiço vagaroso de toda aquela água marrom, voltaram para o aconchego do lar, intacto. Uma semana se passou e outro domingo (pé de cachimbo, o cachimbo é de ouro...) nasceu para todos. Os paranaenses puderam acordar com um dia radiante, daqueles típicos de se fazer um churrasco, assistir a penúltima rodada do Brasileirão e torcer para o São Paulo não levar o caneco. Mas os pobres filhos de Santa Catarina acordaram abatidos, com ressaca de mais uma madrugada chuvosa. Mesmo assim, contaram pelo telefone, ainda puderam dar uma volta pelas ruas e ver o estrago, o caos, o feio e o resto de ruas, avenidas e casas que, outrora, ainda podia ser chamado de cidade. O desejo das mães é para que os filhos esqueçam suas vidas em Santa Catarina e voltem ao Paraná, Estado abençoado, vacinado, até então, contra grandes desastres naturais e, por sinal, muito acolhedor – cerca de metade de todas as doações enviadas aos catarinenses foram feitas pelos pés vermelhos. Mas os filhos não podem voltar, infelizmente. Estão conquistando seus objetivos profissionais por lá e, assim como aquelas pessoas que insistem em ficar em suas casas, mesmo sabendo que correm o risco de morrer soterradas por um desabamento, não deixarão seus lares para recomeçar do zero em terras paranaenses. Portanto, mães sofredoras, apeguem-se ainda mais na fé cristã e rezem por Catarina de Alexandria (santa padroeira daquele Estado). O imbróglio entre ela e o São Pedro, que insiste em regar as terras catarinenses, já está deixando todo mundo louco. No Natal, com muita esperança, aguardaremos os barrigas-verdes para confraternizarmos e esquecermos um pouco as dificuldades da vida. *Crônica publicada dia 2 de fevereiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://br.geocities.com/santacatarina2000santos/imagem/catarina33.jpg

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Saramago anuncia novo livro de Chico Buarque

"...Antes estivemos com Chico Buarque, que está a ponto de terminar um novo livro. Se for como Budapeste teremos obra. Chico, o cantor, o músico, o escritor, é um dos homens cabais que unem a qualidade do seu trabalho à sua condição de boa gente." - José Saramago em seu post Dia vivido. A respeito das mudanças de fontes e cores no blog, nada a explicar a não ser que o mundo não merece tantas cores assim. Junto do tons pretos e cinzas, vieram, pelo menos, novos links ao lado, na sessão Boas Leituras, de excelentes blogs e sites, como o do próprio Saramago, Xico Sá, Bortolotto, Ana Guadalupe, Aires Buenos etc.

sábado, 29 de novembro de 2008

Malvada e correta consciência*

Wilame Prado Quem deve, tem vontade de correr, sem parar, sem nem olhar para trás. Tem desejo de se esconder, eternamente, embaixo de uma coberta, bem grossa. Mas não estou falando sobre dever uma pinguinha no bar, ou alguns pães na padaria. Não é dever uma grana para o colega, assim como eu devo R$ 200 para o Vinícius (um dia eu pago). A dívida que estou falando é muito além de qualquer aspecto material, não envolve dinheiro e nem troca de favores. Estou me referindo à dívida que se tem para com a consciência – uma malvada, porém quase sempre muito correta. Acho que a conheci, a malvada, muito pequeno, talvez quando me toquei de que fazer necessidades fisiológicas na calça era incorreto. Desde então, ela, a consciência, a que não mede as palavras, a que diz sem medo a verdade para o seu eu, vem atuando ativamente, fazendo com que, muitas vezes, eu não tenha coragem de fazer algo. O arrependimento (irmão da consciência) pode, a qualquer momento, chutar as bolas da dignidade. Um dia, eu pratiquei um roubo. Devia ter uns onze anos, morava em São Paulo (capital) e estava, gradualmente, sob influência de amizades suspeitas, prestes a me tornar um moleque travesso, do tipo que gosta de caçar briga com a turma da rua de baixo, que fuma escondido em casarão abandonado e que taca camisinha cheia de urina no carro do delegado vizinho. Chega de detalhes e voltemos ao maldito roubo. Era uma noite quente de verão. Devia estar quase na hora de começar a novela das oito, mas eu e um monte de amigos ainda estávamos na rua, de pés sujos e fazendo alguma traquinagem. De repente, e isso era normal naquela época, faltou energia elétrica em todo o bairro. Então, no auge da minha insanidade, pensei que, naquele breu, se pegasse uns picolés no freezer da Kibon, na padaria da esquina, o dono português e bigodudo não perceberia. Realmente, o português não percebeu. Mas o cearense, que estava no balcão, sim. Saí correndo feito louco para casa, com medo de apanhar. O magricela e testudo do balcão gritava "devolve o sorvete moleque", mas já era tarde. A vergonha de assumir o crime não me permitiu voltar atrás. Na correria sem fim, meus calcanhares encardidos batiam em minhas nádegas. Por fim, e para não ficar com a prova do crime em mãos, joguei os picolés para as únicas duas meninas que brincavam com a gente na rua. Cheguei em casa branco. Minha mãe estava na calçada, conversando com a vizinha, já que, sem energia elétrica, era impossível de assistir a novela. O calor era insuportável e ainda não tinha tomado banho. Mesmo assim, suado e sujo, fui buscar abrigo debaixo das cobertas. Que sufoco. Como a padaria ficava na rua de casa, o funcionário me reconheceu. Então, ainda na mesma semana, em pleno almoço, na frente de toda a família, minha mãe me obrigou a pedir desculpas e a pagar o valor dos picolés surrupiados na noite escura. Ao entregar a grana ao cearense na padaria, a vergonha (irmã da consciência e do arrependimento) veio vestida de vermelho nas maçãs do rosto. Naquele dia, ao roubar os picolés, não liguei para as advertências da consciência. Só que tinha me esquecido de um detalhe: ela, a malvada, nunca morre e, depois do ato consumado, vem bruta e pesada. Tivesse lido "Crime e Castigo" antes disso, teria consciência (no sentido de conhecimento) do quanto a consciência (no sentido de moralidade) pesou na vida de Rodion Românovitch Raskólnikov. *Crônica publicada dia 25 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://palavraguda.files.wordpress.com/2007/09/dostoievski.jpg

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Meu tesouro

Wilame Prado

Às vezes, aliás, muitas vezes, o mundo se encontra, para o indivíduo, em perfeito estado de putrefação. Ou seja, tudo é uma merda. A vida é uma merda; viver é uma merda; ter vivido algo é uma merda. Dias típicos de primavera florida, de gente sofrendo e sorrindo dentro da circular, de rapazes e moças contentes com os automóveis que vos levam às universidades de merda.

E eis que estava eu, dia desses, vivendo o maior espírito coliforme fecal noites mal dormidas e dias mal vividos quando, de repente, daquela caixinha em que você sempre abre na esperança de ter uma carta pessoal e, impotente, só encontra contas a pagar e propagandas ridículas, achei um tesouro.Com este tesouro, um achado dentro da caixinha de correio número 53, pude finalmente chorar de emoção (depois de muito tempo), pude esquecer um pouco o cheiro da merda que nos cerca (ou do ralo, para quem curte o filme "O Cheiro do Ralo), pude esquecer um pouco as baixezas das pessoas que fedem merda, pude, enfim, ter minutos de alegria passageira, um momento único em meio a crises existenciais que não param de fazer tempestades em copos de água (ou de cerveja, caso prefira) em minha vida corrida, desorganizada e sem muitas assertividade.

