segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

"Preciosa" além do cinema

“Preciosa”, romance de estreia da escritora norte-americana Sapphire, ganha notoriedade pelo sucesso de sua adaptação para o cinema, mas também tem o seu valor como literatura

Wilame Prado


A história de Claireece Precious Jones – uma adolescente negra, obesa, analfabeta e que é molestada pelos pais – relatada no livro “Preciosa” (editora Record, 2010), da escritora Sapphire, foi adaptada, ano passado, para o cinema pelo diretor Lee Daniels e contou com produção da conhecida apresentadora de televisão norte-americana Oprah Winfrey. 

O resultado, nas telonas, não poderia ser melhor. Além do sucesso incontestável no Festival de Sundance 2009 e louros em outras premiações, “Preciosa” recebeu oito indicações ao Oscar, inclusive na categoria de melhor filme do ano.

Mas todo esse sucesso cinematográfico, que costuma chegar ao Brasil antes mesmo do que o próprio livro, tende a ofuscar o talento de quem realmente gerou a conturbada e dramática Precious Jones – personagem principal da trama. Trata-se da poetista e artista perfomática Sapphire, que, com “Preciosa”, recém-lançado no país, faz sua estreia como romancista.

Pelo menos aqui no Brasil, o leitor que adquirir um exemplar do livro de Sapphire já terá uma imagem pré-formulada da personagem principal do livro. Isso porque, na capa, há uma fotografia da atriz Gabourey Sidibe (indicada no Oscar ao prêmio de melhor atriz), que protagonizou Precious Jones no filme de Lee Daniels.

Para quem gosta de construir imageticamente os personagens apresentados nas obras de ficção, ver uma foto do personagem principal, ou até mesmo assistir ao filme antes de ler o livro, não é algo que agrada muito.

Mesmo assim, o leitor que se embrenhar nas ligeiras 192 páginas de “Preciosa” ainda poderá exercer sua imaginação com a fascinante, cruel e redentora história da adolescente Clareece Precious Jones. Inspirada numa realidade deprimente que pôde conhecer quando ensinava adultos e adolescentes a ler e a escrever no bairro nova-iorquino do Harlem, a autora da obra conseguiu criar uma personagem cativante, símbolo de toda a pobreza, ignorância, preconceitos e ausência de oportunidades que cercam os jovens, principalmente do sexo feminino, em localidades pobres dos Estados Unidos.

Erros propositais

O livro, narrado em primeira pessoa pela Precious Jones e passado entre os anos da década de 1980, é escrito propositalmente, do começo ao fim, com erros ortográficos, dando um ar mais realista e intimista para a obra.

A história se inicia com Precious contando porque reprovou na escola quando tinha 12 anos, idade em que o martírio da garota começa a ser relatado com um acontecimento marcante: sua gravidez precoce sendo fruto de uma relação sexual forçada pelo próprio pai.

Mas isso é só o começo de uma história de sofrimentos. Precious, além de obesa, analfabeta e vítima das vontades sexuais ensandecidas do pai, ainda é constantemente humilhada pela mãe, que a faz de escrava doméstica, obriga a satisfazê-la com masturbações e, depois que descobre que ela está grávida do seu marido, começa a agredi-la verbal e fisicamente.

Depois de uma surra levada da mãe, a garota finalmente dá à luz no chão da cozinha. No hospital, descobre que sua filha tem Síndrome de Down, o que a faz deixar a menina, batizada de Monguinha, sob os cuidados da avó. 

Depois desse acontecimento, a mãe de Precious consegue receber da previdência duas fontes de renda. Nunca mais sai de casa. E presencia, sem ressentimentos, as relações incestuosas entre seu marido e Precious.

Completados 16 anos, a garota, que sofre todo e qualquer tipo de preconceito na escola, lugar onde senta na última carteira e espera o sinal tocar, muitas vezes urinando nas calças por sentir vergonha de se levantar, descobre a segunda gravidez, também fruto da relação sexual com o pai. Quando já não é possível mais esconder de ninguém a nova gestação, a direção do colégio decide expulsá-la.

Todo esse drama de Precious é narrado por Sapphire na primeira parte do livro, em aproximadamente 40 páginas. Na segunda parte, é perceptível que está se iniciando uma mudança positiva na vida da garota negra, coincidindo com o fato de ela começar a participar da Educação Alternativa/Cada Um Ensina Um e, assim, poder conhecer outras meninas também marginalizadas (mexicanas, viciadas em drogas, lésbicas).

Fragmentos

Na escola “alternativa”, Precious conhece também a professora Blue Rain, provavelmente um alter-ego da autora, personagem que fará com que a jovem consiga recuperar a dignidade, aprender a ler e a escrever e, assim, expressar-se por meio de textos e poesias em seu diário – cujos fragmentos fazem parte de todo o livro.

Caso, a partir de então, conhecendo pessoas com os mesmos problemas e uma professora que auxilia no processo de libertação, tudo começasse a dar certo na vida da sofrida Precious Jones (o que geralmente não acontece na realidade), o livro certamente seria considerado mais um roteiro hollywoodiano e clichê disfarçado de romance.

Porém, isso não acontece. A garota, que em toda a trama se mostra extremamente crítica e revoltada com sua situação, mas que começa a encontrar pela primeira vez a esperança de que algumas coisas podem mudar, ainda assim passa por muito sofrimento e angústia.

A cada página virada, Precious vai provando ao leitor porque pode e deve ser considerada uma garota preciosa e adorada, longe de toda a estupidez humana demonstrada pelas atitudes inconsequentes de seus pais e também da sociedade como um todo.

O livro “Preciosa”, assim como provavelmente o longa-metragem, será visto por muitos como mais um exemplo de vida, uma lição de superação, como a história de uma garota negra e gorda que venceu os obstáculos. Fosse apenas isso, os livros de autoajuda já se bastariam. 

A obra de Sapphire vai além, pois, com criatividade e sensibilidade, cospe ao mundo, de maneira realista, o triste relato de Claireece Precious Jones – alguém que sofre em demasia numa sociedade extremamente individualista, machista, racista, fetichista e cruel. 

Trecho do livro "Preciosa"

Espero ele sair de cima de mim. Fico ali deitada olho a parede até que a parede é um filme, O mágico de Oz, posso fazer esse filme passar a qualquer hora. Michael Jackson é o espantalho. Então meu corpo toma conta de mim de novo, a vida choca depois do terremoto, me estremece, eu gozo de novo. Meu corpo não é meu, odeio meu corpo goza.

Depois vou pro banheiro. Esfrego merda na cara. A sensação é boa. Não sei por que mas faço. Não contei isso nunca pra ninguém. Mas eu fazia. Se eu for pro grupo de apoio do inseto o que vou ouvir das outras garota? Roo as unha até elas parecer doente, arranco tiras da pele. Pego a gilete de papai no armário. Corto corto corto o pulso, não tentando morrer, tentando me ligar de volta. Sou uma TV sem imagem. Tô quebrada sem pensamento. Sem tempo passado nem presente. Só os filmes de ser outra pessoa. Uma pessoa que não é gorda, de pele escura, cabelo curto, uma pessoa que não é fudida. Uma garota sensual que ninguém cutuca. Uma garota de valor. Uma garota com peitinhos pequeno que é um amor. Um aMOOOR!

Para ler
Título: Preciosa
Autor: Sapphire
Editora: Record
Páginas: 192
Preço: R$ 29,90

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sistema binário da vida*

Wilame Prado

Vida mutante é a nossa. Mudanças acontecem todos os dias com a gente. Somos um organismo vivo, e isso significa dizer que não podemos, nem conseguimos, estacionar de um jeito só. É o ciclo natural de mudanças que nos leva do nascimento à morte. Assim acontece também com as cidades, que são organismos vivos, que nascem, sobrevivem, desenvolvem-se e estão fadadas ao desaparecimento. 

Estive em São Paulo por uma semana, uma cidade que completou 456 anos no último dia 25 de janeiro. A impressão que dá, junto ao caos, ao trânsito inescapável e ao mar de chuvas que cai todos os dias do céu, é que a famosa Terra da Garoa vai submergir. Ou explodir, levando em consideração o grau de aborrecimento que os motoristas adquiriram dirigindo nas ruas esburacadas e cheias da maior cidade do Brasil.

Faz poucos dias que retornei a Maringá - a recém-nascida Maringá, com seus 62 anos de vida. No sábado, presenciei um início de engarrafamento no quarteirão do Mercadorama, na avenida São Paulo. Decidi desviar o caminho. No carro, enquanto cantarolava as canções da banda curitibana Charme Chulo, tive vontade de rir, porque percebi a pequenez dos problemas maringaenses ao me lembrar do fim do mundo que é o engarrafamento paulistano.

Mesmo gostando muito das grandes metrópoles, posso dizer, sem medo de errar, que Maringá, no aspecto urbano, é uma das melhores cidades que se tem para viver. Os problemas encontrados por aqui são perfeitamente solucionáveis. Há luz no fim do túnel. Em São Paulo, não há nem túnel mais.

Dou o exemplo do trânsito. Os motoristas de Maringá não aguentavam mais ver o sinal da esquina da Santos Dummont abrir e fechar três vezes sem sair do lugar. Agora, com o sistema binário, creio que as coisas vão melhorar. No começo, vai ser difícil acostumar-se com as mudanças. Questão de meses para os motoristas maringaenses entenderem as regras do trânsito.

Em mais um aspecto, a cidade assemelha-se à vida. As mudanças incomodam no início, mas, depois, tudo se resolve. E a gente vai tocando sempre pra frente, seguindo o caminho, torcendo para pegar a onda verde, vivendo ou sobrevivendo.

Já está dando até saudade da época em que podíamos descer tranquilamente a avenida São Paulo rumo ao Parque do Ingá, ou então subir a Paraná para chegar na Colombo. A saudade é o que fica, mas é passado. Em pouco tempo, o esquecimento das direções das ruas e avenidas de Maringá será consequência certa. Neste aspecto, a cidade diferencia-se um pouco da nossa vida.

Muitas vezes, algumas mudanças acabam significando, com o passar do tempo, lembranças que não nos sai da cabeça. No sistema binário da vida, em que incrivelmente sempre temos dois caminhos a seguir e com escassos retornos a 300 metros, as escolhas que nos proporcionam mudanças podem ser erradas. Bate o arrependimento, e não o esquecimento. Infelizmente.

Longe de qualquer trânsito, fluxos de veículos alterados, longe das chuvas torrenciais, longe das capitais e também das cidades provincianas, neste momento, gostaria mesmo é de estar pilotando um carro potente, conversível e vermelho, curtindo a brisa e o sol, com o rádio ligado no último, tomando alguma bebida gelada para me refrescar e procurando não pensar em absolutamente nada, dando um tchau para as mutações, para as escolhas e para o sistema binário da vida. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Incansável escritor*

Wilame Prado

Desde quando me conheço por gente que consome literatura, o nome do escritor Moacyr Scliar está presente em minha cabeça. Prestes a completar 73 anos, esse gaúcho, de fala tranquila e que aparenta estar vivendo uma parceria eterna com a serenidade, hoje coleciona uma das maiores, senão a maior, bibliografia produzida no Brasil, com mais de oitenta títulos publicados.

Fiz umas contas. Um dos primeiros livros publicados por Scliar (que também é médico com pós-graduação concluída em Israel) data de 1968, ou seja, há 42 anos. É um livro de contos chamado “O carnaval dos animais”. Se pegarmos o número exato 80 e dividirmos por 42 anos, chegaremos à conclusão matemática de que o incansável escritor produziu uma média de quase dois livros por ano. E isso sem parar um ano sequer de escrever, atuando como médico especialista em saúde pública e ainda dando aulas na universidade.

Só que, diferentemente dos títulos conquistados por um time qualquer de futebol, na literatura a quantidade não é, em si, um fator predominante. O escritor J. D. Salinger, por exemplo, é até hoje apreciado por uma única obra, que inclusive tem um preço salgado na livraria e que continua vendendo bem, chamada “O apanhador no campo de centeio”, publicada no longínquo ano de 1951. Posso ainda citar outro escritor renomado, que fez uma literatura de primeira, mas que não produziu muito, o ítalo-americano John Fante.
Com isso, porém, não estou querendo dizer que Moacyr Scliar produz livros que não há qualidade. Pelo contrário. Dos quase dez livros que li deste autor, poucos eu declaradamente não gostei. Aliás, gostar, eu gostei de todos. Mas o gosto, em sim, não significa dizer que o livro é bom ou ruim.
É que, em algumas obras, senti-me distante da trama fictícia pelo fato de o autor mergulhar de cabeça nas questões gauchescas ou então judaicas (um dos melhores livros do Scliar, chamado “O centauro no jardim”, foi incluída na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center).

É justamente essa capacidade que Scliar tem em produzir alucinadamente livros bem escritos que me chamou atenção e que me fez coçar os dedos para escrever esta crônica. Outro motivo que também me instigou a discorrer sobre Scliar se deu por conta de seus últimos prêmios conquistados na literatura.

Com seu romance “Manual da paixão solitária” (Companhia das Letras, 2008), o gaúcho levou para casa mais um prêmio Jabuti de melhor romance e também de melhor livro de ficção do ano de 2009. Neste livro, Scliar confecciona uma trama de 216 páginas inspirada numa única passagem bíblica: Gênesis, capítulo 38, texto que conta a história do patriarca Judá, de seus filhos Er, Onan e Shelá, e de uma mulher chamada Tamar. Eu recomendo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A literatura pautada pela dor de existir*

Nos contos de “A boca da verdade”, mais recente livro do escritor e jornalista Mario Sabino, a existência humana é algo visto, quase sempre, pela ótica da infelicidade



Wilame Prado

Com uma linguagem extremamente formal, os contos do mais recente livro lançado pelo escritor e jornalista Mario Sabino, “A boca da verdade” (editora Record, 2009), passeiam de forma interessante por questões filosóficas que cercam a vida dos homens e as relações humanas envolvendo aspectos da racionalidade, da religião, dos sentimentos e da intelectualidade.

Os onze contos de Sabino são divididos em três partes, intituladas, respectivamente, de “Inexistência”, “Recortes” e “Representações”. Com exceção dos três contos que compõem a última parte do livro, os demais são curtos. Contos pequenos, mas nem por isso facilmente maleáveis. Para que o leitor não perca os detalhes da prosa de Sabino (que, em alguns casos, são mais importantes do que o pleno entendimento da história descrita como um todo), é preciso muita atenção na leitura.

Não seria exagero também recomendar aos leitores estarem acompanhados de um dicionário para descobrirem o significado de palavras incomuns, porém bem utilizadas pelo autor, em quase todos os contos. Isso não quer dizer, no entanto, que ler “A boca da verdade” é tarefa exaustiva ou desestimulante por esse exercício de consulta constante.

Pela capacidade que o autor tem em abastecer suas histórias com paradigmas de uma vida moderna um tanto quanto amargurada e cheia de desilusões, o tempo utilizado para terminar de ler cada conto do livro será, com certeza, menor do que o tempo que o leitor ficará refletindo após o término da leitura.

Sobre sua literatura amarga, em certo ponto realista e reveladora, Sabino se justifica no posfácio do livro: “o mundo pode ser divertido e proporcionar momentos de alegria genuína, mas o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor. Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir, enfim”.

Decadência

De todos os contos do livro, apenas um foge um pouco da premissa de ser pautado pela “dor de existir”, como Sabino afirma no posfácio. Trata-se do singelo “Genética” – duas páginas de pura prosa-poética. O conto narra, repetindo sempre as palavras “homem”, “menino”, “pai” e “filho”, uma emocionante história de um homem que vê em seu filho pequeno a possibilidade esperançosa de fazer coisas que não pôde fazer com seu pai.

As demais histórias falam da decadência humana, simbolizada pela trajetória de um pai e sua dentadura mal ajustada na boca; de um suposto pinguim (um velho homem) que faz reflexões sobre a força das necessidades fisiológicas versus a racionalidade; do drama de um cardeal, que, prestes a se tornar papa, passa a não acreditar na existência de Deus; de um testamento dividido em duas partes, sendo que a segunda só poderia ser lida pelo inventariante quando os filhos completassem 35 anos (momento, segundo o pai, em que era chegada a hora de os filhos conhecerem algumas verdades cretinas acerca dele próprio, para finalmente entenderem - e isso era a herança - que não se pode haver muita esperança com relação a existência).

Já o conto chamado “Demônio com coração de mármore”, por sua qualidade incontestável, poderia perfeitamente ter emprestado seu título ao livro. Na trama, o modo como o personagem Renato se deixa levar alucinadamente pelo mundo das aparências pretensiosas, às vezes vazias, que cerca a classe consumidora da arte e da cultura elitizada, pode ser traduzida num trecho revelador do conto: “O seu conhecimento e a sua sensibilidade não passavam de implantes tão artificiais quanto o do Outro. O máximo a que podia almejar era o bom gosto que se recodificava aos sabores da moda”.

Estando na moda ou não (vide a declarada aversão que muitos críticos e leitores dizem sentir por Mario Sabino pelo fato de ele ser editor-chefe da revista Veja), consumir a literatura – e isso é o que realmente importa – do autor, que também publicou pela Record o romance “O dia em que matei meu pai” e o livro de contos “O antinarciso”, é recomendação para quem quer ler textos, acima de tudo, muito bem escrito.

Para ler
Título: “A boca da verdade”.
Autor: Mario Sabino.
Editora: Record.
Páginas: 144.
Preço: R$ 29,9



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Deus te ama muito*



                    Wilame Prado
Antes de ligar sua motocicleta na garagem do prédio, olhou para cima e notou que havia, contrastando com o céu azul daquele verão tórrido maringaense, nuvens acinzentadas que prenunciavam garoa ou, pelo menos, pancadas dispersas de chuva.

Mas não tinha outro jeito. O ar pesado cheirando a amônia do apartamento – consequência das urinadas e defecadas do gato trancafiado naqueles cinquenta metros quadrados de moradia – obrigava-o a visitar urgentemente o supermercado mais próximo para renovar a areia do banheiro (caixinha) do felino solitário e mijão.

Nenhuma gota de água caiu do céu naquela tarde abafada de janeiro. Já dentro do supermercado, na avenida Cerro Azul, sentiu uma imensa alegria ao ver, na banquinha de DVD´s, que, incrível e finalmente, encontrara o filme “O Siciliano”, de Michael Cimino (o mesmo diretor de “O franco atirador”, protagonizado por Robert de Niro).

Com módicos R$ 10,90, comprou o longa-metragem, estreado em 1987, inspirado no livro homônimo de Mário Puzo que narra a história real de Salvatore Giuliano, um anti-herói siciliano que desafiou a igreja, o governo e a temida Máfia. Há mais de quatro anos, quando consumiu o livro de Puzo em dois dias alucinantes, depois de tê-lo descoberto e comprado no Sebo Cultura, tentava, em vão, baixar o filme pela internet.

Portanto, sentiu-se iluminado naquele momento, segurando, numa das mãos, um saquinho com quatro pães, e na outra, o pacote de areia para gatos, quando olhou, em meio a inúteis filmes, a capa laranja com um sujeito garboso – o ator Christopher Lambert interpretando o corajoso Giuliano, um siciliano íntegro, cheio de princípios. Não havia ninguém por perto. Mesmo assim, correu, deixando as compras pelo chão, e logo pegou o DVD, tal qual uma criança quando vê um brinquedo dando mole.

Afobado, tentava rapidamente colocar o capacete, ligar a moto e sair voando pelas ruas transitadas de Maringá para colocar o filme em seu aparelho de DVD. Mas um rapaz escanelado, com vestes sociais amassadas, também prestes a ligar sua moto vermelha ao lado, olhou para ele e iniciou, sem permissão ou parcimônia, um diálogo, no início, amistoso, mas logo depois, perturbador:
- Que calor rapaz!