Eu mostrei meu tesouro para algumas pessoas, que concordaram comigo no que diz respeito ao seu valor incalculável. Com meu tesouro, pode ser que eu fique rico, de dinheiro se eu quiser (mas não quero), de esperança, de paz no coração e de garra para continuar velejando no mar (de merda, não tanto assim vai) da vida.Estou à procura de um quadrinho com moldura para proteger meu tesouro, que também servirá de bússola para quando eu ficar sem norte em meio a uma multidão de formigas atômicas disfarçadas de pessoas, por entre ruas, empresas, redações, entrevistas, universidades e bares. Poderei olhar para meu tesouro e finalmente conseguir ver - ver um pouco além do que simplesmente as imagens coloridas que meu cérebro insiste em fabricar para me iludir.

Eu nem sei o que seria caso não tivesse ganhado meu tesouro. Mas, de qualquer forma, aproveito a deixa para agradecer a autora deste presente magnífico, um simples papel colorido que, com certeza, salvou uma semana, que valeu por uma vida. Então, obrigado, minha querida e linda sobrinha e afilhada Laís, que completou 4 aninhos no último dia 10 de novembro. Sua cartinha, com direito a foto 3X4 e tudo, com os dizeres, em letras aprendizes, mas muito sinceras, "para titio Júnior – Eu te amo – Laís", foi um tesouro.

sábado, 22 de novembro de 2008

Sobre amor e piano*

Wilame Prado Dinheiro era o que precisava para conseguir por em prática um sonho que contaminava seus pensamentos diariamente, antes de dormir, desfocado no trabalho ou fumando cigarros. Em lágrimas, vendeu a humilde moto 125 cilindradas e ajuntou um pouco de dinheiro optando em comer prato feito à R$ 3,50 em vez de almoçar em restaurantes que cobram por quilo. Ainda vendeu o velho violão Eagle preto, de cordas de aço, e conseguiu outro punhado de reais. Tinha, agora, certo ordenado na poupança. Tinha também lembranças de momentos bons – vento na cara, velocidade, mão dela em sua cintura, mentiras para ele mesmo de que estava pilotando uma Harley, ovo frito e bisteca de sexta-feira, canções românticas mal cantadas e tocadas, dedicadas a ela. Nostálgico, quase se arrependeu do que fez, mas o amor e a vontade de surpreender o impulsionava. Digitou no Google “Piano”, em aspas para apurar melhor a pesquisa. Sem norte, acabou pagando fortuna em um Fritz Dobbert, castanho escuro, usado, sujo e quebrado, de uma velha professora de piano (igual àquelas que sempre têm nos filmes) que queria se desfazer do instrumento musical (móvel da sala) para comprar passagem de ida sem volta rumo à Europa, em casas de tias-avós. Acabou ganhando, de brinde, um tapete mofado para que o instrumento não riscasse o chão. O segundo e maior desafio, que também custaria dinheiro, era o de aprender a tocar piano. Tarefa árdua para alguém que “malemá” tirava um Raul Seixas no violão e tinha dificuldades atenuantes para conseguir tocar qualquer canção de Chico Buarque. Teve de voltar ao prato feito por mais algum tempo para conseguir pagar as duas aulas semanais, de uma hora cada, com uma outra senhora que parecia a dos filmes. O terceiro e último desafio, que, lógico, também custaria dinheiro, era o de viajar a praia, nem que fosse um final de semana, para finalmente realizar seu sonho, cultivado há anos. Dessa vez, teve de fazer empréstimo e matou saudade do velho e bom boleto bancário. Enquanto isso, conseguiu a façanha de esconder da amada, não só sua falta de talento, como também o próprio piano. Amoitou-o em república de amigos meio loucos, meio beberrões, que nem se importavam quando, em madrugadas a fio, ele insistia em tentar tirar, irritantemente, um “Dó-Ré-Mi-Fá Fá-Fá Dó-Ré Dó-Ré Ré-Ré”. Com cerveja em mãos, os amigos sempre pensavam que estava tocando a música da propaganda do Danoninho. Em um agitado sábado de fim de ano, em uma praia movimentada, crianças tiravam sarro e velhos se assustavam ao vê-lo deitando um velho tapete mofado nos grãos de areia fofa, a alguns metros de distância de sua amada, que tomava sol, distraída, com casal de amigos. A multidão começou a se formar quando um sujeito encostou uma camionete à beira da praia e, com ajuda de alguns salva-vidas, descarregou o velho piano Fritz Dobbert sobre o tapete. Suado, não apenas pelo nervosismo, mas também pelo sol de meio-dia escaldante, começou, desajeitado e errante, a tocar uma canção de amor - a mesma que fez trilha sonora para o primeiro beijo do casal, na cantina da universidade. Continuou errando, mas nem se importava mais, pois logo viu que ela reconhecera a música e, correndo, aproximou-se do piano, empurrando gente, enxugando lágrimas. Ao final, pediu-a em casamento e, ao ver tamanho sorriso de criança em seu rosto, chorou de alegria e de alívio por finalmente ter conseguido realizar seu sonho. Ao som de palmas da multidão, beijaram-se. *Crônica publicada dia 18 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.vendobrazil.com.br/sys/thumbs/TIPO_CLASSIFICADO-BLOB_IMAGEM_3-122-500-350.jpg

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Obama, espelhe-se no Carlinhos*

Wilame Prado Ultimamente, o assunto principal da rodinha diz respeito a um homem negro que se tornou presidente dos Estados Unidos, chamado Barack Obama. Legal estar vivendo este momento. Gostoso ligar a tevê e ver o Jô Soares dando um gritinho de vitória quando do resultado nas eleições daquele país. Até o nosso querido cronista Antônio Roberto de Paula relatou, em sua última crônica, no domingo, sobre um amigo que chora de emoção pelo ocorrido. Este fato marcante foi o pontapé inicial para a abertura de debates acalorados sobre racismo e outras questões de pele. Muitos dizem que Obama não ganhou as eleições só por ser negro. Outros temem que, com a chegada de um negro a um dos cargos mais importantes do mundo, a premissa de que a cor não impende ninguém de alcançar seus anseios profissionais (querer é poder) seja utilizada em discursos de racistas camuflados, que escondem sua doença mental com papo furado de meritocracia progressista. Nas imagens transmitidas diretamente dos Estados Unidos para nós, brasileiros, Obama parece ser uma pessoa legal. Mas não vai ser a semiótica da tevê, construtora de uma imagem carismática de um político, que vai me fazer acreditar num mundo melhor só porque um negro assumiu pela primeira vez a direção de um país imperialista, consumista, poluidor ao extremo e encrenqueiro. E já que não posso dizer mais nada sobre o "Obaminha", gostaria de lembrar de outra pessoa negra, pela qual sinto um enorme carinho. Esta sim, eu sei, pode e já está construindo um mundo melhor, com sua honestidade e trabalho. É o Carlinhos, meu primo, morador da pequena Santa Fé. Na escola, só tirava notas boas. Meio tímido, é aquele tipo de pessoa que espera você conversar para abrir a boca. O tempo passou, ele continua indo à missa aos domingos, casou-se e faz pouco tempo que se mudou para sua casa própria. Trabalha desde pequeno com meu tio e padrinho, o Zé Preto, na roça. Aprendeu a dirigir também ainda moleque, mas, correto que só, não conduzia a pampa (alguém se lembra deste carro?) na cidade, mesmo com a insistência do pai, apenas no trabalho, na área rural. Desconheço algum inimigo seu, assim como não conheço alguém que tenha raiva dele. Carlinhos não fala mal de ninguém, não tem vícios e é adorado pelos primos menores e pela minha avó. Um exemplo de vida. Se a maioria das pessoas fosse igual ao meu primo Carlinhos, aí sim acreditaria que poderia haver um mundo melhor. Eu sei que não existe desvio de caráter, para mais ou para menos, pelo fato de a pessoa ser negra, branca, amarela ou verde. Mas, posso afirmar, sem medo de errar, que todos os negros que eu conheço são honestos, trabalhadores e íntegros. Portanto, fico feliz pela vitória de Obama. Se ele for pelo menos parecido com o Carlinhos, pode ser que haja esperança. *Crônica publicada dia 11 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://weblogs.newsday.com/sports/watchdog/blog/BarackObamaHS.jpg

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vestida de cetim*

Wilame Prado Estava sem nada para fazer. E já que era de graça, foi ao show no parque de exposições, naquele domingo. O show estava bom, até que começou uma confusão sem tamanho. Ouviu disparos ocos, várias pessoas se arrastando ao chão para não ser atingidas, e ele, estático. Um suor frio escorreu de sua costeleta quando viu, bem ao seu lado, um rapaz, desconhecido, sangrando e estirado no chão. Foi embora do parque com aquela sensação estranha, que mescla o alívio e o medo. A partir daquele momento, tinha a certeza de que para morrer basta estar vivo. Olhou para cima e quase fez uma oração, mas desistiu ao ver a negritude de um céu que prenunciava chuva, e das fortes. Pela madrugada, já em seu apartamento, não conseguia dormir, só pensando na morte que passou ao seu lado. Lembrou da canção “Canto para Minha Morte”, de Raul Seixas e Paulo Coelho, e cantou o refrão, na sacada: “Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar esperas só por mim. E no teu beijo, provar o gosto estranho, que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo morte, morte, morte, que, talvez, seja o segredo desta vida.” Ainda na sacada, foi acender o último cigarro do maço. O vento gelado apagou o também último palito da caixa de fósforo. Foi buscar o isqueiro na cozinha quando, já na sala, ouviu um estrondo enorme. Parecia um avião caindo, mas não era. A sacada, que a poucos segundos estava sendo habitada por ele, agora, transformara-se em monte de concreto no chão, juntamente com outras quatorze sacadas do prédio, que caíram em efeito dominó. Lá fora, sem cigarro e sem sacada, olhou mais uma vez para o céu, negro que só. Seria o fim dos tempos? Bom. Pelo menos, seria o fim de uma possível noite de sono. Já no outro dia, com sono, mas com a cabeça no lugar, lembrou-se de que milagrosamente havia conseguido escapar da morte por duas vezes. Estaria ela, a morte, vestida de cetim, procurando-o? Resolveu, então, agradecer a Deus e se benzer. Como prova de sua gratidão, queria doar dinheiro para a igreja de seu bairro. Aproveitou a hora de seu almoço para ir a um banco retirar a grana, ali no centro. Na fila, distraído, pensando o que seria dele sem uma sacada para fumar, quando deu por si, estava no meio de um tiroteio, que acabou ferindo funcionários do banco, bem próximos a ele. Antes de ir a outro banco pegar uma quantia de dinheiro, agora, maior para doação, sentou-se num banco de uma praça. Não conseguia entender o seu karma. Não sabia se era sortudo por ainda não estar morto, ou azarado, por sempre estar nos lugares errados, nas horas erradas. Doou o dinheiro à igreja ainda naquele dia. Não dormiu naquela noite também. No domingo e na segunda-feira, fora personagem de três tragédias em Maringá. Na terça-feira, ficou, meio que inconscientemente, esperando mais alguma tragédia. Em sua mesa, quando o telefone tocou, pulou e gritou de susto. Realmente estava abalado. Mas nada aconteceu. Finalmente, conseguiu dormir, pois acreditou que, ao doar o dinheiro, estava sendo protegido por uma força divina. Mas, na quarta-feira, pela tarde, com aqueles ventos de até 70 km por hora, de arrancar árvores e cabelos, voltou a sentir medo da morte. Estaria ela, a morte, vindo buscá-lo em forma de desastres naturais? Ao sair do trabalho, vocês podem até imaginar, assim como ele, que, com certeza, uma árvore cairia justamente em cima de seu carro. Quando ele olhou para seu Uno Mile (mais da concessionária do que dele porque ainda faltavam 29 prestações do financiamento) intacto, lindinho, estacionado, sem um arranhão, ajoelhou, no meio da rua, para agradecer. Levantou as mãos aos céus, no meio da chuva mesmo, molhando-se inteiro, e proclamou sua liberdade, pois a morte, pensava, não estava mais em sua cola. Foi embora todo feliz. Comeu no Mc´Donalds com a namorada. Telefonou à mãe para contar os fatos insólitos da semana. Dormiu como um anjo. Acordou como um bebê. Foi trabalhar. Estacionou o carro na mesma vaga do dia anterior, para dar sorte. Atravessou a rua. Escorregou em um galho de árvore ainda não recolhido da tempestade de ontem. Bateu a cabeça no meio fio. Beijou a morte, vestida de cetim. *Crônica narrada no programa radiofônico RUC Revista no dia 1 de novembro e, resumidamente, publicada na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 4 de novembro
Crédito da imagem: http://umaestrelanoceu.files.wordpress.com/2008/07/a-morte.jpg

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Disse tudo

"Crime e política são a mesma coisa. Finanças é apenas uma arma diferente do que a pistola" - Luchesi, personagem da trilogia "The Godfather", no filme III.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Quero ser pipoqueiro*