- É, mas, pelo jeito, vai chover de novo.
Respondeu.


- Mas a chuva é boa pra refrescar.


- Não aguento mais essas chuvas.
Disse, tentando, em vão, finalizar o papo furado metereológico e, assim, poder assistir tranquilamente ao filme.


O rapaz da moto vermelha continuou sorrindo amigavelmente e falou:
- Você não quer que chova, né (risos)? Deus te ama muito! Tchau.


Atônito com os dizeres “Deus te ama muito!”, imediatamente esqueceu-se do produto da indústria cultural que tanto queria consumir. Nunca ninguém havia dito aquilo para ele, pelo menos não sem nenhuma intenção de coleta de dízimo ou tentativa de convencimento que igreja x é melhor do que igreja y, ou vice-versa.

Seguiu, um tanto quanto voado, com sua motocicleta pela Cerro Azul. Distraído, tentando refletir sobre a frase do magro rapaz da moto vermelha, foi acertado em cheio por um ônibus coletivo no redondo do Teatro Reviver.

O trânsito, que já era conturbado, transformou-se em caos. Seu sangue escuro derramado no asfalto molhou o saquinho de pão. A areia do gato esparramou-se por toda a pista, retocando o clima trágico existente no ar. Ele nunca assistiu ao tão desejado filme “O Siciliano”. Seu apartamento continuou, por muitos dias, fedendo a amônia. A última frase que ouviu em vida foi: “Deus te ama muito”.



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Carta em homenagem aos 80 anos da Dona Luzia Garcia do Prado*


Wilame Prado


Você já experimentou, em um dia qualquer, sentar para conversar com a Dona Luzia Garcia do Prado? Não? Então faça isso. Seu relato pessoal de vida, no mínimo, daria um livro.
Dona Luzia teve uma infância difícil, se é que poderia ser chamado de infância. Perdeu sua mãe ainda criança, com apenas 9 anos de idade. Essa tragédia obrigou Dona Luzia a se tornar mãe com menos de 10 primaveras vividas. Suas brincadeiras, na verdade, eram sérias, cuidando dos irmãos mais novos. Seus brinquedos não passavam de panelas, enxadas ou vassouras.
Difícil ver lado bom nisso tudo, né? Mas, pensando bem, Dona Luzia aprendeu cedo o significado da palavra responsabilidade. Isso porque, embora tivesse de trabalhar e cuidar dos irmãos desde pequena, nunca se esqueceu da importância do estudo. O lápis e o caderno sempre a acompanharam.
Ela também se lembrou da palavra responsabilidade quando, aos 21 anos, não pensou duas vezes em querer casar com um tal de João Azarias do Prado - um moço paquerador, mas muito bonito e trabalhador, que a rodeava na colônia.
Tanto Dona Luzia como João Azarias tinham vários motivos para chorar, sejam por problemas nas famílias, sejam pelas dificuldades financeiras. Mas, pelo contrário, preferiram sorrir, se amar e, como fruto desse amor, cultivar 10 filhos.
Evanir, Neuza, Luci, Carmen, João Azarias Filho, Ana Maria, Mário, Carlos, Solange e Marcos Roberto. Essas foram as graças que os filhos receberam. Eles, mais tarde, seguiram o amor dos pais e deram de presente à Luzia e a João Azarias mais de 30 netos e já alguns bisnetos. E essa fábrica não para por aí!
No decorrer desses 80 anos, Dona Luzia faz questão, até hoje, de trabalhar. Não teve um desafio sequer que ela não enfrentou. Durante todo esse tempo, muita coisa boa e, infelizmente, coisas ruins, aconteceram com ela e com a família.
Talvez, com seus 80 anos de idade, Dona Luzia percebeu que amar vale a pena. E que valorizar as pessoas que estão ao seu redor, vale mais ainda. Para dar um exemplo: quem nunca foi elogiado pela Dona Luzia ou nunca ganhou adjetivos como “trabalhador”, “esforçado”, “bonito”, “bonzinho”, e tantos outros, que atire a primeira pedra.
 É por isso que hoje, Dona Luzia, ou Vó Luzia, ou ainda Mãe, Sogra, enfim, hoje você é um orgulho para a Família Azarias do Prado. Nesta carta, só queríamos deixar bem claro o quanto te amamos e o quanto temos de agradecer à senhora, pois nos mostrou a importância que há na dedicação diária para que os sonhos se tornem realidade.
Agradecemos a senhora pelo iogurte que há tantos anos nos alimentou e fez das nossas tardes de verão um dia inesquecível. Dias esses em que tios, mães, pais, irmãos, vó, vô, ficavam sentados nas cadeiras de área, enquanto as crianças brincavam de Balança Caixão, correndo pra lá e pra cá por toda a lajota da “Vó”.
Agradecemos a senhora que, assim como na Oração da Família do Padre Zezinho, sempre respeitou o lar, seu marido e, dessa maneira, deu o exemplo a seus filhos, que amam você eternamente.
Agradecemos a senhora por sempre deixar a casa aberta para qualquer um da família, sem exceção ou discriminação. Quantas e quantas vezes, nós não fomos “filar” uma “boia” na casa da Dona Luzia?
Agradecemos por, na hora de tantas fatalidades, como nos falecimentos de Evanir, João Azarias, Silvia, Mário e Wilame Elias, ter sido a mais forte da família e a que nos manteve de pé, enquanto que, erroneamente, ficávamos preocupados, pensando que a senhora não aguentaria a dor de uma perda tão grande.
Enfim, Dona Luzia, agradecemos pelo a dádiva do seu nascimento, ocorrido há 80 anos, no dia 6 de abril de 1928. Essa data deve ser marcada como o dia em que nasceu uma pessoa que nunca fez mal pra ninguém.
Todos nós te amamos e desejamos um feliz aniversário. E que, a partir dos 80, sua vida se renove para que chegue, no mínimo, ao 100 anos, com amor, fé, serenidade e muitas histórias para contar.
A senhora é simplesmente linda!
São os votos da Família Azarias do Prado – filhos, netos, bisnetos, genros, mulheres e namoradas de netos, maridos e namorados de netas, e por aí vai!!!!!!!


*Carta escrita por mim em homenagem aos 80 anos da minha querida avó Luzia Garcia do Prado (completados em 6 de abril de 2008), que, infelizmente, nos deixou nesta tarde quente e sufocante do dia 19 de janeiro de 2010, aos 81 anos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Memórias polêmicas em uma sauna finlandesa*

Wilame Prado
Especial para O Diário


Quem acompanha os escritos do colunista do site Congresso em Foco Marcelo Mirisola pode notar que, com ele, não há meias palavras. O que precisa ser escrito, sobre qualquer assunto, em especial sobre a mesquinhez da classe média e alta brasileira, o escritor paulistano, ora residente no Rio de Janeiro, parece sentir prazer em escrever, sem nove horas, sem censura, sem medo de críticas profissionais ou até mesmo de cunho pessoal. Com seus livros, e já são onze publicados, não é diferente.

Em seu último lançamento, “Memórias da sauna finlandesa”, publicado pela editora 34, a acidez de Mirisola vai além dos temas tratados em suas crônicas, que também não perdoam absolutamente ninguém, diga-se de passagem.

Para exemplificar, em crônicas recentes disponibilizadas em sua coluna ele supôs que o bispo R.R. Soares é a “encarnação agrícola de Belzebu“ e afirmou que o cantor de rap Mano Brown assinou “contratinho com o capeta” ao firmar parceria comercial com uma marca esportiva famosa.

Nas 176 páginas do livro, composto por 21 contos, o leitor não encontrará de maneira explícita histórias bonitinhas de amor. Misturando claramente relatos que parecem ter acontecido realmente com ele próprio e uma ficção absurdamente crua e nua, Mirisola, porém, demonstra que pessoas descaradamente canalhas – assim como ele próprio se auto-intitula em trechos do livro – também têm sentimentos, e geralmente acabam tendo de encarar a solidão, e amam, e choram com a partida da mulher, e reconhecem o valor de rabanadas fritas em pleno Natal.

A primeira impressão, lendo algumas páginas de “Memórias da sauna finlandesa”, é a de que se está lidando com uma literatura menor, escrachada demais e sem maiores preocupações literárias. Só primeira impressão. Na verdade, Mirisola facilita a compreensão dos fatos desenvolvendo uma prosa curta e simples. É como se o autor estivesse ao seu lado relatando todas aquelas histórias. E, deste modo, conseguindo repassar o recado, quase sempre venenoso.

Depois de apreciar contos como “Sobre os ombros dourados da felicidade”, em que o autor joga no lixo os costumes de uma classe alta decadente e fútil, ou no conto homônimo do livro, relato de um homem que finalmente cai na real, refletindo, numa sauna finlandesa, sobre a baixeza dos acontecimentos vividos em seus últimos trinta e cinco anos, Mirisola prova que tem algo a dizer e que algo precisa ser criticado. No livro, ele critica, sim, mas também acaba divertindo o leitor.

Para o autor (que demonstrou ter ficado pelo menos uma década, só na espreita, com o ouvido atento, dentro de uma sauna finlandesa alegórica, lotada de gente que tem posses e de gente que finge ter), a imbecilidade de alguns costumes que estão em voga na sociedade – tratar os animais de estimação como se fossem legítimos filhos ou aprender a comer sushi para ser chique são exemplos – é a matéria-prima para sua literatura corrosiva.

Com seus contos, Mirisola parece querer gritar que, independentemente das posses ou das conquistas pessoais e profissionais, a vida é uma eterna, mas sempre combatida, solidão nostálgica. Restam a todos (personagens, autor e leitores) cultivar o vazio existencial regando samambaias, cuidando de filhos-cachorros ou comprando sorvetes para a menininha que o chama de tio Marcelo.

Rabugentos

Atualmente no Brasil, poucos são os cronistas que escrevem sem censura e sem medo das consequências que a publicação pode acarretar. O colunista Diogo Mainard, da Veja, com sua obsessão em criticar o PT e o presidente Lula, perdeu há tempos o posto de escritor mais rabugento do país.

A briga para tal alcunha é disputada ferrenhamente por Marcelo Mirisola, que descarrega suas diatribes semanalmente no site Congresso em Foco (www.congressoemfoco.ig.com.br), e pelo também cronista Juremir Machado da Silva, que publica até seis crônicas por semana no jornal gaúcho Correio do Povo.

Tanto Machado da Silva quanto Mirisola, além das crônicas, têm livros publicados. “Memórias da sauna finlandesa” é a 11ª obra de Mirisola e a quarta publicada pela Editora 34, que também publicou “O azul do filho morto” (romance, 2002), “Bangalô” (romance, 2003) e “Notas da arrebentação” (2005). Com o livro de contos “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, publicado pela Estação Liberdade em 1998, Marcelo Mirisola estreou na literatura com aplausos da crítica.

Para ler
“Memórias da sauna finlandesa”, de Marcelo Mirisola (Editora 34, 176 páginas). R$ 28 (frete grátis pelo site da Editora 34 – www.editora34.com.br)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Só me restam os textos*

          Wilame Prado
Quero contar uma coisa engraçada que aconteceu comigo. Era uma quarta-feira. O telefone tocou. Um tal de Marcelo na linha. Gente fina, o cara. Convidou-me para fazer um papel num comercial para a televisão. Eu seria um jornalista, numa praça de alimentação, informando que o shopping estava lotado.  
Nunca atuei. Sou tímido. Mas a grana era boa. Pelo que parece, 400 reais. Não podia recusar. Afinal, era só dizer duas frases e ir embora. Reprovei no teste. Perdi de ganhar dinheiro. Mas ganhei alguns conselhos e elogios. O Marcelo disse que eu era bonito e fotogênico (muito provavelmente, apenas consolos). Mas disse também que, caso eu quisesse entrar nesse mundo maquiado dos comerciais televisivos, teria de fazer pelo menos um curso de interpretação. E perder a timidez. Valeu pela experiência. 
Convidei-me para ser, quando ele precisasse, um figurante – aquela pessoa que passa despercebida na propaganda, geralmente fingindo estar conversando, sorridente, no segundo plano da imagem. O cara me disse que o cachê de um figurante é de 70 reais. Grana boa também. Mas, pensando bem, caso fosse trabalhar na área da propaganda, gostaria mesmo é de escrever os roteiros dos comerciais. O duro é que, geralmente, o roteirista não ganha 400 paus escrevendo duas frases. Talvez, nem mil frases.  Enfim.
Formei-me recentemente em jornalismo. O primeiro convite de trabalho que tive, depois de formado, foi para fingir ser um jornalista. E, ao contrário da minha fracassada tentativa cênica, isso não é engraçado. Aliás, pouca graça tem a vida de um jornalista recém-formado em Maringá. Não há muitas opções de trabalho, e, na maioria delas, a remuneração é pífia.  
Agora, formado e correndo atrás do seguro-desemprego, tento refletir sobre o que pode ser melhor para mim, profissionalmente falando. Estou a um passo de, por enquanto, desistir das reportagens para atuar em outra área de trabalho. É melhor do que ficar parado. Sendo assim, terei mais chances de ganhar dinheiro.
As pessoas se chocam, principalmente professores e colegas jornalistas, quando digo que poderei não atuar na área em que me formei. Eu não me importo muito. Afinal, sei o quanto a graduação foi importante para mim. Vou levar os ensinamentos para toda vida. Fazendo reportagem, sendo vendedor ou em qualquer área de atuação, conhecimento nunca é demais.
Tenho conversado bastante com pessoas mais velhas do que eu. Tenho ouvido conselhos sábios. E percebo que terei de escolher um caminho a seguir. Por enquanto, ainda não me decidi. É como se eu estivesse fechado para balanço. Ser ou não ser jornalista? Trabalhar para ganhar dinheiro ou pelo amor à profissão? Eis as questões. Bom seria conciliar as coisas. Quem sabe um dia.
A minha única certeza, neste momento, é que, independentemente da profissão escolhida, nunca, jamais, pararei de escrever. É uma questão de sobrevivência. É como respirar ou beber água.
Seja, quem sabe, num tão sonhado livro, neste blogue, no jornal, em outras colunas de jornal, em documentos de Word, numa sulfite datilografada, numa folha de caderno branca, num papel de pão, num guardanapo, num papel higiênico, na palma da mão ou, alucinadamente, nas paredes brancas de todo o apartamento, continuarei deixando os meus pensamentos se transformarem em letras, palavras, frases, parágrafos, textos. Ah, os adorados textos. Nesta vida sufocante, só me restam os textos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A reportagem mais "deliciosa" que já fiz


Para a última edição da revista maringaense ZAZ, nº 56, eu e o fotógrafo Fábio Dias fizemos uma reportagem sobre o Mercadão Municipal de Maringá. Quem tiver interesse em ler essa e outras interessantes matérias publicadas na revista, o preço de banca é R$ 12,90. Entretanto, a revista bimestral ZAZ é encontrada em inúmeros estabelecimentos comerciais de Maringá. Leia, aprecie as fotos e me conte o que achou da reportagem. Depois, visite o Mercadão Municipal de Maringá. É um show de gastronomia. Foi a reportagem mais "deliciosa" que já fiz.

Aproveito esta postagem para agradecer aos leitores que insistem em visitar A Poltrona. No último dia 8 de janeiro, este blogue completou dois anos, data a qual tinha me esquecido completamente. Fica aqui meus sinceros agradecimentos a todos que apreciam meu trabalho. Um abraço. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O que a gente tava falando mesmo?*

Wilame Prado

Em viradas de anos, amigos de boteco (os famosos filósofos de mesa de bar) não ficam juntos. Com suas famílias reunidas em torno de churrasqueiras fumegantes e sobremesas que ficam fora da geladeira, aproveitam o primeiro feriado do ano para reafirmarem seus papéis de maridos, pais, filhos e netos.

Carneiros e abacaxis passados, tudo volta rapidamente ao normal. No balcão do Bar do Vargas, numa pequena cidade perdida do interior do Paraná, José Carlos e Joaquim Eduardo se encontram pela primeira vez em 2010.

Naquela terça-feira quente e desanimadora, José Carlos é o primeiro a chegar ao bar. Pede uma cerveja, garrafa de 600ml, e um copo. Vira seu banquinho, próximo ao balcão, em direção do gramado verde da mesa de sinuca. Não dá palpites, mas analisa as tacadas tortas dos companheiros do bilhar. Deixa, vez ou outra, escapar de leve um sorriso miúdo de escárnio.

Poucos minutos depois, Joaquim Eduardo, um verdadeiro fanfarrão, já vai logo gritando com o Vargas, pedindo um copo limpo e afirmando para todos que tomaria da cerveja do José Carlos porque, caso contrário, o líquido amarelo na garrafa e no copo do amigo atrairia os mosquitos da dengue.

José Carlos estava distraído vendo as unhas carcomidas do pé de um bêbado sentado na parte de fora do bar quando Joaquim Eduardo fez uma pergunta difícil de responder:

- O que espera pra 2010?

- O que o Osvaldinho tem no pé, hein Joaquim? Se viu aquela bicheira ali? – indaga José Carlos, não respondendo a pergunta do amigo porque já tinha se esquecido o que havia sido perguntado.

- Ô Osvaldinho! Passa uma arnica nesse teu pé podre porque já tá atraindo mosca aqui pro bar, caramba! Ou então joga esse teu copo de pingão na ferida pra dar uma desinfetada! – grita Joaquim Eduardo, motivando risos de todos que estão no bar.

Os amigos continuam a beber cerveja e a conversar sobre coisas inúteis da vida. E isso é o que eles vêm fazendo há muitos anos naquele balcão do Bar do Vargas.

Com um repentino silêncio, Joaquim Eduardo se lembra do que ele programou para conversar com seu amigo José Carlos. E pergunta novamente:

- Ô Zé! O que cê quer fazer em 2010?

- Pergunta difícil, hein Joaquim! Sei lá, meu. Aguentar o Dunga sendo campeão do mundo. Aguentar o horário político.

- Falando sério, Zé! Neste ano de 2010, quero ser menos brincalhão e parar de ficar o tempo todo aqui no Bar do Vargas...

- Ué! Aconteceu alguma coisa com você na virada? Ce tá esquisito, Joaquim...

Joaquim Eduardo nem ouviu o que seu amigo José Carlos respondeu. Naquele momento, com uma ligeireza sem tamanho, já estava jogando um copo de pinga no pé bichado do bêbado Osvaldinho e dando tapinhas amigáveis em sua cabeçorra suja.

- Ô Vargas! Duas doses de pingão calibradas aqui pro Osvaldinho. É por minha conta.

- O que a gente tava falando mesmo, Zé?

*Conto publicado dia 5 de janeiro de 2010 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Feliz ano novo*





Wilame Prado

Enquanto anda pelas ruas de uma São Paulo agora totalmente irreconhecível – sem trânsito e transeuntes – Hélio olha para o desenho das calçadas e se recorda da infância – período em que percorria aqueles caminhos de cabeça baixa e pulando os riscos e as rachaduras do chão. Quando criança, pensava que isso traria sorte.

Tempos outros os de agora. Sorte? Que nada. Assim como as linhas puladas da calçada, ele se amargura rememorando as diversas etapas da vida saltitadas. O pior é que, além de seus saltos propositais e desmedidos, ainda havia, no galope existencial, buracos inescapáveis e profundos.

Não parece, mas Hélio tem apenas 36 anos. Quando diz a idade, brinca ressaltando que envelhecera dez anos ou mais no último mês. Pessoas próximas, que estão cada vez mais distantes com o passar dos dias, perguntam a ele porque, no passado, foi preciso viver daquele jeito, no limite, mais parecendo um embriagado tentando fazer o quatro numa corda bamba.