Wilame Prado Uns querem ser médicos, outros advogados. Os aventureiros almejam a profissão que tem como função apagar o fogo ou pegar o ladrão. Já os influenciados pelo meio caótico, viram bandidos, mesmo às vezes não querendo. A garotada desde que nasce ganha uma bola, uniforme dos times de pais, avós e tios e são praticamente manipulados a gostarem de futebol e quererem ser jogadores quando crescerem, afinal, é o que o brasileiro faz de melhor. Alguns filmes fazem com que a violência seja vista como algo bom e, esmurrar ou dar uma voadora em outra pessoa tornam-se atos heróicos. Para não esquecer das mulheres que, quando são pequenas e ingênuas, vangloriam o ato de cozinhar, passar, lavar, cuidar de bebês e outras tarefas. Elas devem lembrar dessa época e se acharem loucas, pois hoje tudo isso é um pesadelo para elas, que tanto desejam um espaço no mundo profissional e repudiam serem “do lar”. O senso comum foi descrito acima e, completando o raciocínio, percebemos ao longo dos anos que passam e nos deixam mais próximos de sermos adultos trabalhadores que diversos empecilhos acabam travando nossos sonhos rosas de criança: dinheiro, orgulho, status, pais manipuladores, sociedade cretina, incapacidades físicas, psíquicas e cognitivas. Posso exemplificar com a minha própria historia. O primeiro sonho foi ser boleiro. Depois, astro de rock. Com a percepção de que o mundo é materialista e fútil, quis ser dentista porque todos o respeitava e o meu tinha um carrão! E, por final, jornalista e escritor, por razões sentimentais e quixoteanas. Mas o que me levou realmente a escrever sobre tal assunto é um tanto quanto estranho. Isso porque, um dia destes, voltando para casa, olhei ao meu redor nas ruas e percebi que a sociedade é composta por diversos trabalhadores que nunca sonharam fazer o que fazem, mas fazem porque não há mais nada a fazer e ainda agradecem por não se enquadrarem no elevado número de pessoas que não fazem nada por ninguém dar a elas o que fazer. E, analisando as profissões que me aceravam naquele momento, me deparei com o “tio que vende pipoca e doces em frente ao colégio, mais conhecido como pipoqueiro, doceiro, baleiro ou simplesmente tio”. Senti um inveja saudável de todo aquele status que o pipoqueiro tinha para com as crianças gulosas e com gana por paçocas ou pipocas. Pela primeira vez na vida sonhei em ser um pipoqueiro. Alguns podem achar que estou desmerecendo a profissão, outros estão me chamando de irônico. Não importa, tentarei me justificar. A nostalgia tomou conta de mim quando olhei para o senhor dedicado a mexer a pipoca. O agradável cheiro de manteiga, bacon e pipoca na panela ajudaram também. Quando eu era criança, todas as moedinhas que sobravam dos trocos de papai iam para o pipoqueiro. A vida é tão doce quando somos crianças! Confesso que adorava ir as aulas, pois lá eu tinha colegas, as primeiras paqueras, os desafios da vida de criança e o pipoqueiro. Quem é que nunca comprou uma pipoca, um amendoim ou um doce de um pipoqueiro? E em todos os eventos, sejam eles esportivos ou artísticos, o nosso trabalhador fazedor de cheiros e gostos deliciosos está lá. Até Arnaldo Jabor, e isso ele conta em algumas crônicas, foi influenciado pelo pipoqueiro safado, o Bené! Que eu saiba, não há sindicatos nem união entre os pipoqueiros. Não há homenagens no colégio e, para ser sincero, desconheço o “dia do pipoqueiro”. Mesmo assim, ainda sonho um dia em ser um pipoqueiro. Talvez quando me aposentar e ficar entediado em casa tentando escrever um romance e não conseguir. Comprarei um carrinho, doces, milho de pipoca e me fixarei em um colégio no qual ainda não haja um companheiro de trabalho por lá. Espero que esse colégio seja onde meus possíveis netos estarão estudando para que eu dê pipoca a eles e aos amiguinhos deles. Meu único medo é de que esse mundo cruel e destruidor de valores acabe corrompendo também meus netos, fazendo com que eles tenham vergonha de dizer que o avô deles é um pipoqueiro. *Crônica publicada resumidamente dia 28 de outubro na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: www.jcvicttor.com.br

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sonhos de uma noite de verão (primavera, ainda)

Sonho 1 Ontem, sonhei com o velho e bom avô João Azarias. Não lembro de muitos detalhes, apenas que o velho estava sorrindo bastante para mim. Sonho 2 Hoje, tive um sonho esquisito. Sonhei que estava em meu apartamento juntamente com alguns amigos da sala e com o ilustre Vanderlei Luxemburgo. Estávamos discutindo sobre futebol quando, olhando pela janela, vi um avião da GOL caindo pertinho dali, mais ou menos onde fica o Cesumar, um pouco para cima. O estranho é que não fez um barulho muito estrondoso. O avião bateu ao chão e se partiu ao meio, levantando poeira. Chamei meus amigos para ver, porém, ninguém acreditou e continuaram, então, a discutir futebol para o resto da vida, ou do sonho. Sonho 3 Hoje, também, sonhei que tinha recebido uma proposta para trabalhar em Pato Branco-PR. Conclusão O calor é alucinante, até mesmo dormindo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu gosto de Opera

Vou dar uma dica. O navegador Opera é bacana. Antes, só usava o Mozila, mas começou a dar uns problemas. O Internet Explorer é um lixo, na minha opinião. Este blog, por exemplo, fica bem mais apresentável com o navegador Opera. Quer baixar? Clique aqui. Abraços e bom fim de semana.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Cegueira da consciência*

...às vezes uma grande tragédia pode servir como alerta, como a única maneira de se conseguir abrir os olhos" Wilame Prado As pessoas são más. Sempre querem o melhor para elas, mesmo que para isso tenham de passar por cima do cadáveres de outras. Por trás de uma sociedade teoricamente e utopicamente organizada, a hipocrisia é como se fosse um vírus, que vai se espalhando facilmente. Neste cenário caótico, às vezes uma grande tragédia pode servir como alerta, como a única maneira de se conseguir abrir os olhos desses seres humanos contaminados. Não. Eu não eu estou brigado com o mundo. Também não culpo o seqüestrador Lindemberg (que todo mundo anda dizendo que matou a menina de 15 anos), pela minha descrença com a raça humana. Não vou mentir que, sábado de noite, depois de chegar de um chá de bebê bem divertido, ao ligar a tevê e receber a notícia de que Eloá estava morta, senti um verdadeiro ódio, um desconforto sem tamanho por mais um final triste da novela da vida real. Mas quando me refiro a uma grande tragédia, na esperança de que a raça humana possa abrir os olhos de vez, é em alusão a uma obra de ficção, o romance "Ensaio sobre a cegueira", do português José Saramago. Mas, como nem todos gostam ou ainda não puderam ler, finalmente em Maringá se faz possível conferir o filme, inspirado no livro de Saramago, "Cegueira", do diretor brasileiro, Fernando Meirelles. A sensação que tive no domingo à noite, após assistir ao longa-metragem, foi muito parecida da que tive quando terminei de ler o livro: uma malquerença pelo ser humano. Lendo ou vendo, "Ensaio sobre a cegueira" tem um poder de curar (pelo menos por instantes) a cegueira alegórica das pessoas e permite enxergar os limites da raça humana, que, ao sentir necessidades vitais, destrói todas as máscaras impostas pela sociedade, costumes e cultura para ser, o que sempre foi, um animal racional (ou irracional?). Virando páginas e páginas do livro, ou não piscando na sala escura de cinema, a sensação é desgostosa. Isso porque, irremediavelmente, consumir estes produtos culturais é receber uma crítica ferrenha, pois, afinal, também sou humano. A verdade dói, ainda mais quando esta verdade é tão cruel a ponto de fazer enxergar o quanto os humanos se fazem de cegos para não ver os problemas alheios. Existem diversas maneiras para não deixar que a cegueira da consciência contamine as pessoas. Acredito que a literatura e o cinema são armas poderosas para combatê-la. Mas tem gente que não se deixa tocar por filmes ou livros. A meu ver, a ficção cultural quase sempre é mais verdadeira do que muitas "realidades" impostas em meios de comunicações ou em discursos religiosos ou políticos. Antes de chegar a Maringá, o filme "Cegueira" já estava em cartaz em São Paulo. Mesmo assim, duvido muito que Lindemberg o tenha assistido. Agora, com os olhos da consciência cegados, é tarde para ele. *Crônica publicada dia 21 de outubro, na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito das imagens: http://www.tribodeideias.com.br/blog/wp-content/uploads/2008/07/blindness_13.jpg http://www.estadao.com.br/fotos/lindembergpreso292.jpg