Mas tudo isso, neste momento, para Hélio, não importa. Está sozinho, numa cidade grande e deserta, objetivando apenas cumprir uma missão. E gosta da sensação de paz e serenidade que veio junto às chuvas caídas antes, durante e depois do Natal. Ao se molhar, sozinho, no meio da rua, tentou até sorrir.

Distrações à parte, tomando banho de chuva ou trancado num quarto de hotel, ele sentiu os dias daquela semana escorrer pelo ralo do tempo. Agora, já é 31 de dezembro, último dia do ano e data marcada para Hélio conquistar uma meta que traçou.

No pensamento, em vão, tenta recordar-se de uma cena clássica de um filme de bang-bang de Sérgio Leone, palpitante, sentindo o coração na boca, na mão e no peito, enquanto sobe as escadas de um prédio antigo e sem porteiro do centro de São Paulo.

Hélio encontra-se tenso igual a um caubói que, na avenida principal de um vilarejo do deserto, está com as mãos no gatilho, prestes a matar ou morrer. Toma um susto quando ouve as doze badaladas da imensa catedral que fica ali perto. Fogos de artifício pipocam e clareiam o horizonte visto da janela do quarto e último andar do singelo edifício.

Com a imensidão de luz, vê também uma barata subindo em sua perna. Chuta o ar na esperança de derrubá-la para, logo em seguida, esmagá-la, assim como pretende fazer com seu passado de inseto. Sem barata, e querendo só pensar no daqui para frente, bate, determinado, na porta do 402.

Um senhor quase calvo, com uma barba cinza por fazer e com uma certa tristeza no olhar, disfarçada de olheiras, logo se emociona ao ver o pequeno Helinho – agora grande e também triste, assim como o pai. Ao dar um abraço apertado em seu velho, Hélio ouve uma voz trepidante, anuviada pelo choro: “Por onde andou, meu filho?”. Para ele, mais leve e, agora, dez anos mais novo, a missão havia sido cumprida. “Feliz ano novo, pai”.


Crédito da imagem: http://confins.revues.org/docannexe/image/25/img-7-small480.jpg

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os natais eram bem mais felizes

Wilame Prado


Numa hora daquelas, até o Bar do Vargas já estava fechado. As duas mesas de sinuca do Bar do João Bosco estavam ocupadas. Além disso, toda a cerveja gelada tinha sido vendida. Também. Não poderíamos esperar muita coisa dessa pequenina cidade do interior. Ainda mais sendo noite de 25 de dezembro.

Alguns carros passam pela avenida principal, e única, da cidade. Dentro do meu Escort, íamos eu, Pudim e Nego Ló, equilibrando nossos copos, em busca de um recanto afastado onde teríamos bebida gelada e mesa de sinuca desocupada. Áreas periféricas da cidade nos atraíam naquele dia, assim como formigas indo diretamente ao doce. E nada de bar aberto.

Chegamos a visitar o postão da rodovia. Nem bomba para abastecer o carro estava funcionando naquela pocilga cheia de crateras espalhadas pelo chão. A impressão era de que o pessoal da cidadezinha não precisaria mais ganhar dinheiro. “E daí que é Natal”, pensei.

O Bar do Coqueiro era nossa última esperança. Ficava na outra ponta da cidade, na saída que vai para o Sítio 50 Alqueires. A esperança é a última que morre. Morremos ali, no Bar do Coqueiro. Morri o Escort em frente.

Distraía-me sentindo o levedo daquela cerveja barata refrescar minha garganta enquanto assistia, de camarote, o Pudim dar uma surra no Nego Ló naquele tapete verde da sinuca que contrasta com o colorido das bolinhas enumeradas.

Um caubói alto e forte gesticulava e gritava num aparelho celular – última moda da pequena cidade. Um rapaz de olhos brilhantes e barbinha feita para o Natal tomava uma cerveja ainda mais barata que a nossa. Ele esmiuçava com a boca um canto baixinho, tentando seguir o compasso da música internacional e dance dos anos 80 que estava tocando no Microsystem do bar. Ele não sabia falar inglês, tampouco cantar.

A moça que cuidava do bar naquela noite de Natal não trabalhava ali normalmente. Aceitou cuidar da espelunca no período da noite por dez reais. O rapaz da barbinha perguntou a ela se sabia que dia era aquele. Ela disse “dia 25 ué”. E ele disse “mas o que significa?”. Ela retrucou “eu vou saber caramba”. O rapaz riu para a gente e ofereceu amendoim.

Pudim rebolava sua bunda gorda ao som da Sessão By Night enquanto me trucidava na sinuca. Nego Ló, que naquele dia não estava bebendo porque estava ingerindo remédios para controlar suas hemorróidas, esboçava um desejo de ir embora. Tomando devagar sua cerveja barata, o rapaz da barbinha parecia estar feliz porque provavelmente, quando fôssemos embora, namoraria a morena do Bar do Coqueiro.

Depois de cuspir no telefone celular, o caubói pegou seu capacete e foi embora. Alguns minutos, talvez mais de uma hora, escorreram do relógio enquanto nos divertíamos jogando sinuca, bebendo cerveja e dando altas risadas da mesa descaída do bar.

Chegara a hora de seguir em frente, com aquele Escort caindo aos pedaços. Duas notas de cinco reais, jogadas no balcão, pagaram toda nossa despesa. Antes de sair do boteco, dei uma olhadela para o rapaz da barba engraçada e também para a morena forte e de olhos claros. Os dois já flertavam e pareciam estar vivendo uma boa noite de Natal.

Já dentro do carro, com os dois amigos tranquilos da vida, percebi que o céu estava de um negrume só. Uma chuva fraca, mas persistente, insistiu em molhar todo o asfalto naquele feriado que cheira a consumo, briga de família e churrasco.

Despedi-me do Pudim e do Nego Ló já pensando que amanhã seria outro dia. Por força do hábito, desejamos um ao outro um feliz Natal, mesmo sabendo que todos os três ficaram quase o dia todo vendo a chuva cair nostálgicos e concluindo que os natais de antigamente eram bem mais felizes.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Notícias da prisão II*

Wilame Prado

Querida mãe: não repare e nem se preocupe com as gotas de sangue que mancharam esta folha branca de caderno. É que obriguei o Vinicius, o agente penitenciário aqui, o filho da mãe, a corrigir pelo menos mais uma carta antes de matá-lo. O canivete, aquele que a Carla conseguiu me entregar na visita, deixei bem escondidinho durante todo esse tempo, dentro do colchão. Nunca precisei usar. Agora, porém, ela espeta a garganta gorda do agente penitenciário. As gotas de sangue vêm daí. Mudando de assunto, como foi o churrasco, sem mim, hoje no almoço de Natal? A senhora deve ter ficado preocupada com minha falta, né? Mas vou explicar a história rapidinho, antes que o tumulto se instale aqui na gaiola. O fato é que, no dia 24 de dezembro, o Vinicius veio com um papo besta pro meu lado, dizendo que só deixaria eu te visitar caso eu ficasse com ele. Onde já se viu, mãe? O cara gosta de mim. Disse que me amava. E eu achando que era meu amigo, que estava me dando uma força neste momento difícil da minha vida. Filho da mãe. Me engordava com bolacha só pra me ver mais forte. Igual àquela história da bruxa que engorda as crianças com doces pra comê-las depois. Sacana. Quando ele veio com esse papo besta, quase que voei no pescoço dele. Ia esganá-lo ali mesmo, no pátio. Mas, como Deus é bom, me deu um sinal. Impediu que o demônio me estimulasse a praticar um ato não pensado. Vou explicar: bem na hora que estava armando um mata-leão pra cima do Vinicius, a bola de capotão dos caras que jogavam pelada veio em nossa direção com tudo, bateu em minha cabeça e me distraiu. Todo mundo riu. Fiquei fulo. O agente penitenciário já estava longe. Sabia do perigo que estava correndo. Aguardei o momento certo pra pegar a presa. Assim como um tigre na selva, que fica um tempão na moita, em posição de ataque, só esperando a hora H pra abocanhar seu almoço. Dei um tempo ao tempo. E foi exatamente nesta noite de Natal que consegui pegar o agentezinho sacana e bicha. Fiquei de papo pro ar na cela. Estava vazia. O pessoal foi tudo comemorar a merda do Natal. Quase nenhum funcionário estava trabalhando. Fiquei fazendo charminho pro Vinicius. Você conhece meu olhar matador, né mãe? A mulherada aí da cidade que o diga. Mas, enfim. O negócio é que agora estou com ele aqui do meu lado, todo mijado e cagado. Uma marica. Agora tem medo de morrer. Já me prometeu Deus e o mundo em troca da vida. Disse pra ele que, diferentemente do que ele disse uma vez, sou eu quem vai levá-lo pro céu. Ou pro inferno. Depende dos pecados desse puto. Vai saber o que já fez na vida, né mãe? Se eu matá-lo, pelo menos vou ser mais respeitado aqui na cadeia. O X-12 vai parar de me encher o saco, e talvez até vire meu brother. Confesso que estou tenso, mãe. Nunca matei. Por isso, fumo um cigarro antes do ato final. E pode esquecer a promessa que fiz pra senhora: nem a pau que vou parar de fumar em 2010. Ainda mais se eu matar um homem da lei. Vou sofrer igual cadela nas mãos dos outros agentes penitenciários. Apesar de que, pelo o que percebia, ninguém gostava muito do Vinicius. Um coitado. Bom. É isso mãe. Vou te poupar dos detalhes mais cabreiros. Agora, acho que vai demorar pra gente se ver. Quando trombar com a Josilaine, diga pra ela me fazer uma visitinha. Estou com saudade do cheiro de mulher. Já ia me esquecendo: o agente aqui, prestes a morrer, disse que forjou o teste de sangue. Disse que, na verdade, a porra do exame deu negativo. Deve ser mentira. Na hora da morte, a gente fica é muito louco, viu. Desculpe qualquer coisa aí, mãe. A vida é uma selva mesmo. Ainda mais dentro da prisão. Desejo um feliz Natal atrasado e uma ótima virada de ano. De seu filho querido, e agora fodido: Daniel.

*Conto publicado resumidamente dia 22 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sábado, 19 de dezembro de 2009

Notícias da prisão*

Wilame Prado
Querida mãe: nesta carta, quero dar uma boa notícia para a senhora comemorar no Natal. Creio que vai se perguntar, ao término da leitura, como consegui escrever bem, sem muitos erros ou rasuras. É que o Vinicius, agente penitenciário, amigão meu aqui dentro, entende pra caramba de texto. Ele corrigiu o que eu escrevi, na maior gentileza. Este meu brother passou num concurso disputado pra cuidar de preso e ganha quase três mil reais por mês. Quando sair daqui, vou estudar, mãe, pra ganhar dinheiro, cuidar de preso e dar uma cesta básica todo mês pra senhora. Mas, já ia me esquecendo da boa nova, né? Então. A senhora se lembra quando veio aqui na gaiola e me encontrou todo doente, fraco, pálido igual à parede aí de casa, sem forças nem pra levantar, né? Naqueles tempos, estava com uma baita moleza mesmo, além de não estar bem comigo mesmo. Acho que estava com aquela doença da vó, a tal da depressão. Não quis te contar, mas é que, naquela época, entrei numa pira muito grande comigo mesmo. É que tem um cara filho da p. (o agente não deixou eu escrever palavrão) aqui no meu pavilhão, o X-12, que encasquetou dizendo que eu era baitola. Só porque sou polaco, de olho azul e magricela. O cara queria me fazer de mulherzinha de qualquer jeito. Um dia, X-12 mais seus trutas, o Cabecinha e o Marola, fizeram uma enrascada, não tendo como escapar da putaria. Dá arrepio só de lembrar da nojeira. Estou com muita vergonha de te contar isso. Não dá pra senhora ver, mas estou até chorando e minhas lágrimas caíram no papel da carta, fazendo com que tivesse que escrever outra, tudo de novo, porque a tinta azul da minha caneta Bic se desfez junto ao branco da folha. Virou um borrão só. Como enrolo, né mãe, pra contar a boa nova? O fato é que hoje, perto do Natal e do fim do ano, tomei coragem e resolvi fazer um exame de sangue, aconselhado pelo meu irmão aqui, o agente penitenciário. Juro que agora vou contar a boa notícia, meu presente de Natal para a senhora: meu exame deu negativo, mãe! Não peguei nada nesta cadeia nojenta, cheio de pessoas ruins. Tem gente boa aqui também, mas tem muito cara que já abandonou a vida e vive num inferno. E o inferno, para eles, é esta cadeia. Estou limpo, mãe! Isso me fez respirar melhor e aproveitar os banhos de sol como se fossem os últimos e os primeiros. Até voltei a frequentar o culto – pode contar pra vó e pras tias. Ainda não consegui largar o cigarro. Mas isso é uma das metas pra 2010. Ganhei, inclusive, uns quilinhos a mais. É que o Vinicius, quase todo dia, me descola um chocolate ou uma Passatempo recheada. O cara é gente fina. Com todo esse meu otimismo, parece que fiquei forte, mãe. Corajoso, sabe? Até parece que li aqueles livros de autoajuda, que tanto a Alice insiste para que a senhora leia. Por isso, resolvi que, de qualquer jeito, vou visitar a senhora neste Natal e Ano Novo. Estou limpo e forte! E o meu irmão aqui, o Vinicius, já está mexendo numas papeladas pra eu sair numa boa. E ele disse que, mesmo que não seja legalizado, vou conseguir sair de qualquer jeito no Natal, nem que for meio nas escuras, sabe? Ele tem moral aqui, mãe. Vai arrumando o quarto, encomenda ponta de costela, asinha de frango e linguiça toscana no açougue do Dutra, pegue emprestado a churrasqueira com o Zé e me aguarde pro churrasco. Ajeite também aquele colchão e aquela almofada, pois vou levar visita. Meu camarada, o Vinicius, perguntou se poderia passar o final de ano com a gente. Diz que faz questão de te conhecer. Mas pode ficar tranquila. O cara é gente fina. A senhora verá. Só achei meio esquisito no dia em que ele falou que me achava bonito. Mãe: homem pode dizer que acha outro homem bonito? Não mostrei esta parte da carta pra ele. Só mais uma coisa: para o festejo de final de ano, vê se não vai chamar aquela vadia da Carla e nem a trambiqueira da Josilaine, viu? Meu camarada aqui está dizendo que é perigoso a mulherada ficar sabendo que eu saí da cadeia. É que elas podem me dedurar para os caras que estou devendo, lá do Mutirão. Bom, é isso. Então, até daqui uns dias, mãe. O Vinicius, a pessoa que vem me salvando deste inferno com grades, manda um abraço. E por falar em inferno, lembrei do dia em que ele disse que me levaria para o céu. Esse cara é um brincalhão mesmo. De seu filho querido: Daniel.
*Crônica publicada resumidamente dia 15 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sumiço*

Wilame Prado

Nos momentos finais da faculdade, ele começou a sumir. O grupo de colegas de sala nem notou esse início de retirada social. O processo de desaparecimento foi acompanhado de algumas atitudes até então inéditas tomadas por ele. A começar pelo abandono de alguns vícios. No Espetinho do Zé, comemorando a nota máxima tirada na banca final, doou a última cartela de Marlboro para o companheiro ao lado.


No apartamento dele, ao contrário do que acontecia com frequência nos últimos meses, a entrada de refrigerante estava irrevogavelmente proibida. Ao olhar a barriga, que tomava formas astronômicas de uma maneira vertiginosa, restou a ele apontar um bode expiatório. Para não passar no seco, virou um voraz consumidor de água com gás.

Assim como o contrato de trabalho, as aulas finalmente chegaram ao fim. Estava formado e desempregado. Que beleza! Com um canudo debaixo do braço, atestando que passou quatro anos da vida participando de um suspeito ciclo universitário, ele simplesmente preferiu não visitar o mercado de trabalho.

Encostou-se confortavelmente em uma poltrona velha de seu lar. Foi lá que conheceu o ócio não criativo. Foi lá que permaneceu intacto quando o telefone ou a campainha tocaram algumas vezes. Foi lá que, antes de tacar o notebook na parede, desligou-se de todas as redes sociais e banais que participara até então. Esboçou até um refrão: “Orkut: até mais ver/ Twitter: já vai tarde/ Email: não te quero mais/ Blogue: vai ver se estou na esquina”.

Sabia que não demoraria muito para que o nome dele caísse no limbo do esquecimento eterno, amém.Comprovou isso com a diminuição das ligações telefônicas de parentes e amigos. Passado algum tempo, quebrou também os telefones e deixou de pagar as contas para que os serviços fossem cortados.

Quando já não havia mais possibilidade alguma de conviver naquele lar -agora, imundo, escuro e sem mantimentos alimentares -, ele simplesmente o abandonou. Era madrugada. Era calor. Era ele e mais ninguém pelas ruas simpáticas de Maringá. Caminhou alguns quilômetros sem sentir, uma vez se quer, vontade de olhar para trás.

Errante, mas nem tanto, algo o levou até o terminal rodoviário. Talvez fosse a sede. Comprou uma garrafa de água com gás. Meio que inconsciente, viu-se comprando também um bilhete, só de ida. Meio que sem pensar, entrou em um ônibus e rumou para algum Norte. Meio que sem refletir, esboçou um tímido tchau quando o veículo passou ao lado da Catedral.

Agora, está sozinho e olhando pela janela a paisagem de cores formada pelo verde da soja, pelo branco do gado e pelo vermelho da terra. Tenta entender o motivo de seu sumiço. No sacolejar daquele ônibus, rodeado de pessoas feias e estranhas, admite para si a verdade: antecipou-se escolhendo ficar sozinho porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, todos o abandonarão de uma maneira tênue, sufocante e extremamente triste.
Crônica publicada dia 8 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ouço Otto; penso em Alessandra*

Wilame Prado


Acho que todos nós, pelo menos em algum momento da vida, sentimos-nos nojentos, asquerosos, rejeitados e até odiados pelos outros – assim como insetos.

Fico pensando que o músico Otto viveu na pele a insignificância de um inseto ao abrir os jornais e ler notícias (ou fofocas) de que, na época, sua mulher, a atriz Alessandra Negrini, beijara o bonitinho do Bruno Gagliasso ou se encontrara com o bonitão do Fábio Assunção.

É. Deve ter doído mesmo. Mas, também, pudera. Olha com quem ele foi querer mexer! Alessandra Negrini é a mulher mais espetacular que já vi na telinha. A morena é linda, e parece saber exatamente o que fazer para deixar qualquer moço a seus pés.

Tentando (não conseguindo jamais) esquecer da Engraçadinha da Alessandra, falemos um pouco das mazelas dessa vida. Penso que os sofrimentos não são em vão, ainda bem. Corriqueira, a vida é. Verdade.

E muitos artistas só conseguem produzir coisas profundas quando estão tristes ou solitários. É assim que se consegue enxergar o amargo da rotina, do dia pós dia, da completa repetição de fatos e transformar tudo isso em beleza – seja na literatura, no cinema, nas artes plásticas, no teatro, enfim.

Otto, que parecia estar vivendo um pesadelo sem tamanho, finalmente acordou. Acordou sim, mas, provavelmente suado e ainda com a imagem de Alessandra (eu avisei que não conseguiria esquecer) ao seu lado, “bem junto/na cama/de um quarto de hotel” – trecho de uma das mais emocionantes canções de seu último CD, o maduro e bonito “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”.

O inseto arretado e pernambucano Otto acordou, sim. Comprovo isso em outro trecho da canção: “Nasceram flores num canto de um quarto escuro/Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. Para a alegria de quem já curtia suas músicas e não aguentava mais esperar o lançamento de um novo trabalho, finalmente as flores musicais de Otto renasceram.

O músico acordou, fez um gargarejo com folhas de romã e está com uma bela voz. E não pensem que seus sonhos intraquilos abalaram, por exemplo, seu sotaque marcante de nortista ou o gosto pelo brega. O poeta Otto saiu do casulo, minha gente. Está na praça de novo. E transformou todo seu sofrimento do passado num dos melhores discos nacionais do ano de 2009.

Muitos não curtem os trabalhos anteriores de Otto por achar experimentalistas demais. Eu era um deles. Pois eu digo que, agora, em “Certa manhã acordei de sonhos intraquilos”, já com 41 anos de idade, Otto acertou o alvo e soube trabalhar bem com suas possibilidades.

Fazia tempo que não chorava ouvindo música e prestando atenção na letra. Devo ter ouvido mais de cinquenta vezes as faixas “Crua” e “6 minutos” do CD. Nesse prazer de ouvir as canções de Otto, continuo chorando, emocionado, agradecido e, indubitavelmente, pensando em Alessandra Negrini.

*Crônica publicada dia 1 de dezembro na coluna Crônica, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://imagem.vilamulher.terra.com.br/interacao/original/80/alessandra-negrini-e-otto-mais-um-casal-desfeito-80-126.jpg

sábado, 28 de novembro de 2009

Pedra da "felicidade"

Reportagem interessante publicada em O Diário sobre a “Cracolândia maringaense”. Se quiserem ler, está aqui.
Abaixo, se quiserem ler também, meu comentário com relação à matéria.

Pedra da “felicidade”

Ótima proposta de cobertura jornalística e fotográfica de O Diário. Naquela praça, além do consumo desacanhado de drogas, ainda há o comércio sexual de senhoras já com algumas décadas de vida, à luz do dia. Enquanto isso, pessoas vão e vem, sobem em suas circulares para encarar mais um dia de cão, fazem viagens de até uma hora para municípios vizinhos, de pé, com pasta ou mochila nas costas, com guarda-chuva em mãos quando está chovendo, e provavelmente com uma marmita insossa, devidamente guardada na bolsinha, que será devorada na hora do almoço para o peão, ou a peoa, aguentar o restante da tarde. Na volta, é a mesma coisa. Só que, infelizmente, muitos nem retornam a seus lares para dar aquela deitada no sofá enquanto assiste um pedaço da novela. É que precisam ir à faculdade (é desperdício pagar o Fies e cabular aula) e buscar um diploma para, quem sabe um dia, não precisar mais ficar andando de circular ou a pé pelo centro de Maringá, onde pessoas passam o dia e a noite toda numa peregrinação constante em busca de mais uma pedra da "felicidade".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um fevereiro sem carnaval*

Wilame Prado

No meio de uma entrevista, vibração ritmada na mesa e luz piscando em compasso: era o celular dando sinal de vida e querendo chamar atenção. Nem sei como consegui terminar o árduo trabalho de questionar o entrevistado com perguntas que eu já sabia a resposta depois de ver na telinha externa do celular as três chamadas não atendidas do telefone da casa de meu avô.

Com câncer no rim incurável, já que seus 80 anos de idade e seus problemas cardíacos o impossibilitavam de fazer cirurgia, só restava esperar o dia fatal, o dia em que o velhinho cearense careca, cheio de prosa e piada, nos deixasse e fosse para um lugar além.

Escrever? Que nada. Retornar a ligação? Muito menos. Andei de um lado para o outro, tentando fazer mil e uma teorias de que o mais provável - uma morte anunciada – não fosse a única opção para terem me ligado, às 15h40 de uma quinta-feira chuvosa.

Como se fosse calmante, construía possibilidades imaginárias para tentar me convencer de que o motivo da ligação não fosse mais do que um simples convite para um almoço de domingo. Olhando a chuva que não queria parar, vendo pessoas absortas em seus afazeres proletários, a pressão do pensamento lógico não me deixava ter esperanças.

Por mais um segundo de abstração, lembrei de meu finado pai, primogênito desse meu avô que estava em estado terminal. As pessoas da família diziam que o câncer fora desenvolvido por causa da morte prematura do filho, que sofrera derrame com apenas 49 anos de idade. E eu, louco para desligar meu cérebro, não queria acreditar que, em menos de um ano, perdera pai e avô.

Já com um terço da garrafa de café no estômago, resolvo retornar a ligação. Quando ouço ao telefone a voz de minha tia que mora a quase um dia de viagem da casa de meu avô, as borboletas douradas da esperança morreram com a vertigem da emoção – o pior só podia ter acontecido para ela estar na casa do velhinho atendendo ao telefone, pensei.

Meu cérebro logo transformou a sensação de ouvir aquela voz em pernas bambas, batimentos cardíacos apressados e gelo no estômago. Ao ouvir o motivo da ligação, pela primeira vez na vida senti alívio em receber uma notícia calamitosa.

Pois, ao pensar insistentemente na morte de meu avô, ouvir ao telefone que ele havia sofrido um derrame e que estava em coma no hospital universitário foi como achar nota de R$ 50 no bolso da blusa, esquecida há anos no guarda-roupa.

Dois dias se passaram, e finalmente seria minha vez de visitar o velhinho cearense no hospital. O horário da visita estava marcado para as 15h45. Mas, infelizmente, a vontade de se encontrar com o filho em algum lugar mais tranquilo foi maior do que rever o neto e permanecer em um sombrio e gelado hospital branco, cheio de tubos de oxigênio espalhados pelo corpo. Aproximadamente às 11h da manhã de um fevereiro sem carnaval não muito distante, ele morreu.

*Crônica publicada dia 24 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Autoajuda só atrapalha*

Wilame Prado

Dizem que para criticar algum livro é preciso lê-lo primeiro. É verdade. Por isso, nunca critico Paulo Coelho. Simplesmente não perderei meu tempo lendo obra sobre alquimia dele. Também nunca li nada que está na prateleira dos chamados livros de autoajuda. Folheei alguns por curiosidade. Experiência boa para rir do quanto é obvio, clichê e de mau gosto o quê esses caras da autoajuda escrevem.
Mesmo com meu absoluto desdém pelos livros de autoajuda, sinto medo de ficar falando sobre isso. É que tem muita gente que gosta, assim como de Paulo Coelho, de praticar a chamada ideologia do pensamento positivo. Situação complicada é quando alguém te recomenda, ou então te presenteia, com livros dessa categoria. Nessas horas, a sinceridade é algo totalmente dispensável e difícil de ser praticada.
Um amigo meu afirma mais ou menos isso: “as pessoas otimistas não dormem de noite pensando que amanhã elas precisarão ganhar o mundo. O pessimista, já consolado com toda a desgraça que é sua vida, provavelmente terá uma noite de sono mais tranquila”. Concordo com ele. Durmo igual a uma pedra.
Não acredito na hipótese de que as pessoas que estão no fundo do poço são únicas e exclusivamente culpadas pela situação em que se encontram. O mundo também não ajuda. Posso ficar pensando positivamente minha vida inteira e nada conseguir. De nada vale eu ficar só ambicionando, por exemplo, um excelente emprego, numa excelente empresa. Também preciso agir. A começar: entrar num curso de inglês.
O parágrafo de cima soou como algo positivista. Poderia bem tê-lo apagado, mas o deixo ali em homenagem aos leitores que apreciam escritos de autoajuda. E já que é para ajudar de alguma forma, que tal começando pelos verdadeiros clássicos da literatura? Penso que quem consome bons livros são pessoas melhores.
Para o amor, poderia citar Gabriel García Márquez e obras como “O amor nos tempos do cólera”, “Do amor e outros demônios” e “Memória de minhas putas tristes”. Para entender que são nas coisas simples da vida que encontramos felicidade, ler “As margens da alegria”, conto do livro “Primeiras histórias”, de João Guimarães Rosa, é uma boa pedida. Você vai ficar fascinado de perceber o quanto o menino ficou alegre só porque viu um pavão no terreiro da casa dos tios.
São tantos os clássicos da literatura que fica difícil recomendar numa crônica só. É tanto livro que existe neste mundo, e que cada vez mais se encontra acessível (vide: www.estantevirtual.com.br), que ler autoajuda deveria ser considerado crime. Isso até me lembrou aquele filme do Truffaut, “Fahrenheit 451”, em que proibiam o pessoal de ler, queimando todos os livros que encontrassem nos lares.
Tive vontade de escrever sobre esta autoajuda que só atrapalha porque, finalmente, encontrei alguém que anunciou publicamente o seu profundo desafeto com o pensamento positivo. É a jornalista e escritora americana Barbara Ehrenreich, que acaba de publicar o livro "O lado ruim das coisas: como a promoção incansável do pensamento positivo prejudicou a América" (tradução livre).
Ehrenreich percebeu o quanto a autoajuda lhe prejudicou quando foi diagnosticada com um câncer de mama. Ela afirma, em entrevista na Istoé, que, caso seguisse a linha da autoajuda, teria de “lutar não somente para aguentar os tratamentos terríveis, mas também fazer um esforço enorme para pensar positivamente”.
Ainda na entrevista, disse constatar “que o excesso de positivismo atrapalha a economia, a política e a sociedade como um todo, porque faz com que as pessoas fiquem mais individualistas, egoístas e, em última instância, infelizes”.
Genial esse ponto de vista. Quando o livro for traduzido aqui no Brasil, darei um exemplar de presente para cada pessoa que já me indicou alguma obra de autoajuda, na vã ilusão de que acreditaria em fórmulas mágicas de “Como alcançar o primeiro milhão” ou então de “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.
Crônica publicada dia 17 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Câncer de pele


Adoro desenhar. Uma pena é não saber (ou não ter o dom, como um visitante do blog me alertou) II.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Plantando saudades*

Wilame Prado
Foram poucos, tio Mário, mas marcantes, os momentos em que passamos juntos, lá na roça, terra arrendada, onde o senhor, o padrinho Zé Preto e o primo Carlinhos cultivavam as oleaginosas valiosas – pelo menos naquela época em que a saca de soja era bem paga. Hoje em dia, compensa mais se abandar para os lados da cana-de-açúcar ou então construir granjeiro e plantar pomar para adubar os pés de laranja com o esterco dos frangos.
Digo isso para te manter bem informado, embora acredite que aí dos céus, das plantações divinas, das fazendas longínquas sagradas, o senhor deva estar acompanhando as dificuldades que têm os homens que labutam na roça diariamente. Não bastassem os ladrões de galinha e de gado, nos dias de hoje, tio, até gangue especializada em roubos de tratores já tem.
É por essas e outras que sinto saudade daqueles tempos. O senhor, aí de cima, deve se lembrar do dia em que fomos passar veneno na soja. Eu, moleque de tudo, vindo de São Paulo, capital, tendo nojo de pisar na terra, aprendi a respeitar a vida vivida pelo homem do campo naquele dia, que se iniciara às cinco da manhã, tomando café preto e forte e vendo a Carminha, sua irmã e minha tia, fritando ovos para nossa boia.
Recordo-me que, no mais tardar, às dez e meia da manhã já estávamos devorando aquele arroz com feijão, ovo e batata frita, como se fôssemos reis. Reis com suas boias-frias! Os reis da roça, daquele mundão verde, em perfeita harmonia com o azul do horizonte!
Senti fome logo cedo. Senti frio em cima do trator. Senti náuseas com o cheiro do agrotóxico. Mesmo com essas dificuldades, estar perto do senhor, tio Mário, sem dúvida, era a melhor das sensações. As recordações daquele e de outros momentos vividos ao seu lado, volta e meia, latejam em minha mente. Essas lembranças insistem em me jogar na cara que não mais poderei viver tudo aquilo novamente com o senhor.
Não somos mais reis, tio Mário. A seca acabou com nossa lavoura mágica. E, hoje em dia, homens como o senhor, que nasceram na roça, que brincaram de guerrinha de mamona na infância, que passaram a adolescência catando algodão, que ergueram as mãos para o céu quando a tão esperada chuva prenunciava e que trabalharam dignamente até o último dia em vida, quase não há. Mesmo assim, a gente tenta sorrir ao ver um príncipe Arthur, seu filho, dando um pouco mais de verde para o sertão que é nossas vidas com a tua ausência. Por isso, penso que, mesmo com todas as intempéries que nos acometem nessa estrada rural da vida, tudo valeu à pena, pode ter certeza.
Os homens da roça, os legítimos, os desbravadores, os que cutucavam onça com vara curta, os que almoçavam, jantavam, dormiam e acordavam cedo, devem estar, numa hora dessas, reunidos com o senhor na roça dos céus. E todos, sem exceção, plantaram de tudo aqui na roça da Terra, principalmente saudades.
Crônica publicada dia 10 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Depressão*


Adoro desenhar. Uma pena é não saber.*

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Diálogos docentes*

Wilame Prado
Professor 1: Eles mataram aquele menino. Mataram! Uma morte moral. O rapaz perdeu até o jeito de andar. Pergunto pra você: pra quê tudo isso? Agora, o Pedro está pensando em se transferir de colégio. Parece que até conversou com o doutor Márcio pra tentar um atestado de quinze dias. Assim, não vai precisar voltar nunca mais ao colégio e nem encarar o terror dos corredores na hora do recreio.
Professor 2: Estou sabendo. O pai dele, o Juruna lá do Banco do Brasil, parece que já está vendo umas papeladas pra se transferir pra cidade grande. Confessou ontem pra nós, lá no clube, no carteado, que morar em cidade pequena é ruim por causa disso. Todo mundo conhece todo mundo, e fala de todo mundo.
Prof. 1: Fico pensando: se eu fosse diretor de colégio, sei lá, expulsava o Murilo e o Caio. Esse papo de suspensão de uma semana, os moleques até gostam. Tiram férias antecipadas, jogam videogame a tarde toda, tomam aquela porcaria de tereré e, não duvido muito, já estão mirabolando pra sacanear mais alguém com aquelas músicas.
Prof. 2: Eu gosto do Pedro, mas não me aguentei, cara, vou confessar. Eu ri pra caramba do vídeo que os moleques botaram no You Tube. No início, a gente pensa que vai ser uma música séria – eles tocam muito violão, hein? Mas depois, quando o Caio começa a cantar... pelo amor de Deus! É muita sacanagem pra uma pessoa só.
Prof. 1: E se acha que eu não mostrei o vídeo pra todo mundo lá em casa não, é? Aqueles moleques tinham que trabalhar no CQC.
Prof. 2: Se viu? O Caio, depois que “compôs” a canção da desgraça do Pedro, começou a namorar a Bia, aquela gostosa do terceirão. Como pode, um piá do primeiro ano conseguir tal façanha? As meninas do terceirão só querem saber de professor ou dos caras que fazem cursinho pré-vestibular à noite.
Prof. 1: Está com inveja, é? Toma cuidado viu. Ouvi dizer que a Marli está dedurando professor que olha aluninha com más intenções...
Prof. 2: A Bia já tem 18, e eu não estou nem aí com a paçoca, meu amigo. Pelo menos, alguma coisa de bom a gente tem que ter nessa profissão. Devia ter feito Direito e não História, viu.
Prof. 1: Relaxa, cara. Se você conseguir dar aula no cursinho, aí fechou. Grana boa por mês. O duro é que tem que saber contar piada né?
Prof. 2: É embaçado. Vou pedir pro Caio e pro Murilo fazerem algumas canções sacaneando o Einstein, o Pitágoras e o Platão (risos).
Prof. 1: (risos) Não tem jeito. Os piás são carismáticos mesmo. A gente dá bronca, coitado do Pedro e do Juruna e tal, mas os moleques animam aquele primeiro ano.
Prof. 2: É verdade. Mas ainda estou de cara com a Bia. Ô menina bonita, viu.
Prof. 1: De lembrar dela, me deu fome. Vamos de bandejão no refeitório ou P.F. na padaria?
Prof. 2: P.F é melhor né!
*Crônica publicada dia 27 de outubro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Agora sim 50 mil

Agora sim 50 mil. É isso. Seria a hora de parar com o blog?
Enquanto reflito sobre isso, leiam a crônica "Diálogos docentes" na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná.

Quase 50 mil visitas


Contagem regressiva para o visitante de número 50 mil. Segundo contador suspeito, instalado ao lado aí, desde o dia 8 de março de 2008, faltam 20 visitas para o feito.

Nesses quase 600 dias de contador, dividido pelo número de visitas, a média diária de personas que entram neste blog é de 83,333333333...

Enquanto isso, leia “As dez vozes do escuro”, no Portal Literal.

Um abraço e muitíssimo obrigado aos leitores que já se acomodaram, pegaram tuas latinhas e relaxaram suas nádegas nesta Poltrona.




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"De camisola", agora no Cronópios




Ela está em cima de uma cadeira, vestindo surrada camisola cor de pele - outrora devia ser branca. Faz horas que está arrumando o guarda-roupa; tira trecos, põe trecos, enfia roupa, passa pano, tira trecos novamente, passa pano de novo. A visão da janela do meu quarto, quinto andar, é privilegiada, pois a janela dela é a do terceiro andar do bloco ao lado. Continua arrumando, horas passam, eu continuo olhando hipnoticamente, e ela arrumando. Faço de tudo para justificar minha presença na janela. Fumo um cigarro devagarzinho, boa sensação, várias canecas de tereré, olhar hipnótico, arrumação constante. Às vezes, dá-se a impressão que ela me vê, mas analisando fisicamente e geograficamente, não é possível em seu campo de visão enxergar-me, não sem se abaixar. Mesmo assim, tenho certeza que ela me provoca; levanta de leve a camisola, mas não chego a ver nada indecente. Admito, ela não é tão bonita assim, mas como é provocante ver uma moça arrumando seu guarda-roupa com uma camisola curta! Só pode ser provocação...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As dez vozes do escuro*




“A parede no escuro”, de Altair Martins, diferencia-se pela variedade da linguagem e dos pontos de vista de seus dez narradores; livro é ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Jabuti


Por Wilame Prado
Dependendo do modo como uma pessoa se expõe em sua linguagem, e atentando-se aos assuntos que, volta e meia, compõem o enredo de sua fala, consegue-se conhecê-la melhor.

É por meio da oralidade, representada nas palavras proferidas pelas pessoas, que os personagens do livro “A parede no escuro”, de Altair Martins, vão se revelando e se caracterizando. O romance foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “Melhor Livro de Estreia do Ano”.

São mais de dez narradores no livro. Em muitas páginas, o leitor encontrará um mesmo fato descrito por mais de um narrador. Isso enriquece a cena imaginada e estimula um raciocínio lógico de que a verdade nunca é absoluta e que é dependente do ponto de vista de cada um.

O exercício narrativo proposto por Martins é arriscado no campo da literatura. O autor gaúcho, para produzir o romance, nadou em águas turvas da criatividade, que poderiam muito bem tê-lo arrastado à superficialidade. Mas isso não aconteceu.

O resultado final, além de todos os prêmios conquistados, inclusive sendo um dos finalistas ao Prêmio Jabuti de melhor romance, foi uma obra genial, que exala originalidade (pelo menos quando comparado a escritores brasileiros) e riqueza estética literária. Uma prosa quase poética.

O difícil é imaginar como o autor de “A parede no escuro” conseguiu a proeza de criar tantos narradores, cada qual com suas especificidades, e os consequentes discursos relatados no livro. Em entrevista ao jornal literário “Rascunho”, Martins revela um pouco de sua labuta para tal feito.

“Escrever, para mim, é antes de tudo escutar. E colher. Meu laboratório é meu dia-a-dia: estou sempre coletando sucata. Por isso, para a elaboração de tantos narradores diferentes, adotei envelopes com seus nomes, dentro dos quais fui depositando frases e estruturas sintáticas que me pareciam convir com cada um deles”, revela o escritor.

Nesse exercício atento de observação e coleta de dados, Martins incorporou nos personagens características de pessoas conhecidas, como sua mãe, seu padrasto, professores colegas de trabalho e até alunos.