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Jorge Furtado, Lula, crise financeira

Para quem acha que o Lula diz besteira acerca da crise dos Estados Unidos, uma opinião de peso a respeito de Jorge Furtado.
A Culpa é do Lula

Alô Rosane de Oliveira

Leio diariamente sua página em ZH, pela qualidade e equilíbrio do jornalismo que ali encontro, e por isso estranhei a nota principal de hoje ("Não estávamos protegidos?"). Me pareceu uma análise, pra dizer o mínimo, feita com má-vontade sobre a atuação do presidente Lula e do ministro Mantega.

Você abre a coluna com uma afirmação: "Vá o cidadão brasileiro entender o comportamento das autoridades". Sou um cidadão brasileiro e, neste caso, entendo perfeitamente o comportamento das autoridades. Acompanho diariamente o noticiário político e econômico e nunca vi, ouvi ou li o presidente ou qualquer um dos seus ministros afirmarem, como você diz, que "a crise nos Estados Unidos não nos afeta". Lula disse isso? Quando? Onde? Por favor, cite a fonte...

Continue lendo aqui: ao entrar no site, vá ao blog de Jorge Furtado.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Plantas que crescem a olho nu*

"Mesmo assim, ficava feliz por se lembrar daquela noite em que passara com o pai, esperando o dia amanhecer para contar a ele que vira plantas crescer" Wilame Prado

Lembrou do dia em que, talvez sob efeito de insônia, olhara pela janela de madeira o humilde jardim que embelezava a frente da casa alugada. Os pernilongos, aliados ao ronco incessante de um pai que dormia feliz por receber a visita do filho, não o deixavam dormir. Nesse jardim, que de flor não tinha nada e sim apenas matos e ervas daninhas, o menino vira plantas crescerem e se movimentando a olho nu. Desse dia em diante, acreditara piamente que as plantas só cresciam quando ninguém por perto estivesse observando, e que sua presença ali, em plena madrugada, acabara passando despercebida pelos vegetais que, tranquilamente, cresciam e cresciam. Muitos anos se passaram. O menino virou quase homem e nunca mais conseguiu ver plantas crescer, a não ser em vídeos de biologia, com câmeras potentes, que captam rosas desabrochando graciosamente. A madrugada tornou-se amiga inseparável, e a janela agora era a do quinto andar, de um prédio verde. Por sorte, de seu campo de visão daquela janela, avistava-se um terreno baldio, habitado por cachorros perdidos, cavaleiros andantes, famílias de anus e uns pés de milhos com deficiência no crescimento. Vez ou outra, quedava-se olhando sem cessar para o mato, na esperança de ver alguma planta crescer. Sem sucesso. Mesmo assim, ficava feliz por se lembrar daquela noite em que passara com o pai, esperando o dia amanhecer para contar a ele que vira plantas crescer, e também para ir à feira do domingo comer pastel do japonês, comprar mexerica e ver os peixes sobre gelos, que pareciam estar vivos, de tão bem conservados e brilhosos. Suas visões noturnas pela janela do quinto andar, embora incompletas por não conseguir observar plantas crescendo, fotografavam em sua mente outras atrações belas. Quando não se escondia por detrás dos concretos de outro prédio verde, o ex-menino podia ver a lua brilhante e o sempre fiel São Jorge, com sua lança e seu cavalo. Via, também, nuvens se movimentando rapidamente num céu negro, dando a sensação de que o mundo não pára, nem mesmo na madrugada. Mas quando mirava seus olhares para as janelas vizinhas dos demais prédios, sentia-se entristecido pelo fato de não haver uma luz sequer acesa naquela hora. Imaginava as pessoas já deitadas em suas camas confortáveis, dormindo e acumulando energias para o próximo dia de trabalho. Num estalo, parou para pensar sobre sua condição de mirador noturno, lembrando-se das inúmeras vezes em que ficou ancorado naquela janela fria. Concluiu, então, que, do dia em que viu plantas crescer no jardim da casa alugada do pai até hoje, quando vive observando apartamentos com luzes apagadas nos prédios vizinhos, pouca coisa havia mudado em sua vida: continuava tendo insônias e se sentia muito sozinho.
*Crônica publicada dia 14 de outubro no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.maraluquet.globolog.com.br/janela%20do%20meu%20ap.jpg

domingo, 12 de outubro de 2008

Arrependimentos da infância*

Wilame Prado Eu quero voltar a ser criança! Chega de responsabilidades. Chega de trabalho. Vou pegar o relógio do tempo, atrasar alguns anos e jogar as pilhas no mato. Vou voltar à época em que comia sucrilhos de manhã assistindo pica-pau, Tom & Jerry, Ursinhos Carinhosos e Fantástico Mundo de Bob. Só que, dessa vez, tudo vai ser diferente. Vou fazer todas as lições de casa, prometo mãe. Não vou jogar bola no corredor e assim manchar as paredes. Nem vídeo-game a madrugada inteira para depois, no outro dia, colocar alho debaixo do braço, simular uma febre e assim não ir à aula. Eu prometo pai. De terça e quinta, darei o sangue na escolinha de futsal. Quem sabe, no próximo jogo, eu consiga vaga no time titular. De quarta e sexta, vou sorrindo para as aulas de natação, sem reclamar do cloro da água. Prometo a vocês. No colégio, vou tomar coragem e entregar aquela cartinha de amor, em que tanto me dediquei caçando palavras difíceis no dicionário, para a Gabriela, minha primeira namorada. Assim, acho que terei mais chances de não ser trocado por um moleque três anos mais velho do que eu. Sei como deve se sentir, professora Roseli. Um aluno igual a mim, que até tira notas e até faz umas redações legais, não deveria bagunçar no fundão da sala. Saiba que isso não se repetirá. Sentarei na primeira carteira e não vou desperdiçar folhas de caderno com bolinhas e aviõezinhos. Juliana, minha querida irmãzinha, pode ficar despreocupada. Nunca mais vou mexer nas suas coisas. Mas, só uma pergunta: quem é Alexandre que te mandou um cartão apaixonado? Poxa vó! Fico tanto tempo sem ver a senhora e quando chego em sua casa, só quero saber de tomar seu iogurte caseiro e brincar com os primos de balança caixão na lajota. Isso não está certo. Senta aqui do meu lado. Conta para mim como foi que você conheceu o vô. Ele sempre foi bravo assim? Aposto que se encantou pelos olhos verdes dele. Mãe, dessa vez, nem toquei na lata de leite condensado para fazer brigadeiro no microondas. Pode preparar seu bolo tranqüila. Mas, posso rapar a panela que a senhora utilizou para fazer a cobertura, pelo menos? Poxa mãe, o bolo é pra mim! Só porque é o Dia das Crianças! Não precisava. Até presente você comprou! É muita bondade sua! Obrigado! Mas, espera um pouco: o que eu vou fazer com um este monte de pilhas recarregáveis que você me deu? Está bem. Já sei. Vou botar pra funcionar o relógio do tempo de novo. Afinal, você tem razão, ninguém merece uma criança tão sem graça como eu. *Crônica narrada, em homenagem ao Dia das Crianças, dia 11 de outubro no RUC Revista, programa de rádio que vai ao ar todos os sábados, a partir das 11h
*Crédito da imagem: http://eupodiatamatando.com/wp-content/uploads/2008/05/bobbysworld.jpg

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A batalha das cores*

Wilame Prado Parecem torcidas rivais em um estádio de futebol. De um lado, os azuis, e de outro, os amarelos. Rixa antiga em Santa Fé, os simpatizantes do PMDB (15) e do PSDB (45) travam verdadeiras batalhas em anos de política. E nestas eleições, não poderia ser diferente. No sábado de tarde, em meio a bandeiras das duas cores e infinitos carros e pessoas desfilando na avenida principal, uma briga com direito a facadas deu o pontapé inicial para um fim de semana que prometia muitas loucuras praticadas por fanáticos vestidos de azul ou de amarelo. A madrugada do sábado para domingo foi de aventuranças no breu. Como de costume, candidatos e simpatizantes ficaram rodando pelas ruas da cidade na tentativa de flagrar possíveis compras de votos por meio de cestas básicas ou de dinheiro. Antes de iniciar a votação, lá pelas 7h15, o movimento em frente aos colégios já era grande. Essas pessoas, engajadas politicamente, não querem perder um minuto sequer deste dia que, de goleada, é mais importante para elas do que final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina. Nem bem os portões se abriram, confusão por entre os corredores do colégio: ex-primeira dama da cidade tomou uma copada de água na cara de um irmão do candidato rival. Dizem que o jeito foi enjaular o homem que, caso realmente tenha sido preso, pôde ao menos conversar com um compadre detido anteriormente por entregar santinhos de candidatos a vereador e prefeito. Pela tarde, ainda teve gente rolando no meio do asfalto e trocando socos e pontapés, tudo pelo amor à camisa, amarela ou azul. No final de toda essa loucura, apenas a certeza de que um voto pode sim fazer a diferença. Em 2004, por apenas 23 votos, os azuis assumiram a prefeitura. Nesta eleição, reelegeram-se pela diferença de 86 votos. A maioria das pessoas envolvidas nesta briga de partidos não vai ganhar absolutamente nada com isso. Sem nem saber direito a razão, muitos seguram bandeiras, gritam e provocam as pessoas que torcem pelo candidato rival. No outro dia, com camisa azul, amarela, roxa ou laranja, vai ter de trabalhar do mesmo jeito para pagar as contas no açougue e no mercado. Mesmo com tantas brigas desnecessárias, assim é melhor. Quando realmente existe a competição entre candidatos (o que não ocorre em muitos municípios) a população só tem a ganhar. Pois, pressupõe-se que, sabendo do quanto é difícil ser eleito, os vencedores darão mais valor ao cargo e representarão o povo da melhor maneira possível. Bom será se todos tiverem o mesmo entusiasmo das pré-eleições para cobrar o que foi prometido no palanque. Assim, então, definitivamente, a democracia vai acontecer de verdade na pequena cidade de Santa Fé. *Crônica publicada dia 7 de outubro no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna Crônico

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O baque do tombo*

Wilame Prado
O fim de tarde da sexta-feira é o horário impactante entre o término de mais uma semana de trabalho e o início do período de descanso. Talvez seja por isso que o tumulto reine na zona urbana de Maringá e que, pela pressa de voltar para casa, terminar de vez o expediente ou ir para um bar tomar cerveja com amigos, carros e motocicletas em movimento se choquem por entre semáforos, cruzamentos e avenidas. Nesta última sexta-feira, neste horário truculento, presenciei uma dessas desastrosas colisões, ocorrida no cruzamento da Avenida Kubitscheck com a Gurucaia, próximo ao Parque do Ingá. O motociclista, tentando ultrapassar pela direita, foi fechado pelo motorista de um carro. Drasticamente, moto e ser humano foram arremessados ao asfalto quente, áspero e duro. No ar de sua loucura instantânea, causada provavelmente pelo enorme susto, o motociclista corria de um lado para o outro, olhava a moto estilhaçada e erguia os braços aos céus, nem se dando conta de que estava todo machucado e abalado psicologicamente. Bastaram algumas pessoas prestar socorro para que o pobre ferido desmaiasse de vez e fosse, mais uma vez, ao chão. Após ligeiros dois minutos presenciando este fato infeliz, o sinal abriu e tive de seguir o meu caminho. Fui comer um cachorro-quente na Cerro Azul e levar a garota ao cursinho preparatório para concursos públicos. Voltei para casa e, na internet, li a notícia de que finalmente haviam divulgado uma pesquisa de intenções de votos apontando as preferências de alguns eleitores sobre os candidatos a prefeito de Maringá. Pelo meu parecer (caso esta campanha não seja mais do que um jogo de comadres), os candidatos concorrentes do atual prefeito devem ter tomado um baque com o resultado da pesquisa - uma sensação parecida com a do motociclista que caiu na rua e que, por isso, ficou alguns minutos sem norte. Os investimentos em propaganda, as metas de campanha não alcançadas e outros porquês do péssimo resultado na pesquisa devem estar martelando a cabeça dos prefeituráveis que ainda acreditam no segundo turno. Antes que os simpatizantes por candidato a ou b joguem tomates em mim, utilizo-me do que escreveu o editor-chefe deste jornal, Milton Ravagnani, no último domingo (28/09): “Pesquisa é pesquisa, e só mostra um instante da campanha. É como uma fotografia do momento da coleta das informações.” Mesmo assim, volto a falar sobre os candidatos a prefeito que não atingiram boas marcas na pesquisa. Estariam realmente interessados na vitória ou, na verdade, querem continuar com seus atuais e estabilizados cargos políticos? Estariam pensando em um futuro de sucesso garantido, lá para 2012? Realmente fizeram o possível nas campanhas políticas (fraquíssimas, diga-se de passagem) ou, igual quando se desabotoa a calça depois de comer aquela feijoada no domingo, literalmente afrouxaram? E por falar em refeição, nada como chupar algumas laranjas depois da feijoada para fazer uma boa digestão. *Parte desta crônica publicada dia 30 de setembro no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna Crônico
Crédito da imagem: http://www.urbal.piracicaba.sp.gov.br/meta4/levantamentodea%E7%F5es/feijoada.jpg