“Onira tem a sintaxe de minha mãe; Adorno, de meu padrasto; colhi o Coivara de vários professores de cursinho com os quais convivi, e ele tem um pouco da minha linguagem também. Já o Emanuel nasceu da sintaxe de textos dos alunos, algo como uma escrita aos pedaços, com referentes anafóricos desnecessários, com frases viúvas”, explica, na entrevista, a gênese dos personagens do livro.

Em meio a constantes relatos dos narradores, ora representando diálogos, ora representando seus pensamentos, o ponto de partida da trama é o atropelamento e morte do padeiro Adorno. A partir deste fato, o leitor conviverá principalmente com os dramas psicológicos de Emanuel, filho de Fojo, vizinho de Adorno, e supostamente o autor do crime, e de Maria do Céu, filha do padeiro.

Embora Martins negue ter se inspirado em “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, cabe uma comparação entre Raskólnikov e Emanuel, ambos totalmente abalados psicologicamente em razão da culpa que pesa na consciência e com a insana necessidade de desabafar o crime.

Os diálogos entre os professores Emanuel e Coivara acabam levando ao leitor um cenário contundente, mas infelizmente desastroso, da situação atual do ensino brasileiro. É nas palavras de Coivara (que sofre o peso do preconceito dos alunos por não ter um dos braços) que as críticas mais ácidas do sistema são feitas.

Emanuel, enquanto ouve os discursos inflamados do professor de História, encontra-se preocupado com o atropelamento praticado, com a relação amarga entre ele e seu pai e também com a ordem dos copos na mesa e a limpeza do chão abarrotado de giz esmagado – um dos personagens principais do livro parece sofrer de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Esse é só um dos tantos episódios que merecem destaque em “A parede no escuro”. Outro exemplo de maestria linguística e capacidade de conseguir transformar acontecimentos em literatura é a descrição dos pensamentos e sentimentos de Maria do Céu, ao saber da morte do pai.

Recém saída de casa, e ainda colecionando as palavras amargas da última briga com Adorno, o processo digestivo de aceitação da morte se dá aos poucos, com riqueza de detalhes e com surtos de sordidez, raiva, desprezo e, por fim, aceitação.

Das primeiras páginas até o fim do livro, a parede da casa de Adorno, o padeiro atropelado, configura-se quase como um outro personagem, representando a figura onipresente necessária para que o leitor entenda os dramas vividos pelo padeiro, por sua mulher, Onira, e por Maria do Céu, antes e depois do
atropelamento.

Em determinado momento do livro, dias depois da morte de Adorno, Onira pensa alto: “E tem vez que eu penso que tu não partiu ainda, e eu dou uma cochilada e me acordo assustada, porque parece que eu tenho que levar uma toalha seca ou esquentar um leite ou arrumar uma outra coisa da casa. Me dá uma tremura nos nervos por causa que parece que tu pega e te esconde atrás de cada parede.”

No escuro, a parede da casa torna-se testemunho de alguns episódios cruciais na vida de Adorno e de sua filha. Graças a um desses fatos marcantes ocorridos na vida de Maria do Céu, ela consegue uma redenção justificada pelo que pensa ter cometido: a morte do pai.

Nesse ponto, ela se parece muito com Emanuel, que vive suportando um peso de simplesmente não sentir nada pelo pai, ao fato de estar, num bar, tomando um porre homérico e criando coragem para desabafar ao amigo Coivara o crime cometido, enquanto o velho Fojo, numa cama de hospital, parece viver os últimos momentos de sua vida. Emanuel também acredita que matou seu pai.

Todos os personagens de Martins vivem se culpando ou reclamando de algo. Sua literatura não vem com enfeites ou prioriza histórias límpidas e maquiadas de pessoas quase irreais, tão comuns na literatura.

Em “A parede no escuro”, o escritor gaúcho, ao dar voz a pessoas simples, tão bem caracterizadas por seus discursos verossimilhantes, enraizadas nas tradições gauchescas de determinada cidadezinha interiorana e sem muitas ambições para o futuro, consegue traduzir a vida como ela é, por mais cretina que possa parecer.
 Métodos literários

Em sete anos de trabalho solitário escrevendo seu primeiro romance, Martins prova que metodologias e cientificidade também podem ser aplicadas à literatura. “A parede no escuro”, com o título “Desamparo”, foi o texto de sua tese de mestrado. Hoje, dando prosseguimento à sua vida corrida de professor e pai de família, Martins busca seu doutorado também em literatura.

A demora para escrever o livro é justificada pela dificuldade de se criar diferentes discursos narrativos, sem com isso perder a qualidade. Seu projeto literário, o de mexer com a estrutura habitual do romance (quase sempre com apenas um narrador e com os comuns travessões em diálogos) é ousado e perturbador. Mas ele não se importa; gosta de correr riscos.

Ainda em entrevista a “Rascunho”, Martins alfineta os escritores secos e conservadores da linguagem: “Leio securas publicadas aqui e ali, sobretudo de jovens como eu, e penso sempre que faltou a coragem de se arriscar ao erro. Sempre pequei pelo excesso, pela ousadia, e nunca pela covardia. Prefiro uma frase rica em meio a um ramalhete de coisas tortas do que qualquer coisa com cheiro de plástico”, diz.
 Contos do professor de contos

Embora “A parede no escuro” seja seu primeiro romance, Altair Martins, hoje com 34 anos, iniciou sua carreira literária com apenas 24. Na ocasião, lançou a antologia de contos “Como se moesse ferro” e, logo em seguida, o bem visto pela crítica e finalista do Prêmio Jabuti “Se choverem pássaros”, também de contos.

Martins não apenas faz, como ensina a fazer contos. É responsável pela cadeira de Conto no Curso de Formação de Escritores da Unisinos, em São Leopoldo.

Em entrevista ao jornal “Rascunho”, revela estar trabalhando num próximo livro de contos chamado, segundo o autor, provisoriamente de “Enquanto água”. “São textos sobre sensações fluidas, afogamentos, mergulhos, derretimentos. São reflexões sobre a fluidez como a vida desliza hoje, sem que possamos reter qualquer coisa”, diz.


Serviço
Título: A parede no escuro
Autor: Altair Martins
 Editora: Record
 Número de páginas: 256
 Preço: R$ 37,9
Fragmento de “A parede no escuro”
 Um pouco de qualquer coisa, filha, meu pai já respondia quando eu perguntava o que ele misturava dentro do pão. Naquele tempo o pão falava. Tinha farinha, pai? e o pão respondia que tinha. Tinha açúcar? e açúcar, pitada de nada, tinha. Tinha ovo? e o pão respondia que tinha ovo, sim. E farinha? Farinha eu já tinha perguntado?, mas farinha tinha, e muita. Tinha leite e tinha disso e daquilo mais um pouco? E íamos, o pai e eu, colocando todas as coisas dentro dos pães que, o forno apitando, iam saindo do mesmo tamanho, embora cada vez o miolo ampliasse mais sua complexidade de segredos. Se era verão, eu sentava no segundo degrau de madeira. A escada levava a casa à padaria, e eu ficava ali, na transição entre o pai e o padeiro, olhando para o pão que fumegava no prato de louça. Então eu esticava o vestido de algodão até os joelhos e improvisava uma mesa entre as pernas. E olhava para o pão como quem olhasse o escaravelho dourado. Se o virava, era com um respeito às pessoas de idade, e o fazia para ver as marcas da fôrma, verificar o vinco doído da ferida na casca. Só então, com um cuidado-menina, eu o partia. De dentro vinham fumaças de cheiro. O segredo era branco. E olhava o pai que nunca se cansava de trabalhar — meu padeiro tinha muita força nos pães o pai já tinha feito, todos todos. E voltava o meu olho a cavoucar o miolo branco do pão me perguntando O que mais ele põe aqui dentro? E enfim já era eu passando margarina de derreter a vontade. E uma pitada de açúcar como aprendi com meu pai, ou com meu padeiro, pode ser. E o comia sem resposta, barulhos bons do romper-se da casca, satisfação de dentes que vencem tudo, dedo molhado para colher o melhor dos farelos. Quantos pães eu já havia comido, todos todos, até os seis anos, e depois até os sete, e depois e depois?
Sentada no colo dele, eu acompanhava o café. Se fazia frio, as mãos quentes de meu pai me esquentavam as pernas e o peito. Não quero mais, pai, estou cheia de pão. E meu pai vinha fazer aquilo que me iluminava: ele beijava o pedaço de pão antes de atirá-lo aos cachorros. Um pecado, demais, jogar pão fora. Pão não-beijado atraía os ratos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pastel de queijo para todos*

Wilame Prado


Lendo uma matéria sobre Sharon Kleinbaum, rabina da Congregação Beth Simchat Torah, a mais famosa sinagoga de gays, lésbicas e simpatizantes (GLS) nos Estados Unidos, quedei-me a imaginar sobre nosso mundo segmentado e preconceituoso.

Por que há uma sinagoga só para GLS? Ou, então, por que há uma revista direcionada a pessoas que nasceram com a cor negra? Por que existem boates específicas a um público homossexual? São tantas as perguntas sobre este tema espinhoso.

Com certeza, muitos leitores já devem estar maquinando respostas ácidas ao pobre cronista. Mas antes de apertar na tecla “enviar” de seu e-mail, com as soluções para meus pontos de interrogação, leitor amigo, devo dizer que, ao indagar essas segmentações existentes na sociedade, não estou querendo culpar ninguém.

Seja o negro, que não se vê retratado nas publicações de brancos, seja o gay, que não se sente à vontade num barzinho onde a maioria se diz heterossexual.

Quero mesmo é, ao jogar perguntas ao vento sobre o assunto, estimular uma reflexão. Sim, refletimos, pois. Pare para pensar: o preconceito ainda está tão enraizado que muitos não veem problema algum nessas manifestações segmentadas. Para desanuviar melhor, exemplifico com a Parada Gay – evento que reúne muita gente, em diversos lugares do mundo.

Os gays, em si, adoram. Os simpatizantes e pessoas esclarecidas, que já quebraram suas amarras preconceituosas, também amam de paixão. Parabenizo o pessoal da organização e os inúmeros participantes da parada, mas, no auge de minha sinceridade, devo confessar que não gosto muito do evento. É que, mais uma vez, vejo ali uma forma de segregação, feita pelos próprios segregados.

Sabe o que eu queria mesmo? Uma Parada Humana. Queria que gays, negros, brancos, índios, rosas, amarelos, paraguaios, japoneses, italianos e até norte-americanos (por que não?) participassem juntos de uma passeata em busca da paz e pelo fim do preconceito.

Queria ir a uma igreja ou a um templo ou a uma pizzaria ou a uma boate sabendo que ali não há distinção de público. Todos, absolutamente todos, pagando é claro, têm direito de comer um pastel de queijo num mesmo lugar!

Não há dúvidas de que essas manifestações segmentadas são formas que os grupos que sofrem preconceitos têm de se organizarem, unirem forças e não morrerem, cada qual isolado em seu canto, com suas angústias e vontade de gritar.

Por isso, enquanto alguns cabeçudos não conseguirem enxergar todas as pessoas em pé de igualdade, continuarão existindo sinagogas de GLS, revista Raça e Parada Gay.

Mesmo assim, ainda acredito que, um dia, não precisaremos mais disso. Assim como não precisamos mais amarrar o braço das crianças canhotas, obrigando-as a escrever com a mão destra. Os canhotos já não são considerados filhos do diabo. Ufa.
 *Crônica publicada dia 20 de outubro na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no site Maringay.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sinhazinhas e burguesinhas*

Wilame Prado

Convenço-me, cada dia mais, que a essência em si dos homens e do mundo nunca muda, e sim apenas os personagens e as terminologias para tais manifestações comportamentais.

Olha como escrevi bonito! Terminologias, manifestações etc. Fruto de um trabalho de conclusão de curso alucinante, que me obrigou a dialogar com esse vocabulário mais bonitinho durante quase o ano todo.

Mas, voltando ao raciocínio sobre a essência da vida, quero explicar a mesmice do mundo fazendo uma singela comparação entre duas canções da nossa rica Música Popular Brasileira. São 24 anos separando a música “Sinhazinha (despertar)”, de Chico Buarque, e “Burguesinha”, de Seu Jorge. Ambas retratam a rotina de uma garota de posses.

Na música de Chico, interpretada por Zezé Mota no disco “Para viver um grande amor” (1983), a sinhazinha tem de buscar sempre mais conhecimentos e mostrar-se culta aos pretendentes namorados. “Tem cabeça pra tratar/ Tem que ler caderno B/ Hora no homeopata/ Fita no vídeo-clube” diz um trecho da letra.

A sinhazinha do século 21, apelidada de “Burguesinha” por Seu Jorge, representa também uma garota que precisa se sobressair de alguma maneira na sociedade, investindo em algo que possa torná-la especial.

Nos tempos modernos, porém, já não é preciso ser culta ou pelo menos fingir ter um certo grau de intelectualismo para conquistar os machos. Acompanhe a rotina de uma burguesinha, no trecho da música, e entenderá o que quero dizer: “Vai no cabeleireiro/ No esteticista/ Malha o dia inteiro/ Pinta de artista”.

O interessante é que, diferentemente da sinhazinha anos 80 de Chico Buarque, a burguesinha anos 2000 de Seu Jorge não está interessada em conquistar ninguém, e talvez nem pense em casamento. Quer curtir a vida, aproveitar sua grana na casa de praia e jamais esquentar a cabeça com nada. Afinal, pode sacar dinheiro e andar com o motorista em seu carro esportivo.

É ou não é o retrato vivo de nossa sociedade individualista e consumista, caro leitor? Em meio aos repetidos cantares de “burguesinha, burguesinha, burguesinha”, Seu Jorge demonstra na canção – que faz parte do CD “América Brasil” (2007) – a vontade de ter, e não de ser, das fêmeas endinheiradas: “Só no filé/ Tem o que quer/ Do croissant/ Suquinho de maçã”.

As garotas já não querem mais entrar de cabeça nas águas profundas de um relacionamento amoroso sério. Elas já não sofrem iguais às sinhazinhas das antigas, que entravam no ciclo vicioso: “Namorado pra casar/ Casamento pra sofrer/ A cabeça pra dançar/ E a vontade de morrer/ Disco novo pra rodar/ Vinho branco pra esquecer”.

De qualquer forma, ainda sou muito mais uma sinhazinha que lê o caderno B do que uma burguesinha que fica com sua tribo na balada até de madrugada.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Revista piauí comemora três anos*




Por Wilame Prado

Uma das únicas revistas brasileiras em atividade que dedica seu espaço para grandes reportagens, textos ficcionais, jornalismo narrativo e humor inteligente, a piauí completa três anos de vida em outubro.

Porém, mesmo com uma legião fiel de assinantes e custando R$ 9,50 o exemplar, o criador da revista, João Moreira Salles, afirma que ainda não conseguiu obter lucro com a publicação.

Para comemorar o aniversário, Salles vem percorrendo algumas universidades brasileiras e proferindo palestras para comentar sobre a revista piauí, jornalismo, cinema e cultura de uma maneira geral.

No último dia 28 de setembro, os participantes do Set Universitário, na Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social) da PUCRS, puderam assistir à palestra comemorativa. E para alegria dos internautas, a explanação de Salles foi transmitida, ao vivo, no site da faculdade e recebeu cobertura jornalística pelo twitter.

Pela internet, a reportagem do Megafone conferiu a palestra e chegou a enviar algumas perguntas ao criador da revista. Sobre essa questão de a revista estar no vermelho, Salles não demonstrou preocupação. Segundo ele, o retorno financeiro para revistas costuma demorar mais tempo do que os três anos pelo qual a piauí vem sendo veiculada.

“A revista leva tempo para conseguir o equilíbrio. Leva tempo para conseguir convencer o mercado publicitário que compensa anunciar na piauí”, diz.

Em determinado momento da palestra, as perguntas foram abertas ao público presente. E, assim como na maioria dos eventos em que Salles participa, a maior curiosidade do público diz respeito ao nome da revista. Por que piauí? Segundo o criador, simplesmente porque gosta da palavra, gosta das vogais e do som que elas remetem. “A vogal é macia, redonda, sai com jeito da boca.”

Quando comparada aos outros meios de comunicação existentes no Brasil, a piauí impressiona pela sua liberdade editorial. Na revista, quase não há editorias e, não raro, satiriza a vida pública de celebridades.

O alvo preferido das últimas edições da publicação é o empresário Roberto Justus, que se arriscou no caminho tortuoso da música, lançando um CD, e, claro, políticos de todas as espécies.

Sarney chegou a ser comparado, numa edição recente, ao Gregor Samsa, personagem principal da obra “A Metamorfose”, de Kafka, que se transforma num bicho asqueroso, da noite para o dia.

Sobre a criação de pauta e possíveis adequações ao jornalismo praticado no país, Salles deixa claro sua intenção: “a gente não vai trazer para revista procedimentos da imprensa autoritária. A gente não vai ter editoria.”

Para ler na íntegra as reportagens publicadas na piauí é preciso dedicar mais do que meia horinha do seu dia. Com fonte pequena, e quase sem ilustrações, os textos da revista são bem embasados, apurados e dedicados a um público que, segundo o criador, sabe processar informação.

Não era para menos. Isso porque, de acordo com Salles, repórteres da revista já chegaram a publicar reportagens que demoraram mais de um ano para serem finalizadas. “No mínimo, as reportagens têm apuração de dois meses. Muitas vezes, o texto vai e volta”, explica.

Para quem está cansado das mesmas notícias, abordadas quase sempre da mesma maneira pelas revistas brasileiras, Salles argumenta sobre o que considera como um dos diferenciais da piauí: "a leitura da piauí não é utilitária. É muito mais ligada à formação do espírito. Parece bobo falar assim, mas é”.



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A ilha somos nós*


Wilame Prado
Minha casa e eu. Estamos sós. Paredes e móveis. E não adianta olhar pela janela o movimento da avenida. Lá fora são eles, e não participamos deste movimento inerte rumo a lugar nenhum.

Somos sós nós dois. Casa e eu. O barulho da geladeira até conforta. E não pense, vizinho, que o som ligado às alturas é uma expressão de felicidade e reunião. É simplesmente uma artimanha para ludibriar o grito mais alto de todos – o do silêncio.

Perceba que até na cadência do samba há melancolia. “Vai passar”, canta Chico. Mas quando tudo passar, o eterno retorno nos levará à frieza da solidão. Frieza percebida nos azulejos e paredes brancas.

E não adianta abandonar a casa e fumar um cigarro na calçada, depois de um cafezinho tomado na padaria, olhando as pessoas apressadas indo e vindo na avenida Herval. Ninguém vai te olhar porque não é viável perder tempo.

O mundo é competitivo. Todos querem dinheiro. Tempo é dinheiro. E olhar para o fumante solitário é perder tempo, e talvez saúde, e, consequentemente, dinheiro. Para não respirar a fumaça alheia, passam longe, pensando em alguma forma de ganhar mais dinheiro.

Então, casa, somos sós nós dois mesmo. Almoçar sentado no sofá ouvindo a televisão e seus comparsas mentirem é outra tática de calar a boca do silêncio. Nada vai acontecer, fiquemos tranquilos. Nada mesmo. O resumo da ópera da vida: comer, dormir, eliminar resíduos do corpo e, finalmente, sentir-se só.

Cada um é cada um. Peço perdão aos socialistas, mas devo dizer que será difícil reunir o pessoal por uma causa nobre. Todos estão sós, prenderam-se. E não pense que a companhia etílica dos bares trará conforto permanente. É tudo passageiro. A filosofia embriagada não tem embasamento suficiente para calar o silêncio posterior à reunião entre bêbados.

É quando, no meio de um banho quente, inerte em pensamentos fúteis, a única forma de confortar a inquietude mental é imaginar que, daqui para frente, tudo será diferente. Mas nunca é. Não adianta. Os carros vão continuar lotando as ruas. E a corrupção no Senado continuará reinando.

Alternativas não há. É o fim, mas só do começo, pois, depois de uma confortável noite de sono, talvez sonhando com as coisas que nunca terá, é hora de acordar. É hora da luta, rapaz! Ou encara, ou pede para sair.

Não tem jeito. Em algum momento de sua vidinha mais ou menos, verá que tudo aquilo que foi vivido não passava de uma peça teatral mal ensaiada. A vida não permite ensaios? A vida não passa de um ensaio daquilo que gostaríamos de atuar. Na vida, não há peça perfeita. Mas bem que queríamos.

Estamos sozinhos. Carinho, palavras e gestos de pessoas que dizem te amar são grãos de areias em meio à velocidade do vento. E o que sobrará é simplesmente você, e talvez a casa. Inerte em seus pensamentos, dentro de casa. Finalmente entendendo que ninguém nunca conseguirá tapar a boca do silêncio ou atar as mãos da solidão.

Um dia, em algum momento, num segundo, perceberá, acordará e sentirá o peso de tudo e de todos. E verá a insignificância tua para com o mundo. Não precisa ir a uma ilha deserta para tentar entender isso tudo, basta ficar em casa. É o momento de admitir: a ilha somos nós.

*Crônica publicada dia 29 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sábado morto


Foto tirada da janela do escritório, por volta das 19h, sábado morto, 26/09, TCC até altas horas.


Crédito: Wilame Prado

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pesadelo verde*

Wilame Prado

Cor bonita é o verde. Em nossa bandeira, alguns dizem que representa o verde das matas. Se isso fosse realmente verdade, parte da bandeira deveria ser tostada, assim como acontece com muitas árvores no Brasil. Mas hoje não quero falar de árvores, mesmo sabendo que ontem, 21 de setembro, comemoramos o Dia da Árvore – uma das datas mais hipócritas de nosso calendário. Quero mesmo é falar do verde, essa linda cor, a cor da esperança.

Digito “verde” no Google buscando informações para esta crônica, que ficaria muito bonita caso fosse publicada na cor verde. E obtenho algumas informações inúteis para mim, um leigo no que diz respeito ao disco cromático: “O verde é uma cor-luz primária e uma cor-pigmento secundária”.

Descubro também diversos tons da cor verde. Tem o verde marciano, o lunar, o menta, o exército, o musgo (também conhecido como cor de bosta) e até o fantasma. Particularmente, gostei bastante do verde esmeralda, inspirado na pedra esmeralda, que, vejam só, significa “pedra verde” no indiano antigo, segundo alguns sites suspeitos.

Cultura inútil à parte, e querendo poupar as dificuldades que um amigo meu daltônico terá para enxergar os verdes desta crônica, esqueçamos as cores e falemos agora do que realmente importa: futebol – o nosso circo de cada quarta-feira e domingo, a nossa alienação via canais da televisão, a nossa desculpa para tomarmos aquela gelada. Sim, meus caros, o futebol.

Devo confessar: ultimamente, assistir aos jogos do meu time, o Santos Futebol Clube, é mais chato do que acompanhar na íntegra as 500 milhas de Indianápolis. No jogo entre Santos e qualquer time, simplesmente nada acontece.

Neste último domingo, fui ao bar do Jair, aqui perto de casa, ver mais uma apresentação pífia do Peixe diante do fraquíssimo Botafogo. O resultado, zero a zero, traduziu bem o que este jogo representou.

Mesmo com a pasmaceira do confronto entre os alvinegros, pude, porém, me divertir, e muito, direcionando meu olhar à outra televisão do bar. O jogo entre Corinthians e Goiás era transmitido. Num Pacaembu lotado, o verdadeiro Verdão provou que tem fôlego para ganhar o Campeonato Brasileiro e fazer justiça ao bom futebol que vem praticando nos últimos anos.

A cada gol do Goiás, que, com seu manto esmeraldino, inspirou-me a escrever esta crônica, não conseguia conter os dedos ávidos, digitando mensagens no celular para um amigo corintiano. Como uma foto, um simples nome valeu mais do que mil palavras: “Ronaldo”, leu o pobre corintiano em seu celular pelo menos umas quatro vezes.

Depois de Obina versão 3.0 e da goleada comandada por Iarley, Fernandão & cia, não tenho dúvidas de que os pesadelos sonhados pelos corintianos acontecem em tons de verde. Verde esmeralda, verde-limão ou até verde musgo. Não importa. Verde é realmente uma cor bonita.
* Crônica publicada dia 22 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Vt sobre Rockingá - não riem, eu fui o repórter!

No Espora de Galo, blog do grande amigo Thiago Soares, videocast sobre o Rockingá. Como vocês perceberão no VT, televisão absolutamente não é minha praia.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Poderia ser pior*

Wilame Prado
Para o rapaz que não consegue ver beleza em nada e acaba gerando discórdia por onde passa com sua arrogância, digo: a vida poderia ser pior. Para a moça balzaquiana que não aguenta mais esperar seu príncipe encantado chegar de cavalo ou carro branco, afirmo: a vida poderia ser pior.

Ao senhor que só na velhice percebeu o quanto desperdiçou as oportunidades que lhe surgiram quando jovem, reafirmo: a vida poderia ser pior. E para a senhora, que derrama diariamente lamúrias a quem quiser e não quiser ouvir sobre eternas dores do corpo e da alma e o quanto acha tudo uma injustiça, saliento: a vida poderia ser pior.

Quero contar a história do João. Sua vida, talvez, não poderia ser pior do que já é. Para ele, nada é legal. Tudo é triste, muito triste. Um dia de sol é triste. Um dia de chuva é triste. Os carros passando, é triste. Mulheres e velhos caminhando pelo parque, é triste. Acordar ou dormir é triste. E, triste, João vai sendo praticamente carregado pela vida.

Sabe-se que João gosta de beber cachaça e cerveja. Mas o álcool não lhe representa alegria alguma. Somente uma maneira de tirar da tomada a máquina chamada corpo. De bar em bar, em suas procissões etílicas pelas ruas de Maringá, ele vai, todas as noites, encontrar seu desligamento corporal.

É quando João sente estar entre o céu e o inferno. Talvez num purgatório imaginário, onde ninguém e coisa alguma representam mais do que nada (uma palavra difícil de traduzir). É quando tudo e todos, inclusive ele próprio, significam menos do que a merda do cachorro empastada no sapato de um pedófilo.

Um dia, João, já chumbado de pinga com mel e limão e rabo de galo, foi parar num bar frequentado por jovens burgueses de Maringá, perto da Catedral. Pediu uma cerveja porque estava com fome. Pinga é bebida; cerveja é comida, para João.

Dormiu sentado na cadeira amarela do bar e encostou a cabeça, de leve, na mesa. Por lá, ficou alguns eternos minutos. Vez ou outra, deixava a cabeça deslizar um pouco para trás, o suficiente para o esguicho de vômito sair de sua boca e ir diretamente ao chão, sem fazer sujeira na mesa.

Nem notou, o João, que virara, naquele dia, atração circense para os jovenzinhos aspirantes a alcoólatras que se encontravam no bar. Levantou-se no intuito de seguir em frente. Mas, antes de continuar a via sacra rumo ao barraco, sentiu a necessidade de mijar. Na pista de skate ao lado do bar, na frente de todo mundo, descarregou seu líquido amarelo.

Depois desse episódio, quase nada mudou na vida de João. Triste, continuava vivendo por viver. No outro dia, porém, sentiu um enorme vazio entre a língua e o céu da boca. É que no descarrego intestinal (também conhecido por gorfo) praticado no bar, foi-se embora a dentadura junto com toda aquela nojeira líquida visguenta.

João é triste. João é triste, e agora sem dentes. Poderia ser pior?
Crônica publicada dia 15 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://1.bp.blogspot.com/_P_IACpd7f9g/SRIr4j06MII/AAAAAAAAAUo/ZILUHfF41IM/s400/20080801040941-triste.jpg

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Crônicas também no RUC Revista

Olá, caros leitores. Venho por meio deste humilde post relembrá-los que, todos os sábados, a partir das 11h, tem RUC Revista, na Rádio Universitária Cesumar (94,3 fm). No meio do programa, mais para o final, lá pelas 11h45, narro minhas crônicas.

Portanto, se está com preguiça de ler as crônicas ou contos em A Poltrona ou na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná, limpe bem os ouvidos, sintonize na 94,3 fm e se delicie com minha enrouquecida e apaixonante voz! No meio da madrugada, em meio àquela insônia, naquela briga injusta com o travesseiro, lembrarás de minha voz crônica e se confortará em meio ao lamaçal de lembranças arredias. Depois não diga que eu não avisei.

Um dia, quando a preguiça fugir de meu corpo, vou providenciar um arquivo de áudio com as crônicas no blog também. Até lá, "...Wilame Prado, para o RUC Revista".

Bom final de semana!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uniformes políticos*

Wilame Prado Por causa do metamórfico processo de Sarney no Senado e de mais algumas rinhas e arranhões, muitos governantes deste Brasil brasileiro estão mudando de uniforme, vestindo outras camisas, trocando de bandeira, de sexo e de Deus. Ela gosta de árvores. Nada mais justo, então, que Marina Silva troque o uniforme vermelho do PT pelo manto verde sagrado do PV. O tucano enrustido, católico e conservador Flávio Arns rasgou, brabo, seu andrajo uniforme rubro e assumiu de vez que seu coração é amarelo e azul – as cores do PSDB. “Que cor de uniforme melhor vai combinar com Mercadante e seu garboso bigode saliente?”, é a pergunta que não quer calar. Será que o vice de Lula em 2004 vai derramar um balde de tinta amarela em sua camisa mais que vermelha cor de sangue? Heloísa Helena, esbanjando conhecimentos da última moda, disse que o amarelo e o vermelho do PSOL são cores complementares e que serão bastante utilizadas na eleição de 2010. O engraçado é que ela própria só usa aquela blusa branca e larga, já amarelecida pelo tempo e pela poeira do chão de estrada da politicagem tet-a-tet. “Mudemos o uniforme; e já!”, são os gritos que ecoam cada vez mais altos nas paredes da sede do PT e que chegam gritantes e irritantes aos ouvidos de Berzoini, Lulinha e Dilminha. Na tentativa vã de desviar os urros da mudança e também para descontrair o ambiente, o nobre senador Eduardo Suplicy canta ora um rap paulistano ora uns refrões envelhecidos de Bob Dylan. *Texto enviado, e não premiado, para o Concurso Literário da revista piauí do mês de setembro. A revista escolhe uma frase de algum livro ou autor célebre, e lança aos leitores o desafio de encaixá-la num texto fictício. Quer participar do concurso deste mês? Então encaixe a frase "Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real", de Clarice Lispector.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"O sincero pão com mortadela", agora no Cronópios

Quer ler ou reler "O sincero pão com mortadela", conto vencedor do concurso "Conte um conto e ganhe 500 contos"? É só visitar o Cronópios! Comentário no Café Literário do Cronópios - Outro conto bem bacana do Wilame Prado. Linguagem simples e direta, gostoso mesmo de ler. (postado por Talles Machado Horta em 2/9/2009).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Vou-me embora pra Maringá*

Wilame Prado
No distante ano de 1992, Telê Santana concedia gentilmente entrevista ao batalhão de jornalistas renomados de um dos melhores programas da televisão brasileira, o Roda Viva. Consegui assistir parte daquela entrevista porque a TV Cultura, em comemoração aos seus 40 anos, vem retransmitindo alguns dos muitos momentos marcantes que ocorreram na emissora. Na entrevista, ele disse que, embora lesse tudo quanto é jornal que lhe chegasse em mãos, e inteirinho, diferentemente dos jogadores que só liam a página de Esportes, estava chateado por só haver notícias ruins. Um astuto jornalista disse ao mestre Telê: “notícia ruim vende”. Mas, veja só. Não só de notícias ruins sobrevive este jornal que vos escrevo. Na edição nobre deste diário, a dominical, que custa mais que o dobro do jornal vendido no meio da semana, percebo em destaque, na capa, uma belíssima fotografia de Maringá vista de cima, com o seguinte título: “Plano Maringá 2030 prevê cidade-modelo”. Eis uma boa notícia, num domingão bonito e quente. Notícia esta que alegra aos jovens que querem continuar morando em Maringá, enche de esperança os adultos que já não veem outra escapatória para suas vidas a não ser envelhecer na Cidade Canção e também deixa os velhinhos ainda mais serenos e orgulhosos por morar numa cidade tão bonita. O leitor atento vai dizer que não leu notícia boa nenhuma, pois tudo não passa de um plano para coisas que acontecerão daqui muitos anos. Tem toda razão leitor sabichão, mas a boa notícia mesmo, a meu ver, é que tem gente fazendo planos, traçando metas e cultivando sonhos para nossa nobre Maringá. E planejar, como dizem as pessoas sábias, é uma ótima maneira de se chegar onde realmente se quer. Li atentamente a reportagem do jornalista Edson Pereira Filho, no caderno Zoom. E pude conhecer um pouco mais deste plano para 2030. Achei o projeto coordenado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem) ousado, é verdade. De qualquer forma, fiz o cálculo e, estando vivo até lá, terei 44/45 anos de idade. Caso o plano obtenha sucesso, nós, maringaenses, moraremos numa cidade com no máximo 500 mil habitantes; poderemos andar de trem às cidades da região metropolitana; teremos serviços de saúde, educação e segurança otimizados; e nunca mais precisaremos dar moedas a flanelinhas porque a Guarda Municipal se encarregará de garantir a segurança em ruas e estacionamentos. Diferentemente de hoje, quando sofremos de azia quando nos lembramos do valor pago no aluguel da casa ou do apartamento, em 2030 ficaremos satisfeitos com os preços praticados no mercado imobiliário porque a especulação financeira será restringida, a favor do bem coletivo. E ainda poderemos, caso brote em nós um sentimento bucólico, morar no sítio e imitar nossos avós na lida com plantas e animais. Isso porque, o homem do campo maringaense terá praticamente todas as comodidades que a tecnologia oferece em setores de comunicação ou de transporte, por exemplo. Até com nossas humildes motocicletas 125 cilindradas ou então com nossas magrelas poderemos circular tranquilamente pelas ruas de Maringá. Sistemas de ciclovias e de rolamento de partida dos semáforos para motocicletas também estão previstos no plano para 2030. Espero poder ser feliz daqui a 21 anos. Em 2030, com quase 50 anos, quero sim uma vida confortável. Chega de saudade, como escreveu Tom e Vinicius. Quero estar longe da tristeza, da pobreza e da miséria. Que nunca falte o leite das crianças, o doce das mulheres e a cerveja dos homens. E que o plano para uma Maringá quase perfeita não fique apenas no papel. Vou esperar essas duas décadas e, mesmo se os ventos do destino me levarem para outro lugar, esforçarei-me para voltar à cidade-modelo. Pois, em Maringá terá de tudo; será outra civilização; teremos telefones automáticos e alcalóides à vontade; e também prostitutas bonitas pra gente namorar. E quando estiver muito triste, querendo, ao ver a noite chegar, até me matar, ficarei tranquilo, pois, em Maringá serei amigo do rei, terei a mulher que quero, na cama em que escolher. Manuel Bandeira foi embora pra Pasárgada. E eu vou-me embora pra Maringá, em 2030. *Crônica publicada resumidamente dia 1 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://images.quebarato.com.br/photos/big/7/8/160A78_3.jpg

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mudanças de hábito*

Wilame Prado Antigamente, quem ia calçado à escola era o maioral. Absolutamente normal era caminhar, descalço, alguns quilômetros de estrada de terra para chegar ao colégio na cidade. Isso quem conta são alguns tios e tias meus que, embora não tenham conseguido concluir nem a oitava séria, são muito mais inteligentes do que eu. Quando fazia o curso de História, tive um professor que justificava o êxito do capitalismo (e por isso era absolutamente a favor do Estado mínimo e das privatizações) com um simples fato: antigamente, ninguém tinha chuveiro elétrico em casa. Concluía, então, que, graças ao capitalismo, a qualidade de vida das pessoas melhorou consideravelmente. Mas engana-se quem pensa que, com a crônica de hoje, vou entrar na chafurdada discussão entre capitalismo e socialismo, direita e esquerda, Mc´Donalds e cachorrão da esquina da Lojas Americanas, privatização da Vale do Rio Doce e Bolsa Família. Como diria Rodrigo Amarante, numa das canções de Los Hermanos: “deixa o verão pra mais tarde”. Trazendo hábitos e costumes do passado até o nosso confortável presente, quero mesmo é fazer um exercício de futurologia sobre os costumes pré-adquiridos pós-gripe-suína. Então o leitor vai dizer: “o que isso tem a ver com pé sujo de terra e banho gelado na bacia?”. Tem a ver com o fato de que, com o passar do tempo e das circunstâncias, nossos hábitos vão se modernizando e fazendo mutações. Nem sempre positivas, é verdade. Pelo menos eu, não sabia que o álcool em gel 70% era eficaz na higienização das mãos. Por esses dias de gripe suína, descobri que desinfetar as mãos com o álcool também é uma boa prática para inúmeras doenças contagiosas. Então eu me pergunto: por que não fazíamos isso antes? Quantas e quantas pessoas morreram com outros tipos de gripes e doenças contagiosas no passado? Sem polemizar, vamos logo ao exercício de futurologia prometido: creio que, num futuro não muito distante, será normal, assim como é fazer pipi e lavar as mãos, ou escovar os dentes ao acordar, passar álcool nas mãos de quando em quando, com ou sem surto de gripe. Os fabricantes não deixarão escapar a oportunidade de fazer potinhos de álcool em gel personalizados com os personagens do Homem Aranha ou da Barbie para estimular o uso das crianças. E mais: versões com cheirinhos agradáveis de uva, morango e laranja também serão feitos para aquele odor de corredor de hospital presente no álcool não incomodar ninguém. Embora eficazes, entretanto, as medidas de higienização deixarão as pessoas mais distantes e frias. O carnaval vai amornar e o futebol nem será mais considerado um jogo de contato. Dar o cotovelo para ser tocado por outro cotovelo será o máximo de uma relação amistosa entre conhecidos. Até o número de crianças recém-nascidas cairá, pois o sexo virtual, seguro e límpido, será prática cada vez mais comum. E um professor de História ficará se perguntando se a ganância dos grandes conglomerados empresariais dos setores avícolas e suínos, que queriam sempre mais e mais frangos ou porcos prontos para o abate em tempo recorde, nem que para isso fosse preciso bombar os bichos com antibióticos, tenha sido a causa do surto da gripe, que forçou as pessoas a mudar seus hábitos no dia a dia. Andar descalço, tomar banho frio, dar as mãos a um conhecido ou dois beijinhos no rosto serão práticas obsoletas, abomináveis e estudadas pelos alunos desse professor de História, curiosos em saber como as relações humanas eram tão mais intensas no passado. *Crônica publicada resumidamente dia 25 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.fenatracoop.com.br/site/wp-content/uploads/2009/03//Alcoolgel.jpg