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Política burra*

Wilame Prado A reunião finalmente fora marcada: dia 18 de setembro, às 19h10. Só faltava, agora, o apoio necessário dos discentes. E, para surpresa de muitos, alunos do curso de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade e Propaganda), de uma faculdade de Maringá, lotaram a sala e participaram ativamente da assembléia de fundação do Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACS). Pelo fato de não haver registros de centros acadêmicos fundados por alunos, os boatos contados pelos corredores eram de que sempre existira uma forte repressão por parte da instituição, que não apóia e nunca apoiou este tipo de organização política na academia. Mesmo assim, o CACS nasceu. Reclamações a parte, fato é que os alunos devem comemorar esta conquista política. Afinal, reivindicar ou simplesmente se abstrair do processo é fácil. Difícil mesmo é conseguir se organizar e lutar por seus direitos dentro de uma instituição de ensino, ainda mais sendo particular. Como foi bonito ver aqueles estudantes interessados em mudar o que consideram errado no curso. Muitos deles, escolhidos democraticamente por meio do voto, disponibilizaram-se a atuar na gestão provisória do CACS, que ficará no pleito até abril de 2009, período em que haverá eleições para a escolha de uma nova chapa. Ter consciência política talvez seja um dos maiores desafios do nosso País. Só assim, finalmente escolheremos os candidatos sérios e compromissados em atender as demandas da população, esquecendo-se dos interesses individuais ou de pequenos grupos privilegiados da sociedade. Mas, infelizmente, percebe-se que há, por parte das pessoas, um verdadeiro deboche quando o assunto é política. E a culpa desse descaso vem da maioria dos administradores públicos que, no palanque, são hipócritas, e no cargo, são corruptos. Esse desinteresse pela política não acontece apenas em classes mais desfavorecidas. Quando do surgimento do CACS, na faculdade, em que grande parte das pessoas tem poder aquisitivo médio ou alto, não foram poucos os alunos que simplesmente ignoraram ou desmereceram o centro acadêmico. Até professores pareciam estar desacreditados com o êxito dessa luta. Seria um reflexo do momento pobre das campanhas políticas exercidas pelos prefeituráveis de Maringá? A escassez de debates, as propostas utópicas, a lengalenga nos discursos, os “laranjas”, a demagogia, os processos judiciais nas costas, tudo isso não estaria desmotivando de maneira geral a população? Certo estava Bertold Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão, ao escrever o excelente texto “Analfabeto Político”: O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais. *Parte desta crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 23 de setembro, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://users.ez2.net/louetta/packmule/Mula%20Lisa.JPG

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A memória do 11 de setembro*

Wilame Prado Era uma terça-feira comum. Logo pela manhã, um sol agradável batia nas janelas da sala de aula, no colégio Gastão Vidigal. Eu e meus amigos estávamos divididos entre assistir uma aula chata de Química, com uma professora esquisita, ou, como era de costume, matar aula e ir andando até uma padaria próxima ao Colégio Nobel, só para comer as famosas baguetes de frango que vendiam por lá, acompanhadas de cocas-cola daquelas com embalagens de vidro, bem geladas. A fome falou mais alto do que os alcalóides e os grupos de carbono. De barriga cheia, nos dirigimos ao ônibus fretado, que mais tarde nos levaria de volta para Santa Fé, cidade próxima de Maringá. Ainda demoraria pelo menos mais uma hora para dar o horário da saída, por isso, e como também era de costume, estávamos já arrumando o baralho para jogar truco com o Cidão, motorista do ônibus. Mas, as imagens transmitidas pela televisãozinha do ônibus fizeram com que as deliciosas baguetes de frango se transformassem em indisposição intestinal. Parecia filme, mas era, na verdade, o plantão de notícias da Globo mostrando um prédio altíssimo, lá nos Estados Unidos, desabando. Tinha um menino dentro do ônibus, desesperado, dizendo que, com certeza, aquilo seria o início da 3ª Guerra Mundial. Mais tarde, descobri que estava assistindo, ao vivo, ao ataque nas torres gêmeas, o famoso Desastre de 11 de setembro. E hoje, nesta crônica, lembrando que na quinta-feira passada completaram-se sete anos desse dia terrível, em que mais de 3.000 pessoas morreram, venho a refletir sobre nossa posição neste mundo como agentes sociais, transformadores e gerentes dos fatos históricos. O desastre de 11 de setembro será matéria da prova de História para muita gente, durante sabe-se lá quantos anos. Talvez, até no dia em que os arquivos audiovisuais das tevês serem queimados e novos historiadores dizerem que tudo não passou de uma lenda. O fato é que presenciamos e fazemos parte deste desastre marcante, ocorrido nos Estados Unidos, pois, invariavelmente, o mundo todo sofreu as conseqüências com a ira de Bush e seus comparsas, na suposta luta imbecil contra o terrorismo. Talvez, na época, por ser ainda um adolescente meio voado, minha maior preocupação era simplesmente com a partida de truco adiada. E, junto da incrível imagem daquelas torres infinitas indo ao chão, em minha mente, a azia daquela baguete de frango e o garoto desesperado anunciando a 3ª Guerra Mundial são lembranças que não irão se apagar tão cedo. Mas, e você? Já parou para pensar o que estava fazendo justamente no momento em que a soberania norte-americana foi abalada com o desabamento das torres? *Crônica publicada dia 16 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://www.tms.org/pubs/journals/JOM/0112/Eagar/fig1.gif

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Associação Comercial avalia Feira Ponta de Estoque*