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Apagado*

Wilame Prado Uns pingos gelados começavam a cair do céu. No intervalo das aulas, na faculdade, costumava ficar naquele local, e não seria por causa de uma simples garoa que sairia de lá, mesmo com o cigarro aceso em mãos. Enquanto todos procuravam se esconder do que não poderia nem sequer ser chamado de chuva, ele procurava uma cadeira para encostar suas nádegas, cruzar as pernas e tragar alucinadamente. Achou uma cadeira daquelas brancas, de plástico, que são encontradas em bares e sorveterias. Acomodou-se. Sentiu gota a gota molhar sua camiseta, levemente. Não havia mais ninguém ao lado. A garoa continuava amena e discreta, assim como a aragem refrescante. Com as tragadas consumidas, seu pedaço de tabaco ia se esgotando lentamente. Enquanto isso, a mente viajava para algumas léguas de toda àquela gente, chuva, longe da cadeira de plástico. Conhecidos dele, que faziam o mesmo curso na faculdade, talvez com dó de vê-lo se molhar, resolveram chamá-lo para perguntar o que estava ocorrendo. Ele desdenhou, e reagiu naturalmente: olhar sossegado, sorriso amarelo e, logo em seguida, a velha cara melancólica de sempre. A chuva nem sequer conseguiu apagar a guimba de cigarro no chão. Já era hora de voltar à aula, ainda que tendo consciência de que seria melhor ficar consigo mesmo em vez de ir à jaula do conhecimento falso. Resolveu subir os degraus rumo à sala só para não perder mais uma presença na lista de chamada. Foi acompanhado de uma aprazível colega de curso – a do cabelo vermelho que gosta de Mutantes. Ela, instigada com a abstinência social do rapaz em meio ao fervor acadêmico, perguntou: - Parece que você está meio abatido, triste, solitário? E ele, como sempre, com seu excesso de menosprezo por si, disse: - Que nada, isso é normal. Muitas vezes fico um tanto quanto distante dos demais. E ela: - Você já estudava aqui ano passado? - Sim. - Pois a primeira vez que vi você foi este ano, numa palestra chata. Ele respondeu: - É que sou meio apagado mesmo. Terminando de subir os degraus, já com uma pontada de dor na panturrilha, refletiu sobre o que havia dito à garota de cabelos vermelhos. E imediatamente se lembrou da guimba, ainda acesa, que jogara há pouco no chão. Naquele dia, desistiu de assistir aula. Desceu os degraus, voltou ao pátio, catou o cigarro, agora apagado e completamente encharcado, e jogou no lixo. Ao sentar-se novamente na cadeira de plástico branca, sentiu entrar em contato com seu corpo a poça de água gelada que se formara na superfície do assento da cadeira. A chuva virou tempestade. E não adiantava acender nenhum cigarro agora. Nem mesmo isqueiro ou um palito de fósforo. Com toda a água gelada e transparente que caía do céu, todos permaneceriam apagados. Assim como ele. *Crônica publicada dia 18 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://2.bp.blogspot.com/_X3yQA406A2c/SOm2X2cPVeI/AAAAAAAAAVY/4oBoSb74yqc/s400/Homem%2Bsentado%5B1%5D.jpg

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tempestade de vento*

Wilame Prado De minha parte, não há interesse algum em escrever sobre o suposto Dia dos Pais, comemorado neste último domingo. Antes mesmo de perder o meu, nunca enxerguei brilho nesta data. O Dia das Mães é diferente. Tem emoção, comida boa, flores e lágrimas. Nossas mães abraçam nossas avós e fica tudo muito bonito. E quando tem alguma jovenzinha grávida então? É um paparico só. Digo que esta data não tem relevância por experiência própria mesmo. Ou melhor, por inexperiência própria. Meu velho sempre foi distante. Não me recordo de domingos de agosto que comemoramos um Dia dos Pais. Inventado para vender lenços e meias, este dia não passa de mais uma data comercial. E como vendem sapatos, meias, lenços e cuecas nesta época, não? O engraçado é que, quase sempre, os presentes são comprados por mulheres e filhos, mas descontados da conta bancária do pai. Não passa de uma situação simbólica. No segundo domingo de agosto, fosse eu um pai, não iria gostar de ver descontado do meu ordenado uma quantia x de dinheiro para receber mais um presente que não vale nada. Uma carta, um abraço, um beijo (muitos filhos têm medo de encostar em seus pais) ou até uma apresentação teatral doméstica dos pequerruchos, ressaltando a importância da relação entre pais e filhos, me deixariam bem mais contente. Com todo meu azedume, os leitores devem estar dizendo, no mínimo, que tenho espírito de porco. Peço desculpas, então, aos pais e filhos que gostariam de ter lido algo mais singelo sobre esta data. Para amenizar, confesso uma de minhas maiores fraquezas: sinto falta do meu velho, e isso às vezes machuca tanto que a frieza se torna arma potente contra o sofrimento. Nesta vida galopante, a morte de pessoas queridas se parecem com a brisa que refresca quando se está sentado naqueles banquinhos na beira da praia, olhando a imensidão do mar. Simplesmente passa. A morte do meu pai, para mim, está mais para tempestade de vento, que passa também, só que deixando estragos. Então, nesse Dia dos Pais (assim como quase todos os dias vividos depois de o velho ter me deixado), procurei me distanciar. Frio igual a uma pedra de gelo, não me deixei ludibriar com o cheiro de churrasco de famílias vizinhas em plena adoração paterna ou com as charmosas propagandas emotivas na TV. Fingi estar vivenciando apenas mais um domingo comum e chato. Logo mais teria jogo do Brasileirão. Em instantes, a musiquinha da abertura do Fantástico. E não tardaria para o domingo acabar e a madrugada de segunda-feira anunciar mais uma semana de cão. Passado mais um desses domingos de agosto, agora tenho pelo menos um ano para planejar a escrita de uma crônica decente para o próximo Dia dos Pais. Enquanto isto não ocorre, fica apenas meu apelo a todos os filhos: beijem sempre seus pais. Pois, um dia, eles podem virar tempestade de vento.
Último jantar realizado com meu velho, em São Paulo, em 2006. Na foto, Fábio (cunhado), Laís (sobrinha), Juliana (irmã), Wilame Elias Neto (pai) e eu, prestes a receber um abraço
*Crônica publicada dia 11 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Charlene Flanders é minha primeira publicação no site Cronópios

O conto "Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida", agora também no Cronópios.

Sobre amizade e motocicletas*

1 Wilame Prado Para que os momentos ficassem eternizados em nossas lembranças, esqueci de propósito a máquina fotográfica. Já na estrada, ainda perto de Jandaia do Sul, Malwee me fez parar a moto com um sinal, levantou a viseira do capacete e disse, em tom de espanto, que tinha esquecido a máquina, com um filme novinho dentro. Eu disse a ele que, da nossa memória, ninguém poderia nos tirar os milhares de retratos que tiraríamos com os olhos no decorrer da viagem. Meu ponto de partida: apartamento solitário (a mulher estava em viagem de negócios) e resquícios de uma noite mal dormida por conta dos litros de vinho caseiro que eu e dois amigos havíamos enxugado horas antes. Ressaca, fome sem vontade de comer e velocidade razoável na humilde Suzuki Intruder 125 cilindradas. Ponto de partida de Malwee: casa aconchegante e familiar, em Jandaia do Sul; um de seus lares, que dividia com irmão, pai e mãe. Um almoço nutritivo e uma Coca-cola gelada de dois litros, que pude compartilhar uns goles quando cheguei à sua casa. Foi bom para a ressaca. Estava receoso em ter de viajar com o estômago vazio, mas dizia a mim mesmo que comida era o que não faltava em postos de gasolina. Antes de gastar pneus na estrada, Malwee quis abastecer sua moto e calibrar os pneus. Eu nem queria sair de cima da minha, pois a mochila nas costas e a blusa quente já estavam no jeito para enfrentar a, até então, maior viagem que faria sobre duas rodas: 350 km, rumando ao interior de São Paulo, mais precisamente no município de Tupã. Confesso que estava com a adrenalina em alta, pois, a cada quilômetro rodado, a cada placa sinalizadora, a cada caminhão ultrapassado, enfim, a cada instante, minha vida se renovava; tudo era inédito porque, com a moto, só tinha dirigido de Maringá a Santa Fé, cidade pequenina onde meus familiares moram e que fica distante nem 60 km de casa. Quando fizemos a primeira parada, no posto de pedágio de Londrina, tive uma recaída de otimismo, pois ainda estava muito perto de casa, mas tão desgastado. Seria a ressaca? Tomamos água e café, de graça e com gosto, pois tanto eu quanto o Malwee achamos um absurdo ter de pagar pedágio, mesmo sem prejudicar o asfalto com nossas motos pequenas. Enquanto eu conversava com dois ciclistas que pararam para reabastecer suas garrafinhas com água, Malwee ficou de ouvidos atentos ao que os funcionários da pedagiadora falavam em seus merecidos intervalos de trabalho. Descobri que os ciclistas, em dias inspirados, andam até 150 km de bike, por pura diversão. E ele descobriu que os funcionários presenciam com frequência, na praça de pedágio, acidentes de trânsito, dos quais, estranhamente conseguem ver graça, por exemplo, num carro desgovernado batendo na mureta que separa as cabines do pedágio. 2 Depois de ter conversado com os ciclistas, sinto vontade de ter uma bike, um pouco mais de saúde e menos ressaca para curtir melhor a natureza enquanto pedalo (ou acelero). Depois de ouvir o relato de Malwee sobre a conversa dos funcionários da pedagiadora, fico pensando em como a violência, o terror e o sangue, em geral, banalizam o sentimento das pessoas. É por isso que dizem que notícia ruim é notícia que vende. Como é bom sentir o vento na cara. Sempre me imagino sentado numa Harley Davidson. Aliás, este é um dos meus únicos sonhos materialistas: crescer de moto. Primeiro minha humilde 125, depois uma Virago 250 cc e, quando for a hora certa, finalmente uma Harley potente. Sonhar é gostoso, ainda mais quando estamos pilotando suavemente, num asfalto sem buracos, sem muito movimento, numa tarde aprazível de sábado, olhando para o horizonte e pensando num destino distante, mas que seja bom quando vier. Na saída de Londrina, resolvemos fazer uma parada relâmpago. Enquanto fumava meu Marlboro azul e Malwee tragava suavemente seu LM também azul, olhávamos embasbacados para o que seria futuramente um condomínio de ricos banhado por um lago artificial, bem lá embaixo. Ficamos com vergonha de entrar no escritório improvisado no acostamento, que vende lotes, para tomarmos um café de graça. Daríamos uma de loucos, perguntaríamos o preço do lote e demonstraríamos interesse na compra, mesmo com nossas mochilas esgarçadas nas costas e nossas roupas e tênis humildes. Perderíamos muito tempo com toda essa cena. Então, optamos por seguir viagem, já sentindo um pouco de frio. Fizemos um trecho longo, de mais de uma hora seguida com as bundas coladas nos bancos das motos, quando a gasolina começou a escassear. Era o momento de procurarmos um posto de gasolina, tirar água do joelho, dar lucro à Petrobras e, quem sabe, comer algo. Creio que já estávamos no Estado de São Paulo. Não sei qual o nome da cidade. Só sei que, num posto qualquer, devorei um bolinho de carne mais seco que minhas mãos gélidas por causa do vento. Uma Coca-cola de 600ml me ajudou a engolir aquela massa de farinha e carne moída de terceira. Pouco tempo depois, a cor negra substituía o azul de um céu de brigadeiro. Com o comecinho de noite, iniciava-se também um pequeno medo de pilotar a moto na escuridão. No campo de visão, reduzido pela sujeira que os isentos esmagados causaram na viseira do capacete, apenas as luzes vermelhas dos faróis traseiros de outros veículos e a luz forte dos carros vindos na outra direção da rodovia. Não sou tão doido quanto Hunter Thompson. Mas, naquele momento, no negrume da estrada e na gênese de uma síndrome do pânico, a minha versão de “Medo e delírio sobre duas rodas” tinha começado. Meu destino – o município de Tupã – parece que sumira do mapa. Acho que era setembro. 3 Será que tem alguém me seguindo? Será que tem alguém me seguindo? Porque o carro não me ultrapassa? Vai, merda, ultrapassa logo! Estou devagar porque nem sei quando é curva ou reta nessa estrada esburacada, com plantações infinitas de cana-de-açúcar nos dois lados da pista. Será que os agricultores do interior de São Paulo já ouviram falar em soja ou milho? Estou ficando louco? Essas eram as perguntas que eu fazia para mim mesmo, enquanto pilotava a moto há mais de duas horas sem parar. Em minha cabeça, Malwee já estava perdido há muito tempo, e não queria me assustar mais. Em minha cabeça, já existia a possibilidade daquele ser o último dia da minha vida. Nunca desejei tanto ver um nascer do sol e o som de pássaros cantando em meio ao arvoredo das ruas das cidades do Paraná. Não aguentava mais a escuridão. Todo automóvel que vinha em sentido contrário parecia que ia bater de frente comigo. Todo automóvel que vinha atrás de mim, parecia que estava me seguindo ou então que queria me atropelar. Quando comecei a ver silhuetas de seres estranhos passeando no meio da pista, querendo que eu os atropelasse, decidi parar no acostamento. Fiz sinal para que Malwee também parasse. Ouvir a voz do meu amigo seria como nascer de novo, pensei. Eu sabia que ele estava perdido, mas era bom ouvi-lo tentando se justificar, dizendo que logo mais chegaríamos a alguma civilização, longe de toda essa cana-de-açúcar, treminhões fantasmas e usinas de álcool, que pareciam encenar um filme de horror. Fiquei imaginando que toda aquela fumaça que saía das chaminés das destilarias era fruto de incinerações de corpos de mochileiros como nós, que se atreveram a passear com suas motocicletas pelo reinado da açúcar, do álcool e da cachaça. De repente, comecei a enxergar uma luz no fim do túnel, ou melhor, no fim da estrada. Postes de luz fizeram nossa recepção num lugar que mais parecia um sítio asfaltado, um vilarejo rural. Na única avenida do lugar, pessoas jogavam baralho na mesa de fora de um bar. E só! Malwee me contou que estávamos em Borá (menor município por habitantes do Brasil) e que menos de 50 km de distância nos separava de Tupã. Fiquei aliviado e com energias recarregadas para, ainda naquela noite de sábado, conhecer alguns bares da cidade. Pronto. Dever cumprido. Finalmente, depois de mais de cinco horas de viagem, estávamos em Tupã. Com pernas e nádegas dormentes, fomos muito bem recepcionados pela avó de Malwee, que se prontificou em preparar um prato delicioso de comida para nós. Guardamos as motos na garagem. Um tempo depois, Malwee já dava a partida num garboso Fuscão bege, até conservado, de sua avó. A noite de sábado só estava começando. Estávamos morrendo de sede, e os bares de Tupã nos aguardavam. “Acelera esse Fusca Malwee”, gritei ao entrar no carro. 4 Com o Fusca da avó de Malwee, andamos pelas curiosas e íngremes ruas de Tupã. Noite adentro de sábado, conhecemos alguns bares; matamos nossa sede. E, como já era de se esperar, nossa conversa ficou resumida em relatar um ao outro as sensações da viagem que acabáramos de fazer com motocicletas nada velozes. Sei que poderia continuar descrevendo o que ocorreu nos outros dias em Tupã. Talvez escreveria sobre o nobre bate-papo que tive no domingo com o tio de Malwee, que mais parecia o Sylvester Stallone. Ou talvez contaria algumas peripécias ocorridas na viagem de volta. Mas não. Termino por aqui, pois, finalmente, quero falar sobre liberdade e, acima de tudo, de amizade. Correr por aí de moto, saber que tudo ficou para trás e que a vida sempre nos dá caminhos a seguir, tudo isso gerou em mim uma sensação de liberdade. Quantas e quantas vezes, na lida com a vida, no meio de uma rotina sacana e alienada, percebi que estava com as mãos atadas e que fugir disso tudo seria pior. É aquela velha história do bicho que come quando se fica parado e do bicho que pega quando se fica correndo. Pois é. Andando com minha humilde Suzuki 125 cilindradas, pude sentir o gosto da liberdade e nenhum bicho conseguiu me pegar ou me comer (sem piadinhas maldosas). E como é bom dividir este momento único de sua vida com um camarada ao lado. Sabe, antes de termos feito esta viagem até Tupã, eu e Malwee éramos apenas bons colegas de turma. Tínhamos em comum o curso de Jornalismo e algumas opiniões parecidas com relação ao mundo, à religião, ao sexo, às drogas, ao rock e, é claro, ao bom e velho mpb. Mas, depois de termos nos embrenhado no asfalto liso e pedagiado do Paraná e pelas tortuosas estradas esburacadas do interior de São Paulo, fortificamos nosso coleguismo a ponto de nos tornarmos amigos de verdade. Foi por nossa amizade que resolvi fazer este relato, logo depois dele ter sofrido um grave acidente de moto, há um mês. Pouco tempo se passou, e os ossos de Malwee já estão voltando ao lugar. Repousando numa cadeira de rodas (só consegue ficar alguns minutos de pé), ele diz que, quando chove ou faz frio, os pinos espalhados pela perna realmente provocam uma sensação esquisita, mesclando dor e arrepios. Antes disso tudo acontecer, estávamos nos programando para realizar nossa segunda expedição motociclística. Destino: Curitiba, mais de 400 km distante de Maringá. Objetivo: encontrar a galera do Jornalismo por lá e participar do encontro da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom 2009. Planos adiados, é claro. Mas, agora, Malwee quer vender sua moto e comprar um Uno. E promete que as aventuras na estrada continuarão. Só que, desta vez, sobre quatro rodas e com um rádio ligado no último volume. *Este relato foi publicado em quatro partes, nos dias 14, 21 e 28 de julho e 4 de agosto, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná. Imagens: http://laurobarbosa.com/wp-content/uploads/2007/12/112859062_ab60866ad8.jpg http://www.vistawallpapers.com/image.php?v=./data/media/207/Harley_Davidson_FXST_Softail_Standard.jpg http://i.s8.com.br/images/books/cover/img9/252369_4.jpg http://3.bp.blogspot.com/_tGvkFxitFC8/SNv5490aZfI/AAAAAAAACQ0/7QUTC_G7bR0/s400/%2B+DE+500+MOTOS+NO+ABRA%C3%87ANDO+O+RS.jpg