Wilame Prado Muitos são os maringaenses e moradores de municípios da região que esperam praticamente o ano todo para fazer uma grande compra de roupas ou calçados na Feira Ponta de Estoque de Maringá que, este ano, ocorreu entre os dias 16 e 19 de julho, no Parque de Exposições Francisco Feio Ribeiro. Isso porque, como apontou pesquisa realizada com mais de 600 pessoas, entre consumidores e comerciantes, um dos principais atrativos é o preço bem abaixo do praticado em lojas da cidade, com descontos de até 70%. Essa pesquisa foi divulgada na reunião de avaliação da feira deste ano, ocorrida dia 9 de setembro, e que contou com a participação de representantes da Associação Comercial e Empresarial de Maringá (ACIM), da ACIM Mulher, da FundACIM, bem como de fornecedores, parceiros e expositores da feira. O supervisor de eventos da ACIM, Miguel Fernando, que participou da reunião, conta que, entre outros resultados, a pesquisa também apontou uma média de 62% de satisfação da feira deste ano. Com os resultados positivos, ele adianta que, embora ainda não esteja no papel, alguns planos já estão sendo traçados para a feira do ano que vem. Um desses planos é o de (caso continue a grande procura de comerciantes por compras de estandes na feira) alocar mais um galpão do parque de exposições para aumentar a variedade e a opção de escolhas de produtos pelos consumidores. “Existe uma grande fila de espera de estabelecimentos comerciais que gostariam de participar da feira. Vamos tentar atender o maior número possível de comerciantes, aumentando o espaço. Mas, mesmo assim, será pouco provável que todos conseguirão comprar estande, pois a fila de espera é bem grande”, afirma o supervisor de eventos. Os resultados divulgados na reunião, como afirma Fernando, foram satisfatórios. Porém, nem todos que participaram da feira saíram contentes. A arquiteta Vania Costa Gusmão, que compareceu no primeiro e no último dia da feira deste ano, relata que comprou um casaco por R$ 50, preço considerado caro por ela. “Não achei nada que valesse a pena pelo preço. Em anos anteriores, já encontrei mercadorias ótimas e super baratas”, diz a arquiteta, que também reclama da falta de variedade e do grande número de pessoas na feira. Mesmo reclamando, Vania admite que, em 2009, com certeza visitará a Feira Ponta de Estoque de Maringá. E sobre a alegação de que havia muita gente na feira deste ano, a arquiteta tem razão. Segundo nota do jornal O Diário do Norte do Paraná, cerca de 260 mil pessoas visitaram os 325 estandes da feira, de 179 empresas, que comercializaram artigos diversos, como calçados, confecções, bijuterias, lingeries, eletrodomésticos e perfumes.
Comerciantes doam artigos para entidades assistenciais O supervisor de eventos da ACIM, Miguel Fernando, afirma que assuntos ligados aos projetos sociais e ambientais da Feira Ponta de Estoque de Maringá também entraram na pauta da reunião do dia 9 de setembro. No aspecto ambiental, Fernando conta que, antes das feiras, é decidido pelo conselho da organização do evento qual empresa poderá ficar responsável pela coleta de todo o lixo reciclável. Este ano, a CooperMaringá (Cooperativa Maringá de Seleçăo de Materiais Recicláveis e Prestaçăo de Serviços) foi quem se responsabilizou pela coleta. Como projeto social, o supervisor de eventos diz que, horas antes de ser encerrada a feira, comerciantes dos estandes separam artigos de roupas, calçados e outros produtos vendidos na feira para doação, que é direcionada a duas ou três entidades assistenciais de Maringá. “Conseguimos arrecadar um número muito grande de doações feitas pelos comerciantes que participam da feira. Lembrando que essas doações não são restos ou artigos que não serviam para a venda. São produtos que estão em perfeito estado de conservação e que podem ajudar pessoas carentes de Maringá”, conta Fernando. Ainda no âmbito social, de acordo com matéria publicada no site da ACIM, os organizadores da feira, assim como em edições passadas, entregam à Secretaria Municipal de Ação Social e Cidadania (Sasc) a administração do estacionamento para os visitantes, que destina toda renda obtida para projetos que beneficiam à população. *Matéria publicada na Agência de Notícias Megafone

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O dia em que Maringá virou praia*

Wilame Prado Sabe o Robinho, aquele jogador que marcou um dos três gols do Brasil contra o Chile no último domingo, que pedalou incrivelmente oito vezes para cima do lateral Rogério do Corinthians na final do Brasileirão de 2002 e que, depois de Pelé, é o maior ídolo do alvinegro praiano? Pois é. Ele já jogou em terras, ou melhor, em gramados maringaenses, no estádio Willie Davids. Foi um domingo de sol forte e pouco vento, dia 7 de agosto de 2005. Na época, ainda morava na pequena Santa Fé, distante uns 50 quilômetros de Maringá. Com amigos, alguns santistas, outros apenas apreciadores do bom futebol santista, enfrentamos um início de trânsito na Colombo e nos assustamos, afinal, era apenas um Santos x Paraná. Os bares ao lado estavam lotados, e muitas crianças, jovens e idosos, a maioria vestindo o manto branco sagrado, caminhavam rumo aos portões de entrada, por entre vendedores ambulantes de faixas, bandeiras e camisas falsificadas. Para tomar uma cerveja, era preciso colocar no copão e deixar o casco no boteco. Parecia dia de vestibular da UEM quando beber ainda permitido, sem lei seca na Zona 07. Como foi boa a sensação de saber que todos ao seu lado torciam pelo mesmo time. A paz, representada pelo branco das bandeiras e pelo amarelo das bexigas, era um estado de espírito em comum para a nação santista. Naquele dia, Maringá virou praia e a impressão era de que, um pouco mais para frente do estádio, assim como na Vila Belmiro, iríamos encontrar o mar de Santos, mais ou menos onde fica a avenida Brasil. Já dentro do estádio, a emoção foi grande de saber que houve recorde de público, superando as torcidas de Corinthians e São Paulo, que também jogaram no Willie Davids contra o time da capital paraense. Não foi fácil ficar no sol uma hora e meia antes de começar a partida e mais duas horas até o seu final. O jeito era se distrair cantando junto da Torcida Jovem os poucos hinos ensaiados. Quando a voz acabava, as palmas contribuíam. O menino Robinho também não estava gostando daquele verão fora de época em pleno interior do Paraná. O danado não jogou tudo o que sabia naquele dia, que seria seu último jogo com a camisa do Santos, depois de ser transferido para o Real Madrid. O camisa 7 ficou grande parte do jogo em uma sombra, que encobria uns 30% do gramado, com as mãos na cintura, esperando um contra-ataque. O alvinegro praiano sofreu para arrancar um empate contra o Paraná. Com passe de Robinho, aos seis minutos do segundo tempo, o “vovô” Basílio foi quem conseguiu desentalar da garganta de vinte mil santistas o grito de gol. Pena que, atualmente, esta simples palavra, com apenas três letras, tem sido gritada muito raramente pelos santistas, e, em quase todas as vezes, acompanhada com o nome de um dos únicos bons jogadores do elenco: Kléber Pereira. Diferentemente dos tempos áureos de “Diego toca a bola, Robinho deita e rola”, hoje o Santos luta para não sofrer o rebaixamento. Nas últimas rodadas, respirou um pouco, mas o grande desafio será manter o ritmo bom de jogo que vem apresentando nas partidas. Hoje, o menino que jogava bola na praia, e que sonhava um dia ser igual ao ídolo Pelé, ganha milhões, já é pai e continua dando alegria, só que com os gols vestindo a camisa amarela da Seleção Brasileira. O engraçado é que, mesmo estando longe, o grande craque Robinho parece ter dado uma tremenda força para que o Santos não jogue a segunda divisão do Campeonato Brasileiro ano que vem. Com sua transferência para o Manchester City, alguns milhões de dólares entrarão na conta do clube, que não sofrerá com falta de dinheiro por ter recusado as propostas de vendas dos jogadores Kléber, Rodrigo Brum e Fabiano Eller, peças importantes no elenco atual. Quando for bem mais velho, Robinho, já barrigudo e com vários casos polêmicos relatados na imprensa, voltará a vestir a linda camisa branca que o consagrou como grande jogador de futebol e se orgulhará em dizer que o clube de seu coração, o glorioso alvinegro praiano, ao contrário da maioria dos rivais, ainda não caiu para a segundona. *Parte desta crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 9 de setembro, na coluna Crônico
Crédito da imagem: http://www.gazetaesportiva.net/entrevista/futebol/imagens/ent147_robinho.jpg