Por trás da crueldade e da sujeira, homens-bestas sabem o quanto vale um amigo*

Wilame Prado
Quem ler “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” (Record, 2009), lançamento da escritora carioca Ana Paula Maia, 31, provavelmente se perguntará como uma jovem mulher arrumou tanta criatividade para escrever sobre homens cruéis e sujos; sobre sangue e violência; sobre a baixeza humana que ultrapassa atitudes irracionais de bichos; sobre cachorros, porcos, lixo e esgoto. Na obra, estão reunidas duas novelas curtas. A primeira, com título homônimo ao do livro, trata o cotidiano do abatedor de porcos Edgar Wilson e seu amigo Gerson, que sofre de cálculo renal. A segunda novela, “O trabalho sujo dos outros”, leva ao leitor um pouco da rotina de Erasmo Wagner, lixeiro, Alandelon, operador de britadeira, e Edivardes, desentupidor de latrinas, pias, ralos, tanques, esgotos, canos, colunas de prédios e conduítes. Algo em comum transita pela vida de quase todos os personagens das novelas. São homens-bestas, como a própria autora os denomina na apresentação do livro, “que trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida e, em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros”. Mas, será mesmo que “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” se resume ao relato sobre histórias de homens infelizes? Pessoas que realizam algumas das tarefas mais sujas e fedidas que há na sociedade, assim como é matar animais (ou homens), catar lixo e fezes dos outros ou então destruir os próprios tímpanos com o som brutal provocado por uma britadeira ligada o dia todo? Fosse “apenas” isso, a escritora Ana Paula Maia já mereceria aplausos por conseguir descrever tão bem cotidianos, comportamentos e atitudes que, definitivamente, não fazem parte de sua rotina diária. Entretanto, o mais louvável na obra talvez esteja um tanto quanto obscurecido pelo sangue dos porcos e de pessoas abatidas por Edgar Wilson, ou então pelo cheiro do lixo que Erasmo Wagner não recolheu das ruas em função da greve dos lixeiros. O modo como a escritora, provavelmente sem pretensão, contou uma bonita história de amizade entre homens toscos é o que realmente comove nas duas novelas. Faz o leitor lembrar que pessoas marginalizadas e embrutecidas pela vida também precisam conviver socialmente com os demais, e juntos tomar um café da manhã na padaria ou, por que não, abrir porcos, torcer por cachorros em rinhas e desentupir uma caixa de gordura, cheia de filhotes de baratas. Ademais, quando narra cenas fortes de violência e morte, Ana Paula beira um realismo cruel e trágico. A exemplo do dia em que Edgar Wilson ajuda Gerson a tirar o rim que doara à irmã prostituta no passado. E isso sem anestesia, apenas com um canivete, já que o abridor de latas e a colher que encontraram no apartamento dela não seriam suficientes para o abate humano. Esses e outros relatos de violência extrema, o leitor encontrará rotineiramente pelas 160 páginas do livro. E para descrever cenas fortes como essas, Ana Paula utilizou bastante diálogos e parágrafos e orações curtas, tornando o texto aprazível. Não é preciso consultar dicionário para entender aonde quer chegar a escritora e seus personagens tristes e sujos. Para entender a desgraça humana, poucas palavras bastam. Quem gosta, por exemplo, dos filmes “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, “Old Boy”, de Park Chan-wook, ou “Amores brutos”, de Alejandro González Iñárritudo, gostará também de ler o não menos valoroso, violento e instigante “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”. Um soco bem dado na boca do estômago. Literatura na Internet Mesmo jovem, Ana Paula Maia já tem dois romances publicados: “O habitante das falhas subterrâneas” (7 letras, 2003) e “A guerra dos bastardos” (Língua geral, 2007). Com o sucesso do último livro, e com maior divulgação de seu trabalho (já que entrou para uma das grandes editoras do Brasil), a escritora vem sendo convidada com certa frequência a participar de palestras e workshops sobre literatura. Isso se deve também pelo fato de Ana Paula ter sido a autora, em 2006, do primeiro folhetim pulp da internet brasileira. E por falar em internet, para quem estiver interessado em ler “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” e não tem R$ 29 para comprar, a autora está realizando em seu blog (www.killing-travis.blogspot.com) um concurso e vai premiar o vencedor com um exemplar do livro. Basta enviar uma ilustração ou foto que tenha relação com as novelas. A imagem deve ser acompanhada de um pequeno texto, com no máximo 300 caracteres. Serviço Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos Autora: Ana Paula Maia Editora: Record Páginas: 160 Preço: R$ 29 Fragmento de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, de Ana Paula Maia Edgar Wilson sabia que sob influência da lua nova, Chacal fervia pelas entranhas e de suas patas saíam faíscas. Ele certamente lucraria o triplo da aposta, e talvez ganhasse o suficiente para pedir a mão de Rosemery em casamento, que exigia uma geladeira nova para selarem o compromisso definitivamente. O problema é duvidar da fidelidade de Rosemery, que nos últimos tempos estava sempre alegando precisar dormir na casa da patroa, porque a mesma exigia que a faxina fosse feita bem cedo, nas terças e quintas. Mas não pensar muito sobre o que quer que seja faz parte de sua personalidade. Sempre acreditou que a Providência Divina se encarrega do fardo por demais pesado E na providência divina, Edgar deposita toda sua fé. “Pra que se colocar ansioso se isso não acrescenta nem um côvado em sua altura, nem torna um fio de cabelo preto em branco?”, era o que dizia padre Guilhermino Anchieta . Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, Edgar Wilson não reclama da vida. O distante ronco de um motor lhe faz apagar um cigarro sobre uma porção de formigas que reúnem-se ao redor de seu último escarro. Percebe uma coloração avermelhada e teme por algum tipo de mazela. Verifica as horas, calça suas botas de borracha e se coloca de pé. Vê a caminhonete se aproximar, dirige-se até o telefone atrás do balcão e liga para Gerson, seu ajudante, que alega estar sofrendo de uma crise renal. *Esta resenha literário foi publicada em O Diário do Norte do Paraná, no blog Killing Travis (da autora do livro) e no Portal Literal.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Senadores custam mais de R$ 400 mil ao mês*

Os advogados gaúchos Irani Mariani e Marco Pollo Giordani ajuizaram, na Justiça Federal, uma ação que pretende discutir as horas extras não trabalhadas, no Senado, e outras irregularidades que estão sendo cometidas naquela Casa. A ação tramita na 5ª Vara da Justiça Federal de Porto Alegre e tem como réus a União, os senadores Garibaldi Alves e Efraim Morais, e todos os funcionários do Senado Federal, em número de 3.883 servidores, cuja nominata, para serem citados, posteriormente, deverá ser fornecida pelo atual presidente do Senado Federal, senador José Sarney.
Ponto nuclear da ação é que, durante o recesso de janeiro deste ano, em que nenhum senador esteve em Brasília, 3,8 mil servidores do Senado receberam, juntos, R$ 6,2 milhões em horas extras - segundo a petição inicial. Os senadores Garibaldi e Efraim são, respectivamente, ex-presidente e ex-secretário da Mesa do Senado. Foram eles que autorizaram o pagamento das horas extras por serviços não prestados. A ação popular também busca a revisão mensal do valor que cada senador está custando: - R$ 16.500 (13º, 14º e 15º salários); - mais R$ 15 mil (verba de gabinete isenta de impostos); - mais R$ 3.800 de auxílio moradia; - mais R$ 8.500 de cotas para materiais gráficos; - mais R$ 500 para telefonia residencial; - mais onze assessores parlamentares com salários a partir de R$ 6.800; - mais 25 litros de combustível por dia, com carro e motorista; - mais cota de cinco a sete passagens aéreas (ida e volta) para visitar a base eleitoral; - mais restituição integral de despesas médicas para si e seus dependentes, sem limite de valor; - mais cota de R$ 25 mil ao ano para tratamentos odontológicos e psicológicos. Esse conjunto de gastos está, segundo os advogados Mariani e Giordani, impondo ao erário uma despesa anual em todo o Senado de R$ 406.400.000,00,00 ou R$ 5.017.280,00 para cada senador - o que dá uma média de R$ 418 mil mensal como o custo de cada senador. Mariani disse que, como a ação popular também tem motivação pedagógica, os advogados estão trabalhando na divulgação do inteiro teor da petição inicial, para que a população saiba que existem meios legais para se combater a corrupção. A causa será conduzida pela juíza Vânia Hack de Almeida (Proc. nº 2009.71.00.009197-9). *Recebido por e-mail da leitora Estter Ribeiro, de Campo Mourão

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O futuro de Sarney

Wilame Prado Estive conversando com Deus dia desses, que finalmente me revelou o que aconteceu com o senador José Sarney. Tendo contatos em 3º grau com todo o Universo, Deus convenceu marcianos do bem a abduzir o ser de bigode amplo, fazendo, assim, uma fineza ao Brasil. Pelo que entendi, na conversa franca com Ele, os E.Ts ajudaram nosso País porque se convenceram que Deus é brasileiro. Deixando-se esquecer do oitavo mandamento, Ele levou essa mentira adiante (que prefere chamar de omissão) com a ajuda de alguns artífices típicos da nação tupiniquim. Deus, que não é bobo nem nada, convidou os marcianos para uma reunião regada à caipirinha, roda de samba e, claro, morenas com traseiros protuberantes, sambando de salto alto e algumas lantejoulas como vestimenta. Ainda houve tempo, na reunião, para a exibição de momentos marcantes da Seleção Brasileira, com golaços de Pelé, em 1970, e de Ronaldo, em 2002. Ao final do encontro entre Deus e E.Ts, ficou combinado que o ex-presidente do Brasil e hoje presidente do Senado, José Sarney, seria convidado a se retirar, por um tempo, do Planeta Terra e ir para não sei onde, com uma ressalva feita pelos marcianos: as morenas tinham de entrar no Objeto Voador Não Identificado (OVNI) também. E foram. Nessa época, os jornais brasileiros noticiaram uma fuga cinematográfica de Sarney, logo após a revelação de que o bigodudo teria uma conta clandestina no exterior. Algumas revistas de direita apontaram como certa sua estadia na Venezuela, graças ao bom relacionamento entre Lula e Chávez. Mas como é difícil acreditar em revista de direita, essa notícia plantada foi logo esquecida. Mesmo sem beber um gole sequer da caipirinha dos Céus, Deus continuou me contando os causos, empolgou-se e me adiantou até o futuro do nosso País. Disse que a política no Brasil continuaria uma merda. Os brasileiros já não teriam Sarney e nem Heráclito Fortes, ufa. Mas teriam como presidente do Senado o ACM Neto, e como presidente da República, um tucano bicudo e despenado. Ixi. Nesse futuro calamitoso, contou descorçoado Ele, o número de pobres e miseráveis cresceria vertiginosamente porque não conseguiriam surfar na onda do progresso – com fome, descalços e sem falar chinês, não teriam chances de conquistar os empregos oferecidos nas multinacionais que dominariam o País. Até que um dia, sem mais nem menos, disse um preocupado Deus, o Sarney voltaria. Lula, neste momento, já nem se interessaria por política – em sua velhice, apenas acompanharia aos jogos do Corinthians e faria viagens pelos países pobres do mundo – com o prêmio Nobel da Paz, seria nomeado membro interino da ONU. E Ele continuou profetizando, afirmando que, com a mesma fisionomia, com o mesmo bigode e com o mesmo sotaque maranhense, Sarney voltaria, sereno, da temporada de férias com os E.Ts, sem se lembrar de nada e achando poético estar com os pés descalços nas areias das praias de seu Estado. Assim como Lula, Sarney já não se interessaria por política. Mas tentaria, sem sucesso, resgatar seu espaço como colunista da Folha de S. Paulo, pois finalmente se convenceria de que era um intelectual (nisso, o trabalho dos marcianos deixou a desejar) e não um governante. Então, retornaria às aulas de pintura, mas, em sua casa, já não caberiam tantos quadros com flores retratadas por ele. Para Sarney, não restaria escolha, disse Deus: o jeito seria calibrar sua veia literária e continuar escrevendo seus contos e romances até um entardecer de um possível outono, em que, em vez de marcianos, finalmente Ele (ou não) fosse lhe buscar. Mesmo assim, os livros do bigodudo continuariam sendo humilhados pela crítica, odiados pelos leitores e acumulados, cheios de pó e ácaros, em bibliotecas de todo o Brasil. Ao final drástico de mais um comandante solito a reinar, nem o próprio Sarney aguentaria relembrar sua história oficial, regada de mentiras e com honras a um mérito nunca existido. Com seu livro autobiográfico estirado pelo chão, finalmente faria a indagação que deveria ter feito logo nos primeiros anos de vida pública: “aonde foi que eu errei?”.
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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pelo olho mágico*

Wilame Prado
Era sexta-feira, e chuvosa. Cinco e quarenta da tarde. Depois de mais um dia de trabalho abominável, o estresse tinha tomado conta de sua alma e abalado por completo seu psicológico. Alguns temperos a mais contribuíram para que o nervosismo se representasse, naquele dia, nos indiscretos riscos que atravessavam de ponta a ponta sua branca testa. Enumero, pois: tentativa de assédio sexual de seu chefe sessentão; perda de apetite no almoço ao ver um pentelho nojento no molho da carne; um trânsito bruto e ignorante nas estreitas ruas do centro de Maringá; escova no cabelo desmanchada por conta de alguns irritantes pingos de água caídos daqueles toldos de lojas; e, como se fosse a cereja do bolo, o insucesso na simples operação de abrir a fechadura da porta de seu apartamento. Quase tudo isso que eu disse acima pode ser mentira. Afinal, como saberia o que realmente aconteceu com aquela mulher sendo que fiquei o dia inteiro trancafiado no apê, olhando, a cada barulho lá fora, pelo olho mágico da porta? O que posso dizer apenas é que era grande o desespero quando ela, minha vizinha, tentou abrir a sua porta por mais de trinta e sete vezes (eu contei) e não conseguiu. Senti prazer em vê-la sofrer na luta desesperadora para entrar em seu lar e, quem sabe, tomar um merecido banho, sentar no sofá, passar um requeijão numas bolachas de água e sal e comê-las assistindo à novela das seis. Poderia tê-la ajudado a abrir a porta, é verdade. Mas, pelo olho mágico, sentia quase um orgasmo vendo a moça, que não sei o nome e que beirava os 35 anos, bufar de raiva, numa posição quase sensual, naquela luta incessante entre fechadura e gente. Foram precisos 35 minutos para ela se convencer de que não conseguiria entrar no apartamento sem o auxílio de um chaveiro. Quando finalmente decidiu ligar para alguém resolver seu problema, minhas costas já estavam doendo de ficar bisbilhotando a vizinha agonizante pelo olho mágico. Mesmo assim, fui forte e assisti a sua espera de 47 minutos, sentada no chão frio, até que o abridor de portas chegasse. Foi hilário demais quando ele, em 12 segundos, abriu a porta da vizinha não sei bem de que jeito e, com mais cinco segundos, disse que o serviço custaria R$ 20. Ela pagou de cara feia e nem agradeceu o rapaz, bruaca. Nessa hora, minha vizinha deve ter sentido um alívio danado, mas também raiva por ter ficado tanto tempo tentando abrir a porta do apartamento com a chave do escritório. Ao vê-la finalmente entrando em seu lar e batendo a porta com tudo, pude descansar um pouco no sofá até que um novo barulho me empurrasse de volta em direção ao olho mágico. Assim como eu, agora, ela teria de assistir à novela das sete, pensei. *Conto publicado dia 7 de julho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.catambu.com/album/albums/Brasil/RS/Porto%20Alegre/Outras/Olho%20magico.jpg

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lúcio é Deus*

Wilame Prado Na final da Copa das Confederações, não estava torcendo por nenhuma seleção. Nunca gostei de nada que viesse dos Estados Unidos, mas também não botava fé no futebol do Brasil, comandado por um técnico inexperiente. O final desta história vocês já sabem, e o meu objetivo, nesta crônica, é escrever sobre o zagueiro Lúcio e não sobre o título da seleção. Criticado por um entre um brasileiro, o estilo de jogo do Lúcio, no mínimo desengonçado, não agrada a gregos e troianos, tampouco comedores de feijoadas e apreciadores de samba. A espinha de muitos se arrepia quando ele, num verdadeiro galope, corre rumo ao gol adversário, desafiando a lógica de que zagueiro deve defender e não atacar. Nessas investidas repentinas ao ataque, suas passadas largas e desconexas se parecem com as de um cavalo doido. Devemos reconhecer nossa implicância com este zagueiro, que, em muitos jogos do Brasil, é verdade, nos fez temer um contra-ataque mortal do time adversário, e finalmente homenageá-lo. Pois foi ele quem salvou o Brasil na decisão do último domingo; foi ele quem chorou e recebeu abraços e até beijos de todos da delegação brasileira. Lúcio é aquele cara que, com certeza, nem se importa tanto com a farra movida a álcool e a pandeiro dos outros jogadores. Talvez nem participe das festas particulares em mansões, em que prostitutas são convidadas para descontrair o ambiente. Ele é aquele cara que vai chegar em casa, dar um beijo na mulher e nos filhos e prontamente assistir à reprise do jogo. Vai analisar seus erros e provavelmente dar um murro na parede quando rever aquele lance em que quase deixou o jogador da seleção adversária fazer um gol. Depois da sessão replay, é quase certo que o zagueirão brasileiro vai ao quintal treinar uns carrinhos certeiros e uns chutes precisos. Lúcio é o brasileiro-mor. É aquele que chora e ri ao mesmo tempo; aquele que não desiste nunca; aquele que liga para o tio Zé depois do título; é o pedreiro, que vai, de Maringá a Mandaguari, dentro do ônibus coletivo, comentando em voz alta os pormenores do jogo do Brasil. Lúcio é o pobre, que não desperdiça a bolsa do Prouni e se forma na faculdade como um dos melhores da turma; é o ganhador da Mega-Sena, que doa metade da fortuna para seus milhares de parentes, amigos e novos amigos. Lúcio é o padeiro, que acorda às 3h da manhã para trabalhar; é o pequeno produtor rural, que bate palmas de felicidade quando sente que a chuva está por vir; é o proletário, que trabalha, de segunda à sábado, dez horas por dia, e, no domingo, faz um churrasquinho e ainda chama a sogra para tomar cerveja. O presidente Lula pode até ser o cara. Mas o Lúcio, meus amigos, é Deus, que foi crucificado, ressuscitado e, hoje, com a faixa de capitão da seleção no braço, louvado por todos os brasileiros, amém. *Crônica publicada dia 30 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://imagem.band.com.br/CNT_EXT_153080.jpg

domingo, 28 de junho de 2009

Michael Jackson do pau oco

Wilame Prado
Fico pensando se quando o Sarney morrer, as pessoas também vão santificá-lo, assim como acontece com todos os famosos que morrem pelo mundão afora. É que é esquisito pensar em tamanha comoção com relação à morte do preto mais branco do mundo, Michael Jackson (ao contrário de Vinicius de Morais, o branco mais preto do Brasil). Faça uma pesquisa em qualquer site de notícias escrevendo “Michael Jackson” e verá que, tirando os 1 milhão de links postados nesta última semana e também sobre a turnê que faria na Inglaterra, o restante das notícias são de escândalos de pedofilia, dívidas, divórcios e processos que a mídia não se cansava de vomitar. Olha, eu sei que muitos devem estar me xingando, ou dizendo que eu não me recordo dos tempos áureos da discotecagem dos anos 80. Eu entendo vocês, fãs. O que eu critico mesmo é a mídia, essa Maria vai com as outras, essa que condena injustamente e que santifica também injustamente. Precisava disso tudo na morte do cara? Com todo respeito aos colegas jornalistas que trabalham na CBN Maringá, assim como o gremista Murilo Battisti, mas infelizmente tive de trocar de rádio nesses últimos dias porque não aguentava mais ouvir notícias repetidas de Michael Jackson na programação da CBN Brasil. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, tem razão em criticar a rede de notícias CNN por priorizar a cobertura da morte do astro pop em vez de noticiar a crise política de Honduras, por exemplo. Por que, quando o cara estava na pior, sendo processado, quase preso, praticamente recebendo cuspidas na cara da sociedade, ninguém foi entrevistar os artistas brasileiros para que eles opinassem sobre isso tudo? Agora que se foi, ninguém diz que ele era pedófilo, nojento, racista e outros adjetivos mais. Agora, Michael Jackson é tão somente o imortal rei do pop. Nem quero entrar na discussão dos mitos fabricados pelo pop, em meio a esta sociedade cretina consumista, porque provavelmente serei descortês. E para quebrar o clima, registro, pelo menos, a única lembrança boa que tenho de Michael Jackson: era um jogo do videogame Master System, em que ele combatia os vilões arremessando seu chapéu. Além do chapéu assassino, Michael dava uns chutes vorazes nos adversários. Era pura adrenalina o joguinho. Mas esperem: acabo de digitar no Google “master system Michael Jackson” e descubro que o nome do jogo era “Michael Jackson’s Moonwalker”, inspirado no longa-metragem homônimo. Incrível, não? Outra recordação à la Michael Jackson: na molequice, também tentei imitá-lo deslizando com os pés para trás. Mas meu fracasso com a dança foi um dos primeiros passos rumo ao distanciamento do mundo pop e também de um ser que, caso não tivesse renegado coisas tão importantes neste mundo, como a família, talvez tivesse merecido um pouco mais de respeito.
Crédito da imagem: http://www.multinet.no/~jonarne/Hjemmesia/Favorittartister/michael_jackson/michael_jackson_4.jpg